Angela Natel On quarta-feira, 4 de abril de 2012 At 06:51



Estudo produzido pelo prof. da FaTeo Tércio Machado Siqueira, 
professor de Antigo Testamento.

Festa-eixo da fé
Para entender o significado da Páscoa é preciso estudar a história do povo bíblico. Homens e mulheres têm pesquisado as origens dessa celebração ao longo da história da Bíblia. Pretendo estudar a Páscoa à luz da história da tradição dessa celebração, tomando como base nas informações colhidas no texto da Bíblia.

A Páscoa no período do nomadismo (pré-mosaico).
O detalhe saliente desse período é a escassez de informações. Contudo, é possível obtê-las a partir de esparsas e antigas referências que o texto bíblico conservou. Eis algumas dessas informações, tomadas especialmente de Êxodo 12,1-14:
  1. A celebração centralizava-se no sacrifício de um cordeiro. O termo técnico, na língua hebraica, é sahat, sacrificar (verso 6). Primitivamente, matava-se um cordeiro (o boi não fazia parte do mundo seminômade) para obter dele somente o sangue. Com ele, os povos pagãos acreditavam afugentar todas as desgraças.
  2. A páscoa acontecia no fim da primavera e início do verão (verso 2), na lua cheia, quando os primeiros ventos quentes do deserto aproximavam-se das estepes, onde viviam as famílias de pastores (versos 13.23).
  3. O lugar da celebração era a casa, isto é, a família. O celebrante era o chefe da família (versos 3-4). Nota-se a ausência da menção a sacerdote, altar, santuário etc.
  4. A imolação é de um animal menor e jovem (verso 5).
  5. A entrada da tenda deverá ser pintada com o sangue do animal morto (verso 7).
  6. A celebração é comunitária com a carne do cordeiro (versos 8-9).
  7. A carne deve ser, necessariamente, assada (como churrasco) e vir acompanhada de ervas amargas (plantas do semi-deserto) (verso 8).
  8. O celebrante deveria manter uma postura de pressa e de marcha, vestido para viagem: cintura cingida, sandálias nos pés e cajado na mão (verso 11).
  9. O ritual de sangue (verso 7) é apotropaico, isto é, proteção contra a praga destruidora ou o exterminador (versos 13.23), representando qualquer tipo de enfermidade, peste, desgraça.
  10. É um ritual da transumância e da passagem da primavera para o verão para garantir a proteção contra os perigos dos ventos quentes que matam a pouca vegetação das estepes que alimenta os rebanhos de ovelhas. O nome "páscoa" (no hebraico pesah, salto, travessia) vem desse acontecimento. Os pastores e suas famílias, com a aproximação dos ventos quentes do verão, punham-se a caminho em busca de lugares seguros, isto é, da segurança e da libertação.


Da entrada na terra de Israel até ao início do período monárquico (1200- 1050 a.C.).
O fato saliente nessa fase é que o povo bíblico tornou-se sedentário: de escravos com forte tradição pastoril seminômade, o povo torna-se sedentário, agora vivendo da agricultura. Há uma mudança substancial no seu sistema de vida e no seu modo de cultuar. Além disso, esse povo trouxe do deserto uma experiência com o seu Deus que marcou definitivamente a sua história de vida: o êxodo, o deserto, o Sinai (ler o livro de Êxodo; Dt 6,20-23; 26,5-9; Js 24,1-13; Sl 136).
  1. O povo do êxodo juntou-se à idéia da primitiva festa da páscoa vários acontecimentos ligados à idéia do salto que eles deram, isto é, da travessia feita, entre a condição de escravos e a chegada em Canaã para a liberdade. Se antes os hebreus escravizados celebravam o medo da "praga destruidora", agora em Canaã, eles passaram a celebrar a Javé, o Deus da libertação.
  2. A Páscoa passa, a partir daí, a celebrar o grande êxodo dos escravos hebreus do Egito. Assim, a festa da natureza, que os pastores seminômades faziam, converteu-se em celebração javista, uma experiência histórica, comemorando a ação salvífica de Javé que marcou profundamente a história e a teologia bíblica.
  3. A fé em Javé, através dessa celebração, torna-se em força transformadora. A memória dos eventos do êxodo, trazida para a celebração da páscoa, atuava como alento e orientação para enfrentar os novos opressores e dificuldades.
  4. O imolar uma ovelha na páscoa não um simples sacrifício para proteger o oficiante das pestes e maus espíritos, como no costume primitivo. A diferença é que, na imolação da páscoa, a cerimônia está carregada da memória da libertação.
  5. A partir da experiência do êxodo, toda a cerimônia da páscoa é destinada a Javé, o Deus que tirou o povo hebreu da escravidão do Egito (Ex 12,48; Lv 23,5; Nm 9,10.14).
  6. Pouco a pouco, a páscoa foi perdendo o seu caráter de protetor contra qualquer tipo de enfermidade, peste etc, para se tornar uma memória histórica dos atos salvíficos de Javé.


Da instituição da monarquia (1050 a.C.) até o reinado de Josias (640 a.C.).
Aparentemente, os textos bíblicos atribuídos ao período anterior ao reinado de Josias (640-609 a.C.) não mencionam a celebração da páscoa. Somente o historiador cronista registra uma convocação para Festa da Páscoa durante o reinado de Ezequias (2 Cr 30,1-27). Era de se esperar que os profetas, do século VIII, mencionassem a páscoa, porém não há claras evidências da celebração durante nesse período. Esse silêncio, provavelmente, tem razões: (a) A páscoa era uma celebração de pastores que viviam na periferia da sociedade israelita; (b) A páscoa, originalmente, foi uma celebração caseira, familiar e os historiadores preocuparam-se com a atuação dos reis; (c) A páscoa possuía um conteúdo contestador a toda instituição opressora como acontecia nos reinados de Judá e Israel; (c) Conseqüentemente, os reis e os sacerdotes do templo em Jerusalém não tiveram interesse de promover a celebração da páscoa. Contudo, é preciso admitir que:
  1. A memória do êxodo manteve-se viva junto ao povo, particularmente entre os habitantes do Reino do Norte, como mostram as informações sobre as atividades do profeta Elias (1Rs 17,1-2Rs 2,18) e o livro do profeta Oséias.
  2. O silêncio sobre a Páscoa nas cercanias do templo de Jerusalém é compreensível, pois a tradição do êxodo não fazia parte da memória do povo sulista, especialmente o pessoal ligado ao Templo e ao palácio, em Jerusalém.


A Páscoa no período da reforma josiânica (640-609 a.C.)
  1. Por volta do ano 622 a.C., o rei Josias (640-609 a.C.) empreendeu uma reforma política e religiosa, após descobrir o "livro da lei" (2Rs 23,25), provavelmente o livro de Deuteronômio.
  2. Um dos projetos mais fortes dessa reforma foi a centralização do culto no templo de Jerusalém. Por determinação do rei Josias, foram fechados todos os locais de culto nas vilas e cidades, intensificando a peregrinação ao templo de Jerusalém (2Rs 23,4-27).
  3. Por extensão, as manifestações de culto, realizadas nas famílias, foram transferidas para o Templo, particularmente a celebração da Páscoa. A Páscoa, que era uma celebração caseira, familiar, entra definitivamente para o calendário do Templo de Jerusalém, passando a ser uma das festas de Peregrinação.
  4. A Páscoa, antes da reforma josiânica, não se constituía um ato oficial do culto em Jerusalém. Somente com o rei Josias, ela ganhou um lugar especial no projeto do Estado, sendo admitida no calendário do templo de Jerusalém (2Rs 23,21-27).
  5. Ao ser assimilado pelo calendário oficial do Templo, a Páscoa perdeu, definitivamente, o seu caráter de protetor contra qualquer tipo de enfermidade, peste etc, bem como a sua relação com a Festa dos Pães Asmos ou Ázimos (Ex 12,1-51).
  6. Conforme prescreve Deuteronômio (16,1-8), as prescrições litúrgicas da Páscoa foram ligeiramente alteradas. Como exemplo, o gado maior (boi e vaca) passa a ser admitido como parte do sacrifício e a carne da vítima pode também ser cozida.
  7. O êxodo do Egito continuou sendo o motivo principal da Páscoa.


A Páscoa entre os exilados judeus no exílio da Babilônia (597-537 a.C.).
Além da memória histórica que reacendia a fé israelita no seu Deus, o exílio trouxe um novo elemento: os exilados desenvolveram a esperança de que Javé poderia libertá-los, de novo, e trazê-los de volta para Canaã. Os capítulos 40-55, do livro de Isaías, desenvolvem a esperança do retorno.
  1. Com a destruição de Jerusalém (587 a.C), desaparece a atividade cultual oficial (Sl 137); surge o estudo bíblico entre os exilados (mais tarde, Sinagoga); cresce a produção literária, resgatando os testemunhos históricos do povo, particularmente, a vida e obra de Moisés.
  2. A celebração da Páscoa volta para a casa. Volta a ênfase no sacrifício da rês menor, o cordeiro. O antigo ritual de sangue, provavelmente, volta a ter o sentido de defesa ante o exterminador.
  3. Os quatro cânticos do Servo de Javé (Is 42,1-9; 49,1-6; 50,4-11 e 52,13-53,12), pronunciados durante o exílio, têm muito a ver com a mensagem da Páscoa.
  4. Percebe-se algumas variações no ritual da celebração: não jogar fora parte do animal sacrificado; não quebrar os ossos da vítima; celebração no segundo mês para quem não o fez no primeiro; permissão para os estrangeiros participarem (Nm 9,1-14).
  5. Começa aparecer uma separação entre Páscoa e Ázimos como celebrações distintas: Ázimos, nos dias 1 a 7 e Páscoa, no dia 14 do primeiro mês.


A celebração da Páscoa durante os períodos persa e grego (539-333 a.C.).
Com o edito de Ciro (Ed 1,1-5), os exilados judeus começaram a retornar à Jerusalém. Os que voltaram empreenderam-se na reconstrução do Templo e da cidade de Jerusalém. Após isso, o grande alvo dessa comunidade foi a editoração e publicação da Tora (Pentateuco) e a organização da comunidade judaica. A ênfase teológica girou mais em torno do Templo do que a profecia e a memória do êxodo.
  1. O "historiador cronista" (1 e2 Crônicas, Esdras e Neemias) mostra que a Páscoa preservou alguma cerimônia para o Templo de Jerusalém. Somente a refeição pascal foi mantida na família.
  2. O gado maior (bois, vacas) foi readmitido como parte da cerimônia.
  3. A carne deveria ser assada e não mais cozida.
  4. O leigo deveria executar o ritual de sangue (2Cr 30,21; 35,11).
  5. As cerimônias da Páscoa e dos Ázimos voltam a integrarem-se.
  6. Algumas novidades na celebração: O levita passa a ter um papel relevante na cerimônia; surgiu a música como parte da celebração; Um copo de vinho passou a fazer parte da cerimônia.


Conclusão

A história da tradição da Páscoa passa por todos os períodos do povo bíblico. Somente isso já justificaria o valor e a importância dessa celebração para a Igreja Cristã. Contudo, a Igreja Primitiva interpretou o sacrifício e a ressurreição de Jesus com o "salto" para a libertação da humanidade para desfrutar da plenitude da Paz.

Texto publicado na revista **Voz Missionária.**

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