Angela Natel On segunda-feira, 20 de junho de 2016 At 08:42

Por Hermes C. Fernandes

Paulo já havia sido avisado sobre a perseguição que sofreria em Jerusalém. Teimoso e obstinado, não deu ouvidos a ninguém. Afinal, como ele mesmo dissera, não tinha sua vida por preciosa, desde que cumprisse o propósito de sua existência. Nem mesmo Ágabo, um conceituado profeta, conseguiu dissuadi-lo com sua profecia encenada. O apóstolo estava disposto não só a ser preso por amor a Cristo, mas também a morrer pela causa do evangelho. Chegando a Jerusalém, teve uma baita surpresa. Sua fama o havia precedido. Tanto que Tiago convocou os anciãos para recepciona-lo e ouvir dele um relatório acerca dos frutos do seu ministério entre os gentios. Tal recepção desarmou Paulo. Quando ele poderia imaginar que seria recebido com tantas pompas? Após ouvi-lo atentamente, Tiago e os demais nada quiseram acrescentar. O evangelho pregado por Paulo entre os gentios parecia estar na medida certa, passando pelo “controle de qualidade” dos apóstolos. Porém, havia um pequeno problema... Alguém teria espalhado a notícia de Paulo ensinava os judeus a se apostatarem de Moisés, deixando de cumprir os ritos prescritos na Lei. Só havia uma maneira de desfazer este “mal entendido”, dando uma “cala-boca” em seus difamadores: Paulo teria que se fazer um voto de raspar a cabeça e apresentar-se no templo. Para não criar mais constrangimento aos apóstolos, ele nem sequer se deu o trabalho de argumentar. Juntou-se a outros quatro e passou a navalha na cabeça.

Estou certo de que este episódio foi um dos poucos dos quais Paulo se arrependeu pelo resto de sua vida. O mesmo Paulo que parecia disposto a ser decapitado por amor a Cristo, agora se deixava tosquiar para fazer média com os judeus religiosos de Jerusalém. Resultado: de nada adiantou a presepada. Tão logo os judeus o flagraram no templo, trataram de acusa-lo perante todos e, por pouco, não lhe tiraram a vida. Não fosse os soldados romanos intervirem, Paulo teria sido espancado até a morte (At.21:10-32).

O que mais me chama atenção na passagem resumida acima é o fato de Paulo ter sido acusado de apostatar-se de Moisés. Seria esta uma acusação justa? Estou convencido que sim. Num certo sentido, o Evangelho é uma apostasia. Do grego antigo απόστασις (apóstasis), apostasia significa “estar longe de” e tem o sentido de um afastamento definitivo e deliberado de alguma crença ou doutrina.

Por que Paulo e os demais seguidores de Jesus teriam se apostatado de Moisés?

João, autor do quarto evangelho, oferece-nos uma preciosa pista:

“Pois todos nós recebemos da sua plenitude, e graça sobre graça. Porque a lei foi dada por meio de Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo.” João 1:16-17

No texto acima, percebemos que Moisés e Jesus têm propostas diferentes e antagônicas. Um trouxe a lei, o outro, a graça e a verdade. A Lei serviu de base para a construção de um sistema que se apoia no desempenho humano. Trata-se, portanto, de um sistema baseado em méritos, do tipo, “faça isso e viverás”. Já a graça revelada em Jesus desmantela este sistema.  Alguns defendem que a Lei seja o fundamento da Graça. Portanto, o Reino de Deus seria um sistema do tipo “graça sobre lei”. Outros defendem que o Reino de Deus seja um sistema do tipo “lei sobre graça”, isto é, a graça nos salva do pecado e nos coloca no colo da lei. Portanto, é-se introduzido no reino pela graça, porém, manter-se lá vai depender de nosso desempenho em guardar a lei. Foi neste erro que incorreram os gálatas. Eles começaram no Espírito (100% dependentes da graça) e terminaram na carne (dependentes do desempenho). O que lemos no capítulo introdutório do evangelho de João é que o Reino de Deus é “graça sobre graça”. A graça é o fundamento da própria graça. Em outras palavras, é graça do começo ao fim, não restando lugar algum para o mérito humano. Cristo é o autor e consumador da nossa fé, o Alfa e o Ômega, ou nas célebres palavras de Paulo, “o que começou a boa obra” e vai terminá-la no prazo estabelecido (Fp.1:6). Por isso, ao nos render à graça, apostatamos de Moisés. Não há como reconciliar os dois sistemas, o meritocrático e o karistocrático. São água e óleo. Temperaturas diferentes. Um é quente. O outro, frio. Tentar misturá-los é amornar o evangelho. E foi esta a razão de Cristo rejeitar a igreja de Laodiceia.

Os que estão assentados nas regiões celestiais em Cristo Jesus (Ef.2:6), jamais deveriam desejar ocupar a “cadeira de Moisés”, ocupada pelos escribas e fariseus na época de Jesus (Mt.23:1-4). Por maior que tenha sido a glória da antiga aliança, não pode ser comparada à glória da novíssima e definitiva aliança celebrada na cruz. A glória resplandecente no rosto de Moisés quando este descia do monte Sinai é ofuscada pela glória do amor manifesto na cruz no cume do Gólgota. Paulo diz que a glória da lei era desvanecente.  Por isso, Moisés cobria o rosto enquanto descia do monte. Ele percebeu que a cada passo que dava, o esplendor diminuía. Porém, “não somos como Moisés”, afirma o apóstolo “apóstata”. Diferentemente dele, não cobrimos o rosto, pois somos conduzidos “de glória em glória” até a glória derradeira (2 Co.3:13-18). Podemos comparar a diferença entre a glória da lei e a glória do evangelho à diferença que há entre o brilho da lua e o brilho do sol. Numa noite, a lua aparece crescente, na outra, cheia, e em seguida, minguante. Portanto, sua glória varia de intensidade de acordo com a época. Porém, o sol mantém a mesma glória em todo o tempo. Se a lua teima em continuar no céu durante o dia, seu esplendor é ofuscado pela presença majestosa do sol. Conhecer a graça para depois retroceder à lei, é como provocar um eclipse, onde a lua comete o atrevimento de querer ofuscar o sol. Esta, porém, não tem cacife para isso, pois não possui brilho próprio. Seu esplendor depende diretamente da luz do astro rei. Tal se dá com a lei. Qualquer glória que tenha, depende da graça. Se ela passa a sua frente, o dia escurece. Não é a graça que está sustentada na lei, mas a lei que está sustentada pela graça.

Recentemente, recebi um comentário maldoso em minha timeline no facebook, acusando-me de destruir o que havia sido construído pela geração que me antecedeu. Ora, não confunda a remoção dos andaimes usados na construção do edifício com a demolição do mesmo. A lei serviu-nos de andaime. Tão logo o Verbo armou Sua tenda entre nós, os andaimes tiveram que ser removidos. No edifício do Reino de Deus, a graça serve de fundamento, paredes e teto. Tudo mais não passa de andaime.

- Mas não dá tudo no mesmo? – alguns poderiam imaginar. A resposta é: não! Paulo diz que a Lei, representada pelo monte Sinai, produz escravos, enquanto a graça produz filhos (Gl.4:24-25). Ainda que ambos os sistemas produzam gente fiel até a medula, a motivação por trás desta fidelidade será diferente. A fidelidade de um repousa sobre a expectativa da recompensa, enquanto a fidelidade do outro repousa sobre a gratidão.

O escritor de Hebreus traça uma interessante comparação entre Jesus e Moisés. Ele dá testemunho de que Moisés foi fiel “em toda a casa de Deus”, porém, “como servo”, enquanto Cristo é fiel como Filho “sobre a casa de Deus” (Hb.3:1-6). Por isso, Ele é digno de muito maior honra do que Moisés. A fidelidade do servo é diferente da fidelidade do filho, independendo de circunstâncias, recompensas, resultados, etc.

O problema não é a lei em si, mas o que ela produz em nós. Em outras palavras, o problema somos nós.  Quem quer que queira seguir a Cristo tem que renunciar a pretensão de alcançar a perfeição pela via do cumprimento da lei. É a isso que Jesus chama de renunciar a si mesmo.

A graça nos faz depender inteiramente do Espírito, e não mais de nossa performance. Ademais, ao desbancar nossa arrogância e presunção, a graça nos torna pessoas mais compassivas e tolerantes com os erros alheios. O rigor da lei cede à gentileza da graça.

Tal se deu na “saia justa” que os escribas e fariseus tentaram dar em Jesus no episódio em que Lhe trouxeram uma mulher flagrada na cama com um homem que não era o dela. Descaradamente, aqueles religiosos soberbos disseram:  “Mestre, esta mulher foi apanhada em flagrante adultério. Ora, Moisés nos ordena na lei que as tais sejam apedrejadas. Tu, pois, que dizes?” (Jo.8:3-7).

Eram aqueles mesmos religiosos que, segundo Jesus, ocupavam a cadeira de Moisés. O que eles desconheciam era que o mesmo Moisés os acusava diante de Deus (Jo. 5:45-47). Não fomos chamados a ser promotores de justiça na corte celestial, mas a ocuparmos com Cristo a cadeira de advogado de pecadores. E foi este o papel que Jesus desempenhou naquele momento, saindo em defesa de uma adúltera, tratando-a como faz um cavalheiro, não um juiz.

Todos sabem o que diz Moisés, porém, poucos dão ouvidos ao que dizem os lábios de Jesus. A que voz estamos dando eco? Basta verificarmos se nossas mãos ainda carregam pedras; se nossos dedos ainda estão apontados para os pecadores ou se nossas mãos estão estendidas para socorrê-los da justiça dos santarrões de plantão.

Moisés, já tem que pregue em cada esquina, como concluíram os discípulos na primeira assembleia geral da igreja (At. 15:19-21). Nossa missão é pregar o evangelho, a boa nova do Reino de Deus.

Eu apostatei de Moisés, e você? Vai querer fazer média com os santarrões? Vai lá... raspa a cabeça... quem sabe eles te dão um desconto.

Fonte: http://www.hermesfernandes.com/2014/11/eu-ja-apostatei-e-voce.html

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