Angela Natel On terça-feira, 19 de fevereiro de 2013 At 09:54

O nome da quinta mulher que aparece na genealogia provavelmente era de uma jovem adolescente. Talvez tivesse entre 12 e 14 anos, mas não tinha mais do que 16 quando foi mãe de Jesus (KEENER, 2004, p.46.).
Seu nome significa ‘amargura’ (SPANGLER, 2003, p.285) e a forma hebraica é ‘Miriã’. Essa distinção infundada e artificial entre Maria e Miriã elaborada por tradutores cria uma lacuna entre a mãe de Jesus e seu próprio judaísmo. Segundo o Comentário Judaico do Novo Testamento, a Miriã original foi irmã de Moisés (Êx.2.4-8) e uma profetisa (Ex.15.20); em alguns aspectos, ela é vista como um exemplo para a mulher judia. Contudo, o nome ‘Maria’ evoca no leitor pensamentos sobre uma imagem de ‘Madonna e Filho’, cheia de esplendor, sorriso beatificado e cercada de anjos, em vez do retrato do Novo Testamento de uma moça judia, terrena, num vilarejo de Israel, administrando seu casamento, sua maternidade e outras responsabilidades sociais com cuidado, amor e fé (STERN, 2008, p.28).
Maria teve um papel único na realização do plano de Deus para a salvação da humanidade. Era de família pobre e morava num povoado obscuro da Galiléia. Era uma jovem de fé (observada por sua reação às palavras do anjo Gabriel), humilde e possuía uma aceitação absoluta do plano de Deus para sua vida, o que, como com as mulheres anteriormente analisadas, envolveu grande risco e sofrimento pessoal. Ela encontrou-se grávida pelo Espírito Santo (Mt.1.18).
Na narrativa pré-nascimento de Jesus, aparecem os conceitos de compromisso (formalização legal do matrimônio) e divórcio (anulação desse laço), Mt.1.18-19; Dt.22.22-24. O conhecimento de José acerca de Maria era baseado apenas no testemunho da família e na reputação de Maria. (KAPOLYO, 2010, 1137). Uma grande questão aqui é: como ela encontrou coragem para dizer a José que estava grávida?
Mateus 1.23 é a única vez em que o evangelista se refere a Maria como virgem, numa referência ao profeta Isaías (7.14): “...a virgem ficará grávida e dará à luz um filho...” O termo é traduzido pelos hebreus do Antigo Testamento como ‘virgem’. O vocábulo hebraico usado por Isaías significa ‘jovem sexualmente madura’ (FRANZMANN, 2004, p.1009).
O elemento de dificuldade aqui não é a esterilidade ou idade avançada da mãe (como em muitos casos do Antigo Testamento), mas pela aparente transgressão dos costumes sexuais por Maria e a atitude comum tomada em relação a mulheres suspeitas de adultério. A violação de uma virgem prometida, naquela época, era sancionada como adultério. Essa e as histórias analisadas anteriormente acabam por se entrelaçar, não apenas em seu caráter de parentesco, mas na familiaridade das circunstâncias que envolveram suas vidas (BRENNER, 2001, p.145.).
Maria correu o risco de ser apedrejada (Dt.22.23-24) caso José a delatasse publicamente. Além disso, era quase impossível que alguém fosse crer que a criança não tinha um pai, já que “partos de virgens não acontecem” (DOWSETT, 2002, p.522). Será que foi por isso que ela passou três meses na casa de Isabel? Bem mais tarde, a tradição rabínica acusou Maria de haver se deitado com outro homem, mas o fato de José havê-la desposado demonstra que ele não acreditava nisso (KEENER, 2004, p.47).
O José de Mateus, um carpinteiro, como seu homônimo em Gênesis, é um sonhador. O que o anjo lhe diz vem da história de Abraão e Isaque (cf. Gn.17:19). A diferença é que Abraão era pai biológico de Isaque e José seria apenas o pai terreno ou legal de seu filho (BRENNER, 2001, p.145). Paulo referiu-se ao nascimento de Isaque do ventre estéril de Sara como um tipo da ressurreição, e Mateus o toma, com ao menos igual plausibilidade, como um tipo do nascimento de Jesus (KERMODE, 1997, p.426). José dá proteção legal a Maria, e, segundo a narrativa bíblica, não tem relações sexuais com ela até o nascimento de Jesus. Há uma inversão do modelo do Antigo Testamento para o Modelo do Novo Testamento (Quadro 2):

Modelo do Antigo Testamento
Modelo do Novo Testamento
Dupla ou tripla maternidade
Dupla paternidade
matriarcal
patriarcal
Quadro 2 – Modelo do Antigo Testamento para o Modelo do Novo Testamento

O papel de Maria é diferente daquele das matriarcas do Gênesis e de outras parentas. Ela não é mais que um recipiente glorificado; um recipiente para uma carga muito preciosa, mas um recipiente (BRENNER, 2001, p.148).

Diferente dos pares de matriarcas do Gênesis e de outros lugares (e.g. Ana e Penina – 1-Sm.), as duas mulheres do Novo Testamento não são apresentadas como rivais: elas são parentes (Lc.1.6), mas não são casadas com o mesmo homem. Ambas são bem diferentes: Isabel é de descendência clerical, casada, idosa e estéril. Maria é leiga, comprometida, não casada, jovem e fértil. Maria é socialmente inferior a Isabel. Nesse caso, repete-se a questão da superioridade de um filho mais novo (ou de um filho nascido de uma mulher socialmente inferior). Assim como no caso dos patriarcas, é uma questão de escolha, não de nascimento ou posição social. Assim foi com Judá, Perez, Salmon, Boaz, Obede, Davi e Salomão. É uma tradição de filhos mais jovens que são superiores aos mais velhos (BRENNER, 2001, p.149).
Isabel e Maria (como Noemi e Rute) são apresentadas como destituídas de intrigas e competição em relação uma à outra, bem como ao seu ambiente. A aceitação de seus respectivos destinos é completa, digna e serena. Elas representam um avanço na geração feminina. Os futuros filhos de Isabel e Maria, como suas mães, são o começo de uma linhagem que será melhor e maior do que a de seus predecessores (BRENNER, 2001, p.150). A mensagem do Reino de Deus desponta nessas transformações.
O parto de Maria (Lc.2.1-7) é narrado em termos diferentes (de Isabel) e constituído de acordo com um outro modelo do Antigo Testamento. Por decreto real, José tem de se registrar em Belém, sua cidade natal (vv.1-5). Isso serve para realçar que José (o pai legal do bebê) é descendente da casa do rei Davi e ligar a história com as de Tamar e Rute.
Maria foi a primeira ‘meramente humana’ a sentir a presença física de Jesus. Foi a primeira a ouvir suas palavras, a primeira que o alimentou. Suas raras aparições durante a vida de seu filho revelam a bondade e também a sua imperfeição quando deixou de compreender os atos de seu filho de doze anos (Lc.3.41ss). Mais tarde, ela se apoiou na autoridade e julgamento do Senhor Jesus (Jo.2.3) quando ele expressou uma terna censura pela sua arrogância - Jo.2.4 (GREENLEE, 2009, p.1231). Os pais da Igreja a designaram “theotokos, aquela que deu à luz o divino Filho de Deus” (EVANS, 1986, p.55). Os Evangelhos mencionam a presença de Maria apenas nas narrativas sobre o menino Jesus discutindo com os mestres em Jerusalém, no milagre de Caná, Maria vindo com os irmãos de Jesus e perguntando por ele (Mt.12.46-50; Mc.3.31-34; Lc.8.21) e nas palavras de Jesus na cruz.
O maior sofrimento de Maria foi ver o filho amado ser envergonhado e torturado, deixado para morrer como o pior dos criminosos. Sua maior alegria foi ver seu filho ressuscitado, e ter recebido o Espírito Santo, junto com os outros discípulos - At.1.14 (SPANGLER, 2003, p.285).
Para Mateus, Jesus é o Filho de Maria e de Deus. Foi honrada, não apenas por ser a mãe de Jesus, mas também como sua primeira discípula. Viúva, por ocasião da crucificação de Jesus foi entregue sob tutela de João, discípulo do Salvador (Jo.19.25-27). O próprio João menciona Maria em seu evangelho tanto no início quanto no fim do ministério de Jesus (Jo.2.1-11; 19.25-27).
Importante é ressaltar, de acordo com Evans (1986, p.56), três pontos sobre o significado de Maria:
·         Como ser humano e mãe, é uma testemunha da verdadeira humanidade de Jesus, mas também de sua origem divina;
·         Deve ser reconhecida como bem-aventurada de Deus (Lc.1.42-58) e, na sua boa vontade e dedicação à vontade de Deus, na sua fé  e - na sua obediência-, ela é um exemplo a ser honrado e imitado, como são todos “aqueles que, pela fé e pela longanimidade, herdam as promessas” (Hb.6.12). H. Kiny descreve Maria como ‘o exemplo e modelo da fé cristã’;
·         A tremenda responsabilidade que Maria recebeu, a maneira pela qual a sua fé, o seu amor e o seu crescente entendimento foram descritos, e sua posição ao lado dos demais enquanto aguardavam a vinda do Espírito Santo prometido, deveriam talvez ser considerados como indicações do novo status que a vida do filho de Maria deu às mulheres no Reino de Deus.
Seja na anunciação, quanto na visitação ou no nascimento de Jesus, Maria demonstrou uma autonomia pessoal significativa. Em Atos 1.4, embora ela fosse destacada sendo citada pelo nome, vem depois das outras mulheres e não parece ter nenhuma precedência particular sobre o grupo.
É importante esclarecer que o Novo Testamento nunca fundamenta, por implicação ou por afirmação definida, a influência de Maria na Antropologia Bíblica, na doutrina da salvação ou na doutrina da Igreja.


N271 Natel, Angela
                As mulheres da genealogia de Jesus em Mateus, e as
          Implicações teológicas na mensagem do reino / Angela Natel
          . ─ Curitiba, 2012.
                iii., 55 f. : il.

                 Monografia (Trabalho de conclusão de curso de Bacharel
           em Teologia da Faculdade Fidelis)
                  Inclui referências

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