Angela Natel On quarta-feira, 23 de maio de 2012 At 07:30

 Francesco Hayez, A destruição do Templo de Jerusalém (1867).

Dia 10 saiu mais um prêmio milionário pela Mega Sena. Dia 11 alguma casa lotérica pendurou uma faixa com dizeres afirmando ter saído dali o vencedor do prêmio. Dia 12 essa mesma lotérica vendeu milhões de bilhetes como nunca vendeu antes á pessoas que irão crer ser aquele um lugar de sorte.

De modo semelhante o povo de Deus acreditava que os pontos de contado com Deus, que podiam ser lugares onde atos miraculosos haviam acontecido, como Gilgal (Js 4:20) que virou local de adoração e posteriormente é condenado pelo profeta Amós, eram lugares especiais donde seria possível ter certa proximidade com o Altíssimo quando fossem adorá-lo. Ou locais onde os Patriarcas haviam tido algum tipo de contato com Deus.

Na Reforma do rei Josias alguns altares foram extintos em busca de uma práxis, digamos,pura da religião de Israel. Em 2 Reis 23, o texto narra que em tais locais haviam culto aoutros deuses. Até mesmo as árvores eram utilizadas como pontos de contato (2 Rs 17; Os 4:13). Antes dele o rei Davi tentou centralizar o culto em Jerusalém, mas foi Salomão quem o fez. Isso fortaleceu a economia da capital do reino unificado, uma vez que osdízimos eram entregues na "casa do tesouro" (Ml 3:10).

Tanto a crença nos pontos de contato quanto à centralização cúltica trouxeram danos á espiritualidade do povo. Os locais ditos sagrados levaram, e ainda levam, terríveis guerras no mundo religioso. Além disso, devemos considerar que a razão de tais lugares serem santificados foram às pessoas que neles tiveram um contato com o divino. Sem as pessoas e Deus, seriam aqueles lugares comuns quanto qualquer outro na Terra. A adoração permitida era feita somente em Jerusalém. E os conflitos entre as tribos e posteriormente, entre os povos de Israel e Judá, dificultavam o livre acesso ao Templo, isto é, a presença de Deus.

Se por um lado a tentativa de eliminar os lugares altos em busca de uma purificação ou conserto, contribuiu para uma revisão da fé em Javé, eliminando a confiança nos falsos deuses, por outro lado causou enorme dano á livre espiritualidade, no Deus que é livre (At 17:14). Deus foi confinado a uma ortodoxia chauvinista, fazendo que o povo pensasse ser o melhor dos demais povos da Terra. O profeta Jonas exemplifica isso ao se entristecer mediante a conversão dos ninivitas (Jn 4:1). Tal ideologia foi refutada por Jesus em seu célebre Sermão do Monte, quando disse:
Vocês conhecem a antiga Lei: 'Amem seus inimigos', e seu complemento não escrito: 'Odeiem seus inimigos'. Quero redefinir isso. Digo que vocês devem amar os inimigos. - Mt 5:43, A Mensagem
Inimigos poderiam ser todos aqueles que fossem não praticantes da fé judaica.

No período narrado nos Evangelhos da vida de Jesus, percebemos que a espiritualidade que o Messias direcionou seus seguidores é uma volta ao livre acesso ao Altíssimo. Quando foi indagado pela mulher do poço de Sicar sobre qual local se deveria adorar a Deus, ele respondeu que havia chegado a hora de sentirem-se livres para adorar em espírito e genuinamente. Ou seja, não importa o local, desde que haja sinceridade daquele que busca. Jesus ainda sugeriu a destruição do Templo, afirmou que os nascidos do Espírito são livres como o vento, afirmou ainda ter outras ovelhas, e numa leitura anterior¹ condicionou a presença de Deus apenas no reunir-se da comunidade de fé (Mt 18:20).

Jesus, então, aponta para uma espiritualidade do livre acesso á Deus aonde quer que esteja um cristão. Deus rasga o véu de alto á baixo, como se estivesse querendo dizer "fui eu quem acabei com essa limitação imposta por vocês". Nessa espiritualidade, os próprios preceitos de Deus podem ser relativizados em prol da Vida (Mt 12). Dessa espiritualidade depende toda a mensagem da Cruz. Sem ela retornaremos para a religiosidade que dizFora da Igreja não há Salvação², em vez de anunciar o "Venham [...], todos os que estão cansados e oprimidos, e eu [Jesus] os aliviarei" (Mt 11:28).

Lugar especial é onde o cristão está. É lugar de cultuar, isto é, servir ao Altíssimo em toda terra (1 Co 10:26). Embora muitos tencionem dizer que um ambiente de quatro paredes é o lugar de cultuar, as Escrituras nos dizem o contrário. Filipe não viu empecilho em para batizar o eunuco etíope, pois é a reunião dos fiéis que faz a água do batismo um símbolo importante assim como o local onde se encontram. A espiritualidade apresentada por Jesus é escandalosa, pois não há lugar especial, sacerdote especial, rito especial ou qualquer outra condição que impeça aquele busca; "e, o que busca, encontra". E ao mesmo tempo é encantadora, pois a única condição que impede alguém de adorar a Deus é o próprio adorador (Pv 8:17; Jr 29:13).

¹ - Embora o texto sugira que para Deus estar presente é necessário a presença de mais de uma pessoa, o Novo Testamento aponta para uma espiritualidade do Deus que habita no adorador (1 Co 3:16)
² - Extra Ecclesiam nulla salus

0 comentários:

Liberdade de Expressão


É importante esclarecer que este BLOG, em plena vigência do Estado Democrático de Direito, exercita-se das prerrogativas constantes dos incisos IV e IX, do artigo 5º, da Constituição Federal. Relembrando os referidos textos constitucionais, verifica-se:
“é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato" (inciso IV) e "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença"(inciso IX). Além disso, cabe salientar que a proteção legal de nosso trabalho também se constata na análise mais acurada do inciso VI, do mesmo artigo em comento, quando sentencia que "é inviolável a liberdade de consciência e de crença". Tendo sido explicitada, faz-se necessário, ainda, esclarecer que as menções, aferições, ou até mesmo as aparentes críticas que, porventura, se façam a respeito de doutrinas das mais diversas crenças, situam-se e estão adstritas tão somente ao campo da"argumentação", ou seja, são abordagens que se limitam puramente às questões teológicas e doutrinárias. Assim sendo, não há que se falar em difamação, crime contra a honra de quem quer que seja, ressaltando-se, inclusive, que tais discussões não estão voltadas para a pessoa, mas para idéias e doutrinas.