Angela Natel On sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015 At 05:41


A segunda imagem na foto é a de meu primeiro quadro em tinta acrílica, de quando comecei a aprender a técnica em 2009. Lembro que enfrentei inúmeros questionamentos a respeito da escolha da imagem: algo obscuro, uma Igreja, um cemitério, uma forca...
Gostei da imagem e a escolhi, dentre muitas outras opções. O objetivo era aprender a pintar em tela, e para primeiro quadro, pareceu-me um bom desafio.
Hoje me senti compelida a escrever a respeito, depois da notícia da selvageria que destruiu obras de arte de valor inestimável para a humanidade no museu da cidade de Mossul, no norte do Iraque, por fundamentalistas religiosos (primeira imagem).
É claro que não há comparação entre as obras destruídas no Iraque e meu primeiro quadro em tinta acrílica, pintado em 2009. Mas há algo em comum entre essas obras: todas foram destruídas sob argumentação religiosa.
Sim, esse quadro inofensivo foi destruído. Eu o guardava como uma relíquia, já que se tratava do primeiro de uma série que vim a produzir. A arte me ajudou em diferentes aspectos: emocional, social, criativo, entre muitos outros. Era um lembrete de que eu poderia ir sempre além, alcançar novos horizontes e superar o medo do desconhecido. Creio que a maioria das pessoas compreende este sentimento com relação a determinados objetos que lhe são caros, não pelo valor de mercado que se lhes atribui, mas pelo valor sentimental e subjetivo que eles representam em uma questão pessoal.
Certo dia, um amigo insistiu para que eu lhe desse de presente este quadro, exatamente pelo que ele representava: meu primeiro quadro. Apesar da relutância interior, pesei o valor do amigo a despeito do valor do quadro, e presenteei-lhe. Por muito tempo encontrei o quadro em um lugar de destaque na sala de jantar da casa deste meu amigo, e me alegrava ver não a imagem ou a peça sendo valorizada, mas minha pessoa, bem como minha constante recordação na casa de um amigo querido.
Até que um dia, em um lugar público, meu amigo contou-me, sem o menor remorso, que uma conhecida autodenominada missionária, ao visitá-lo deu de cara com meu quadro na parede e atribuiu-lhe uma presença supostamente demoníaca, por causa do teor da imagem retratada nele. Diante desta manifestação, e a pedido da religiosa, meu amigo entregou-lhe o quadro, para que fosse destruído.
No momento em que ele me contou, não sabia se ria ou chorava. A única lembrança que tenho do quadro é a imagem da foto – pelo menos, a mania de fotografar tudo o que faço me deu uma vantagem desta vez -, parecia-me inconcebível tal ato e eu não sabia explicar o porquê deste sentimento que se instalou dentro de mim que representava tanta tristeza e tanta indignação.
Eu não sabia até o dia de hoje, quando me deparei com a outra imagem, da destruição das obras de arte no Iraque. Ao ler um comentário de outro amigo, referindo-se à matança de pessoas, compreendi uma frase de Heine que li há muito tempo atrás: “Onde se lançam livros às chamas, acaba-se por queimar também os homens” (prefácio de ‘Fahrenheit 451’ – Ray Bradbury – p.20). A arte é muito mais do que objetos lançados ao mundo, fruto do trabalho humano. A arte é a extensão do homem, de sua criatividade, é a produção cultural do ser humano, a maneira como o ser humano se eterniza e faz história. Quem é capaz de destruir a produção cultural humana, é capaz de destruir um ser humano.
Não é exagero pensar que quando uma pessoa se levanta para queimar livros, cds, imagens ou qualquer produção artística, sob o argumento que for, poderá não distinguir o valor de uma vida quando sua argumentação chegar a âmbitos equivalentes. Quem é capaz de queimar um quadro, pode massacrar uma pessoa, seja com palavras ou atitudes, seja física, emocional ou espiritualmente.
As religiões do mundo não possuem base suficiente para respaldar atos como os descritos acima. Tais atitudes revelam o perigoso fundamentalismo que não enxerga além de seus estatutos, e que por isso os tem acima do valor da vida humana.
Essa é a razão porque senti urgência em deflagrar atos como este, não menosprezando as vidas que se perdem por causa da perseguição religiosa, muito pelo contrário, alertando para o fato de que atitudes como as descritas aqui são o prenúncio de que coisas muito piores podem estar por vir.
Não sei se aquele amigo compreende a profundidade do que aconteceu, e não o culpo por isso. O que me entristece é o descaso para com as implicações de atos tão trágicos como estes.

Angela Natel

27/02/2015

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