Angela Natel On segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013 At 09:53

 Dentre as cinco mulheres mencionadas na genealogia de Jesus em Mateus, é certo que Bate-Seba tem o menor registro histórico na Bíblia. ‘Filha de Eliã’, (2-Sm.11.1-5), um dos principais guerreiros de Davi, neta de Aitofel, o gilonita (2 Sm.23.34), esposa de Urias, o heteu, um soldado (provavelmente mercenário) no exército de Davi. As referências a Bate-Seba enfatizam a injustiça para com os subordinados impotentes, e sugerem que Davi sabia exatamente de quem era a casa que estava observando e que, portanto, conhecia bem Bate-Seba (WALTON, 2003, p.349).
Sem nome na genealogia de Mateus, Bate-Seba tem uma história que começa em tragédia. Seu nome significa “Sétima filha” ou “Filha de um Juramento”. Bate-Sua é um modo alternativo de chamá-la.  Alguns autores defendem que ela talvez fosse uma estrangeira, por ser casada com um heteu (BRENNER, 2001, p.170.). Urias era um dos servos leais de Davi no campo de batalha; segundo Higgs, ‘um santo entre os homens’ (HIGGS, 2002, p.165.). Seu nome significa ‘Yahweh é luz’, indicando que sua família, apesar de estrangeira, conhecia o Deus de Israel (HOPPE, 2004, p.298).
            O escritor bíblico descreve que Bate-Seba era bela e formosa. Na primavera, ela encontrava-se tomando um banho ritual que marcava o fim da menstruação. Em Jerusalém os telhados eram planos e serviam como um quarto extra na casa, usado para adoração, para dormir, ou para secar coisas como frutas e fibra de linho – tal como no telhado de Raabe coberto de linho (HIGGS, 2002, p.162). A informação de 2 Samuel 11.4 é referente a Levítico 15.19-24: Com isso o relato deixa claro que Bate-Seba certamente não estava grávida (evidenciando que Urias não poderia ser o pai da criança que ela concebeu logo em seguida): ela tinha esperado os sete dias requeridos após o fim do sangramento e tomou seu banho ritual, que foi quando Davi a viu. Naquele dia, portanto, ela devia estar chegando à metade do seu ciclo mensal, o período em que normalmente ocorre a ovulação (HIGGS, 2002, p.171). Uma tradução alternativa do questionamento de Davi a respeito de Bate-Seba também sugere que ele já a conhecia: ‘Aquela não é Bate-Seba?’ (WALTON, 2003, p.349).
Há uma grande controvérsia a respeito da posição de culpada ou inocente com relação ao caso do adultério de Davi com Bate-Seba. Será que ela estava em condições de negar uma ordem do rei? (SPANGLER, 2003, p.177). Muitos têm repreendido Bate-Seba por seu ritual. Um insiste que ‘se ela tivesse sido uma mulher prudente e recatada, certamente teria olhado para os terraços adjacentes dos quais seria facilmente vista, outro reclama: ‘Davi pode ter sido um voyeur, mas Bate-Seba foi uma exibicionista’ (HIGGS, 2002, p.163). Pelo texto bíblico, parece que ela não tinha muita escolha (2 Sm.11.4). O escritor bíblico diz ‘no caso de Urias, o heteu’, e não ‘no caso de Bate-Seba, a adúltera’ porque Davi tomou a mulher de Urias e depois tomou a vida dele. De acordo com a tradição hebraica. Higgs (2002, p.168) diz: “o adultério era um pecado contra o marido. Portanto, em caso de adultério, era sempre o homem que era lesado – sem importar se a mulher também estivesse sendo traída ou não.”
Ao se observar o texto de 2 Samuel 11, é possível perceber que o verbo ‘enviar’ ocorre regularmente nos primeiros seis versículos do capítulo, indicando o poder e autoridade de Davi (‘enviou Joabe’, ‘enviou mensageiros’, ‘enviou-os para que a trouxessem’, ‘enviou uma mensagem’). O verbo hebraico traduzido como ‘trouxessem’ no v.4 poderia ser traduzido como ‘ trazer à força’, sugerindo que Bate-Seba foi raptada (WEANZANA, 2010, p.395).
            Bate-Seba tem sido descrita como uma Eva (Gn.3.12) do Terceiro Milênio, responsável pela queda de Davi. Há os que concluem que ela sabia o que era certo, mas não o fez. Outros insistem que ela foi apenas uma vítima inocente da lascívia do rei, à mercê de um homem que poderia ter qualquer mulher que desejasse, sem fazer perguntas. O texto sugere que os homens de Davi não perguntaram se ela queria ir, simplesmente a levaram. (HIGGS, 2002, pp.169-170.). De acordo com o Comentário das Mulheres da Bíblia, Bate-Seba não tinha escolha a não ser obedecer ao rei. O equivalente disso em nossos dias provavelmente está próximo do estupro (DOWSETT, 2002, p.522).
            Com respeito a essa primeira vez em que ela aparece na narrativa bíblica, alguns autores postulam que Bate-Seba foi vítima do desejo de um rei, mas encontrou coragem para suportar a tragédia. Quando seu marido, o soldado Urias, encontrava-se no campo de batalha, Davi a mandou trazer e deitou-se com ela, resultando em uma gravidez. Se Bate-Seba tentou recusar Davi, foi ignorada. Diante do silêncio dela na narrativa, somos forçados a montar o quebra-cabeça de seu caráter com base apenas em suas ações.
            Sem diálogos, sem indicação de afeto, parece ter sido uma relação unilateral da parte do rei, abusando de seu poder e de sua autoridade a fim de satisfazer os próprios desejos. Bate-Seba falou pela primeira vez na história quando informou ao rei que estava grávida (2 Sm.11.5). No hebraico, a mensagem tem apenas duas palavras: harah anoki = ‘eu estou grávida’ (WEANZANA, 2010, p.395).
            Ao ser informado da gravidez de Bate-Seba, a primeira atitude de Davi é mandar buscar Urias e enviá-lo para ter relações sexuais com sua esposa, a fim de que o filho fosse considerado dele e não de Davi. É possível entender isso porque no texto ocorre novamente o eufemismo com a palavra ‘pés’: “Desce à tua casa e lava os teus pés” (2 Sm.11.8). O comportamento de Urias é narrado em 2 Samuel 11:9-11. Urias estava comprometido com a instituição israelita confederada antiga da guerra santa. A presença da Arca da Aliança sugere que era um tipo de guerra santa, o que implicava em certas restrições especiais (Js.5.4-8; Dt.23. 9-11; 1 Sm. 21.2-6). A imagem de Urias como um soldado irrepreensível sugere que ele aceitou sua missão sem questionar, mas é provável que tenha ficado surpreso com as táticas empregadas (WALTON, 2003, p.350; ROSENBERG, 1997, p.150). Pela narrativa sabemos que os planos de enganar e depois matar Urias não vieram de Bate-Seba. Ela permanece escondida enquanto grávida até quando Davi mandou matar seu marido (HIGGS, 2002, p.149.).
            Em 2 Samuel 12, o profeta Natã confrontou Davi através de uma história. Ao descrever a única ovelha que era “como uma filha para ele”, a palavra filha (em hebraico bath) acaba aludindo a Bate-Seba, uma simples propriedade. Já se observou que a mulher tinha a condição de propriedade na família, ainda que pudesse tomar algumas decisões e manter certa influência na sociedade. Desse modo, parece que Bate-Seba foi considerada inocente, e sofreu muito. Em 2 Samuel 12.24 ela não é mais chamada esposa de Urias (2 Sm.12.15), mas esposa de Davi. De acordo com o Comentário ATOS do Antigo Testamento, o que fica claro aqui é que o adultério e o assassinato ocorridos são apenas conseqüências de um crime mais grave: o abuso de poder (WALTON, 2003, p.350).
            Infelizmente, Bate-Seba sofreu terríveis conseqüências por causa de Davi: enviuvou e perdeu seu primeiro filho. Porém mais tarde foi mãe de cinco filhos, um deles Salomão.
Apesar de parecer extremamente cruel o castigo dado por Deus, de tirar a vida de um bebê indefeso, deixar os culpados livres e o filho inocente morrer, forçar a mãe a assistir o sofrimento de seu filho até a morte para pagar por seus pecados, ilustra exatamente qual seria o plano de Deus para a salvação da humanidade, e como o Reino de Deus chegaria. O sofrimento de Bate-Seba prefigurava o sofrimento de Maria ao presenciar a morte de seu filho no lugar dos verdadeiros culpados por seus pecados. Higgs comenta: “a criança não havia nascido doente. A criança afligida por Deus. Assim como o Messias seria afligido e tomaria sobre si os pecados de Davi e Bate-Seba.” (HIGGS, 2002, P.182.).
Quando se tornou viúva de Urias, Bate-Seba observou o luto habitual de sete dias, mais outras formas de rituais de impureza (Lv.12.2; 15.19); depois Davi mandou buscá-la e se casou com ela. Salomão foi o segundo filho dos dois (2 Sm. 11.24,25).
Marcada pela primeira vez em que o grande rei Davi mostra sua natureza pecaminosa, Bate-Seba tornou-se a esposa de maior confiança e, mais tarde, a rainha-mãe. (SPANGLER, 2003, p.175).
Em 1 Reis 1-2, a posição de Bate-Seba na corte é precária. O rei que cometeu um assassinato para tê-la está próximo da morte. Ela foi substituída na cama de Davi. A não ser que Salomão seja bem sucedido, ela perderá tudo. Trabalhando junto ao profeta Natã (já que o profeta não tinha a facilidade do acesso imediato de que Bate-Seba desfrutava), ela ajudou a assegurar que a vontade de Davi de ter Salomão no trono como sucessor fosse cumprida (MARTIN, 2009, p.541). Ela arrisca tomar uma atitude mais audaz do que Natã a aconselhou, reformulando o apelo dele como uma crítica velada a Davi. E ela acrescenta a essas palavras argumentos com o intuito de tocar o orgulho de Davi e despertar sua raiva: a existência de uma conspiração a favor de Adonias, os nomes dos principais conspiradores e o iminente perigo contra ela e seu filho (WALSH, 2007, p.352).
Com a ascensão de Salomão ao trono, Bate-Seba se tornaria a rainha-mãe, um cargo político importante. Citada como ‘mãe de Salomão’ (1 Rs.2.13) e ‘a mãe do rei’ (1 Reis 2.19), viu seu filho agir contra sua vontade quando Adonias, outro filho de Davi, pediu que ela intercedesse junto a Salomão para que lhe desse em casamento a mulher que costumava esquentar Davi antes de morrer. O que estava em jogo aqui era o costume de que quem possuísse as mulheres do rei teria direito a lutar pelo trono. Entretanto, o texto informa que a moça em questão não fora desposada por Davi, e ainda era virgem (1 Rs.1-2). Por isso é uma incógnita indagar se Bate-Seba estava ou não tentando proteger ou afastar seu filho do trono (BAKER, 2002, p.186.).
            A rainha-mãe gozava em Israel e nos povos vizinhos de honrarias especiais (1 Rs.2.19; 15.13; Jr.13.18). Estar sentado à direita de alguém era estar no lugar de honra (Sl.45.10; 110.1). Como se pode observar:

...há três tipos de rainhas no mundo antigo. A mais comum à nossa visão era a esposa principal do rei (e.g. Ester). Embora às vezes essas consortes reais não passassem de ‘ornamentação’ em outros contextos (como entre os hititas do segundo milênio), elas atuavam como representantes reais com amplos poderes (...). Um outro tipo era a esposa (ou mãe) do rei que ascendia ao trono após sua morte e reinava em seu lugar (e.g. Atalia, de Judá e Hatshepsut do Egito). E por fim, o papel ilustrado por Bate-Seba. A extensão com que a rainha-mãe exerceria um papel significativo ou influente nas questões judiciais, econômicas ou sociais, dependia de sua personalidade. O fato de que o nome da mãe é mencionado em relação a quase todos os reis de Judá (embora não quanto aos reis de Israel), sugere que seu papel era bastante importante na monarquia davídica (WALTON, 2003, p.369).


Nos tempos antigos, mulheres podiam ocupar posições de autoridade. Mulheres, especialmente mulheres estrangeiras, podiam atuar como rainhas, profetisas, poetisas, autoras, mágicas, bruxas e feiticeiras. No Egito, mulheres tinham inúmeras liberdades pessoais e desfrutavam muitos dos mesmos direitos e obrigações masculinas. Mulheres podiam ter alvos nos negócios, dirigir os negócios ou fazendas, fechar contratos e agir como testemunhas na corte. Elas podiam se divorciar e recasar; podiam herdar propriedade. Podiam ser dançarinas do templo, cantoras, músicas, sacerdotisas, carpideiras, jardineiras, babás e criadas, algumas eram ensinadas a ler e escrever, e algumas mesmo se tornaram médicas. Aparentemente, as únicas posições normalmente não abertas para mulheres eram cargos de liderança (governo) (BAKER, 2002, p.186).
A tradição diz que Bate-Seba foi a autora da famosa passagem em Provérbios 31, como se fosse uma admoestação a Salomão a respeito de seu casamento com a filha de Faraó (HIGGS, 2002, p.186).
O relato bíblico, apesar de sucinto a respeito de Bate-Seba, expõe os dois lados de uma mesma mulher: em primeira instância, a vulnerabilidade de alguém tratado como propriedade privada na sociedade, incapaz de se opor aos desmandos de um monarca irresponsável e desejoso por prazer. Por outro lado, já no fim da narrativa de seu relacionamento com Davi (1 e 2 Reis), outra mulher se apresenta, determinada a ser ouvida, talvez vingativa, talvez rancorosa, mas dona de seu próprio destino e capaz de tomar a iniciativa como suas precursoras na genealogia; bem diferente da primeira vez em que se é apresentado a ela no relato de 2 Samuel. Dessa forma, nem a literatura rabínica a condenou, por ter se tornado a mãe de Salomão (BROWN, 1993, p.73). Assim, sua redenção parece ter vindo através de seu filho, do mesmo modo que veio para Maria.
Por existir tão pouca informação consistente a respeito de Bate-Seba, ela se tornou a personagem mais enigmática das cinco citadas na genealogia de Jesus em Mateus. Não é possível postular a inocência ou a culpabilidade completa de sua pessoa. Sua vulnerabilidade inicial, seu relacionamento com um justo estrangeiro e seu sofrimento calado diante de tantas perdas a transformaram num instrumento do trato de Deus para com a vida do rei Davi. Mais tarde, seja por conseqüência de tudo o que ela teve de enfrentar ao longo dos anos ao lado de Davi, seja pelas perdas que sofreu ou até mesmo pela maturidade que adquiriu ao dar voz aos seus próprios anseios, Bate-Seba assumiu as rédeas de sua própria vida e, como Tamar, Raabe e Rute, soube enfrentar seus medos a fim de cumprir os propósitos de Deus.


N271 Natel, Angela
                As mulheres da genealogia de Jesus em Mateus, e as
          Implicações teológicas na mensagem do reino / Angela Natel
          . ─ Curitiba, 2012.
                iii., 55 f. : il.

                 Monografia (Trabalho de conclusão de curso de Bacharel
           em Teologia da Faculdade Fidelis)
                  Inclui referências

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