Angela Natel On terça-feira, 31 de outubro de 2017 At 06:34



Lutero foi um sujeito controverso, dizem que era glutão e marrento, amigo dos príncipes. Dizem até que a treta dele ter pregado 95 teses na porta da catedral de Wittenberg fora tudo jogada de marketing, que nem acontecera de fato.
Mas Lutero, ainda muito religioso, promoveu a Reforma Protestante. Sim, porque só um religioso acredita na Reforma da fé. Fé não se reforma. Reforma-se templo, púlpito, banco de igreja, terno de pastor... oops, dependo do pastor, há os que sequer repetem ternos...rsrs Mas, fé, fé mesmo, não se reforma.
Imagina Jesus, um reformador! Ele só reformaria se acreditasse naquela bagaça farisaica. Não, ele não acreditava. Lutero acreditava que a "igreja-mãe" ainda tinha jeito (morreu acreditando nisso). Mas ela tanto não tinha jeito que até hoje, para ela, ele ainda é o "diabo" (Não para o papa Francisco, provavelmente o menos católico dos papas dos últimos desessete séculos e um dis poucos protestantes que restaram). Aí, então, como se não bastasse, a igreja que o acolhera como reformador se deformou. Ora, se até as "melhores" se deformaram, porque as piores não se deformariam?
Por que? Ora, porque sim, uai! É da natureza desse tipo de instituição se deformar. Imagina um monte de seres decaídos que se juntam e se organizam burocraticamente em nome de Deus para falarem em nome de Deus, julgarem em nome de Deus, legislarem em nome de Deus? Onde você já viu um CNPJ desses não se deformar?
Por isso a tônica dele, Jesus, foi: pega tudo e joga fora! Pedro ainda reluta: façamos três tendas (tabernáculos, templos), uma pra ti, outra pra Moisés, outra pra Elias... Sabe o que aconteceu? São Elias e São Moisés viraram fumaça! Não tinha nada neles a reformar... Eram tudo sombras...
A Reforma só foi possível em um mundo em que ainda se acreditava na religião-instituição. Depois da queda de Roma, a igreja tornou-se o amparo existencial do Ocidente, o refúgio dos amedrontados com o fim de uma era. O resto, todo mundo sabe no que deu: fogueira, caça às bruxas, demonização da ciência, restrição das liberdades...
O caminho natural da religião-instituição é esse... A história está aí para não me deixar mentir. Mahatma Gandhi, o maior cristão não-cristão do século XX, também. E se você tem dúvida de que o maior cristão do século XX foi um hindu, é porque você ainda é um cristão reformado, apenas... Bonhoeffer, transformado e trans-reformado, soube disso como ninguém.
Mas como a religião-instiuição cultua a história e a tradição - como Pedro no monte da transfiguração - ela canonizou São Lutero à revelia da outra religião instituição que o excomungara. Lutero virou um santo numa e demônio noutra! Só alguns blasfemos ousam chamá-lo de glutão e amigo dos príncipes. Só um Thomas Müntzer para se insurgir contra seus escritos e posturas. Mas Thomas Müntzer ficou no limbo, entre reformadores e contra-reformadores.
Lutero morreu. O "sola scriptura", da forma em que foi entendido, também. A letra mata. Sempre matou. Sola scriptura não foi suficiente para manter sua chama acesa. Nunca foi. Os fariseus também faziam o que faziam cimentados na sua "sola scriptura". Paulo sequer tinha qualquer escritura nas mãos a não ser a que ele chamara de "sombras". Por isso teve um "quabra-pau" com o papável Pedro da vaticânica Jerusalém. Paulo não ficou na "sola"... fosse de Pedro, fosse de quem fosse... Ele escrevera: "aos quais Deus quis revelar a glória deste mistério entre os gentios que é Cristo em vós, esperança da glória!"
Não é mais a "scriptura" quem valida o "Filius Dei", mas o contrário. "Abriu-lhes o entendimento para que pudessem compreender as escrituras" para compreendê-lo! Ah, o coração deu aquela ardidinha religiosa e familiar. Mas nada... Ficaram só na "sola scriptura"... Ainda soa blasfemo dizer que ele é maior que a scriptura! Que ela são as escrituras, e ele, o verbo, a palavra. Isso ainda soa como verborréia de quem quer complicar o que a religião já consolidou. “No princípio era o verbo, e o verbo estava com Deus e o verbo era Deus”. Antes que houvesse scriptura, ele é. A scriptura são apenas um script. Um manuscript. Como tal, nunca comportou e jamais comportaria a força do verbo!
O verbo continua sendo conjugado. Para além dos escritos. "A ele, ouvi" é um imperativo. O verbo é conjugado onde menos se espera. Nos lugares e nas pessoas mais improváveis. "Deus escreve certo por linhas tortas" não é nenhuma expressão parkinsoniana do eterno, não. Scriptura sem vida não move moinhos. É preciso vento! E o vento, ninguém sabe de onde vem nem pra onde vai. Diferentemente do que pensou alguém qualquer dia desses, vento não se estoca. Ele é constante, um gerúndio... Não cabe em forma, nem em nenhuma Reforma.
Portanto, deixemos que os mortos sepultem seus mortos. Os ventos continuam soprando. Os mesmos velhos ventos novos de sempre. Mas estamos tão na "sola" que nem perbemos no alto a presença do eterno pervadindo na nossa realidade tão acachapante e como que desapercebidos, somos ainda néscios e tardos para crer em tudo o que já lemos e cansamos de ler do que ele ensinou. E o que ele nos ensinou da sua forma não se reforma, visto que não se deforma, visto que transforma.
Dilson Cunha
31.10.15

fonte: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=810229315752565&set=a.367522930023208.1073741825.100002965120447&type=3&theater

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