Angela Natel On sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013 At 09:50

O nome Tamar significa palmeira. A feminista vitoriana Elizabeth Cady Stanton recusou-se a incluir em seus estudos passagens sobre Tamar, alegando que “eram impróprias para a Bíblia da Mulher” (HIGGS, 2002, p.241). Seu grande pecado? Foi meretriz por um dia, e engravidou do sogro.
            A chave para entender sua história é compreender que tipo de leis e regras esta mulher estava infringindo. Por isso é importante lembrar que, em sua época, a Lei formal ainda não tinha sido dada, os profetas ainda não haviam proclamado sua mensagem, não havia juízes, não havia reis.
            Sua história é narrada no meio da narrativa a respeito de José (Gn.38).  Judá é o epônimo da tribo de onde virá o Messias. Ele ocupa um lugar de destaque. É o irmão que gostaria de salvar José (Gn.37.26-27) e que atua num momento culminante dessa história (Gn.44.18-34). Judá se distancia de seus irmãos após a venda de José. Na terra de Canaã ele se casa e tem três filhos: Er, Onã e Selá. Não se sabe nada sobre a família de Tamar além de que era jovem, cananéia e plenamente fecunda. Tamar casa-se com Er, mas a Bíblia descreve que este morreu por seu comportamento perverso. Higgis (2002, p.243) diz: “a tradição rabínica descreve a natureza da conduta perversa de Er como ‘coito contrário à natureza’ (...) cujo objetivo era impedir que sua mulher engravidasse.”
            Entra em cena a Lei do Levirato: o próximo filho casa-se com a viúva, e o primeiro filho que tiver com ela será considerado filho do falecido. A partir dessa noção é possível a compreensão de que o conceito de vida após a morte está relacionado à cosmovisão oriental de que a família é constituída de vivos e mortos (DAVIES, 1981, p.138.). O ‘nome’ dos mortos deveria ser mantido através do ato de um levir (o irmão seguinte) ao gerar filhos em seu lugar e, como a idéia de Sheol (mundo dos mortos) se contrapõe à aniquilação total, esses antepassados são honrados e mantidos na linhagem familiar, e as propriedades são mantidas na família com o nome da linhagem do falecido (DAVIES, 1981, pp. 138-144). Segundo Sayão, em seu comentário Rota 66 para a Rádio TransMundial, o levirato era uma obrigação social, e a recusa em cumpri-la era claramente reprovada por Deus (SAYÃO, 2008, CD n.2).
            Não se tratava, portanto, de um casamento como nos moldes da sociedade atual, era uma espécie de “serviço de inseminação para a viúva”. A viúva estaria ligada (“casada”) com a família até que não houvesse mais filhos com quem ela pudesse casar. Essa ligação lhe garantia sustento, segurança e reputação. Isso a livraria da indigência, da desgraça e da desonra (HIGGS, 2002, p.244).
            Sem filhos, uma viúva não tinha provisão financeira e era forçada a pedir esmolas ou fazer coisas piores. O costume do levirato (que mais tarde virou realmente uma lei: Dt.25.5) visava evitar essa situação.
            Tamar casou-se, então, com Onã, o segundo filho de Judá. Para Onã, entretanto, seria melhor que Tamar nunca tivesse filhos. Assim o pai dividiria a herança em apenas duas partes. Foi por isso que ele decidiu praticar o que chamamos de ‘coito interrompido’, uma das formas mais antigas de controle de natalidade. No caso de Tamar, era duplamente cruel: não apenas impedia a gravidez (o que ela mais ansiava), mas também lhe roubava qualquer prazer na relação. Onã usava Tamar sem escrúpulos, tratando-a como uma prostituta e não como sua esposa. Seu comportamento (...) permitiu-lhe até um lugar nos dicionários. Em alguns deles, uma das acepções para a palavra ‘onanismo’ é justamente ‘autoprazer’ (HIGGS, 2002, p.245).
                                                                      A Bíblia declara que Deus matou Onã por seu comportamento ofensivo. Em seguida Judá, com medo que seu terceiro filho, Selá, também morresse, mandou Tamar de volta para a casa de seu pai. É possível perceber o quanto uma mulher estava à mercê de uma sociedade patriarcal, sendo identificada como pertencendo a alguém: marido, pai, família do sogro.
Porém, somente uma verdadeira viúva poderia ser recebida novamente na casa de seu pai. Enquanto restasse a Judá um único filho vivo, com quem Tamar poderia casar-se e deitar-se, ela permaneceria ‘casada’ a esta família. Legalmente, portanto, Tamar é considerada noiva de Selá (MURPHY, 2007, p.117). Por reter seu filho, Judá desonrou Tamar, depois a mandou de volta para casa sem dinheiro, sem filhos, e em completa ignomínia. Ela, uma repudiada com três problemas graves:
·         Era jovem, mas não disponível para casar;
·         Aparentemente estéril;
·         Viúva duas vezes.
Foi abusada, enganada e esquecida. Então, na estação de Tosa das Ovelhas, Judá, agora viúvo, apareceu na cidade, e ela decidiu agir por conta própria. A situação tinha a ver com dar continuidade ao nome da família. Selá não poderia se casar enquanto Tamar estivesse viva, porque ele estava ‘preso’ ao levirato, e vice-e-versa. Judá enviuvara (Gn.38).
Tamar queria preservar o nome do marido morto e libertar-se da posição de viúva à espera. Ela tinha o direito de ser a mãe do herdeiro de Judá. De seu ponto de vista, ela estava prestes a fazer um favor a Judá e não apenas a dar-lhe prazer sexual. Ela não procurava casamento, honra ou vingança, mas sim filhos, e o futuro que eles representavam, tanto para a linhagem de Judá como para a sua própria segurança financeira. Ela decidiu sacrificar sua reputação, sofrer e agir em favor de seus objetivos. Ela, então, veste-se de prostituta...

Embora a lei assíria ditasse que as prostitutas comuns deviam permanecer sem véu, as prostitutas cultuais cananéias eram obrigadas a usá-lo. E elas não apenas usavam o véu enquanto esperavam por clientes, mas durante o próprio ato sexual, dando a seus parceiros a ilusão de que eles estavam ‘na verdade, tendo uma relação sexual com a própria deusa’ Dessa forma, os homens podiam convencer-se de que isso não era sexo...fazia parte do culto (HIGGS, 2002, p.250).

            Assim os homens honravam os deuses e representavam o casamento divino de Ishtar com Baal para assegurar fertilidade e prosperidade a seus campos e rebanhos (WALTON, 2003, p.69). Se esse foi o caso de Judá, não se sabe. O que pode ser uma evidência é o uso do véu por Tamar, que distinguia os dois tipos de serviço e que dificultou o reconhecimento dele para com ela. Após o ato, ele deixa com ela objetos que serviam para identificá-lo a fim de enviar mais tarde o pagamento. Tamar conseguiu o que queria, e estava grávida.
            Quando Judá soube que a nora estava grávida, imediatamente mandou que a queimassem viva (Gn.38.24) sem nem sequer mandar interrogá-la. Ele tinha esse direito porque ela pertencia à sua família, ainda que negligenciada. O poder do patriarca naquela época é visto nesta narrativa. Mesmo que Tamar não estivesse vivendo sob o mesmo teto que Judá, ele tinha o direito de determinar quem tinha acesso sexual a ela. Sua gravidez indicava que ela havia sido insubordinada. Como viúva, ela não poderia ter sexo com ninguém. Como estava grávida, tornara-se uma prostituta (HIGGS, 2002, p.256). O castigo comum era o apedrejamento. O fogo só foi mais tarde usado quando se tratava da filha de um sacerdote em caso de incesto (Lv.20.14; 21.9; Dt. 22.23,24) (HIGGS, 2002, p.256.).
            Ao se defender, Tamar não acusou diretamente Judá (Gn.38.25). Ele levou a culpa por sua negligência que a obrigara a tomar aquela atitude (Gn.38.26; Lv.18.15). Aquela mulher estrangeira ensinou a Judá o que era justiça (HIGGS, 2002, p.258.).
            Tamar teve gêmeos. Por causa do parto, o fio vermelho amarrado na mão de um dos bebês se tornou, para Tamar, o símbolo do primogênito. Seus filhos chamaram-se Peres (‘brecha’, ‘rotura’, ‘que abre o caminho’, ascendente de Davi e de Jesus) e Zerá (‘rubor’).

Judá mostrara pouco interesse pela continuação de sua linhagem. Em vez disso, Deus usou uma mulher cananéia, envergonhada por pensar ser estéril, a fim de assegurar que a tribo de Judá não só sobrevivesse, como também viesse um dia a gerar o Messias do mundo (SPANGLER, 2003).


            Antes de sua própria história terminar, Tamar é declarada mais justa que Judá, que foi o filho de Jacó escolhido por Deus. Ela é a única mulher identificada como ‘justa’ no Antigo Testamento.[1] Tamar também é mencionada de forma honrosa no livro de Rute. Tamar é justa no sentido de que teve mais preocupação que Judá pela descendência. Em nota na Bíblia Tradução Ecumênica, na Fenícia do século XIX a.C. a mulher que garantisse pela descendência real a prosperidade do reino era chamada ‘mulher da justiça do rei’ (BÍBLIA, 1994, p.76). Por causa da coragem de Tamar, a linhagem continuou e a vida foi preservada. Por essa razão, a tradição judaica a tem em alta estima.
Tamar se destaca também de outras mulheres na Bíblia porque não se manteve vítima das circunstâncias, nem garantiu justiça para si mesma. Em sua história, é possível compreender que o único pecado imperdoável é rejeitar a graça de Deus (HIGGS, 2002, pp.263-264).


N271 Natel, Angela
                As mulheres da genealogia de Jesus em Mateus, e as
          Implicações teológicas na mensagem do reino / Angela Natel
          . ─ Curitiba, 2012.
                iii., 55 f. : il.

                 Monografia (Trabalho de conclusão de curso de Bacharel
           em Teologia da Faculdade Fidelis)
                  Inclui referências



[1] No Novo Testamento, Isabel é identificada com Zacarias como ‘justos’ - Lc.1.5-6 - e a carta de Tiago pronuncia Raabe como justificada por suas obras - Tg.2.25.

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