Angela Natel On quinta-feira, 8 de março de 2012 At 06:33

  Zé Luís


Confesso:

Detesto filmes sobre zumbis, e não é com pouca estranheza que vejo multiplicarem-se produções cinematográficas, séries, jogos eletrônicos, tudo sobre pessoas que, de alguma forma bizarra, continuam andando pela terra após morrerem. De praxe, algum vírus os matam, e sua (in?)existência persiste apenas para alimentar-se dos que ainda vivem. Eles não tem estomago, intestino, paladar, olfato, mas tem um apetite insano pela vida alheia.

Ainda adolescente, assisti no cinema o lançamento “O retorno dos Mortos Vivos” (na verdade, tinha ido assistir Guerra nas Estrelas, mas tinha saído de cartaz, e não ia perder a viagem... droga). Já joguei Resident Evil em diversas plataformas – e vi os filmes também (você deve estar se perguntando: “Se não gosta, porque assiste ou joga?” Boa pergunta...). "Eu sou a Lenda", com zumbis inteligentes e meio vampiros, e um monte de outros que me fogem a mente agora.

Vejo nos zumbis uma parábola sobre o homem caído, o que Adão passou a reproduzir no planeta após sua expulsão do Éden. Viagem da minha parte?

Todos nós somos mortos-vivos, “irremediavelmente” fulminados por um vírus chamado pecado, tornando-nos seres repugnantes.

Já percebeu que um zumbi aceita outro zumbi? É como o inferno que ama outro inferno. Se comunicam e compartilham do mesmo objetivo, embora inconsciente: destruir a vida que ainda existe, militam contra ela. A não-vida que possuem só enxerga a necessidade de ingerir algo vivo, embora isso apenas a destrua, e não traga a eles, o que desesperadamente anseiam: existência genuína.

Não espere deles arrependimento: os mortos não tem consciência, ética ou moral. Vivem suas mortes apenas para seu inexistente estomago, para dar continuidade inexplicável de uma desgraçada morte em movimento. Sempre acho esquisito a surpresa com que pessoas reagem a maldade humana, quando aqueles cometem crueldades e depois dormem em paz: eles são zumbis, não tem uma consciência que incomode-os, por que os mortos não tem isso.

Para os que já estão mortos, não há grande pranto ou dor quando são destruídos ou destroem: os zumbis não são aquilo que chamamos humanos, são uma distorção do que um dia foi a vida e o grande atrativo das histórias sobre zumbis é acabar com eles indiscriminadamente: é um bem para a humanidade destruí-los em definitivo. Antes eles do que nós.

Mas então a cura é descoberta: uma chance de recuperação! Corre o boato por toda a Terra que um único ser deixou entre os povos o antidoto de todo o mal que o vírus causa, e zumbis mortos e putrefados voltam a vida. O Criador anda entre seus súditos e deixa o próprio sangue como remédio.

Daí, alguém pode pensar: se todo zumbi tem uma chance, deixá-los entregues a própria sorte pode ser considerado tão desumano quanto os atos dos próprio morto-vivo. Na verdade, só quem pensa assim são aqueles que tomaram do antidoto. Alguns já até tomaram, mas não conseguem abandonar sua atitude zumbi.

Sim: haverão sarados com manias esdrúxulas de zumbis, haverão absurdos como gente sadia salivando por um bom prato de carniça, ou ainda cultivar a mania de destruir aquilo que oferece vida como nos velhos tempos.

Não convém mais vestir os farrapos do tempo que andávamos rastejando pelas ruas atrás de um pedaço de cérebro, e aquele cheiro de carne putrefada já não combina mas com os que foram agraciados com vacinas suficientes para si e para distribuir a quem assim quiser aplicá-las.

Muitos zumbis não creem na cura, e muitos, mesmo curados, passaram a crer que a Cura na verdade nunca existiu, e que zumbis são um conto de fadas de um povo sem cultura.

Creio que não gosto de histórias de zumbis por lidar com elas o tempo todo.



O Zé, sazonalmente, colabora no Genizah. Dizem as más línguas que é por ter parentes lá dentro da redação e por isso o Danilo aceita as bobagens... rsrsrs


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