Angela Natel On quarta-feira, 28 de outubro de 2015 At 08:06
GEBARA, Ivone. Rompendo o Silêncio; uma fenomenologia feminista do mal. Petrópolis: Vozes, 2000

Resenha por Antonio de Lisboa Lustosa Lopes
O desafio de compor a resenha de uma obra é grande, pois supõe responsabilidade para com o pensamento aduzido no texto, cuidado para apresentar o todo sem esgotar tudo, atenção para que seja um instrumento de aproximação e não de distanciamento frente ao livro. Pela natureza do desafio, ser-se-ia levado a não ir adiante nesta empreitada, pois o olhar de um leitor é, também, um novo movimento de composição, aumentando as fileiras das interpretações que, de tantas, são de todos e de ninguém.
Começo dizendo que o prefácio da obra é uma expressão sucinta e completa daquilo que se tornou este pequeno tratado de fenomenologia feminista do mal. Adolphe Gesché, por conhecer com maior proximidade as intenções da abelha exilada de sua colméia, devido ao trabalho de apreciação da pesquisa, faz notar bem que o texto se destaca na emergência do vivido e do discurso próprio das mulheres. Com a palavra está o ato segundo do fazer teológico, pelas mãos de uma mulher-teóloga que não se ofuscou com a luminosidade de sua inteligência, mas a usou como facho clareador da prática que constitui o teologar como ato primeiro.
Ivone inicia sua obra esclarecendo que não faz parte do seu interesse elaborar uma ciência do mal, tampouco dirimir questões residuais da teodicéia, pois o que a move é, sobretudo, a busca de entender o mal e as suas interpretações mais difundidas, assim como o caminho percorrido por esta temática na história do fazer teológico, de modo bem específico no tangente às mulheres, vítimas singulares neste percurso. Ela tem como pressuposto a impossibilidade humana de experimentar uma completa isenção do mal, pois devido a situação comum de socialização e responsabilidade, a mulher e o homem estão sempre marcados pelo mal no cotidiano que, não obstante possa não ser pensado como tal, é efetivamente suportado. Trata-se de uma questão bem complexa, com marcas históricas residuais que podem despertar ressentimentos com relação à supervalorização do masculino, mas que não podem ser ocultadas, pela necessidade de justiça para com as mulheres polarizadas negativamente nesta supervalorização. Não é possível desconsiderar a diferença que existe entre o extrínseco e o intrínseco do mal, respectivamente masculino e feminino.
A obra Rompendo o silêncio: uma fenomenologia feminista do mal está organizada em cinco partes que explicitam os estilos teórico-metodológicos utilizados pela Ivone nesta pesquisa. Os desdobramentos amplamente considerados referem-se, no nível fenomenológico, ao mal experimentado concretamente pelas mulheres e ao mal que elas também praticaram, e, a partir da contribuição da categoria de gênero, na leitura da experiência feminina de salvação e de Deus. O que está sendo resenhado segue a tríade que dá sustentação ao estudo do mal feminino: a fenomenologia, o gênero e Deus.
A fenomenologia, enquanto recurso metodológico de retorno às coisas mesmas, marca o mal testemunhado por vidas femininas, nas suas experiências ligadas ao ter, ao poder, ao saber, ao valer, ao ser, marcadas pela substancial negação destas condições, articuladas com um radical desejo de vida. As descrições transitam por mundos diferentes que são perpassados pela nervura da dor e do amor inseparáveis na vida destas mulheres. Ivone recorre à experiência do mal feminino descrita em livros de mulheres da Índia, América Latina e de outros lugares, para apreender o sofrimento que emerge na corporeidade da mulher-mãe que lida com a escassez de condições básicas para existir no limite com a morte dos seus, que é também sua própria morte; da mulher que jaz imersa na rotinização do mal que se naturaliza em sua própria vida doméstica sem pão, sem roupa, sem moradia, sem saúde, sem carinho..., que oferece o próprio corpo pela vida; sofrimento da mãe que é ausente de uma experiência religiosa e se vê impotente diante da doença que gradativamente vai levando a filha para o inexplicável silêncio que habita o depois de morrer e escreve para alimentar a esperança de viver, apesar disso; a mulher que expressa poeticamente o sofrimento próprio e das mulheres e seus compatriotas, que luta pela própria vida mesmo quando a extingue, devido a forma atroz que ela se configura em seu corpo maculado pela opressão e exploração estrutural.
Sofrimento que é vivido pela mulher-religiosa marcada pela argúcia do pensamento e pela sutileza da inteligência comum das/os místicas/os, mas obrigada a exilar-se no silêncio do não-saber arbitrariamente imposto, muitas vezes em nome do divino, expressa seu afã de liberdade na linguagem poética que transgride o instituído, que expressa o vivido no escondimento e busca suprir lacunas não solucionadas; pela mulher-menina-adolescente que tem seu corpo leiloado no mercado cruel do sexo sem afeto; pela mulher-doméstica explorada e inferiorizada externa e interiormente na condição de trabalho que teve a dignidade expropriada; pela mulher-negra lidando com uma sociedade que padronizou a beleza na alvura da pele e empalideceu o amor na discriminação por causa da cor da pele, mas assim mesmo não deixa de se aperceber bela, contestando este modelo colonial; pela mulher-teóloga que sabe bem o significado de ter nascido mulher, no embate com a força e a fraqueza das mulheres de sua família determinadas até mesmo na renúncia de si mesmas, no dilema de todo imigrante que está sem se localizar, mas que teve na própria subjetividade um recurso importante para o irrompimento de um fazer teológico feminista da libertação, a despeito de toda tentativa de desautorizar sua teologia pelo fato de ter na mediação do gênero e na própria experiência feminina, instrumentos veementemente críticos também no interior da própria teologia da libertação.
É a experiência do mal vivido e tematizado por Kamala Markandaya, Ruku, Irawaddy Béti, Carolina Maria de Jesus, Isabel Allende, Paula, Violeta Parra, Joana Inês da Cruz, Lenira, Delores Williams, Toni Morrison, Alice Walker, Celie, Ivone Gebara; são vidas com nomes, corpos e datas, memórias de um tempo onde lutar por seu direito é um defeito que até mata.
A categoria do gênero é uma outra chave de interpretação do mal feminino que a Ivone utiliza em sua tese. Esta categoria é fundamental na direção da superação de uma tipologia simplista da ciência teológica que prescinde de um teologar em perspectiva inclusiva, pois desconsidera que a fé cristã é atravessada pela colossal complexidade das relações humanas. Ajuda também a compreender além do ser homem e do ser mulher em termos biológicos, a natureza sócio-antropológica destas condições existenciais, uma vez que a sexualidade é um elemento marcado pela cultura, sobretudo no concernente às relações de poder. O gênero permite aceder à questão de que a forma como cada ser se auto-compreende, percebe os outros e se sente percebido possibilita um situar-se no mundo e desenvolve formas de ser e de agir relativas a este modo de compreensão. Isto ajuda a sair da linha universalizante do discurso masculino, abrir os horizontes de compreensão do masculino/feminino, assim como faz compreender doutra maneira a simbólica do mal, uma vez que sai dos limites apenas da oposição homem-mulher e passa a ver as construções simbólicas atravessadas por complexas relações de construção do poder.
Enquanto mediação hermenêutica, o gênero supera a visão reducionista de diferenciação apenas no nível da genitalidade, pois o masculino-feminino emerge em meio a relações sócio-culturais que implicam em aprendizagem e reprodução de comportamentos. No movimento de socialização as identidades se estabelecem e se diferenciam. Assim, recorrendo à perspectiva bourdieana, Ivone, reforça que, a teologia é um universo de produção de sentido, ao mesmo tempo em que possibilita a reprodução de formas de viver; portanto, faz-se necessário a mudança de perspectiva no âmbito do simbólico, para assim transformar as relações que se cruzam no nível da experiência cotidiana. Ou seja, a mediação hermenêutica do gênero soçobra aquilo que se constituiu historicamente como habitus cultural.
Ivone considera importante notar que seu modo de recorrer ao gênero como mediação interpretativa difere de muitas outras linhas feministas que utilizam esta mesma categoria. Não se trata de ter no gênero um novo universal capaz de explicar todas as formas de mal sofrido pelas mulheres. É importante quebrar as barreiras que sustentam as oposições entre homem e mulher e assimilar a dinâmica das relações entre ambos na configuração de experiências infelizes e felizes, fechadas e abertas, excludentes e inclusivas, de exploração e domínio nas duas direções, não obstante a histórica força maior de domínio sobre a mulher. A vida humana não pode ser vista sem levar em conta de que se trata do resultado da interação permanente que se dá entre ambos os sexos, mesmo que as mulheres tenham sido, em grande parte, injustiçadas. Esta categoria possibilita a relativização de um conhecimento estabelecido como universal, enquanto apreende as contradições concernentes ao ocultamento de algumas relações. Não enunciar a efetiva colaboração das mulheres na construção de um corpus gnoseológico enuncia um modelo epistemológico que prescindiu da ética, enquanto apresentou como global uma estrutura parcial, limitada e excludente. Pretender a universalidade é, de per si, um limite, pois toda forma de conhecimento é relativa às pessoas em suas situações sócio-culturais e ideológicas.
Tomando como referência a pessoa de Jesus, apesar de todo o peso historiográfico da teologia universalista machista, não dá para deixar de lado que a marca fundamental de sua vida não é o sofrimento e o sacrifício, mas a prática da justiça e o esforço de ajudar os homens e mulheres a construir entre si relações de misericórdia e solidariedade. O acento no aspecto sacrificial reforçou o desenvolvimento do fenômeno da culpabilização e de sua reprodução em forma desigual, dando ênfase maior na responsabilidade das mulheres e maior isenção dos homens. Esta culpabilidade naturalizada tornou-se, em grande parte, um estereótipo que se constitui num mal para as mulheres, pelo peso que elas foram historicamente obrigadas a carregar, basta tomar como base a força ideológica do pensamento de que foi pela mulher que o pecado entrou na história humana. Culturalmente, esta culpa impôs às mulheres limites à sua autonomia e criatividade.
No entanto, a mesma categoria do gênero e a fenomenologia, não permitem esquecer que a condição de vítima não isentou as mulheres de praticar o mal, mesmo que sua fraqueza tenha limitado suas condições para isto. O mal precisa ser visto no seu aspecto fenomênico, a partir do que aparece na história de homens e mulheres. Por isso, sendo que o modelo patriarcal relegou a mulher ao espaço doméstico, é importante levar em conta que a reprodução das formas mais fundamentais da vida humana passou e passa pelo cotidiano de mulheres que têm em casa o seu espaço de ação, mesmo que contraditório. Nas escolas e nas igrejas, é a presença massiva de mulheres que têm garantido a sucessiva reprodução dos parâmetros de comportamento do sistema patriarcal. Além disso, se houve um forte acento discriminador sobre as prostitutas, mães sem maridos, negras, índias, homossexuais, deveu-se a uma grande insistência de mulheres-mães que apresentaram estas formas de vida como maus exemplos para os seus filhos. Não são poucas as mães possessivas que, enlouquecendo os seus filhos para que sigam os ditames de sua paranóia materna, culpam os filhos pela infelicidade das mesmas, quando eles resolvem fazer suas escolhas de modo autônomo. Agindo assim, o vicioso movimento de culpabilização vai-se perpetuando e dando sustentabilidade às morbidades patriarcais.
Mesmo assim, os valores do cristianismo não foram assimilados da mesma maneira por homens e mulheres; aquilo que se constituiu para eles elementos de amor e felicidade, tornou-se, para elas, formas de opressão e humilhação. Por isso, é preciso também procurar compreender a maneira como as mulheres experimentam a salvação. Segundo Ivone, o começo da salvação para as mulheres, como o foi para o Cristo, dá-se na própria experiência da cruz em nível pessoal e comunitário. Apesar de minimizado pelo parâmetro patriarcal, o sofrimento das mulheres tem se constituído na percepção da cruz não mais como elemento de resignação em meio ao sofrimento, mas como imperativo reclamo por justiça frente a carência de dignidade e paz. Esta percepção encoraja a busca por desenvolver relações de justiça, respeito e enternecimento entre homens e mulheres. Trata-se de uma superação histórica da cruz, por isso não-definitiva, uma vez que podem reaparecer novas configurações da mesma, visto que a história comporta limites.
Neste sentido, não existe uma radical separação entre cruz e ressurreição, pois esta também emerge da experiência cotidiana das pessoas e, na perspectiva desta abordagem, na vida que as mulheres conseguem fazer nascer, sustentar, defender, cuidar e fazer ressurgir do meio de tantos obstáculos à vida com os quais elas se defrontam. Encarando a vida e a justiça como experiências fundamentais da existência, pode deslocar a centralidade da cruz para a centralidade da ressurreição e, embora não seja possível livrar-se completamente do sofrimento, é possível compreender que a mistura da dor e da alegria não é obstáculo intransponível para a vida. Nesta dialeticidade a vida vem se apresentando nos corpos de mulheres e homens com grande vigor nos encontros salvadores que passam pelos sentimentos, pelo beijo, pelo pão, pelo sorriso feliz de um idoso, pelo cândido olhar de uma criança, pela solidariedade em meio aos sofrimentos e dores. Esta salvação vivida pelas mulheres passa pela superação dos limites marcados pelas instituições religiosas.
O ser humano é falível, esta é uma verdade incontestável. Entretanto, é esta dimensão de falibilidade, que possibilita ao homem falhar na escolha do mal, que o permite também realizar o bem. Isto explicita a natureza relacional da humanidade, pois porque somos falíveis somos bem dependentes dos outros; e, precisando dos outros, descobrimos a misteriosa realidade que é um bem para nós, que passa pelo bem que experimentamos e que supera todas as estruturas axiológicas e religiosas, que nomeamos Deus.
Deus para as mulheres é a última abordagem do texto da Ivone. Ali ela aduz a presença de Deus no cotidiano da miséria, no seu rosto barroco, na ausência de Deus e no tecido e na trama da Vida, recuperando a abordagem fenomênica do início, perscrutando nos testemunhos e narrativas que apresentou, a irrupção da misteriosa realidade do Absolutamente Outro. Conforme se viu, para além de todas as formas de poderes que se conhece, há um poder que se sustenta e ultrapassa todas estas formas, é o poder da vida. Deus não aparece como resposta para nossas perguntas teóricas, pois elas permanecem abertas. O movimento da vida, sua manutenção, é o próprio Deus presente. Ele também é o que concede o dom e que em meio às lutas não aparece como vitorioso, mas como aquele que sucumbe junto com aqueles/as que o amam. Ele pode estar ausente a nível da consciência, no âmbito do conhecimento, mas se faz presente no acolhimento daqueles que agem em Seu nome. Ele é a nervura que sustenta o tecido e a trama da vida do ser humano e, no específico das mulheres, no esforço de superar as absolutizações universalistas da perspectiva patriarcal/machista, para dar lugar à voz que vem da experiência cotidiana e que se dá conta de que o caminho que é possível fazer caminhando, é longo, e os passos dados ainda estão aquém do que poderia ter sido feito.

Antonio de Lisboa Lustosa Lopes é padre católico, mestre em teologia pastoral pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, doutorando em ciências da religião pela UMESP.


acessado em 23/09/2012

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