Angela Natel On terça-feira, 27 de outubro de 2015 At 08:39
Escorraçada de um texto no qual já não me reconhecia, eu me refugiava não nas linhas, mas nas entrelinhas. Ali eu deixaria uma muda e criptografada mensagem, uma mensagem que, como garrafa lançada ao mar, talvez chegasse a alguém, num futuro próximo ou distante.” (Sclair, 2007, p.108)

Esta tem sido a tarefa de muitos grupos de mulheres em torno da Bíblia. Ler a Bíblia a partir de uma perspectiva feminista é aprender a ler nas entrelinhas . É buscar encontrar em um texto marcado pela cultural patriarcal aquilo que ficou encoberto ou não revelado. Ouvir as vozes silenciadas das mulheres na Bíblia que deixaram suas mensagens criptografadas em seus corpos, em suas histórias .

Assim é que se diz a leitura da Bíblia a partir das mulheres se assemelha a um diálogo corpo a corpo. Essa leitura favorece a construção de significados e sentidos mediante uma dinâmica de intertextualidade entre dois corpos. O nosso corpo, a nossa vida e experiência entram em diálogo com a vida, a história e os corpos das mulheres da Bíblia.

A Bíblia sempre foi apresentada para nós mulheres por meio de uma hermenêutica de aceitação, obediência e submissão, sob a bandeira da defesa da autoridade bíblica, sempre desempenhando papel-chave no tema contra a emancipação de mulheres. Por isso a necessidade de resgatar os textos bíblicos de sua unilateral interpretação patriarcal e ocidental.

Na procura por novos caminhos e espaços é que a hermenêutica feminista da Bíblia tem se apresentado como o jeito que muitas mulheres têm encontrado de ler e interpretar a Bíblia, escapando daquela hermenêutica onde o texto e as interpretações historicamente construídas se tornam autoridades inquestionáveis. Para a hermenêutica feminista, interpretar implica em sair das relações de dominação e exclusão, e construir novos espaços democráticos, abertos a todos e todas, independentemente de sua raça, etnia, sexo, classe social (1).

A Bíblia é uma das matrizes formadora da sociedade ocidental e cristã. Ana Tepedino em seu livro As Discípulas de Jesus fala da importância de estudarmos a Bíblia e o contexto em que foi escrita, pelo fato de ser a Bíblia um livro não apenas religioso, mas também um livro de dimensões cultural, social e política e por ser uma matriz formadora da sociedade ocidental e cristã (2). Por isso acreditamos que uma interpretação crítico-feminista das Sagradas Escrituras pode contribuir para quebrar o sistema patriarcal fechado da igreja e da sociedade.




O Gênero como Instrumento Hermenêutico
“Não se nasce mulher, é preciso tornar-se mulher”!
É com esta frase de Simone de Beauvoir que Ivone Gebara abre um dos capítulos de seu livro Rompendo o Silêncio, onde ela resgata o significado histórico do conceito de gênero.
As análises de gênero aparecem no feminismo nos anos oitenta como meio de avaliar a diferença entre sexos e denunciar o uso de certos poderes a partir da diferença. A categoria de analise de gênero aplicada em diversos campos de pesquisa ajudaram a alertar para dois grandes perigos: o primeiro é considerar o masculino normativo para a humanidade (androcentrismo); e o segundo, crer que a diferença entre homens e mulheres está baseada apenas em fatores biológicos (determinismo biológico).
Para Ivone Gebara, a diferença de gênero é uma diferença entre a multiplicidade de diferenças: diferença entre homens e mulheres, entre homens e homens e entre mulheres e mulheres. E estas diferenças se cruzam com as diferenças de idade, de cultura, de religião e muitas outras.
A leitura da Bíblia através da intermediação da categoria de gênero tem nos ajudado a interpretar a Bíblia re-significando conceitos, doutrinas e símbolos. Indo além da moldura patriarcal na qual fomos ensinadas.
Inquietas, estamos sempre buscando os espaços de resistência e de liberdade. Alguns caminhos e espaços estão sendo abertos para o exercício de uma interpretação bíblica de libertação e de vida para as mulheres pobres, negras, indígenas, camponesas. Mulheres que lutam por um outro mundo possível de equidade e justiça.
Estratégias para uma leitura bíblica a partir da mulher
Mulher criando e recriando. Mulher buscando e tecendo novas maneiras e jeitos de ser, de ler e de dizer. É assim que nascem novos paradigmas de interpretar não só o texto, mas a própria vida.
Acreditar que é possível recuperar e libertar o texto bíblico das suas tendências patriarcais, não significa que ignoramos o fato de que a Bíblia é um livro patriarcal na sua própria estrutura e não somente um problema de interpretação dos textos. Contudo, entendemos que o caminho para contornar este problema está na liberdade das mulheres, enquanto leitoras, para que construam e reconstruam seu próprio significado.
Pensando nisso, Elizabeth Fiorenza propôs uma metodologia para a leitura feminista da Bíblia que ela denomina de “Dança Hermenêutica Feminista”(3).
O primeiro passo, o da “suspeita” ou “desconstrução” visa identificar as distorções patriarcais com atenção para os seguintes problemas:
1. Linguagem androcêntrica, ou seja, reconhecer que a Bíblia é escrita numa linguagem excludente torna invisível a presença, a opressão e a luta e libertação das mulheres;
2. Seleção androcêntrica de tradições históricas, percebendo que muitas informações sobre a atuação de mulheres não foram registradas, porque foram julgadas sem importância ou uma ameaça ao patriarcado;
3. Função patriarcal da canonização: o Cânon do Primeiro Testamento bem como do Segundo exclui textos escritos que mostram protagonismo e experiências de mulheres;
4. Traduções e interpretações androcêntricas que reforçam o seu androcentrismo;
5. Textos silenciados: textos bíblicos que falam de mulheres são freqüentemente silenciados na interpretação oficial, tendo pouca ou nenhuma influência na formação bíblica de nossas comunidades.
O segundo passo, o da “Memória” é o início da reconstrução que se faz partir de comparação de informações bíblicas com outros textos além da Bíblia. Este segundo passo precisa de assistência de pessoas capazes de assessorar não só em analises feminista e de gênero, como também em pesquisas literárias e sócio-históricas da Bíblia.
O terceiro e último passo seria o da “Atualização” e “Anúncio”. Trata-se de traduzir toda essa reconstrução para o nosso tempo, na linguagem do nosso povo, para as suas necessidades e anseios. Isto requer criatividade para que essas descobertas cheguem às nossas comunidades e cause transformação; que não fique restrito a círculos fechados de estudiosos da Bíblia, mas alcance todas e todos, construindo novas relações de parceria e respeito e de interdependência entre homens e mulheres.
Aprender essa dança hermenêutica é um desafio para nós mulheres e homens que acreditamos na igualdade e justiça das relações, e para nós que apesar de reconhecermos o problema patriarcal da Bíblia, continuamos vendo nela também a Revelação de Deus para mulheres e homens.
Ler a Bíblia na perspectiva da mulher é como aprender os passos de uma nova dança. Requer muitos ensaios até acertar o passo. Entre erros e acertos descubro um novo ritmo pra minha dança. Nesta dança me encontro com outras mulheres. É dança que se dança na roda, de mãos dadas.

Dança sensual, provocante. Provoca os modelos hermenêuticos tradicionais, patriarcais, racionais, fechados e unilaterais.

Sigo, dançando, embalada em uma canção, que bem poderia ser o canto de vitória de Isaías 42,14:

Há muito me calei, guardei silêncio e me contive.
Como uma mulher que está de parto
Eu gemia,
Suspirava,
Respirando ofegante...


Notas
(1) Fiorenza, 1992, p.30.
(2) Tepedino, 1990, p.15.
(3) Ottermann, 2003.

Referências bibliográficas
FIORENZA, Elizabeth S. As origens cristãs a partir da mulher: uma nova hermenêutica. São Paulo: Paulinas, 1992.
GEBARA, Ivone. Rompendo o Silêncio: Uma fenomenologia feminista do mal. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000.
TEPEDINO, Ana M. As Discípulas de Jesus. Petrópolis: Vozes, 1990.
OTTERMANN, Mônica. “Gênero e Bíblia: Uma ciranda sem fim”. In: Por Trás da Palavra, São Leopoldo, ano 23, n. 138, 2003.
Sclair, Moacir. A mulher que escreveu a Bíblia. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.


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