Angela Natel On sábado, 22 de setembro de 2012 At 06:30




Luís Borges *

Dedicado ao amigo Pr. Ms. Cláudio Moreira

“Não tire vantagem do trabalhador, apenas porque é pobre, nem se aproveite daqueles que não tiverem quem os defenda no tribunal, pois Deus defenderá a sua causa” [...]  (Provérbios 22: 22-23)

Na época em que fui estudante de Filosofia e militava na política estudantil nos idos da década de 1980, vivíamos dias de grande entusiasmo com a perspectiva da Revolução Sandinista, na Nicarágua. Alguns dos grupos revolucionários mais significativos desse processo de transformação política na América Latina eram os adeptos da Teologia da Libertação, especialmente na formulação que lhe dera o filósofo e teólogo Enrique Dussel.

Entre os professores mais brilhantes, cujas aulas nos encantavam, estava o Dr. Jandir Zanotelli, que era o tradutor das obras de Dussel no Brasil. Além disso, pudemos conhecer pessoalmente e ouvir as conferências do autor de Filosofia da Libertação no I Encontro de Filosofia Latino-Americana, ocorrido em Pelotas, em setembro de 1986. Desse evento eu saí com a firme convicção de que a Filosofia / Teologia da Libertação não era mais que a cristianização do marxismo e que, no fundo, praticamente não havia muita diferença entre os objetivos de ambos, uma vez que propugnavam a Justiça social e a dignidade humana. O resto eram divergências pontuais, ligadas a questões teóricas ou metafísicas.

Alterei profundamente essa posição. Ao observar os processos históricos e a sucessiva falência dos sistemas, tanto capitalista quanto do chamado “Socialismo real”, percebi que a Justiça, tal como se apresentada no Evangelho, é mais profunda e mais abrangente.

Uma das mais terríveis acusações (parcialmente verdadeira) feitas à Igreja é que, ao longo de sua história, ela se tem posto ao lado dos opressores. A Igreja como instituição – santa e pecadora – nos descaminhos da história tem, por vezes, se desviado do ensino de Cristo, promovendo um cristianismo sem comprometimento com a Palavra de Deus, essencialmente libertadora, não apenas dos “pecados sociais”, mas do pecado como tal, que é a raiz de toda injustiça.

A Bíblia fala mais de duas mil vezes nos pobres e em suas demandas. Por isso fico muito surpreso com certas práticas da Igreja contemporânea que vem atraindo multidões com um apelo à ganância e ao individualismo, exatamente fatores que geram pobreza e injustiça, os quais foram fortemente condenados por Jesus. Evidentemente, não faço o discurso de um Cristianismo pauperista. Deus prospera o seu povo (1Rs 2, 3) Entretanto, o conceito bíblico de prosperidade é muito mais amplo que a riqueza material (Sl 127, 3). Vale dizer ainda, considerada a prosperidade em termos econômicos, também neste sentido nunca é um fim em si mesmo, resultado da exploração do trabalho alheio, da degradação da qualidade de vida das pessoas ou da destruição planetária. Isso porque o conceito bíblico de prosperidade não visa à satisfação egoísta de um grupo ou de um indivíduo contra os interesses e necessidades da comunidade.

Cada uma a seu modo, tanto a Teologia da Libertação (1) quanto a chamada Teologia da Prosperidade (2) representam distorções da mensagem evangélica, no que tange à Justiça Social.

Vivemos num mundo extremamente violento e individualista. O individualismo, a despeito de ser uma atitude identificável em todas as eras, como corrente político-filosófica se afirma com o Iluminismo e o movimento Liberal, que erigiram as bases práticas, éticas e econômicas do capitalismo.

Com os graves problemas que acompanharam a Revolução Industrial surgiram também diversas doutrinas que, reagindo a eles, procuravam criticar o sistema social e político. Entre as mais influentes estão o Socialismo, o Utilitarismo, o Positivismo e o Anarquismo, cada qual com seus respectivos matizes, representados por variados autores e movimentos. De maneira aparentemente semelhante às citadas correntes do pensamento político-social, o Cristianismo possui a luta pela justiça como um de seus elementos centrais. Apesar disso, conforme se advertiu, o Cristianismo se distingue dos grandes sistemas de reforma social porque não alimenta ilusões quanto à natureza humana, essencialmente egoísta e corrupta. Sob esse prisma, o Cristianismo, como expressão de pensamento social, é o único corpo doutrinário que não atribui a injustiça à falha na administração dos sistemas, mas ao fracasso moral do próprio homem, o qual entregue a si mesmo não está à altura dos nobres ideais que falaciosa e orgulhosamente proclama (Jo 15, 5).

Se tivéssemos que aproximar o Cristianismo de alguma Filosofia e Teoria Política, estas talvez fossem o Personalismo, de Emanuel Mounier, e o Solidarismo (3) , que embora não possa ser considerado uma filosofia homogênea, possui como base o pensamento de Leon Bourgeois (4) , Émile Boutroux (5) e Célestin Bouglé (6).

A “ditadura do ego”, que coloca a tudo e a todos debaixo dos interesses do indivíduo, é a fonte dos grandes males que assolam a humanidade. Nessa medida, o Cristianismo é intrinsecamente anti-individualista (Mt 18, 20). Entretanto, o Cristianismo não só respeita as diferenças individuais, como também reconhece e se empenha na defesa dos direitos daí advindos. Os direitos coletivos não podem esmagar o indivíduo, assim como não se pode prejudicar a sociedade sob o pretexto da liberdade individual.

De forma diferente das usuais práticas políticas, tão antigas quanto a própria humanidade, riqueza e poder nos termos do Cristianismo são sinônimos de Serviço ao próximo. Ao cristão nada que possa trazer vantagem ou privilégio, cuja condição seja o prejuízo de outrem, lhe interessa. Não foi à toa que Jesus elegeu como a lei mais importante, depois de amar a Deus sobre todas as coisas, o amor ao próximo, pois – continua o Divino Mestre – “aquele que diz amar a Deus, que não vê, e não ama seu irmão, que vê, é um mentiroso” (1 Jo 4: 20-21).

A utopia cristã, apesar das contradições que perpassam a história da Igreja, como instituição também humana, diferentemente das utopias do humanismo secular (7), é que ela só poderá se realizar em plenitude para além da dimensão histórica, na eternidade, no Céu. Em referência e em desconformidade com isso os revolucionários da Comuna de Paris de 1871 pretendiam “assaltar o céu”. Pensavam, equivocadamente, que o Cristianismo jogava as questões concretas da política e da economia para uma vaga compensação dos injustiçados num reino além-vida, tornando-os resignados e, por esse motivo, auxiliando os poderosos a manterem o status quo. Este foi o conceito, basicamente, expresso na célebre frase de Marx: “A religião é o ópio do povo”, constante em sua obra A crítica da Filosofia do Direito de Hegel (1844).

Ao considerar, segundo os princípios do materialismo histórico e dialético, a religião (ele não faz distinção entre religião e espiritualidade) um mero produto social, Marx reduz o homem – por definição irredutível e indefinível – à matéria dotada de consciência, esta, por sua vez, produto das relações materiais de produção. O resultado desse “homem minimizado” é uma ética empobrecida e interesseira, embora, sob certo aspecto, altruísta. A ética marxista é calcada no utilitarismo revolucionário, isto é, os fins justificam os meios. Esse relativismo ético levou à tragédia do stalinismo que, em termos de totalitarismo e violência, não se diferencia muito do nazismo, do fascismo ou do capitalismo selvagem.(8) Em suma, o homem, independente do sistema político, sem Deus está irremediavelmente perdido.

A crítica de Marx e outros aos problemas sociais não são novidade para o Cristianismo. Fernando Bastos de Ávila em sua obra Antes de Marx: as raízes do humanismo cristão (2003), afirma: “Muitos elementos integrados por Marx em sua síntese [o Manifesto de 1848], como dados originais, de fato, ele os encontrou elaborados numa corrente de pensamento que inundara o cenário cultural europeu. Antes de Marx, pensadores cristãos já conheciam o mecanismo da plus-valia e tinham descoberto, no processo espoliador do capitalismo, a causa secreta da questão social. Até expressões habitualmente atribuídas a Marx, como a exploração do homem pelo homem, são encontradas ipsis literis na tradição pré-marxista.”

Engana-se o Humanismo ateu ou agnóstico, sob todas as suas formas, ao propugnar que a filosofia, a ciência e a tecnologia são os únicos pressupostos da emancipação humana. Por quê? Ora, a própria história testemunha inelutavelmente o fracasso do homem e de seus sistemas em promover a justiça e a paz. Apesar de todas as conquistas científico-tecnológicas e do inegável desenvolvimento social e institucional obtidos duramente ao longo de séculos, a humanidade – embora já disponha de meios para tanto – não conseguiu abolir o horror das guerras, sanar o vergonhoso flagelo da fome, impedir a destruição da natureza, proporcionar condições dignas de saúde, educação e emprego a todas as pessoas. Desenvolveram-se fantásticos meios de comunicação e milhões vivem solitários; há uma poderosa indústria do lazer, da qual muitos se valem, numa inútil tentativa de superar o vazio existencial e a depressão.

O egoísmo é uma das expressões mais características de nossa natureza pecaminosa e não permite e jamais permitirá que o homem realize a Justiça, pois “não há um justo sequer” (Ec 7, 20). Não se depreenda daí que o Cristianismo professa uma visão pessimista do homem e da vida, recomendando a apatia e o indiferentismo diante dos problemas sociais e políticos. A Bíblia apenas descreve a natureza humana tal qual é. Na peculiar expressão do escritor João Simões Lopes Neto, no conto Boi Velho: “Cuê-pucha!... é mesmo bicho mau, o homem!”

Num mundo desesperançado e violento, terreno fértil para que vicejem a ganância e o individualismo, observamos cada vez mais estupefatos o grau de crueldade, crime e torpeza a que se chegou, cujas trágicas consequências estão cotidianamente estampadas nas manchetes dos jornais. Em meio a tanta depravação e sujidade apenas Jesus Cristo pode se apresentar como o “caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6).

Quando Jesus instituiu a Grande Comissão (Mt 28: 19-20) não nos chamou a uma responsabilidade abstrata, reduzindo o Evangelho a uma mensagem espiritual evasiva. Trata-se de uma ordenança integral. O Evangelho é tanto o anúncio da Boa Nova da Salvação em Cristo, quanto a denúncia do mal no mundo. O Antigo Testamento prenuncia essa concepção: João Batista não foi decapitado por proclamar a verdade, mas por escancarar a mentira e a corrupção dos poderosos, a quem Deus “despacha com as mãos vazias” (Lc 1, 53).

Só Jesus Cristo, como único e suficiente salvador em todas as dimensões da existência, pode suprir as forças do homem decaído em direção a um mundo melhor. Esse “outro mundo possível”, mais solidário, aprazível, pacífico e equânime é indissolúvel da seguinte constatação: os sistemas não conseguiram mudam favoravelmente o mundo, nos termos a que se propõem. Mas os homens podem pensar sistemas e tecnologias para melhorar o mundo. Contudo, só Deus pode mudar os homens suficientemente para fazê-lo com honestidade e eficácia.

Toda opressão, miséria, violência e discriminação desagrada a Deus. Em Cristo Jesus temos a restauração da dignidade da vida – e Ele no-la dá em abundância (Jo 10, 10). A regeneração operada por Cristo não é apenas individual, abrange também o social e começa desde agora, para alcançar a plenitude na Eternidade.

Deus, por meio de Cristo, instruiu os cristãos a se comprometerem com todos os que sofrem, assim somos impelidos para a ação social e política transformadora, animada pelo amor ao outro, independente de professar ou não a nossa fé, conforme declara a Escritura (Ts 5, 15).

Certamente você conhece pessoas íntegras, estaria disposto a confiar sua vida e seus havares, cem por cento, a elas? A maioria de nós também se considera uma pessoa decente, mas você assumiria diante da humanidade inteira que é totalmente digno de confiança? Se você responder sim a estas duas perguntas só lhe restarão estas alternativas: ou é inacreditavelmente ingênuo ou completamente maluco. A Bíblia adverte: “maldito é o homem que confia no homem” (Jr 17, 5). Isso não significa que não possamos confiar em nada nem em ninguém, mas que somos falíveis, ou seja, somos humanos e como tais, incapazes de criar sistemas perfeitos. Dessa maneira, depositar todas as esperanças em pessoas, sistemas ou ideologias como panacéia é conceder condição de absoluto ao que é apenas relativo. Sim, os homens podem e devem melhorar o mundo, mas lembrando-se de que em sua própria força estão fadados ao fracasso. É na força do Espírito Santo, o consolador, o guia, aquele que fortalece e “instruí o homem para toda boa obra” (2 Tm 3, 17), que esse mundo, que “jaz no Maligno” (1 Jo 5, 19), pode esperar não sucumbir, enquanto esperamos pela parousia de Cristo na consumação total da Justiça e do Amor.



* Luíz Borges é coordenador Regional de Educação e Cultura da IEQ. Mestre e Doutorando em Educação (UFPEL) e doutorando em Teologia (Universidade Metodista/SP)



NOTAS

1 Corrente teológica que possui como expoentes principais Gustavo Gutierrez, Leonardo Boff e Enrique Dussel.
2 Corrente teológica que possui como expoentes principais Joel Osteel e Rick Warren.
3 Para mais detalhes vide ÁVILA, Fernando Bastos de. Solidarismo: uma alternativa para a globalização. Editora Santuário, 1997.
4 Autor de Solidarité (1896).
5 Autor de Enssai d’une Philosophie de La Solidarité (1902).
6 Autor de Le solidarisme (1907)
7 Existe também o chamado “humanismo cristão”. No século 18, o termo “humanismo” praticamente esteve identificado com uma atitude puramente secular. No entanto, os estudos da Cultura Clássica, também foram retomados por eruditos cristãos, tais como o inglês John Colet (c. 1467-1519), que desenvolveu métodos para o estudo da Bíblia, fundamentado nos os humanistas italianos. Também Erasmo pode ser incluído entre os mais influentes pensadores do chamado “humanismo cristão”. No século 20, o termo tem assumido uma série de diferentes conotações, muitas vezes, conflitantes. Entre os mais conhecidos pensadores do “humanismo cristão” contemporâneo estão Jacques Maritain e Hans Küng.
8 Para mais detalhes vide: CORTOIS, S.; WERT, N. O livro negro do comunismo. Editora Bertrand do Brasil, 1999 e também PERRAULT, Gilles (Org.). O Livro negro do capitalismo. Editora Record, 2000.









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