Angela Natel On quarta-feira, 7 de março de 2012 At 06:09

As mudanças que ocorrem no mundo e nas pessoas formam um conjunto de forças e valores que afetam diretamente a cosmovisão individual e coletiva do ser humano, afetando suas relações, suias instituições e seu modo de viver e conduzir a vida, e afeta sua relação com o divino, com a busca de Deus. Molda e transforma a igreja e sua maneira de entender e praticar sua missão.
O conjunto de paradigmas para a missão e suas evoluções de mudanças de paradigmas é uma análise que David Bosch em sua obra “Missão Transformadora” vai desenvolver a partir da teoria da mudança de paradigmas de Thomas Kuhn, na sua análise de Mudanças de Paradigma na Missiologia, que afirma:
“A ciência, em realidade, não cresce cumulativamente, mas, antes, mediante “revoluções”. Alguns indivíduos começam a perceber a realidade de modo qualitativamente diferente de seus antecessores e contemporâneos que estão realizando “ciência normal”. [...]
Nenhum indivíduo ou grupo consegue, de fato, “criar” um novo paradigma; em verdade, ele cresce e amadurece dentro do contexto de uma rede extraordinária de diversos fatores sociais e científicos.
Á proporção que o paradigma vigente se desfaz, o novo começa a atrair um número crescente de estudiosos, até que, finalmente, abandona-se o paradigma original, eivado de problemas”.[1]
Kuhn quer dizer que a cada época, um conjunto de conhecimentos, métodos e entendimentos acaba criando um tipo de patamar onde este conjunto constitui os paradigmas, as regras vigentes a cosmovisão de discernimento da realidade e que sua ação vai se estendendo até um certo “esgotamento” ou “exaustão” do sistema vigente em atender as necessidades e expectativas que se renovam. Surge neste momento um certo desconforto de questionamentos, e um agitar de busca de novos caminhos que possam atender e expressar estas ansiedades e necessidades, um processo revolucionários que promove uma instabilidade que vai gerar uma fase de transição de mudança de patamar, que inicia-se influenciado pelos paradigmas anteriores mas vai se acomodando numa nova conjunção de forças, regras, valores até que o anterior seja deixado para trás entrando em pleno curso a vigência de uma nova fase, um novo patamar.
BOSCH, a partir deste raciocínio apresenta seis épocas da missiologia com o seu respectivo paradigma típico de seu momento ilustrado com texto bíblico norteador[2]:
  1. Apocalíptico do Cristianismo primitivo.
“Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê,  primeiro do judeu e também do gregoRm.1.16
  1. Helenístico do período da patrística.
“Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” Jo. 3.16
  1. Católico Romano medieval.
“Respondeu-lhes o senhor: Sai pelos caminhos e atalhos e obriga a todos a entrar, para que fique cheia a minha casa.” Lc.14.23
  1. Protestante (da Reforma)                                                        
“Pois não me envergonho do evangelho,  porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê,  primeiro do judeu e também do grego, visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: O justo viverá pela fé”. Rm.   1.16-17

  1. Moderno do Iluminismo                                                           
“Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado.” Mt.   28.18-20
  1. Ecumênico emergente                                               
“Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz.” I Pe.  2.9[3]
A aplicação deste modelo de Kuhn na área das ciências exatas traz implícita a idéia da evolução progressiva, uma vez que o novo conjunto de conhecimentos e observações incorpora o anterior, evolui e estabelece um novo patamar que transcende o anterior. Se imaginarmos que possa ser aplicada tal idéia no campo da missiologia e da teologia a prática demonstra que ela não segue necessariamente esta mesma linha de resultados de aperfeiçoamento evolutivo. A própria história da Igreja demonstra como ao longo dos tempos foram empreendidos caminhos retrógrados a estágios anteriores. Assim a aplicação da teoria de Kuhn na missiologia da igreja por Bosch estaria equivocada? A resposta é que não, desde que seja afastada a expectativa de que a mudança dos patamares sucessivos de paradigmas implique numa natural evolução de aperfeiçoamento tanto da igreja como de sua missiologia.
A título de exemplo a análise da caminhada da insensatez das lideranças de governos e lideranças ao longo da história da humanidade, a historiadora Bárbara W. Tuchman, aponta que o fracasso é fruto de quatro tipos de desgovernos, muitas vezes combinados:
1.       tirania ou opressão;
2.       ambição desmedida;
3.       incompetência ou decadência e
4.       insensatez ou obstinação.[4]
 Dentro desses tipos, voltado para o último, o da insensatez ou obstinação TUCHMAN traz nesse rosário de infortúnios da história humana, um momento da vida da igreja que reflete esse ambiente de insensatez que conduziu a forte cisma com implicações que afetaram profundamente a vida de toda a humanidade e perdura até os dias de hoje com a Reforma.
Durante um período de sessenta anos, grosso modo situado entre 1470 e 1530, o espírito secular dos tempos  numa sucessão de seis papas – cinco italianos e um espanhol – que o exarcebaram até os extremos de venalidade, amoralismo, avareza e poderio político fantasticamente calamitoso. Em seus reinados escandalizaram os fiéis, conduziram a Santa Sé a conflitos, deixaram sem resposta os brados por reformas, ignorando todos os protestos, advertências e crescente revolta, conseguindo afinal, espatifar a unidade da Igreja e perdendo metade de seu rebanho para a cisão protestante. Praticaram a insensatez da contumácia e da obstinação, possivelmente a de maiores consequências da história ocidental, se medidas por seus resultados em séculos de continuada hostilidade e guerras fratricidas. [5]
Assustadoramente numa precisão cirúrgica, TUCHMAN resgata o caráter das saídas construídas para a crise que se avizinhava nesta época comprometidas com o sonho de grandeza ambiciosa que povoava a mente da liderança da Igreja neste período, um bom exemplo pode ser visto na solução encontrada pelo papa Nicolau V como relata.
Acreditavam que através de grandiosidade e beleza visíveis o papado cresceria em renome e a Igreja manteria seu domínio sobre os fiéis. Nicolau V, considerado o primeiro papa da Renascença, falou explicitamente dessa crença em seu leito de morte, em 1455. Urgindo os cardeais para que continuassem a renovação de Roma, disse: “Para criar convicção sólida e estável algo deve apelar para os olhos dos fiéis. Uma fé sustentada apenas pela doutrina será sempre fraca e vacilante. Se a autoridade da Santa Sé tornar-se visível, materializada em edifícios majestosos... toda gente a aceitará com reverência. Nobres edifícios combinando gosto e beleza, de proporções imponentes, exaltarão imensamente a Cadeira de São Pedro”. A Igreja tinha palmilhado longos caminhos desde Pedro, o Pescador. [6]
Na ótica da história – e neste caso nem conivente com as justificativas da igreja de Roma denunciada nem com a contundência dos movimentos protestantes que faziam a denúncia dos erros – o diagnóstico deste período e dos eventos que o constituíram com o olhar crítico voltado para o papel da liderança institucional da Igreja  nos apontam lições que nos assombram pela forte marca da sua pertinência e recorrência ainda hoje, com tal contundência que não necessitam nem o acréscimo de qualquer comentário ao que TUCHMAN nos diz:
Os titulares assumiram o axioma de que o papado seria eterno, de que os desafios poderiam ser suprimidos sempre, como vinha acontecendo a séculos, através da Inquisição, das excomunhões, da fogueira; que o único perigo real estaria representado pela autoridade superior na forma do Concílio, sendo necessário, tão-somente, evita-lo ou exercer controle sobre ele para que permanecessem em segurança. Nenhuma compreensão do protesto, nenhum reconhecimento de sua própria impopularidade ou vulnerabilidade perturbou jamais as suas mentes. Sua visão dos interesses que lhes tinham sido confiados para administrar era tão fútil e mesquinha a ponto de aproximar-se da malignidade. Eles não possuíam senso de sua missão espiritual, nenhum atributo característico dos guias religiosos, nada acrescentaram ao universo cristão.
Essas três atitudes incompatíveis – indiferença ao crescente descontentamento dos fiéis, preocupação de auto-engrandecimento, ilusão de status invulnerável – caracterizam aspectos persistentes da insensatez. Embora no caso dos papas da Renascença esses aspectos tenham sido alimentados e exarcebados pela cultura ambiental, independem do fator tempo e são recorrentes no exercício de governar[7]
Com a forte diversificação das expressões da fé cristã após a Reforma, a incidência visível de movimentos religiosos especulativos na fé vão se tornando cada vez mais freqüentes e mais significativos no cenário contemporâneo. Da mesma forma que a Reforma trouxe o arejamento necessário à igreja, sufocada por todo o conjunto de insanidades existentes na liderança de Roma pelo divórcio da essência bíblica e voltada para a construção de reinos pessoais de suas lideranças, essa “abertura religiosa” permitiu que um flanco, muito pequeno no princípio, ficasse exposto para o surgimento de outro tipo de insensatez. Uma insensatez desconexa de firmes fundamentos históricos e teológicos, e estes, muito mais especulativos para com a fé simples das pessoas por lideranças oportunistas.
As crises e revoluções sofridas na história da igreja e da humanidade estão intimamente ligadas a um conjunto de tensões entre o quadro de potencialidades e deficiências que o conjunto vigente impõe ao status quo vigente quando confrontado com expectativas e ansiedades humanas além da inevitável ação divina ao longo da história humana. Como tais revoluções e movimentos de mudanças são processadas por agentes humanos, mesmo sob a orientação divina, estes carregam em si mesmos parte da carga pessoal, frágil e falha das pessoas agentes destas mudanças. Como não considerar as imperfeições de indiscutíveis homens de Deus que fizeram diferença na vida da igreja como os confrontos havidos entre os apóstolos na igreja primitiva quanto a inclusão ou não de não judeus à igreja intensamente discutidos por Pedro, Paulo, Tiago e Barnabé, como também mais tarde outros homens usados por Deus como Martinho Lutero, Calvino, Wesley e outros mais.
Nos momentos de crises paradigmáticas eclesiais são inevitáveis tanto ganhos como perdas, uma vez que no afã de mudar uma situação vigente há uma prática de rejeição de tudo que representa aquele passado imediato contestado pelos revolucionários e em sentido oposto a rejeição de tudo de novo que chega aos revolucionados, num autêntico movimento pendular e queda de braço.
A teoria de Kuhn presta-se para considerarmos que a mudança do conjunto de paradigmas muda sim o patamar dos entendimentos e das “regras do jogo”, entretanto sem serem necessariamente superiores ou mais evoluídas que a condição imediatamente anterior já que nestes movimentos a paixão humana acaba por abandonar ou reduzir fortemente aspectos saudáveis e positivos que são de forma preconceituosa afastados apenas porque tem um “cheiro” de um passado indesejado, como da mesma forma as inovações ganham um caráter quase que sacro-santo e inquestionável como se o pressuposto da inovação lhes conferisse um atestado de qualidade inquestionável.
O mito da constante “evolução” no campo da missiologia e da eclesiologia ao longo da cronologia humana é um equívoco, e a aplicação deste aprendizado que agrega valor só pode ser realizado com absoluta humildade e despido de preconceitos, quer para coisas antigas distantes ou imediatas, quer para gostos, preferências pessoais ou linhas de pensamento inquestionáveis.
Isto é o que se pode chamar o aprendizado de construção de outros mapas mentais possíveis. Paul Hiebert ilustra de forma bem didática esta construção que fazemos como indivíduos ou como grupos inseridos numa cultura ou quando adentramos nela[8].
Este tipo de construção natural induz a consolidar uma forma de interpretação a partir da qual todas as interpretações e expectativas futuras ficam condicionadas ao que aquela construção nos revela e paramos de analisar outras possibilidades. Entretanto quando são acrescentados novos dados que somente são descobertos posteriormente ou estavam até mesmo latentes na sua manifestação ou ainda mesmo dados realmente novos que agora se apresentam surgem dificuldades de interpretação e leitura dentro dos paradigmas do mapa mental anterior.
A revisão da leitura com os novos dados (novos elementos que introduzem influência do novo patamar paradigmático) permite elaborar uma nova interpretação e leitura que pode até englobar e ampliar a leitura anterior sem necessariamente conflitar ou desarmonizar dela, principalmente quando estes novos dados têm origem no próprio homem, suas mudanças e os efeitos de elementos que afetam sua maneira de pensar, seu comportamento, seus valores enfim toda sua cultura e lastro de vida pessoal e comunitária.
Na realidade o que encontramos são patamares distintos que devem ser desmistificados do modelo tipificado como uma escada em degraus que sempre ascende como evolução contínua. Cada patamar apresenta um conjunto próprio de valores, significados e contribuições importantes mas também possuem debilidades e fraquezas pois na sua grande maioria são leituras e interpretações humanas, falhas e restritas muitas vezes às condições e limitações de seu tempo, momento histórico, sua cultura vigente.
Para a missiologia e a própria eclesiologia esta mudança significa que novos componentes foram agregados ou valorizados e outros reduzidos ou afastados, não há uma necessária garantia de uma suposta melhoria ou piora do quadro anterior, a não ser que se houver uma serena observação e orientação do Espírito Santo em discernimento é possível sim extrair-se o melhor das lições do passado somadas com as inovações verdadeiramente saudáveis que se aplicam principalmente no entendimento do comportamento humano que afeta diretamente a vida da igreja e seu engajamento na obra maior de Deus na história.
As expressões da Igreja em Emergência e seus líderes que surgem nestes dias não acontecem como fatos isolados, mas inseridos num contínuo da história da Igreja de Cristo palmilhada através de um povo seu que traz consigo todas as virtudes de serem feitos à sua imagem e semelhança, mas de igual modo frágil e pecador como o primeiro Adão. Inevitavelmente diversas de suas ações de protesto e conclamação a uma revolução da ordem presente estabelecida, da sua releitura com a propositura de mudanças pode reproduzir o que a própria história já viu, o descarte sem critério do que possa ter qualquer tipo de relação ou inferência com o passado imediato que se quer transformar, correndo o risco de deixar escorrer por entre os dedos preciosos legados de uma boa herança, e, ao mesmo tempo, saudar acriticamente toda e qualquer manifestação que leve o rótulo da novidade como se todo novo fosse um “up-grade” de promoção de melhoria e excelência de qualidade automática.
A Igreja em Emergência e todas as suas expressões inovadoras, assim como a igreja moderna, a tradicional institucionalizada e tantas outras expressões da eclésia do Senhor Jesus, possuem preciosos e variados “homens de Deus”. Preciosos porque são de “Deus”, dele são e por ele mesmo chamados de filhos pelo seu nome um a um, e frágeis porque são “homens”, como qualquer de um nós feitos do mesmo impuro barro, sem exceção, compondo a multidão dos pecadores carentes.
E como foi apropriadamente dito por John Stott:
“O tempo não para. História é mudança”.


Autor: Rogério Hernandez de Oliveira - em 12.jan.2011
rho@1955@gmail.com
Texto compilado sobre o tema dos antecedentes que fazem parte da inauguração dos movimentos da Igreja em Emergência (Emerging Church)


[1] BOSCH, David J. “Missão Transformadora.”  Sinodal, 2002  p.230.
[2] _________Ibidem.
[3] Nesta sexta época indicamos o acréscimo da leitura do texto de Mt. 5.14-16 associado ao texto de I Pe 2.9. O texto de Mateus não consta de citação expressa na obra de Bosch, mas ganha uma boa importância, pois ele é valorizado em alguns trabalhos divulgados no ambiente da Emerging Church criando certa ascendência de importância diante do uso recorrente de afirmações tendenciosas  e unilaterais apoiadas de maneira restrita no texto de Ef.2.8-9, manipulado inadequadamente como amenizador da responsabilidade pessoal afastando elementos abrangidos pelos temas relacionados com justiça social e o cuidado com a vida integral da pessoa e seu próximo na esfera de atuação da igreja.
[4] TUCHMAN, Bárbara W. A marcha da insensatez – de Tróia ao Vietnã. Rio de Janeiro. 6 ed. JOSÉ OLYMPIO, 2003. p. 5.
[5] ____________ Ibidem p. 54.
[6] TUCHMAN, Bárbara W. A marcha da insensatez – de Tróia ao Vietnã. Rio de Janeiro. 6 ed. JOSÉ OLYMPIO, 2003.   p. 64.
[7] ___________  Ibidem p. 130.
[8] HIEBERT, Paul. “The Missiological implications of epistemological shifts: affirming truth in a modern world”. TRINITY PRESS. 1999. p.42.

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