Angela Natel On sexta-feira, 12 de outubro de 2018 At 11:05


Cristo foi morto a pedido de uma multidão que teve a cabeça formatada por pastores: "Mas estes incitaram a multidão no sentido de que lhes soltasse, de preferência, Barrabás" (Mc 15: 11). 

O que precisamos ter sempre em mente ao nos depararmos com pregadores que tencionam exercer influência sobre a opinião pública?

1. Há pregadores que são perigosamente bons. Honestos, porém, ingênuos, carentes de vivência pública. 

Veja, por exemplo, pastores bradando do púlpito de suas igrejas pela promulgação da Lei Seca, nos Estados Unidos. Entre 1920 e 1933 essa lei foi imposta ao povo americano. Pastores diziam, com lágrimas nos olhos, que o álcool estava destruindo os lares, gerando dependência, matando jovens, e que, portanto, sua produção e venda deveriam ser proibidas. Eles conseguiram.

Remeteram, contudo, o país para anos de terror. Alteração zero no consumo. Criação de um mercado negro, que corrompia todas as instituições e irrigava campanhas políticas. Um oceano de pessoas marginalizadas, assassinadas e lançadas em cárcere. A lei caiu. Teve de cair. Não resistiu aos fatos. A credibilidade da igreja foi lançada no lixo.

2. Há pregadores de baixíssimo nível intelectual. Observe a desgraça. A Bíblia dialoga com os mais diferentes campos de conhecimento. Ela tem algo a falar sobre psicanálise, economia, política etc. 

Contudo, fazer essa ponte, passar do enunciado do princípio para aplicação da verdade nessas disciplinas, requer sabedoria, parcimônia, domínio em alguma extensão desses campos do saber e humildade intelectual, virtudes raras de se encontrar na vida de pastores.

Portanto, eles podem ser encontrados falando ousadamente sobre o que não sabem. A ignorância é sempre ousada.

3. Há pregadores não convertidos. Conhecem teologia, mas não tem conhecimento experimental e vital da verdade. Foram esses que mataram a Cristo: "Vós sois do diabo, que é o vosso pai, e quereis satisfazer-lhes os desejos"(Jo 8: 44). 

Um característica da falsa conversão, tornada tão evidente nessas eleições, é a falta de simetria de caráter. Você olha para a pessoa e percebe uma anomalia. Ela é disforme. Alguns dos seus membros são hipertrofiados, enquanto outros, mirrados. 

Permita-me dar um exemplo. O pregador defender a ortodoxia, mas tratar as pessoas com descortesia nas redes sociais. O que tem significado, em inúmeros casos, dar tratamento público ao que o amor pede que seja abordado em secreto, a fim de que o irmão seja corrigido, mas sem que para isso sua reputação seja arruinada. 

Essa "ira profética" tornou-se cultura na vida das igrejas, que passaram a ver como natural ser boçal. 

Que você não se relacione de modo irrefletido com nenhum pastor. Ao ouvi-lo falar sobre o que quer que seja, pergunte para si mesmo:

1. Será que o meu pastor não está sendo ingênuo nessa matéria? Será que o caminho que propõe é o melhor para que o alvo que todos almejam seja alcançado? Ele tem aquela sabedoria que se adquire na vida pública? Está familiarizado com a dialética do mundo político?

2. Meu pastor tem conhecimento acadêmico sobre o que está falando? Ele já leu Gramsci, Adam Smith, Hayek, Marx? O que ele conhece sobre história geral? Há evidência empírica sobre o que ele está falando? 

3. Ele é crente? Como ele trata as pessoas nas redes socais? Há simetria de caráter em sua vida?

Sem essas preocupações, ficaremos nas mãos da mesma espécie de homens que mataram a Cristo, e que são os principais responsáveis pelos escândalos que mantém tanta gente afastada da igreja.

Antônio Carlos Costa


Angela Natel On quinta-feira, 11 de outubro de 2018 At 06:44
Angela Natel On segunda-feira, 8 de outubro de 2018 At 08:04
Nas eleições mais polêmicas e polarizadas da história do Brasil, falo sobre o não menos polêmico comportamento da igreja.
  1. Seu comportamento nas eleições deste ano a muitos surpreendeu.
Entendo a surpresa. Jamais apoiei ou combati candidato. Todos estavam acostumados com essa neutralidade. Mas, nessa eleição houve algo diferente, que me obrigou a “sujar as mãos” me posicionando.
2. O que houve de diferente?
Um candidato usou o cristianismo para defender ideias radicalmente anti-cristãs. Além disso, obteve apoio institucional da igreja e pastores. Perante o país inteiro, o voto evangélico foi considerado decisivo para o sucesso da sua campanha.
3. Precisava fazer tanto barulho?
Sim. Sem a mínima dúvida. Por amor ao evangelho e aos milhões de brasileiros que não conhecem a Cristo. Alguém precisava se levantar a fim de dizer que o comportamento e parte dos valores do candidato são condenados pelas Escrituras, e que há cristãos que não votariam nele.
4. Em quê ele está equivocado?
Em jamais ter ser retratado das mais antidemocráticas declarações que fez ao longo de sua vida, muitas das quais, continua fazendo, e se utilizando de agressividade que a milhões causa perplexidade e indignação.
5. Pastores declaram que ele defende os valores cristãos.
Falta simetria ao seu discurso. Ele nada fala sobre alguns dos temas mais presentes na mensagem dos profetas, apóstolos e Cristo. Sou absolutamente cético quanto à sua agenda moral.
O fato de ele defender o que defende não alterará o comportamento de ninguém. Aquilo sobre o que ele não fala, entretanto, é justamente aquilo sobre o que, caso eleito, ele terá poder para fazer enorme diferença. Mudar a orientação sexual de um ser humano, impedir que na prática novos modelos de família sejam experimentados, fogem completamente do seu campo de influência.
Levar água encanada e rede de esgoto aos lares brasileiros, reformar o sistema prisional, construir creches e escolas públicas nas favelas, combater o flagelo da desigualdade social, permitir ao trabalhador acesso a uma rede pública de saúde decente, diminuir as mortes violentas de policiais e moradores de comunidade pobre; isso sim, ele terá caneta para fazer.
Vale a pena lembrar, que não estamos elegendo um rei, mas um presidente da República, dentro de um regime presidencialista de coalizão. Ele terá pela frente um Congresso Nacional, uma sociedade pluralista e movimentos sociais bem articulados.
A igreja equivoca-se ao esperar muito dele. Minha esperança está num dilúvio do Espírito Santo, que produza cristãos maduros, capazes de fazer diferença na cultura e na arena política.
6. Muitos reclamaram que você não bateu nos demais candidatos.
Não é verdade. Há anos tenho feito críticas severas ao Partido dos Trabalhadores. Organizei manifestações de rua nos governos Lula e Dilma, criticando os mais diferentes erros cometidos por eles. Nessa eleição, cobrei do candidato Haddad uma declaração pública de arrependimento pelos estragos causados pelo seu partido no nosso país.
Contudo, o Haddad não foi batizado no Rio Jordão. Não usa a fé cristã. Não tem o apoio institucional maciço da igreja. Repito. A questão teológica antecede à política.
7. Como assim?
Precisava ser feita uma defesa do evangelho. O apoio institucional da igreja carecia de ser severamente criticado.
Pense comigo. O comportamento do cristão é sempre racional. Ele sabe os motivos que o levam a fazer o que faz. Sua vida é movida pelo amor a Deus e aos homens. Esse sentimento regula todas as suas ações. A igreja menosprezou a Deus e aos não cristãos. Ela fez milhões tropeçarem. Chamou de candidato que defende os valores do cristianismo um homem que semeia uma cultura de violência. Ele exalta os crimes praticados durante o regime militar, celebra a memória de torturador, aprova o uso de tortura e afirma que, no seu governo, cada lar brasileiro terá uma arma de fogo. Isso é pauta do cristianismo?
Veja que ironia. A igreja ao apoiar candidato que supostamente defende os valores do cristianismo, fechou o caminho para Cristo a milhões de brasileiros. Não precisamos de um presidente que defenda a ética privada evangélica. Precisamos de cristãos vivendo o cristianismo e disseminando esses valores na cultura.
A causa maior da igreja é a conversão da humanidade. Homens e mulheres sentindo-se amados por Deus a partir da reconciliação levada a cabo por Cristo na cruz. A igreja desprezou sua missão mais importante. Ela deu apoio político acrítico a um candidato que milhões de brasileiros tem como inimigo da democracia. Um escândalo.
8. O que você tem a dizer sobre os estragos causados na igreja nessas eleições?
Uma desgraça. A igreja desrespeitou a diversidade de opinião entre seus membros. Escandalizou milhões de jovens cristãos, que não cessam de fazer contato comigo, declarando que o ar da igreja está irrespirável. Não se sentem mais em casa. Isso foi um crime. Fizeram do antipetismo sinal de compromisso com o reino de Cristo, cometendo o erro oposto daqueles que circunscreveram o compromisso ético cristão à agenda petista.
9. Como fica o seu voto no segundo turno?
O pior cenário aconteceu. A última coisa que queria para o Brasil era ver ambos os candidatos no segundo turno. Eles dividem a nação, num momento em que precisamos estar juntos para restaurar e reformar o Brasil. Não quero premiar ideias totalitárias, mas também não quero premiar a corrupção.
10. Muita gente não gostou da sua nota de agradecimento ao povo nordestino, após a votação de ontem…
Fiquei indignado com o preconceito manifestado nas redes socais. Nauseante. Algumas das pessoas mais sensíveis, inteligentes e humanas conheci no Nordeste. Não celebrei o voto do nordestino por força do apoio ao Haddad, mas, sim, por permitir ao povo brasileiro mais tempo para pensar, orar e cobrar respostas de ambos os candidatos para muitas perguntas que precisam ser feitas.
11. Quais?
“Haverá preservação das garantias constitucionais?”, perguntaria para o candidato da direita. Para o da esquerda, indagaria, “vocês deixarão de corromper e se deixar corromper?” Para os dois também questionaria, “os senhores, caso eleitos, se comprometem a apresentar, após a posse, no decurso de 90 dias, seu programa de governo, acompanhado de metas mensuráveis e cronograma?”
12. Você tem apanhado muito…
Alguém ontem me perguntou: como está a sua consciência? Respondi, em paz. Contudo, nem por isso deixo de sentir tristeza pelo comportamento da igreja. Pastores e. membros de igreja evangélicas têm me atacado pessoalmente. Falando pelas redes sociais o que poderia ter sido falado por telefone.
Não há uma só pessoa que tenha sido atacada por mim. Podem discordar das minhas ideias e veemência com que falo, mas não apontar para alguém a quem tenha insultado publicamente. Temo a Deus. Houve um único caso que acho que poderia ter agido diferente. Um amigo, que tem meu telefone, foi publicamente muito duro comigo. Disse a ele pelo Twitter, “num cafezinho você poderia ter dito essas coisas para mim. Bastava me ligar”. Tentei ligar para ele para pedir perdão, mas ele não atendeu.
13. O que você pretende fazer nos próximos dias?
Vou orar e ler as Escrituras. Conversar com amigos. Buscar ouvir o conteúdo da profecia. Continuarei a escrever e gravar vídeos, buscando falar mais sobre teologia do que sobre política. Tenho muito ainda o que dizer. O que houve nessas eleições é a prova cabal de que essa igreja precisa de conversão e reforma. Temo que Moisés esteja ocupando o púlpito no lugar de Jesus Cristo. Por isso, muito moralismo, muita esterilidade, muita estupidez, muita falta de simetria.

Antonio Carlos Costa


Fundador da ONG Rio de Paz, teólogo e jornalista.

Fonte: https://medium.com/@antonioccosta/entrevista-sobre-o-comportamento-da-igreja-nas-elei%C3%A7%C3%B5es-de-2018-fb0be04c6826
Angela Natel On sábado, 6 de outubro de 2018 At 06:34



Iniciei minhas atividades no segundo ano da faculdade de teologia com a proposta de estagiar num lar para idosos todas as terças feiras pela manhã. O trabalho é simples, de capelania, através do qual eu e mais duas colegas somos desafiadas no contato com as mais diversas necessidades humanas.
Dentro desse ambiente, não pude deixar de notar painéis eletrônicos espalhados pelas dependências principais do lar. Já em meu segundo dia de estágio, percebi que todos piscavam continuamente o número 23. Ao indagar o significado disso, foi-me dito que a finalidade dos painéis era de avisar um morador com necessidades urgentes, chamando enfermeiros. Como o número permanecia piscando por mais de meia hora e nada se fazia, decidimos ir verificar a necessidade do morador do quarto 23.
Qual não foi a nossa surpresa quando nos deparamos com um quarto trancado, vazio. Lá estava uma incógnita. Já que não havia ninguém, por que o painel permanecia piscando esse número?
Interessante notar que a nossa conclusão foi imediata: havia um mal contato nos fios, que mantinha o painel conectado ao quarto 23. Depois virou piada entre as estagiárias, o ‘fantasma do quarto 23’, que usamos com algumas enfermeiras mais tarde, para descontrair.
No mundo natural é muito fácil nos desvencilharmos das aparências para buscar uma explicação mais aprofundada para determinada situação. Parece que o mundo está muito melhor preparado para ir além da superfície do que muitos cristãos.
Jesus abordou o problema da superficialidade em Mateus 23, quando confrontou as multidões a respeito da religiosidade:

1 Então falou Jesus às multidões e aos seus discípulos, dizendo:
2 Na cadeira de Moisés se assentam os escribas e fariseus.
3 Portanto, tudo o que vos disserem, isso fazei e observai; mas não façais conforme as suas obras; porque dizem e não praticam.
4 Pois atam fardos pesados e difíceis de suportar, e os põem aos ombros dos homens; mas eles mesmos nem com o dedo querem movê-los.
5 Todas as suas obras eles fazem a fim de serem vistos pelos homens; pois alargam os seus filactérios, e aumentam as franjas dos seus mantos;
6 gostam do primeiro lugar nos banquetes, das primeiras cadeiras nas sinagogas,
7 das saudações nas praças, e de serem chamados pelos homens: Rabi.
8 Vós, porém, não queirais ser chamados Rabi; porque um só é o vosso Mestre, e todos vós sois irmãos.
9 E a ninguém sobre a terra chameis vosso pai; porque um só é o vosso Pai, aquele que está nos céus.
10 Nem queirais ser chamados guias; porque um só é o vosso Guia, que é o Cristo.
11 Mas o maior dentre vós há de ser vosso servo.
12 Qualquer, pois, que a si mesmo se exaltar, será humilhado; e qualquer que a si mesmo se humilhar, será exaltado.
13 Mas ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! porque fechais aos homens o reino dos céus; pois nem vós entrais, nem aos que entrariam permitis entrar.
14 [Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! porque devorais as casas das viúvas e sob pretexto fazeis longas orações; por isso recebereis maior condenação.]
15 Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! porque percorreis o mar e a terra para fazer um prosélito; e, depois de o terdes feito, o tornais duas vezes mais filho do inferno do que vós.
16 Ai de vós, guias cegos! que dizeis: Quem jurar pelo ouro do santuário, esse fica obrigado ao que jurou.
17 Insensatos e cegos! Pois qual é o maior; o ouro, ou o santuário que santifica o ouro?
18 E: Quem jurar pelo altar, isso nada é; mas quem jurar pela oferta que está sobre o altar, esse fica obrigado ao que jurou.
19 Cegos! Pois qual é maior: a oferta, ou o altar que santifica a oferta?
20 Portanto, quem jurar pelo altar jura por ele e por tudo quanto sobre ele está;
21 e quem jurar pelo santuário jura por ele e por aquele que nele habita;
22 e quem jurar pelo céu jura pelo trono de Deus e por aquele que nele está assentado.
23 Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, e tendes omitido o que há de mais importante na lei, a saber, a justiça, a misericórdia e a fé; estas coisas, porém, devíeis fazer, sem omitir aquelas.
24 Guias cegos! que coais um mosquito, e engulis um camelo.
25 Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! porque limpais o exterior do copo e do prato, mas por dentro estão cheios de rapina e de intemperança.
26 Fariseu cego! limpa primeiro o interior do copo, para que também o exterior se torne limpo.
27 Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas por dentro estão cheios de ossos e de toda imundícia.
28 Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e de iniquidade.
29 Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! porque edificais os sepulcros dos profetas e adornais os monumentos dos justos,
30 e dizeis: Se tivéssemos vivido nos dias de nossos pais, não teríamos sido cúmplices no derramar o sangue dos profetas.
31 Assim, vós testemunhais contra vós mesmos que sois filhos daqueles que mataram os profetas.
32 Enchei vós, pois, a medida de vossos pais.
33 Serpentes, raça de víboras! como escapareis da condenação do inferno?
34 Portanto, eis que eu vos envio profetas, sábios e escribas: e a uns deles matareis e crucificareis; e a outros os perseguireis de cidade em cidade;
35 para que sobre vós caia todo o sangue justo, que foi derramado sobre a terra, desde o sangue de Abel, o justo, até o sangue de Zacarias, filho de Baraquias, que mataste entre o santuário e o altar.
36 Em verdade vos digo que todas essas coisas hão de vir sobre esta geração.
37 Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, apedrejas os que a ti são enviados! quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e não o quiseste!
38 Eis aí abandonada vos é a vossa casa.
39 Pois eu vos declaro que desde agora de modo nenhum me vereis, até que digais: Bendito aquele que vem em nome do Senhor.

Quando Jesus aborda os princípios que agradam a Deus, deixa bem claro que a superficialidade da religião é inútil diante do verdadeiro arrependimento. Sinais externos piscando necessidades da carne, fazendo barulho e chamando a atenção, não representam um verdadeiro relacionamento com Deus e comprometimento com a verdade.
À medida em que nos aproximamos cada vez mais da vida que há em Cristo Jesus e nos submetemos a conhecer cada vez mais Suas Palavras (sem achar que nosso conhecimento básico e superficial vai nos projetar automaticamente para dentro do Reino de Deus), vamos sendo trabalhados em nosso caráter e prioridades.
Precisamos parar de julgar as pessoas pelo que achamos certo ou errado, precisamos parar de piscar nossos sinais de alerta quando uma imagem não se encaixa em nosso padrão de religiosidade. Precisamos deixar de lado essa constante mania que temos de rotular aqueles que nos rodeiam e parar de construir muros ao invés de derrubá-los.
A Igreja é para todos, assim como Jesus veio para os doentes e pecadores. O que a Bíblia deixa em aberto não deve ser a base de nossa fé e relacionamento mútuo. Somos chamados a desmascarar esse fantasma da religiosidade em nosso meio.
Um sepulcro caiado (pintado de cal – branquinho por fora, mas cheio de podridão por dentro) é como o fantasma do quarto 23 – aparenta uma coisa, mas não passa de um quarto vazio com problemas técnicos.

Angela Natel
Angela Natel On sexta-feira, 5 de outubro de 2018 At 06:30
"O papel da mulher. (Evangelho significa "boa notícia")

Tenho ouvido as mais absurdas pregações, discursos, e alusões evangélicas entiltuladas "o papel da mulher". Estas, em sua maioria são marcadas por uma extraordinária falta de conhecimento e abrangência na interpretação das Escrituras Sagradas (no caso, a Bíblia) resultando em opressão da mulher, machismo, arbitrariedades, violência psicológica e física, e abusos espirituais semelhantes (ou piores) aos que se constatam no Talibanismo e Islamismo mais radical. O mais estranho é que isso se dá em igrejas de todas as classes sociais e níveis de escolaridade.

É inadmissível que no século que vivemos, os teólogos evangélicos ainda não tenham ampliado o leque e corrigido erros do passado, disponibilizando ferramentas nas mãos de suas congregações para que cada membro seja capaz de julgar por si mesmo as escrituras - um princípio claro da reforma!

Louvo a igreja presbiteriana da qual fiz parte no passado, já que a mesma resistindo à imposição da revista "doutrinária" do Sul do Brasil, ensinou aos jovens quase todo o currículo teológico do seminário e possibilitou, todas as quintas, fóruns de debate conduzidos com maestria por uma orientadora, pedagoga e excelente professora! Sim, uma mulher!

Um texto clássico usado pelos radicais para oprimir a mulher e definir seu papel a partir das palavras de um homem (algo absurdo) é o de Paulo escrevendo aos Coríntios:

"Mas quero que saibais que Cristo é a cabeça de todo o homem, e o homem a cabeça da mulher; e Deus a cabeça de Cristo." (1 Coríntios 11:3)

A palavra "cabeça" (κεφαλή ou Kephale no Grego escrito por Paulo) tem inúmeros sentidos metafóricos e literais, e precisa ser analisada dentro do contexto do próprio capítulo 11 e do livro de Coríntios como inteiro, e logo após isso à luz do Novo Testamento, à luz das escrituras como um todo bem como dentro de seu contexto histórico-gramatical. Dá trabalho não é? Muitos tem preferido apenas as interpretações oriundas dos grandes nomes de suas próprias denominações, e os resultados variam - muito!

Um dos problemas encontrados na análise é que de fato esta palavra era também era usada para definir "fonte, origem, nascedouro". Mas, esta interpretação vem sendo culturalmente ignorada, principalmente em países de cultura patriarcalista, sendo no resto do mundo aceita como possibilidade real e que poderia dar coerência ao restante das afirmações de Paulo no restante do capítulo. "κεφαλή" usada como "autoridade, liderança ou hierarquia" parece complicar a fluidez do apóstolo Paulo, transformando-o num ser contraditório, algo que ele não era.

Não faria sentido para Paulo nem para os seus ouvintes no contexto em que viviam, interpretar o homem como sendo maior, melhor, líder, autoridade, e logo depois ler que:

"Todavia, nem o homem é sem a mulher, nem a mulher sem o homem, no Senhor." (1 Coríntios 11:11).

É importante dizer que no mundo grego e romano, e entre filósofos como Aristóteles, era comum a crença de que o esperma era fabricado no cérebro e a cabeça era a "fonte" de vida a ser gerada logo após na mulher. As fontes das águas, nascedouros de rios, eram também chamadas de "cabeça", daí o fato das fontes de água possuírem esculturas de cabeças humanas ou de animais de onde saía água. A estas pessoas falava Paulo.

Faça um teste você mesmo e decida sobre a coerência do texto em seu contexto antecedente e posterior, bem como à luz das escrituras, da gramática e da história. Dou uma pista, não a análise inteira, e o resto é com cada um.

Se usarmos as palavras fonte e origem:

"Mas quero que saibais que Cristo é a fonte/origem de todo o homem, e o homem a fonte/origem da mulher; e Deus a fonte/origem de Cristo." (1 Coríntios 11:3)

"Todavia, nem o homem é sem a mulher, nem a mulher sem o homem, no Senhor" (1 Coríntios 11:11)

"Porque, como a mulher provém do homem, assim também o homem provém da mulher, mas tudo vem de Deus."
(1 Coríntios 11:12)

Libertador, não? Evangelho, não?

Há outros textos igualmente libertadores que precisam de mais amplitude em sua interpretação e menos viés de denominacionalismo (a absolutização das interpretações denominacionais religiosas), mas vou começar com este.

Mulher, Deus te ama! Mulher, você não é de menos valia nem secundária nos planos do pai de todo o universo! Mulher, lidere, levante-se!

No próximo episódio sobre as mulheres vou falar de uma empresária do Velho Testamento. Líder, especialista em marketing, responsável, ela tem muito a nos ensinar.

Para pensar: não precisamos ser idênticos para sermos iguais. O amor traz unidade na diversidade.

O papel da mulher ela mesma decide. As escrituras oferecem luz sobre o assunto."
Ebenézer Paz