Angela Natel On terça-feira, 20 de junho de 2017 At 03:40

Missionário não serve para fazer em seu lugar
tudo o que há na missão para fazer
muito menos
o que você não quer realizar.

Missionário não serve
para ser lembrado somente em eventos
relacionados à missão.
Missionário é gente
ainda que às vezes pareça que não.

Missionário não serve para tapar buraco
quando alguém não comparece.
Também não serve para dizer que na igreja
a missão acontece.

Missionário não serve de 'garoto propaganda'
de igreja, evento, instituição.
Missionário não serve de objeto
de decoração.

Missionário não serve de voz de Deus
em qualquer situação,
ele também erra, também precisa
de repreensão.

Missionário não serve prá ser ignorado
quando emite opinião
- ninguém, neste caso, serve,
é preciso respeito, consideração.

Missionário não serve
prá determinar a teologia
do outro, de quem quer que seja.
Missionário não serve prá ser guia.

Missionário não serve para ostentar título,
controlar vidas, nem usar o nome de Deus
a fim de influenciar outros a realizar sua vontade.
Missionário não serve para exigir
nem para ser exigido.

Missionário não serve para mendigar sustento
nem tentar convencer outros
a respeito da missão de Deus.
Missionário não serve de Espírito Santo
na vida de ninguém.

Missionário não serve para trabalhar
24h/dia, nem 7 dias/semana.
Missionário não serve sem descanso,
sem lazer, sem diversão.

Missionário não serve sozinho,
sem amigos, companheiros de trabalho,
sem família, sem irmãos.

Missionário não serve para ser esquecido
ou somente lembrado quando convém.
Missionário, porque está longe,
não serve para ser ignorado.

Missionário não serve sem saúde,
sem cuidados, alimentação.
Às vezes não serve sem um exercício,
nem sem medicação.

Missionário não serve para só receber sustento
se for constante e fiel num relatório,
se fizer-se lembrado.
Missionário não serve, afinal, para ser controlado.

Missionário não serve sem consciência própria,
sem relacionamento com Deus.
Missionário não serve sem disposição para o sofrimento,
sem abrir mão da companhia dos seus.

Missionário não serve se não puder ter opinião
se não puder ser fiel à sua consciência
diante de Deus e do que acredita.
Missionário não serve somente para prestigiar seus eventos
nem falar somente em ambientes relativos à missão.

Missionário não serve somente como lhe agrada
nem somente de forma a agradar outros.
Missionário, por vezes, não serve por conta
mesmo assim agrada a poucos.

Missionário, enfim, não serve pisando em ovos
preocupado com o que outros vão pensar, dizer.
Missionário não serve à ansiedade alheia
Vive pela fé, não pelo que vê.

Missionário não serve em missão própria,
pessoal, não serve em lugar do outro.
Missionário serve a Deus,
não a você.

Angela Natel - 20/06/2017
Angela Natel On domingo, 4 de junho de 2017 At 06:10
Hermes C. Fernandes: O que você procura pode estar bem debaixo do seu n...: Por Hermes C. Fernandes “Ou qual a mulher que, tendo dez dracmas, se perder uma dracma, não acende a candeia, e varre a casa, e bus...
Angela Natel On terça-feira, 30 de maio de 2017 At 12:58
Hermes C. Fernandes: Não queira ser o que não é: Por Hermes C. Fernandes Em meio a declarações românticas recíprocas entre um rei e uma camponesa, surge a inusitada digressão aba...
Angela Natel On At 07:51
Angela Natel On sexta-feira, 26 de maio de 2017 At 08:56
Angela Natel On At 07:51

O problema é que isto é uma outra tristeza: Ter que doer na gente pra sentir.
Vantagem é perceber com dores já vividas, o que já foi experienciado, outro caminho a tomar, para não repetir, aquilo que gera dores e muitas tristezas. Mas o ser humano, ah, nós, seres humanos... a gente tem dificuldade.
O despertar de nossa consciência se dá num processo lento e é preciso exercitar, todos os dias, para que ela não se atrofie.
Olhando em volta, nos nossos dias, os maiores males causados pelos humanos à sua própria espécie, são emulados por muitos sentimentos comuns à qualquer um de nós, mas atormentadores em muitos de nós que se deixam levar por eles e não praticam o exercício da consciência, sem o qual eles facilmente nos vencem: ambições, poder, egoísmo, ódio, vaidade, inveja, racismo...
É preciso lutar contra essas coisas naturais de nós, em nós, o tempo todo. É isso que significa, segundo Paulo, o apóstolo, "matar a carne". Não se faz isso com a "carne do próximo" - como muitos querem. É o exercício interior, pessoal, cada um na sua - cada um enfrentando seus próprios demônios, matando o egoísmo em você, o preconceito... e com isso, gerando "metanóia", nova consciência...
Os maiores males dos nossos dias são causados por muitos sentimentos comuns à qualquer um de nós, mas a desculpa, na maioria das vezes, sempre tem sido a mesma. Desde os primórdios: a gente culpa a divindade ou diz que é em nome dela que agimos, cumprindo a sua vontade...
A história relata. Deveríamos aprender com ela.
Um dos primeiros relatos sobre isso é de Adão: Fez uma burrada se enveredando pelo caminho da ambição e atribuiu a culpa à sua mulher, Eva e a Deus, com estas palavras: "A mulher que me deste por companheira, ela me deu da árvore, e comi." (Gn 3:12). A "mulher" que "me deste". Em outras palavras: Olha só, Deus, a culpa é de vocês! Ela me incentivou. E o Senhor que me deu essa mulher aí, ó!
Nos nossos dias, basta ler os jornais, perceberemos a mesma desculpa para muita coisa feia. Quando o cara se explode num estádio cheio de crianças em Manchester, outro cara assume a autoria dizendo que estão cumprindo a vontade de Deus. Quando o cara recruta crianças no Sudão do Sul e sob tortura, as obriga a lutar em sua milícia, chamada de "Exército de Resistência do Senhor", ele diz que está cumprindo a vontade de Deus. Quando o cara quebra uma lâmpada no rosto de um rapaz que ele percebeu afeminado, diz que fez em nome de Deus. Quando se organiza um esquema político horroroso e cheio de tramóias e corrupções, diz-se que o enriquecimento ilícito é chamado de prosperidade e se dá por cumprir a vontade de Deus. "A vontade de Deus" virou a bandeira da loucura em quase tudo!
Eu, que vi criancinhas todas espetadas com pregos e pernas queimadas, semimortas, ao serem acusadas de bruxas, por líderes religiosos que dizem "cumprir a vontade de Deus", tive que ter uma conversa séria com a minha consciência. Porque o "deus dessas vontades" todas parece-me muito distante do que eu percebo nas leituras do Evangelho, a não ser que eu seja o louco desta história. Então parem de ler aqui e me internem, por favor!
Aos teólogos dos nossos dias e todo aquele que se deixa tocar pela Verdade, urge o posicionamento contra o fundamentalismo religioso que mata, separa, divide, machuca, tortura, sequestra, engana, distorce e mancha a história.
Frank Schaeffer, filho do conhecido filósofo cristão Francis Schaeffer e que se mostra diferente do pai no que tange ao conservadorismo político pelo qual se embrenhou o pai no fim da vida, disse: Em uma era de Trump/Pence/Putin/ISIS, é tempo de dizer uma pesada verdade: Todas as religiões fundamentalistas são inimigas da paz (http://frankschaefferblog.com/2017/05/trump-pence-putin-isis-terror-era-time-tell-hard-truth-fundamentalist-religion-enemy-peace-period/)
E não basta o textão no Facebook ou o artigo na revista legal ou Blog bacana. É preciso mais! É preciso ações de "conscientização". A pauta deve ser o Amor. Aliás, nunca deveria ter sido qualquer outra!
Gito Wendel

Fonte: https://www.facebook.com/gitowendel/photos/a.870515746342152.1073741829.869920206401706/1447802385280149/?type=3&theater
Angela Natel On sábado, 20 de maio de 2017 At 04:33


O nome da quinta mulher que aparece na genealogia provavelmente era de uma jovem adolescente. Talvez tivesse entre 12 e 14 anos, mas não tinha mais do que 16 quando foi mãe de Jesus (KEENER, 2004, p.46.).
Seu nome significa ‘amargura’ (SPANGLER, 2003, p.285) e a forma hebraica é ‘Miriã’. Essa distinção infundada e artificial entre Maria e Miriã elaborada por tradutores cria uma lacuna entre a mãe de Jesus e seu próprio judaísmo. Segundo o Comentário Judaico do Novo Testamento, a Miriã original foi irmã de Moisés (Êx.2.4-8) e uma profetisa (Ex.15.20); em alguns aspectos, ela é vista como um exemplo para a mulher judia. Contudo, o nome ‘Maria’ evoca no leitor pensamentos sobre uma imagem de ‘Madonna e Filho’, cheia de esplendor, sorriso beatificado e cercada de anjos, em vez do retrato do Novo Testamento de uma moça judia, terrena, num vilarejo de Israel, administrando seu casamento, sua maternidade e outras responsabilidades sociais com cuidado, amor e fé (STERN, 2008, p.28).
Maria teve um papel único na realização do plano de Deus para a salvação da humanidade. Era de família pobre e morava num povoado obscuro da Galiléia. Era uma jovem de fé (observada por sua reação às palavras do anjo Gabriel), humilde e possuía uma aceitação absoluta do plano de Deus para sua vida, o que, como com as mulheres anteriormente analisadas, envolveu grande risco e sofrimento pessoal. Ela encontrou-se grávida pelo Espírito Santo (Mt.1.18).
Na narrativa pré-nascimento de Jesus, aparecem os conceitos de compromisso (formalização legal do matrimônio) e divórcio (anulação desse laço), Mt.1.18-19; Dt.22.22-24. O conhecimento de José acerca de Maria era baseado apenas no testemunho da família e na reputação de Maria. (KAPOLYO, 2010, 1137). Uma grande questão aqui é: como ela encontrou coragem para dizer a José que estava grávida?
Mateus 1.23 é a única vez em que o evangelista se refere a Maria como virgem, numa referência ao profeta Isaías (7.14): “...a virgem ficará grávida e dará à luz um filho...” O termo é traduzido pelos hebreus do Antigo Testamento como ‘virgem’. O vocábulo hebraico usado por Isaías significa ‘jovem sexualmente madura’ (FRANZMANN, 2004, p.1009).
O elemento de dificuldade aqui não é a esterilidade ou idade avançada da mãe (como em muitos casos do Antigo Testamento), mas pela aparente transgressão dos costumes sexuais por Maria e a atitude comum tomada em relação a mulheres suspeitas de adultério. A violação de uma virgem prometida, naquela época, era sancionada como adultério. Essa e as histórias analisadas anteriormente acabam por se entrelaçar, não apenas em seu caráter de parentesco, mas na familiaridade das circunstâncias que envolveram suas vidas (BRENNER, 2001, p.145.).
Maria correu o risco de ser apedrejada (Dt.22.23-24) caso José a delatasse publicamente. Além disso, era quase impossível que alguém fosse crer que a criança não tinha um pai, já que “partos de virgens não acontecem” (DOWSETT, 2002, p.522). Será que foi por isso que ela passou três meses na casa de Isabel? Bem mais tarde, a tradição rabínica acusou Maria de haver se deitado com outro homem, mas o fato de José havê-la desposado demonstra que ele não acreditava nisso (KEENER, 2004, p.47).
O José de Mateus, um carpinteiro, como seu homônimo em Gênesis, é um sonhador. O que o anjo lhe diz vem da história de Abraão e Isaque (cf. Gn.17:19). A diferença é que Abraão era pai biológico de Isaque e José seria apenas o pai terreno ou legal de seu filho (BRENNER, 2001, p.145). Paulo referiu-se ao nascimento de Isaque do ventre estéril de Sara como um tipo da ressurreição, e Mateus o toma, com ao menos igual plausibilidade, como um tipo do nascimento de Jesus (KERMODE, 1997, p.426). José dá proteção legal a Maria, e, segundo a narrativa bíblica, não tem relações sexuais com ela até o nascimento de Jesus. Há uma inversão do modelo do Antigo Testamento para o Modelo do Novo Testamento (Quadro 2):

Modelo do Antigo Testamento para o Modelo do Novo Testamento:
Modelo do Antigo Testamento Modelo do Novo Testamento
Dupla ou tripla maternidade Dupla paternidade
matriarcal patriarcal



O papel de Maria é diferente daquele das matriarcas do Gênesis e de outras parentas. Ela não é mais que um recipiente glorificado; um recipiente para uma carga muito preciosa, mas um recipiente (BRENNER, 2001, p.148).
Diferente dos pares de matriarcas do Gênesis e de outros lugares (e.g. Ana e Penina – 1-Sm.), as duas mulheres do Novo Testamento não são apresentadas como rivais: elas são parentes (Lc.1.6), mas não são casadas com o mesmo homem. Ambas são bem diferentes: Isabel é de descendência clerical, casada, idosa e estéril. Maria é leiga, comprometida, não casada, jovem e fértil. Maria é socialmente inferior a Isabel. Nesse caso, repete-se a questão da superioridade de um filho mais novo (ou de um filho nascido de uma mulher socialmente inferior). Assim como no caso dos patriarcas, é uma questão de escolha, não de nascimento ou posição social. Assim foi com Judá, Perez, Salmon, Boaz, Obede, Davi e Salomão. É uma tradição de filhos mais jovens que são superiores aos mais velhos (BRENNER, 2001, p.149).
Isabel e Maria (como Noemi e Rute) são apresentadas como destituídas de intrigas e competição em relação uma à outra, bem como ao seu ambiente. A aceitação de seus respectivos destinos é completa, digna e serena. Elas representam um avanço na geração feminina. Os futuros filhos de Isabel e Maria, como suas mães, são o começo de uma linhagem que será melhor e maior do que a de seus predecessores (BRENNER, 2001, p.150). A mensagem do Reino de Deus desponta nessas transformações.
O parto de Maria (Lc.2.1-7) é narrado em termos diferentes (de Isabel) e constituído de acordo com um outro modelo do Antigo Testamento. Por decreto real, José tem de se registrar em Belém, sua cidade natal (vv.1-5). Isso serve para realçar que José (o pai legal do bebê) é descendente da casa do rei Davi e ligar a história com as de Tamar e Rute.
Maria foi a primeira ‘meramente humana’ a sentir a presença física de Jesus. Foi a primeira a ouvir suas palavras, a primeira que o alimentou. Suas raras aparições durante a vida de seu filho revelam a bondade e também a sua imperfeição quando deixou de compreender os atos de seu filho de doze anos (Lc.3.41ss). Mais tarde, ela se apoiou na autoridade e julgamento do Senhor Jesus (Jo.2.3) quando ele expressou uma terna censura pela sua arrogância - Jo.2.4 (GREENLEE, 2009, p.1231). Os pais da Igreja a designaram “theotokos, aquela que deu à luz o divino Filho de Deus” (EVANS, 1986, p.55). Os Evangelhos mencionam a presença de Maria apenas nas narrativas sobre o menino Jesus discutindo com os mestres em Jerusalém, no milagre de Caná, Maria vindo com os irmãos de Jesus e perguntando por ele (Mt.12.46-50; Mc.3.31-34; Lc.8.21) e nas palavras de Jesus na cruz.
O maior sofrimento de Maria foi ver o filho amado ser envergonhado e torturado, deixado para morrer como o pior dos criminosos. Sua maior alegria foi ver seu filho ressuscitado, e ter recebido o Espírito Santo, junto com os outros discípulos - At.1.14 (SPANGLER, 2003, p.285).
Para Mateus, Jesus é o Filho de Maria e de Deus. Foi honrada, não apenas por ser a mãe de Jesus, mas também como sua primeira discípula. Viúva, por ocasião da crucificação de Jesus foi entregue sob tutela de João, discípulo do Salvador (Jo.19.25-27). O próprio João menciona Maria em seu evangelho tanto no início quanto no fim do ministério de Jesus (Jo.2.1-11; 19.25-27).
Importante é ressaltar, de acordo com Evans (1986, p.56), três pontos sobre o significado de Maria:
• Como ser humano e mãe, é uma testemunha da verdadeira humanidade de Jesus, mas também de sua origem divina;
• Deve ser reconhecida como bem-aventurada de Deus (Lc.1.42-58) e, na sua boa vontade e dedicação à vontade de Deus, na sua fé e - na sua obediência-, ela é um exemplo a ser honrado e imitado, como são todos “aqueles que, pela fé e pela longanimidade, herdam as promessas” (Hb.6.12). H. Kiny descreve Maria como ‘o exemplo e modelo da fé cristã’;
• A tremenda responsabilidade que Maria recebeu, a maneira pela qual a sua fé, o seu amor e o seu crescente entendimento foram descritos, e sua posição ao lado dos demais enquanto aguardavam a vinda do Espírito Santo prometido, deveriam talvez ser considerados como indicações do novo status que a vida do filho de Maria deu às mulheres no Reino de Deus.
Seja na anunciação, quanto na visitação ou no nascimento de Jesus, Maria demonstrou uma autonomia pessoal significativa. Em Atos 1.4, embora ela fosse destacada sendo citada pelo nome, vem depois das outras mulheres e não parece ter nenhuma precedência particular sobre o grupo.
É importante esclarecer que o Novo Testamento nunca fundamenta, por implicação ou por afirmação definida, a influência de Maria na Antropologia Bíblica, na doutrina da salvação ou na doutrina da Igreja.

Fonte:
Natel, Angela. As mulheres da genealogia de Jesus em Mateus, e as Implicações teológicas na mensagem do reino de Deus / Angela Natel. ─ Curitiba, 2012, pp.35-38. - Monografia (Trabalho de conclusão de curso de Bacharel em Teologia da Faculdade Fidelis)
Angela Natel On sexta-feira, 19 de maio de 2017 At 04:27


Dentre as cinco mulheres mencionadas na genealogia de Jesus em Mateus, é certo que Bate-Seba tem o menor registro histórico na Bíblia. ‘Filha de Eliã’, (2-Sm.11.1-5), um dos principais guerreiros de Davi, neta de Aitofel, o gilonita (2 Sm.23.34), esposa de Urias, o heteu, um soldado (provavelmente mercenário) no exército de Davi. As referências a Bate-Seba enfatizam a injustiça para com os subordinados impotentes, e sugerem que Davi sabia exatamente de quem era a casa que estava observando e que, portanto, conhecia bem Bate-Seba (WALTON, 2003, p.349).
Sem nome na genealogia de Mateus, Bate-Seba tem uma história que começa em tragédia. Seu nome significa “Sétima filha” ou “Filha de um Juramento”. Bate-Sua é um modo alternativo de chamá-la. Alguns autores defendem que ela talvez fosse uma estrangeira, por ser casada com um heteu (BRENNER, 2001, p.170.). Urias era um dos servos leais de Davi no campo de batalha; segundo Higgs, ‘um santo entre os homens’ (HIGGS, 2002, p.165.). Seu nome significa ‘Yahweh é luz’, indicando que sua família, apesar de estrangeira, conhecia o Deus de Israel (HOPPE, 2004, p.298).
O escritor bíblico descreve que Bate-Seba era bela e formosa. Na primavera, ela encontrava-se tomando um banho ritual que marcava o fim da menstruação. Em Jerusalém os telhados eram planos e serviam como um quarto extra na casa, usado para adoração, para dormir, ou para secar coisas como frutas e fibra de linho – tal como no telhado de Raabe coberto de linho (HIGGS, 2002, p.162). A informação de 2 Samuel 11.4 é referente a Levítico 15.19-24: Com isso o relato deixa claro que Bate-Seba certamente não estava grávida (evidenciando que Urias não poderia ser o pai da criança que ela concebeu logo em seguida): ela tinha esperado os sete dias requeridos após o fim do sangramento e tomou seu banho ritual, que foi quando Davi a viu. Naquele dia, portanto, ela devia estar chegando à metade do seu ciclo mensal, o período em que normalmente ocorre a ovulação (HIGGS, 2002, p.171). Uma tradução alternativa do questionamento de Davi a respeito de Bate-Seba também sugere que ele já a conhecia: ‘Aquela não é Bate-Seba?’ (WALTON, 2003, p.349).
Há uma grande controvérsia a respeito da posição de culpada ou inocente com relação ao caso do adultério de Davi com Bate-Seba. Será que ela estava em condições de negar uma ordem do rei? (SPANGLER, 2003, p.177). Muitos têm repreendido Bate-Seba por seu ritual. Um insiste que ‘se ela tivesse sido uma mulher prudente e recatada, certamente teria olhado para os terraços adjacentes dos quais seria facilmente vista, outro reclama: ‘Davi pode ter sido um voyeur, mas Bate-Seba foi uma exibicionista’ (HIGGS, 2002, p.163). Pelo texto bíblico, parece que ela não tinha muita escolha (2 Sm.11.4). O escritor bíblico diz ‘no caso de Urias, o heteu’, e não ‘no caso de Bate-Seba, a adúltera’ porque Davi tomou a mulher de Urias e depois tomou a vida dele. De acordo com a tradição hebraica. Higgs (2002, p.168) diz: “o adultério era um pecado contra o marido. Portanto, em caso de adultério, era sempre o homem que era lesado – sem importar se a mulher também estivesse sendo traída ou não.”
Ao se observar o texto de 2 Samuel 11, é possível perceber que o verbo ‘enviar’ ocorre regularmente nos primeiros seis versículos do capítulo, indicando o poder e autoridade de Davi (‘enviou Joabe’, ‘enviou mensageiros’, ‘enviou-os para que a trouxessem’, ‘enviou uma mensagem’). O verbo hebraico traduzido como ‘trouxessem’ no v.4 poderia ser traduzido como ‘ trazer à força’, sugerindo que Bate-Seba foi raptada (WEANZANA, 2010, p.395).
Bate-Seba tem sido descrita como uma Eva (Gn.3.12) do Terceiro Milênio, responsável pela queda de Davi. Há os que concluem que ela sabia o que era certo, mas não o fez. Outros insistem que ela foi apenas uma vítima inocente da lascívia do rei, à mercê de um homem que poderia ter qualquer mulher que desejasse, sem fazer perguntas. O texto sugere que os homens de Davi não perguntaram se ela queria ir, simplesmente a levaram. (HIGGS, 2002, pp.169-170.). De acordo com o Comentário das Mulheres da Bíblia, Bate-Seba não tinha escolha a não ser obedecer ao rei. O equivalente disso em nossos dias provavelmente está próximo do estupro (DOWSETT, 2002, p.522).
Com respeito a essa primeira vez em que ela aparece na narrativa bíblica, alguns autores postulam que Bate-Seba foi vítima do desejo de um rei, mas encontrou coragem para suportar a tragédia. Quando seu marido, o soldado Urias, encontrava-se no campo de batalha, Davi a mandou trazer e deitou-se com ela, resultando em uma gravidez. Se Bate-Seba tentou recusar Davi, foi ignorada. Diante do silêncio dela na narrativa, somos forçados a montar o quebra-cabeça de seu caráter com base apenas em suas ações.
Sem diálogos, sem indicação de afeto, parece ter sido uma relação unilateral da parte do rei, abusando de seu poder e de sua autoridade a fim de satisfazer os próprios desejos. Bate-Seba falou pela primeira vez na história quando informou ao rei que estava grávida (2 Sm.11.5). No hebraico, a mensagem tem apenas duas palavras: harah anoki = ‘eu estou grávida’ (WEANZANA, 2010, p.395).
Ao ser informado da gravidez de Bate-Seba, a primeira atitude de Davi é mandar buscar Urias e enviá-lo para ter relações sexuais com sua esposa, a fim de que o filho fosse considerado dele e não de Davi. É possível entender isso porque no texto ocorre novamente o eufemismo com a palavra ‘pés’: “Desce à tua casa e lava os teus pés” (2 Sm.11.8). O comportamento de Urias é narrado em 2 Samuel 11:9-11. Urias estava comprometido com a instituição israelita confederada antiga da guerra santa. A presença da Arca da Aliança sugere que era um tipo de guerra santa, o que implicava em certas restrições especiais (Js.5.4-8; Dt.23. 9-11; 1 Sm. 21.2-6). A imagem de Urias como um soldado irrepreensível sugere que ele aceitou sua missão sem questionar, mas é provável que tenha ficado surpreso com as táticas empregadas (WALTON, 2003, p.350; ROSENBERG, 1997, p.150). Pela narrativa sabemos que os planos de enganar e depois matar Urias não vieram de Bate-Seba. Ela permanece escondida enquanto grávida até quando Davi mandou matar seu marido (HIGGS, 2002, p.149.).
Em 2 Samuel 12, o profeta Natã confrontou Davi através de uma história. Ao descrever a única ovelha que era “como uma filha para ele”, a palavra filha (em hebraico bath) acaba aludindo a Bate-Seba, uma simples propriedade. Já se observou que a mulher tinha a condição de propriedade na família, ainda que pudesse tomar algumas decisões e manter certa influência na sociedade. Desse modo, parece que Bate-Seba foi considerada inocente, e sofreu muito. Em 2 Samuel 12.24 ela não é mais chamada esposa de Urias (2 Sm.12.15), mas esposa de Davi. De acordo com o Comentário ATOS do Antigo Testamento, o que fica claro aqui é que o adultério e o assassinato ocorridos são apenas conseqüências de um crime mais grave: o abuso de poder (WALTON, 2003, p.350).
Infelizmente, Bate-Seba sofreu terríveis conseqüências por causa de Davi: enviuvou e perdeu seu primeiro filho. Porém mais tarde foi mãe de cinco filhos, um deles Salomão.
Apesar de parecer extremamente cruel o castigo dado por Deus, de tirar a vida de um bebê indefeso, deixar os culpados livres e o filho inocente morrer, forçar a mãe a assistir o sofrimento de seu filho até a morte para pagar por seus pecados, ilustra exatamente qual seria o plano de Deus para a salvação da humanidade, e como o Reino de Deus chegaria. O sofrimento de Bate-Seba prefigurava o sofrimento de Maria ao presenciar a morte de seu filho no lugar dos verdadeiros culpados por seus pecados. Higgs comenta: “a criança não havia nascido doente. A criança afligida por Deus. Assim como o Messias seria afligido e tomaria sobre si os pecados de Davi e Bate-Seba.” (HIGGS, 2002, P.182.).
Quando se tornou viúva de Urias, Bate-Seba observou o luto habitual de sete dias, mais outras formas de rituais de impureza (Lv.12.2; 15.19); depois Davi mandou buscá-la e se casou com ela. Salomão foi o segundo filho dos dois (2 Sm. 11.24,25).
Marcada pela primeira vez em que o grande rei Davi mostra sua natureza pecaminosa, Bate-Seba tornou-se a esposa de maior confiança e, mais tarde, a rainha-mãe. (SPANGLER, 2003, p.175).
Em 1 Reis 1-2, a posição de Bate-Seba na corte é precária. O rei que cometeu um assassinato para tê-la está próximo da morte. Ela foi substituída na cama de Davi. A não ser que Salomão seja bem sucedido, ela perderá tudo. Trabalhando junto ao profeta Natã (já que o profeta não tinha a facilidade do acesso imediato de que Bate-Seba desfrutava), ela ajudou a assegurar que a vontade de Davi de ter Salomão no trono como sucessor fosse cumprida (MARTIN, 2009, p.541). Ela arrisca tomar uma atitude mais audaz do que Natã a aconselhou, reformulando o apelo dele como uma crítica velada a Davi. E ela acrescenta a essas palavras argumentos com o intuito de tocar o orgulho de Davi e despertar sua raiva: a existência de uma conspiração a favor de Adonias, os nomes dos principais conspiradores e o iminente perigo contra ela e seu filho (WALSH, 2007, p.352).
Com a ascensão de Salomão ao trono, Bate-Seba se tornaria a rainha-mãe, um cargo político importante. Citada como ‘mãe de Salomão’ (1 Rs.2.13) e ‘a mãe do rei’ (1 Reis 2.19), viu seu filho agir contra sua vontade quando Adonias, outro filho de Davi, pediu que ela intercedesse junto a Salomão para que lhe desse em casamento a mulher que costumava esquentar Davi antes de morrer. O que estava em jogo aqui era o costume de que quem possuísse as mulheres do rei teria direito a lutar pelo trono. Entretanto, o texto informa que a moça em questão não fora desposada por Davi, e ainda era virgem (1 Rs.1-2). Por isso é uma incógnita indagar se Bate-Seba estava ou não tentando proteger ou afastar seu filho do trono (BAKER, 2002, p.186.).
A rainha-mãe gozava em Israel e nos povos vizinhos de honrarias especiais (1 Rs.2.19; 15.13; Jr.13.18). Estar sentado à direita de alguém era estar no lugar de honra (Sl.45.10; 110.1). Como se pode observar:

...há três tipos de rainhas no mundo antigo. A mais comum à nossa visão era a esposa principal do rei (e.g. Ester). Embora às vezes essas consortes reais não passassem de ‘ornamentação’ em outros contextos (como entre os hititas do segundo milênio), elas atuavam como representantes reais com amplos poderes (...). Um outro tipo era a esposa (ou mãe) do rei que ascendia ao trono após sua morte e reinava em seu lugar (e.g. Atalia, de Judá e Hatshepsut do Egito). E por fim, o papel ilustrado por Bate-Seba. A extensão com que a rainha-mãe exerceria um papel significativo ou influente nas questões judiciais, econômicas ou sociais, dependia de sua personalidade. O fato de que o nome da mãe é mencionado em relação a quase todos os reis de Judá (embora não quanto aos reis de Israel), sugere que seu papel era bastante importante na monarquia davídica (WALTON, 2003, p.369).


Nos tempos antigos, mulheres podiam ocupar posições de autoridade. Mulheres, especialmente mulheres estrangeiras, podiam atuar como rainhas, profetisas, poetisas, autoras, mágicas, bruxas e feiticeiras. No Egito, mulheres tinham inúmeras liberdades pessoais e desfrutavam muitos dos mesmos direitos e obrigações masculinas. Mulheres podiam ter alvos nos negócios, dirigir os negócios ou fazendas, fechar contratos e agir como testemunhas na corte. Elas podiam se divorciar e recasar; podiam herdar propriedade. Podiam ser dançarinas do templo, cantoras, músicas, sacerdotisas, carpideiras, jardineiras, babás e criadas, algumas eram ensinadas a ler e escrever, e algumas mesmo se tornaram médicas. Aparentemente, as únicas posições normalmente não abertas para mulheres eram cargos de liderança (governo) (BAKER, 2002, p.186).
A tradição diz que Bate-Seba foi a autora da famosa passagem em Provérbios 31, como se fosse uma admoestação a Salomão a respeito de seu casamento com a filha de Faraó (HIGGS, 2002, p.186).
O relato bíblico, apesar de sucinto a respeito de Bate-Seba, expõe os dois lados de uma mesma mulher: em primeira instância, a vulnerabilidade de alguém tratado como propriedade privada na sociedade, incapaz de se opor aos desmandos de um monarca irresponsável e desejoso por prazer. Por outro lado, já no fim da narrativa de seu relacionamento com Davi (1 e 2 Reis), outra mulher se apresenta, determinada a ser ouvida, talvez vingativa, talvez rancorosa, mas dona de seu próprio destino e capaz de tomar a iniciativa como suas precursoras na genealogia; bem diferente da primeira vez em que se é apresentado a ela no relato de 2 Samuel. Dessa forma, nem a literatura rabínica a condenou, por ter se tornado a mãe de Salomão (BROWN, 1993, p.73). Assim, sua redenção parece ter vindo através de seu filho, do mesmo modo que veio para Maria.
Por existir tão pouca informação consistente a respeito de Bate-Seba, ela se tornou a personagem mais enigmática das cinco citadas na genealogia de Jesus em Mateus. Não é possível postular a inocência ou a culpabilidade completa de sua pessoa. Sua vulnerabilidade inicial, seu relacionamento com um justo estrangeiro e seu sofrimento calado diante de tantas perdas a transformaram num instrumento do trato de Deus para com a vida do rei Davi. Mais tarde, seja por conseqüência de tudo o que ela teve de enfrentar ao longo dos anos ao lado de Davi, seja pelas perdas que sofreu ou até mesmo pela maturidade que adquiriu ao dar voz aos seus próprios anseios, Bate-Seba assumiu as rédeas de sua própria vida e, como Tamar, Raabe e Rute, soube enfrentar seus medos a fim de cumprir os propósitos de Deus.

Fonte:
Natel, Angela. As mulheres da genealogia de Jesus em Mateus, e as Implicações teológicas na mensagem do reino de Deus / Angela Natel. ─ Curitiba, 2012, pp.29-34. - Monografia (Trabalho de conclusão de curso de Bacharel em Teologia da Faculdade Fidelis)

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