Angela Natel On quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013 At 09:55

No Antigo Testamento, tanto nas vidas das mulheres analisadas na presente pesquisa como em diversos outros personagens, é possível observar um comportamento que alguns chamam, em hebraico, hesed. No livro de Rute essa palavra aparece 3 vezes, 2 relacionadas diretamente a Rute. Hesed relaciona-se com lealdade, justiça, comprometimento, fidelidade. Sempre que pessoas de fé praticam hesed, o próprio Deus atua neles (HUBBARD, 2008, p.108.). Em tal conduta, Sua vontade é feita “assim na terra como no céu” (Mt.6.10). Hesed é o estilo de vida ideal para Israel e está em plena concordância com os princípios do Reino de Deus, e requer:
·         Comprometimento extraordinário;
·         Não buscar vantagem própria;
·         Disposição para o sacrifício;
·         Aceitar riscos;
·         Fazer as coisas da maneira própria;
·         Abnegação pessoal;
·         Devoção leal, confiabilidade;
·         Compaixão, bondade (HUBBARD, 2008, p.148.).
O Antigo Testamento afirma frequentemente que Yahweh é um Deus que trata seu povo com hesed (HUBBARD, 2008, p.148.). No Comentário Bíblico JERÔNIMO define-se hesed por “fidelidade fundamentada na convicção de que Yahweh será fiel ao seu povo de aliança” (LAFFEY, 2007, p.1088). A mulher fiel, em termos patriarcais, é aquela que conscientemente procura um descendente para seu marido morto (como Tamar em Gênesis 38). Da mesma forma, a fé interior só pode ser reconhecida através de atos exteriores, como observamos na história de Raabe (KARSSEN, 1974, p.80).
Os cananeus percebem o papel de Deus nesses acontecimentos e concluem que Yahweh é Senhor dos céus e da terra (cf. Js.2.11). Esse Deus cruza todas as fronteiras e acaba com idéias limitadas da divindade. A condição de estrangeira de Raabe, por exemplo, realça o tema do relacionamento entre Israel e Deus, que abençoa povos além do seu grupo étnico (cf. Gn.12.1-9).
No caso de Rute e Boaz, ambos emergem como pessoas de personalidade extraordinária, pessoas cuja hesed deve ser imitada (HUBBARD, 2008, p.189.). Em todo o livro de Rute, hesed significa lealdade, solidariedade (BÍBLIA, 1994, p.1286). Boaz chamou o ato de Rute de hesed (Rt.3.10). Dessa forma, Boaz tratou Rute tão bondosamente como Yahweh tratava Israel. Noemi também chamou o tratamento extraordinário de Rute de hesed.
Auto-sacrifício, algumas vezes, é percebido como um elemento natural do caráter e papel da mulher (ROWELL, 2002, p.151). Mas essa característica torna-se evidente na vida de qualquer um dos súditos do Reino de Deus, já que todos os seguidores de Jesus são conclamados a negar a si mesmo, tomar a sua cruz e seguir o Mestre (Mt.16.24).
            Segundo Sayão (2008, CD n.5) a grande ironia da história de Bate-Seba é o contraste entre a manipulação e o pecado do rei, ‘homem de Deus’ e o estrangeiro Urias, que age em completa responsabilidade, com hesed.  Nesse contexto, Bate-Seba teve de assumir a responsabilidade por seu filho até mesmo após a morte do rei.
            Finalizando o ciclo dos personagens analisados, José, marido de Maria, demonstra hesed, uma vez que poderia ser acusado de violar a lei e explorar a esposa como prostituta. Além de arriscar perder o dinheiro do dote, ser magoado com traição sexual (não havia como ele ter provas físicas) e perder a reputação, obedeceu à Palavra de Deus (Mt.1.24) e foi fiel em seu compromisso.
Há uma sequência de contrastes entre o suposto povo de Deus e o personagem da história em questão, cujo hesed é evidenciado em suas atitudes (Quadro 3):

Negligência / incredulidade
Justiça / hesed / fé / lealdade
Judá
Tamar
Israelitas no deserto
Raabe
Israel na época dos juízes/Judá após exílio
Rute / Moabe
Davi
Bate-Seba / Urias
Autoridades judaicas e líderes religiosos
Maria / José
Quadro 3 – Contraste versus Atitudes
Fonte: Esquema elaborado a partir do texto de Hutchison (2001, p.153).

            Assim, a lealdade, a fé, a justiça, não se encontravam somente entre os que se enquadravam no padrão que a lei, a etiqueta e os papéis sócio-culturais determinavam. A renúncia de Rute, por exemplo, prefigurava o ensino de Jesus: para ser seu discípulo, requer que se renuncie a todos os laços familiares por amor ao Reino de Deus (Mt.8.21;10.37:19.29) (HUBBARD, 2008, p.167.).
É importante notar que no mesmo capítulo da genealogia, Mateus apresenta Jesus como “aquele que salvará seu povo dos seus pecados” (Mt.1.21), e esse versículo pode implicar uma rápida passada de olhos sobre os tão conhecidos pecados de seus progenitores. Essas mulheres simbolizam que a graça, em Cristo, tornou-se mais poderosa que o pecado.
O Novo Testamento fala-nos muito pouco da ação de Maria de Nazaré. O que mais chama a atenção do leitor dos textos neotestamentários é que os autores atrelam a história de Maria à de seu Filho. Sua vida parece subordinada à dele. Quase tudo o que foi escrito sobre Maria, é em função de Jesus e de sua missão. Ela é definida, em primeiro lugar, como a mãe de Jesus, de Nazaré, aquela que fez a vontade de Deus para dar ao mundo Seu filho. Acentuar a dependência de Maria em relação a Jesus foi uma constante nas Igrejas cristãs até os dias de hoje, embora, na devoção popular, Maria tenha uma ação autônoma em relação a seu filho.
Do ponto de vista da história bíblica, parece incontestável o fato de que Maria fazia parte do movimento de Jesus e, sem dúvida, antes dele, já vivia pessoal e comunitariamente as esperanças proféticas anunciadas no antigo Israel. Isto quer dizer que a história de Maria não começa com a gravidez, com a espera de seu filho. Tudo indica, apesar da pobreza de documentos a respeito, que, com outras mulheres e dentro dos limites da cultura da época, Maria já fazia parte de um movimento cuja expressão histórica se manifestou mais plenamente com seu filho Jesus e seus seguidores.
Os quatro evangelhos não apresentam atitudes profundamente marginalizadoras da mulher. Tudo indica que havia certo consenso quanto à participação de mulheres no movimento de Jesus. Tanto Jesus quanto seu movimento quebraram certos costumes judaicos na relação com as mulheres; por sua vez, algumas mulheres também romperam com o papel que lhes era socialmente imposto. Aparecem, então, como seguidoras, como pertencentes ao ‘grupo’ de Jesus, embora nada do que delas se diz as coloque em grande evidência, com exceção do episódio da ressurreição (GEBARA, 1994, pp.75-76).
Deus constantemente lembra Israel que eles não eram escolhidos por serem uma nação grande ou importante. As histórias analisadas aqui revelam mais da compaixão misericordiosa de Deus do que da justiça de Israel (Ex.20.2; Dt.9.2; 2 Sm.7). Como Israel, as mulheres da genealogia de Jesus em Mateus também são redimidas. Elas sobreviveram e se tornaram figuras exemplares para os cristãos do Novo Testamento, onde elas aparecem em listas de um jeito ou de outro, incluindo Mateus.1:1-11, e como exemplos de justos (Hb.11; Tg.2). Rowell (2002, p.150) comenta: “nossas diferenças enquanto indivíduos devem ser abraçadas, não diluídas ou abusadas, quando entramos para a comunidade do povo de Deus...”
            No próprio Comentário Judaico do Novo Testamento tem-se a declaração: “Por meio de Yeshua, o Messias judeu, gentios, mulheres e escravos têm a salvação igualmente com os judeus, os homens e os livres” (STERN, 2008, p.27). Pode-se dizer que Mateus contrapõe a ação libertadora de Deus à rigidez da lei sobre a pureza do sangue e da raça. Além disso, J. Jeremias, ao considerar o impacto do Reino de Deus na vida do crente, fala sobre o lugar das mulheres. Evans (1986, p.41.) afirma: “em nenhuma outra esfera social a nova vida fez uma incursão tão surpreendente nas situações quotidianas como aqui.”
           Jesus curou mulheres, deixou que elas o tocassem e o seguissem; falou com elas e a respeito delas sem restrições. Ele se relacionou com mulheres principalmente como seres humanos e não como seres sexuais, i.e., ele estava interessado nelas como pessoas, vendo o seu sexo como parte integrante, mas de modo nenhum como a totalidade de sua personalidade.
            Portanto, inclusão nunca foi uma idéia nova, mas reforçada a cada período da história pela prática dos princípios do Reino de Deus (Sl.47;96), tanto no Antigo Testamento quanto no Novo Testamento, quando o Reino manifestou-se em sua integralidade. Ninguém, homem ou mulher, é condenado sem esperança, ninguém precisa se sentir tão sujo, tão indigno, tão enfraquecido que não tenha possibilidade de ser conduzido para dentro do círculo de compaixão de Deus e atenção misericordiosa. Mulheres assim, como os homens, são de valor tão imensurável para Ele.
A inclusão das mulheres celebra a inclusão dos gentios na genealogia e missão. Nesta perspectiva, popularizada por Martinho Lutero, focada nas mulheres como gentias em antecipação à Grande Comissão, na qual Jesus é visto como mais do que um Messias judeu. Esse ponto de vista coloca que uma vez que o Evangelho de Mateus cita sangue gentio na linha messiânica, o evangelho teria que ter um apelo para eles. Além disso, a mensagem de Cristo lembraria os judeus da mensagem messiânica universal. Em Mateus 28, o Cristo ressurreto declarou: “Toda autoridade me foi dada no céu e na terra” (28.18). Assim falou o filho de Davi, em quem a aliança com Davi é cumprida. Nos versos seguintes ele ordenou: “Vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os, ensinando-os a observar tudo o que eu lhes ordenei...” (28.19).


N271 Natel, Angela
                As mulheres da genealogia de Jesus em Mateus, e as
          Implicações teológicas na mensagem do reino / Angela Natel
          . ─ Curitiba, 2012.
                iii., 55 f. : il.

                 Monografia (Trabalho de conclusão de curso de Bacharel
           em Teologia da Faculdade Fidelis)
                  Inclui referências

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