Angela Natel On quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013 At 10:00

Nos tempos bíblicos, a mulher não tinha grande valor, e tinha menos ainda se fosse viúva, pobre, sem filhos ou estrangeira. A partir da história das cinco mulheres analisadas, percebe-se que todas elas conceberam descendentes de Judá, prefigurando Maria – uma demonstração da intervenção de Deus manifestando-se através da marginalidade delas.
            Acompanhando essa mesma linha, viu-se que Mateus evocou, na genealogia, mulheres em situação de impureza segundo os preceitos da Lei judaica. Pode-se, portanto, dizer que Mateus contrapõe a ação libertadora de Deus à rigidez da Lei sobre a pureza do sangue e da raça. Trata-se de uma lição da universalidade (no sentido de acessibilidade ao Reino de Deus), que não se limita à descendência racial (SILVA, 2002, p.96).        
Cada história vista evoca o retrato do gentio marginalizado, demonstrando que os propósitos de Deus não são ditados por questões sociais, políticas ou até mesmo de cunho religioso ou normativo. O Senhor teve um lugar em Seu Reino para mulheres pagãs como Raabe, Tamar e Rute. Até lhes concedeu a honra de serem ancestrais de Jesus (Mt.1.3-6). No fim, elas foram enxertadas nos outros ramos da Oliveira de Israel (Rm.11.17); tais transfusões de gentios à corrente sanguínea do povo escolhido demonstraram o propósito de Deus de abençoar ‘todas as famílias da terra’ (Gn.12.1-3; Mt.1.2-6).
Desse modo é possível compreender que Yahweh se importa com todas as ‘Rutes’ do mundo, i.e., todos os estrangeiros desterrados, todos os marginalizados, injustiçados, e deseja redimi-los para a comunhão consigo. Yahweh dá boas vindas aos estrangeiros fiéis, soando como a mensagem de Jonas e colocando uma pedra fundamental teológica sobre a qual Jesus mais tarde edificou (Mt.28.18-20; At.1.8). Deus oferece misericórdia ao desolado, ao amargurado, ao humilde, aos que não possuem descendência, a todas as nações. (HOUSE, 2005, p.583.). Ele mostra, dessa forma, como pode transformar tragédia em triunfo, do mesmo jeito como fez com Seu Filho.
Cada narrativa analisada demonstra que Yahweh concede misericórdia ao crente e oferece graça a todos os que desejam abraçar as convicções da fé. Nesse sentido, a salvação nunca deixou de ser pela fé, seja antes, seja depois da encarnação propriamente dita, remetendo-nos a questionar se a entrada no Reino de Deus pode ser determinada por regras humanas, aparência, ou até mesmo comportamento. Uma vez que a cosmovisão do Reino é cristocêntrica, o relacionamento com Deus e com o próximo serão os fatores determinantes para a identidade do verdadeiro cidadão do Reino dos Céus. Como relacionamentos são dinâmicos, podendo apenas ser norteados por princípios de crescimento e convívio, somente Deus pode saber com segurança quem são os verdadeiros cidadãos de Seu Reino. É por isso que em várias parábolas Jesus deixa claro que a distinção entre quem pertence ou não ao Reino só será feita no fim dos tempos, quando o joio será separado do trigo (Mt.13). Alguns são atraídos pelo Reino de Deus, outros estão à sua margem, e ainda outros estão realmente nele (Mt.13.24-30,36-40,47-50). Contudo, não cabe a nós dizer quem está nele e quem não está – o Reino é de Deus, não nosso.
            Além das implicações éticas, a missão dada por Jesus a todos os seus seguidores é de ir até o diferente, e entre os diferentes fazer discípulos, através do testemunho, da graça, da justiça e da misericórdia (Mt.8.11;28.18-20).
            Enfim, a mensagem do Reino de Deus é influenciada pela presença dessas mulheres e manifesta a solidariedade de Jesus para com o seu povo. Através de suas mães, Jesus, o Messias, torna-se solidário da história de Israel, com todas as suas irregularidades; ainda mais, ele tira o coração humano do gueto da norma dos homens para abri-lo à liberdade. Por isso, cabe a cada um que anseia fazer parte do Reino de Deus, voltar seu coração às histórias dessas pessoas que agiram segundo a fé que tinham em Deus para viver acima de suas misérias, consciente de que somos todos ramos da mesma oliveira, e a história delas é também a nossa história.
           










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 N271 Natel, Angela
                As mulheres da genealogia de Jesus em Mateus, e as
          Implicações teológicas na mensagem do reino / Angela Natel
          . ─ Curitiba, 2012.
                iii., 55 f. : il.

                 Monografia (Trabalho de conclusão de curso de Bacharel
           em Teologia da Faculdade Fidelis)
                  Inclui referências

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