Angela Natel On segunda-feira, 4 de julho de 2016 At 08:17




Ao pensar sobre o que escrever a respeito do valor dos missionários de base bem como de seu trabalho, não deixo de me constranger pelo fato de que estou, no momento, sem dúvida alguma, advogando em causa própria.
Infelizmente, ainda que meu envolvimento com missões tenha se dado efetivamente desde os anos 90, até agora - quando me vejo em situação de missionária de base - não tinha parado para refletir nas implicações e adversidades que esta condição acarreta.
Pensar que a Igreja, como um todo, tem a responsabilidade por ser testemunha de Cristo a todas as etnias parece algo fácil, sem muitos desafios. Entretanto, com tantas ênfases teológicas e ministeriais que surgiram nos últimos anos, a compreensão da Missão de Deus em Se revelar aos povos também através de Sua Igreja (os cristãos) tem dado lugar a um ativismo sem precedentes, uma busca por encher espaços com pessoas que compartilhem de um mesmo padrão de comportamento.
Porém, ainda há aqueles que permanecem firmes no entendimento de que Cristo é a Palavra viva de Deus ao mundo, e que esta Palavra precisa ser testemunhada, vivida, traduzida e anunciada às diferentes culturas humanas. Estes, que fazem parte da Igreja de Cristo como um todo no mundo, selecionam alguns que podem fisicamente se deslocar até as regiões mais distantes a fim de ser o braço estendido da Igreja no local.
Para preparar adequadamente estas pessoas é que muitas agências missionárias existem, não apenas conscientizando a Igreja de sua responsabilidade missionária, mas equipando com ferramentas adequadas os que vão e disponibilizando um respaldo no campo de destino, além de, muitas vezes, ajudar na intermediação entre o enviado com sua Igreja local.
Para tanto, as bases missionárias possuem estruturas capazes de abrigar missionários em trânsito, oferecer cursos de treinamento, aperfeiçoamento e reciclagem/atualização, dentro de necessidades específicas para o trabalho missionário eficaz. Essas ferramentas podem englobar ajuda linguística, missiológica, antropológica e ainda cuidado pastoral específico quando há emergências.
Entretanto, a Igreja Brasileira não age de forma que demonstre consciência da real necessidade de missionários que estejam em tempo integral servindo nestas bases missionárias, uma vez que pouco ou nada se fala sobre a condição de missionários de base, e muitos dos que assim servem se encontram em inúmeras dificuldades práticas, seja na área de saúde ou financeira, seja ficando isolado, sem nenhum tipo de contato ou cuidado pastoral ou emocional.
Os líderes e pastores de nossas igrejas sabem da necessidade do discipulado e pastoreio, mas qual é o real esforço nesse sentido para com os missionários que estão tanto no campo quanto em uma base missionária?
As igrejas entendem a necessidade de fidelidade no sustento de missionários transculturais, mas qual o entendimento e nível de comprometimento destas mesmas igrejas com a manutenção de sustento para os missionários que servem integralmente em uma base? Isto sabendo que as agências missionárias atuam sem fins lucrativos e são mantidas por doações voluntárias. Portanto, quem mora em uma base tem as mesmas (ou, às vezes, até maiores) necessidades de um missionário no campo, no que diz respeito a gastos com moradia, energia, água, alimentação, higiene e saúde física e emocional. Assim, a agência, em si é apenas uma estrutura mantida pelas Igrejas, e cabe a cada missionário que vive na base ter seu próprio sustento para todas as despesas.
Em minha experiência pessoal, por exemplo, mudei-me para a base da Associação Linguística Evangélica Missionária - Missão ALEM - em novembro de 2015, no intuito de servir junto ao Departamento de Cursos para o treinamento de quem vai a diferentes partes do mundo. Quando vim para a base, tinha o compromisso de inúmeras pessoas e algumas comunidades locais, a maior parte de minha cidade natal. Entretanto, já houve meses em que um terço do sustento mínimo necessário não me foi repassado, o que trouxe inúmeras dificuldades para minha manutenção. Graças a Deus, permaneço firme no propósito pelo qual fui chamada, ainda que eu tenha precisado colocar de lado necessidades urgentes de saúde, como a cirurgia de vesícula que preciso no momento.
Se formos pensar no valor do trabalho de um missionário de base, ainda podemos ir mais longe: muitos precisam continuar em seus estudos para poder servir melhor aos que estão vindo para serem treinados e enviados a campos transculturais. Além de uma formação de qualidade, o missionário de base, em geral, deixa de lado cargos acadêmicos para poder servir integralmente na base, o que acarreta em perdas financeiras.
Ainda que em uma base missionária, muitos estão longe de seus familiares e cidades natais, o que resulta em isolamento e vulnerabilidades. Essa condição facilmente traz o esquecimento da Igreja local a respeito do missionário que está longe, mas em uma base, e torna-se muito fácil que aqueles que um dia se comprometeram a sustentá-lo venham a esquecê-lo com o passar do tempo.
Creio que já é hora da Igreja Brasileira falar sobre os missionários de base, visitá-los para entender sua condição e assumir uma postura com relação a eles. Essa busca desenfreada por resultados que tragam alguma repercussão para a Igreja local em nada se encaixa com a posição de testemunhas de Cristo, que é nosso verdadeiro chamado como cristãos.
Ainda que essa mensagem não traga resultados efetivos em minha vida pessoal e serviço, espero, de coração, que ajude a Igreja como um todo a olhar nos olhos daqueles que têm deixado tudo, inclusive suas ambições pessoais, para viver no serviço e treinamento daqueles que estão alcançando os confins da terra. Ao olhar nos olhos do outro podemos compreender melhor suas necessidades ao mesmo tempo em que descobrimos o chamado de Cristo para nossas vidas - assim como Ele se entregou em nosso favor, podemos nos entregar uns pelos outros.
Que o Senhor Jesus continue sendo glorificado, e que seja por Ele e para Ele nossas vidas, nosso serviço e nosso chamado.
Em Cristo
Angela Natel
Banco do Brasil
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