Angela Natel On terça-feira, 2 de dezembro de 2014 At 05:32



O deus mais adorado em nossos dias é o deus de Frankenstein. Parece loucura, mas não é. Pode-se observar facilmente como nossa busca pelo transcendente tem caído num antropomorfismo exacerbado.
Isso significa que em nosso desespero por algo além de nós mesmos acabamos por criar uma divindade ou um ser transcendente que não passa de um produto de nossa própria imaginação, um deus 'à nossa imagem e semelhança' e não o contrário.
Trata-se de uma divindade cujas características que reconhecemos são as que nos são convenientes - escolho na Bíblia ou em outras literaturas religiosas somente aquilo que entendo, concordo e aceito, e monto meu deus de Frankenstein conforme minhas necessidades, anseios e lógicas.
Não se trata de um Criador, mas de uma criatura de minha própria imaginação. Posso pensar nesse deus como uma força ao mesmo tempo em que, incoerentemente, me reconheço como sua imagem e semelhança. Falo dele como salvador, poderoso, ao mesmo tempo em que o trato como um gênio da lâmpada totalmente a meu dispôr. Posso reconhecer sua existência e divindade, mas na prática lido com ele como se fosse meu servo, um Papai Noel do ano todo, punindo os maus e recompensando os bons.
Dessa forma, monto meu deus de Frankenstein com peças de inúmeras teologias, mitos e fontes religiosas, sem nem ao menos elaborar uma noção coerente do que pode ser uma divindade.
Um deus que me é conveniente, que atenda às minhas necessidades sem comprometer minhas vontades, um deus construído a partir de minha imagem e limitações.
Sim, e ainda posso querer defendê-lo perante outros, pois é inadmissível para minha teologia qualquer tipo de questionamento.
Este é o deus de Frankenstein, que mais se parece comigo do que eu com ele, apesar de ter sido construído de partes diferentes do espaço e do tempo no imaginário humano. Um deus que nada tem em comum com uma divindade específica dentro de uma unidade de fé - seja cristã, muçulmana, judaica, hindu, animista, etc.
Por si só é uma incoerência existencial, assim como o monstro de Frankenstein, criado a partir do ser humano, sem a possibilidade de interagir de modo saudável com o mesmo, devido às suas inúmeras limitações.
Um deus de Frankenstein é limitado e confuso, incapaz de preencher as lacunas da alma humana, exatamente porque se restringe a ela. Sua dimensão não alcança os limites do inexplicável.
Infelizmente, por ser muito comum em nossos dias, o deus de Frankenstein toma o espaço do transcendente em nossas vidas - nos dá conforto, alivia momentaneamente a consciência, tapa alguns buracos no sistema explicatório de nossa cosmovisão. Sistematizamos facilmente esta divindade, porque cabe em nossa mente, podemos  sondá-lo em todas as suas dimensões. Assim, fica mais difícil sairmos da zona de conforto em busca  de algo maior do que nós mesmos - um Deus inexplicável, pessoal, diferente e acima de todas as coisas criadas.

Sempre gostei da história do monstro de Frankenstein. Só nunca antes tinha imaginado que pudéssemos nos dobrar a uma divindade semelhante a ele.
Por esta razão decidi de uma vez por todas que prefiro mil vezes ser compreendida a compreender, e me dobro ante o inexplicável.
Que meus monstros interiores não tomem o lugar que só a Deus pertence, e que este Deus inexplicável nunca se limite ao tamanho de minha teologia.

Angela Natel - 02/12/2014.


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