Angela Natel On sábado, 16 de fevereiro de 2013 At 09:51

Possivelmente foi através de fontes extrabíblicas que Mateus encontrou os dados para afirmar que Raabe foi a mãe de Boaz. Segundo CHAMPLIN, a identificação da Raabe da genealogia com a personagem do Antigo Testamento é bastante certa porque:
·         O artigo acompanha o nome: ‘a Raabe’, e uma das funções do artigo grego é fazer a identificação;
·         É provável que se não fosse aquela Raabe haveria outra explicação (CHAMPLIN, 1987, pp..268-269).  
Raabe é triplamente marginalizada em sua história: uma prostituta em sua cidade, uma estrangeira para Israel e uma mulher (NOWELL, 2008, p.6).
Em sua primeira aparição, Raabe é a figura central na narrativa. Ela direciona a ação e salva os espias. Quem conhecemos pelo nome na narrativa é Raabe, não os espias comissionados por Josué (Js.2). Em sua segunda e última aparição, ela também não age passivamente. Aparentemente marginalizada, mesmo entre seu próprio povo (ao ponto dela se comprometer a traí-lo sem pestanejar), vivia nos limites da cidade, com reputação comprometida.
Etimologicamente, seu nome está ligado ao senso de inspiração ou expansão, e isso pode ter conotações negativas. Sem mais implicações, o texto indica que prostitutas aparentemente desfrutavam de certo grau de autonomia no sentido de fazer acordos (CARTER, 2002, p.117).  Raabe era definida por sua profissão: ela trabalhava por dinheiro, era uma prostituta comum (em hebraico: zoonah, em grego: porne). Prostitutas eram socialmente excluídas, rejeitadas e comentadas, leprosas morais, toleradas, mas de forma alguma honradas (HIGGS, 2002, p.207).
Essa mulher cananéia fez um acordo para salvar a vida, contudo ela agiu assim baseada em convicções teológicas. Ela afirmou que as vitórias anteriores de Israel sobre os egípcios e os amorreus ficaram conhecidas e que esse acontecimento causou pavor em Jericó (Js.2.8-10). Vinda da boca de uma não-israelita, essa fala é ainda mais marcante. As notícias que haviam chegado até os cananeus sugeriam que Yahweh tinha poder para controlar o tempo, as águas, as doenças, e o mundo animal.  A confissão de fé que ela produziu tem um tom deuteronomístico[1] - cf.Js.2.9; Dt.11.25, Js.2.11; Dt.4.39 (HOUSE, 2005, pp.256-257).
O acordo que os espias fizeram com ela viola a orientação em Deuteronômio 20.10-20 sobre a Guerra Santa. A trapaça de Raabe ocorre no intuito de preservar o povo de Deus. Interessante é notar que o relatório dos espias dado a Josué foi baseado inteiramente nas palavras de Raabe. Não há relatos de que os espias tenham ido a qualquer outro lugar em Jericó além da casa de Raabe, nem sugestão de que eles tenham falado com qualquer outra pessoa além dela. Raabe disse tudo o que precisava ser dito (Js.2.9-11) e os espias a tomaram exatamente pelo que ela disse (CARTER, 2002, p.119).
A batalha de Jericó foi vencida pela traição de Raabe para com seus concidadãos de dentro da cidade. Quanto à sua profissão de prostituta, há versões muito divergentes: alguns comentaristas se posicionam firmemente de que os espias não tiveram relações sexuais com ela. Josefo faz dela simplesmente uma estalajadeira, ainda que o verbo tenha duplo sentido - a frase “os que vieram a mim” também é sugestiva – Js.2.4. (COOGAN, 2007, p.259).
            Há muitas interpretações levantadas a respeito do significado do fio escarlate colocado na janela da casa de Raabe a fim de identificá-la quando Israel viesse tomar a cidade. Uma das interpretações possíveis é a indicação clara de um acordo entre duas partes (KARSSEN, 1974, p. 75). Interessante é notar que os muros de Jericó caíram (Hb.11.30,31), mas a casa de Raabe, construída sobre os muros, não. Não deixa de ser um exemplo de fé.
Quando Raabe é trazida para o acampamento de Israel com sua família, precisa instalar-se na parte de fora do acampamento, pois ele é santo e a presença da família de Raabe, composta de estrangeiros, o tornaria impuro (Js. 6.23; Dt.23.15).
A história de Raabe está menos relacionada com o ‘como’ as coisas acontecem, e mais em ‘por que’ elas acontecem. Sua aparição na narrativa de Mateus presta testemunho à sua tenacidade em meio à tradição. Ela também é mencionada em uma lista de heróis bíblicos que demonstraram sua fé por suas obras (Hb.11). Josué nunca foi mencionado como um dos que trouxeram Israel à Terra Prometida, mas Raabe é louvada por sua hospitalidade aos espias. É a única mulher citada pelo nome e elogiada por sua fé como parte da grande ‘nuvem de testemunhas’ mencionada em Hebreus. Ela se tornou um exemplo assim como Moisés (Hb.11.25). Na carta de Tiago, Raabe é citada como exemplo por sua genuína hospitalidade como deveria ser praticada por todos os crentes (Tg.2.25). De forma intrigante, porém, o epíteto ‘prostituta’ persiste com aparentemente nenhuma compulsão da parte dos autores nem de Hebreus nem de Tiago para justificar isso ou mencionar seu arrependimento (CARTER, 2002, p.772).


N271 Natel, Angela
                As mulheres da genealogia de Jesus em Mateus, e as
          Implicações teológicas na mensagem do reino / Angela Natel
          . ─ Curitiba, 2012.
                iii., 55 f. : il.

                 Monografia (Trabalho de conclusão de curso de Bacharel
           em Teologia da Faculdade Fidelis)
                  Inclui referências



[1] Termo referente ao pacto de Deus com o povo de Israel que estava prestes a ocupar a terra que lhe havia sido prometida. Este pacto baseava-se unicamente no amor e na misericórdia de Deus, tendo como retorno, em gratidão, a obediência do povo (cf. Deuteronômio).

1 comentários:

Thiago Henrique disse...

Prezado a Paz do Senhor.
Pesquisando li outro artigo sobre Raabe que é no mínimo contraditório.
Gostaria que desse uma olhada. Parabéns pelo trabalho. segue o link

http://forumevangelho.com.br/t1815-a-verdade-sobre-raabe

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