Angela Natel On segunda-feira, 27 de outubro de 2014 At 08:15

Responsabilizando-nos pelas máscaras que usamos

Tenho lido várias postagens a respeito do Halloween, com explicações bem superficiais e um tanto quanto gerais, afirmando que Deus abomina essas coisas, etc.
Bom, tendo por base o texto da Bíblia para afirmar o que Deus abomina, é possível também afirmar que toda hipocrisia, falso testemunho, idolatria, egoísmo, avareza, mentira e, principalmente, toda tentativa de se colocar como Deus, bem como afirmar conseguir perscrutar os pensamentos de Deus não são atitudes lá agradáveis a Ele, porque tomam o lugar que é só dEle.
Além disso, falar e divulgar que Halloween é a mesma coisa que comunicar-se diretamente com os mortos, como também já li em alguns textos, não passa de falso testemunho. Há, inclusive, para simplificar a explicação, a base histórica e cultural desta celebração que é o fundamento para o uso de máscaras e fantasias, de utilizá-las exatamente por medo de serem reconhecidos como seres humanos, e assim protegerem-se do ataque de seres não-humanos.
Nesse sentido, a prática não é nada diferente dos usos e costumes que se acumulam em toda a sociedade, inclusive no meio dito evangélico, no que diz respeito a utilizar-se de ‘máscaras’, atitudes assumidamente falsas na representação social a fim de que não se sofra nenhum tipo de retaliação, como no caso de se assumir a verdade.
Dessa forma, falar de Halloween não é mais demoníaco do que endeusar reformadores que nunca tiveram a intenção de serem tidos como super-homens da história cristã, nem mais demoníaco do que inverter valores, agir preconceituosamente, valorizar a forma em detrimento da essência das coisas, defender hipocritamente festas como Natal (de origem não menos pagã que o Halloween) e ainda usar de argumentos com um sentido tal que faça com que pessoas menos informadas acreditem que a voz que ouvem é a de Deus e não a de um ser humano tão falho quanto elas, com suas limitações, preconceitos e também falta de informação.
Dessa maneira, não tomo para mim como se falando ‘em nome de Deus’, mas levanto um questionamento para que se olhe em direção a Jesus, no sentido de condenar mais a hipocrisia do que fontes pagãs, chamando a atenção para a justiça, o amor e a misericórdia mais do que um levante contra culturas humanas que nada mais são do que um reflexo delas mesmas.
Me alegro com a Reforma Protestante, sim, mas não me atrevo a encarar as pessoas envolvidas neste processo (que, de modo algum foi mérito de um só homem) como superiores a qualquer pequenino que volte seu coração para a verdade.
É por isso que considero o Halloween uma ótima oportunidade de reflexão e decisão para significativas mudanças em minha vida pessoal, principalmente no que diz respeito a uma vida de integridade e transparência. Também não ignoro o Natal mas, da mesma forma que no caso do Halloween, ressignifico o que me parece conveniente, já que, como ser humano que sou, posso usar de minha criatividade e trabalhar no desenvolvimento da cultura que me cerca, sem agir de forma incoerente (demonizando uma festa pagã e celebrando outra, ou até mesmo agindo sincreticamente na adaptação de outras festas do calendário denominado pagão às celebrações na Igreja, como tenho observado em muitas falas e ações ditas evangélicas).
Sou, sim, passiva de erro, mas nem por isso deixo de me expor, uma vez que também possuo o direito à liberdade de expressão. Penso ser de bom proveito dar a oportunidade dos leitores de refletir e questionar antes de condenar quem quer que seja. Não condeno quem pensa e age diferente de mim, da mesma forma que espero não ser condenada por isso, uma vez que, creio eu, somente Deus pode, de fato, determinar a condenação de alguém.

Sou grata pela misericórdia de Deus que nos alcança e que torna possível nossa transformação mesmo em meio às culturas imperfeitas que produzimos.

Nesse sentido, com o Halloween, celebro a queda das máscaras de nossa hipocrisia, o fim dessa atitude idólatra de nos colocarmos como deus de nossa sociedade (ao determinarmos quem é salvo e quem deve ser condenado), dessa postura de quem acha que consegue ler os pensamentos e as intenções das pessoas e até mesmo determinar os pensamentos de Deus.
Celebro o fim da fantasia megalomaníaca de quem assume o nome de Cristo sem tentar seguir Seus passos nem se parecer com Ele em suas atitudes. Esta é a verdadeira Reforma que necessitamos: um chamado à mudança de nossas estruturas, talvez menos reforma e mais desconstrução de nós mesmos para que um novo ser humano nasça com uma nova natureza - Cristo vivendo em nós e através de nós, sem máscaras, sem condenações, sem hipocrisia, sem meias verdades e sem dois pesos e duas medidas. Esse tipo de ‘reforma’ com certeza incomodaria por demais muitos dos que defendem a comemoração da tão aclamada ‘Reforma Protestante’ e demonizam o Halloween.
Assim, prefiro apresentar Cristo às pessoas do que tentar convencê-las de seus pecados (já que essa é uma tarefa do próprio Deus e eu não sou Ele). Prefiro apontar para o exemplo de Jesus do que lutar contra culturas humanas que não são, na realidade, ameaças à verdade. Acredito que a luz brilha na escuridão, e por mais densa que esta seja, não impedirá a verdade de resplandecer.
É isso que nossa sociedade precisa: largar as máscaras do medo de ser retalhado por falar a verdade que é Cristo, cheio de graça e de misericórdia, numa justiça que não ataca o outro como justiceiro mascarado, mas que ensina através do sofrimento, da renúncia e do repartir de si mesmo com o outro, independentemente de quem ele seja.
Quando as pessoas perceberem que vivemos num constante Halloween, usando máscaras no dia-a-dia para fugir do que tememos e não assumir nossas verdadeiras responsabilidades, esta ‘festa pagã’ assumirá um novo significado para a nossa cultura e nossa história. Quando as pessoas perceberem que não necessitamos mais de uma reforma, mas sim de um novo nascimento, iremos experimentar mais do que Jesus Cristo realmente viveu e ensinou.
E boas festas a todos!

Angela Natel – outubro de 2014.


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#AMascaraNossadeCadaDia #HappyHalloween

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