Angela Natel On sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012 At 04:23


Tese: O propósito deste ensaio é oferecer uma breve panorâmica histórica de algumas maneiras nas quais a igreja cristã tem definido “missão” através dos séculos e demonstrar como várias definições têm influenciado o pensamento e a prática dos ministérios da Igreja Cristã no mundo, neste sentido este ensaio está voltado ao PASSADO do qual tem sido denominado “missões”.

INTRODUÇÃO
Era meio dia de um domingo, eu havia sido convidado para almoçar com os membros da Força Tarefa de Alcance Global de uma igreja local. Três semanas antes daquela manhã no culto matinal que tinha sido convidado para pregar havíamos sido inspirados pelos maravilhosos e enlevantes eventos da programação. Tinha sido a sua Semana de Alcance Global. Ao final daquele almoço dirigi-me para Gloria (não era esse o seu nome real), a líder responsável daquela força tarefa e destaquei:
Estou muito impressionado com a organização e abordagem criativa da força tarefa para aquele fim de semana de missões. O jantar de sexta-feira foi tão bem feito incluindo as entrevistas dos membros  da sua igreja envolvidos em ministérios locais e globais. A feira de missões tinha tanto um amplo número de cartazes que destacavam todos os missionários e as atividades que a sua igreja apoia local e globalmente. Os aspectos multiculturais locais e internacionais da música, os reports, e a apresentação visual tão bem feita. Muito obrigado por me convidar para ser parte desta celebração.
Gloria sorriu e respondeu:
Obrigado pela sua avaliação. Suas observações são importantes para nós. Mas, note que nós não chamamos esta a nossa “Semana  de Missões”. Se tivéssemos chamado de nossa Semana de Ênfase Missionária, ninguém teria vindo. Nós sabemos disso; já tentamos antes. A palavra missões os afasta. Os membros da nossa igreja não querem se associar com nada chamado “missão”. Quando trocamos o nome para Alcance Global, tudo mudou. Você sabe Chuck, ninguém saber o que “missão” é. Mas a maioria de nossos membros querem estar envolvidos em algum tipo de ministério local ou global que beneficie os  carente, os necessitados. Eles estão especialmente interessados em projetos de curto prazo e visitas para diferentes partes do mundo. Agora você vê porque, quando lhe convidamos parar pregar, eu lhe pedi para que não utilizasse a palavra Missão em seu sermão
Eu praticamente cochilei enquanto ouvia Gloria. Durante os últimos anos comentários como dela é o que tenho ouvido. Parece que missão e missionários são dois termos mais mal compreendidos no vocabulário das igrejas norte-americanas hoje.

COMO TEM SIDO UTILIZADA A PALAVRA MISSÃO HOJE.
Parte da confusão com a palavra missão pode ser o resultado do seu sobre uso hoje nos mais diversos auditórios.  Por curiosidade fiz uma busca no Google para a palavra missão e recebi 247 milhões de indicações! Alguns estados tinham cidades com nome “Missão”. Bem distante do que procurava havia três filmes chamados “Missão Impossível”, e um filme religioso (não tão distante do nosso tema aqui) chamado “A Missão” de 1986. Quando a NASA envia um ônibus espacial para se conectar com a estação espacial internacional, aquela viagem é chamada de uma “missão”.  A palavra é  especialmente proeminente  no mundo dos negócios porque uma corporação geralmente estabelece a sua “declaração de missão” como uma forma de articular o propósito central e fundamental para o qual a corporação existe. Embora a maioria dos usos da palavra pareça ter pouco ou nada a ver com a igreja cristã, cada um de fato descreve uma pequena porção do que pode significar para a missão cristã. O dicionário nos oferece uma gama de definições, incluindo o sentido com referência a atividade missionária cristã.
É especialmente importante que a igreja cristã debata como é articulada a razão e seu propósito existente no seu senso comum. Congregações locais têm sido encorajadas a escrever sua Declaração de Missão para focar seus diversos ministérios. Denominações tem desenvolvido Declarações de Visão e Missão que tem orientado as prioridades denominacionais  ao longo dos últimos anos.
Também durante a década passada temos visto se tornar familiar a modificação da palavra como “igreja missional”. Nos recentes anos 90 G. Hunsberger, D. Guder, I. Dieterrich, L. Barret, A, Roxburgh, C. Van Gelder, e outros fundaram “The Gospel and Our Culture Network” para desenvolver as implicações do desafio de L. Newbigin para América do Norte relativamente à reevangelização do Ocidente, seguindo a linha do movimento do Evangelho e Cultura na Inglaterra dos anos 80 encabeçado por W. Shenk. As recentes conversas, diálogos, reflexões e publicações do “The Gospel and Our Culture Network” contribuíram para a criação do conceito de “igreja missional”. Ultimamente esse termo tem sido utilizado de muitas maneiras a ponto de se tornar quase sem sentido algum. Uma pesquisa no Google para o termo trouxe 933.000 indicações. Uma breve avaliação  mostra que o termo agora sugere qualquer tipo de nova vida, visão, vitalidade e direção da igreja – geralmente com pouca ou nenhuma reflexão teológica ou missiológica.
Por vários séculos a igreja cristã tem definido missão numa ampla variedade de caminhos. Sidney Rooy tem destacado as diferenças:
“Não existe, nem nunca existiu, uma única definição da missão da igreja, nem [uma interpretação] para quais são os alicerces bíblicas da sua missão. Se, como David Bosch, definimos missão como misso Dei (a missão de Deus), podemos dizer que isto significa a revelação de Deus como daquele que amou o mundo que Ele criou, aquele que se preocupa com este mundo, que formou a igreja para ser um canal sujeito ao chamado de participar do projeto histórico do estabelecimento do reino de Deus... Nossa compreensão da missio Dei tem sido submetida a várias interpretações através da história... Cada definição e todos os seus entendimentos das bases bíblicas dessa missão são tentativas e estão sujeitas a nova avaliação e mudança. Verdadeiramente, cada geração necessita novamente definir missão.”

O SIGNIFICADO BÍBLICO ORIGINAL DA PALAVRA MISSÃO.
Porque a Bíblia é a nossa fundação, nós começamos a construir nossa definição de “missão” considerando as perspectivas bíblicas. A palavra missão é rara tanto no Antigo Testamento Hebraico como no Novo Testamento Grego. O que é enfatizado regularmente é o conceito de ser enviado, com uma ênfase na autoridade e propósito daquele que envia. O Novo Testamento usa apostellö e pempö de alguma forma intercambiáveis. O Dicionário Teológico do Novo Testamento conta-nos que:
“apostellö ocorre cerca de 135 vezes no NT, majoritariamente nos Evangelhos e Atos. Pempö ocorre outras 80 vezes, 33 em João, 5 em Apocalipse, 22 em Lucas/Atos, apenas 4 em Mateus, e 1 em Marcos. Com exceção do especial uso de pempö em João, o predominante material de Lucas; ... o caráter religioso do material do NT expõe a predominância geral de apostellö, e no NT quase sempre o termo pempö parece ser utilizado quando a ênfase do esforço está no envio, já apostellö vem mais com o comissionamento, e especialmente (nos Sinóticos) quando é Deus que envia.
Em João, Jesus utiliza apostellö para mostrar sua plena autoridade, isto é, para assentar sua missão em Deus como o Único que é responsável pelas suas palavras e obras. Mas ele usa pempö, por exemplo, na frase “o Pai me enviou,” como para estabelecer a participação de Deus no seu trabalho pelo ato do envio... A missão de Jesus adquire sua significância e força do fato de que ele é o Filho, não da descrição em termos de apostellö.
No NT apostollein certamente começa a ser uma palavra teológica para “enviado adiante para servir a Deus com a própria autoridade de Deus”, mas  apenas no contexto e não com qualquer partida radical fora do senso normal...
Em relação ao uso geral de apostellein no NT nós devemos dizer finalmente dizer que a palavra começa a se tornar um termo de significado teológico “ser enviado adiante para servir no reino de Deus com plena autoridade (lastreada em Deus).”
Em Lucas 9 Jesus envia os 12, e em Lucas 10 os 70, em sua missão aos judeus e ao mundo. Após a ressurreição Jesus comissiona os seus seguidores como aqueles que estão sendo enviados. Jesus diz, “Paz seja convosco! Assim como o pai me enviou [apostellö], eu também os envio [pempö]” (Jo. 20.21). Paulo usa o termo na sua forma substantiva (apóstolos) para se referir a si mesmo, seu chamado, seu comissionamento, e sua autoridade derivada de seu envio pelo próprio Jesus o Messias no início de Romanos, 1 e 2 Coríntios, Gálatas, Efésios, Colossenses, 1 e 2 Timóteo, e Tito. O autor de 1 e 2 Pedro faz o mesmo.
Assim o primeiro elemento da definição de “missão” deve ser baseado no conceito de “envio”.  A igreja é enviada pelo seu Senhor. Através da Bíblia o povo da aliança de Deus é claramente enviado por Deus às nações que ainda não faz parte do povo de Deus. Jesus se refere a si mesmo como aquele que foi enviado: “Eu devo proclamar as boas novas acerca do reino de Deus para outras cidades também, porque eu fui enviado [apostellö] com este propósito” (Lc. 4.43). Assim como Jesus, os seus seguidores também são enviados a proclamar a vinda do reino de Deus, a convidar todas as pessoas a se tornarem discípulos de Jesus e responsáveis membros da igreja de Cristo (Mt. 28.18-20). Este entendimento da palavra missão é o mais básico e nuca deveria ser perdido ou eclipsado por subsequentes discussões e refinamentos.
A igreja no século vinte e um necessita manter o elemento do “envio” da missão cristã em primeiro plano. Missão bíblica é a missão de Deus. Missão é participação na missão de Jesus Cristo, o Senhor da Igreja, no poder do Espírito Santo. Missão não é meramente uma extensão da igreja, não é meramente fazer boas obras de compaixão. Missão não pode ser determinada pela agenda ou particular visão de uma agência. Hoje, com muitos missionários transculturais que estão sendo enviados e sustentados por igrejas e agências missionárias na Ásia, África e América Latina como os enviados da Europa e América do Norte. Ainda assim na análise final os “enviadores” não são as denominações, nem as agências missionárias, nem as mega igrejas ou seus pastores seniors, nem o apoio de agências não governamentais. A autoridade do empreendimento da missão não é da denominação, da agência missionária, do autoproclamado apóstolo, da ajuda de uma grande agência ou de uma cultura mais avançada. O Enviador é Jesus Cristo, cuja autoridade define, circunscreve, limita e impulsiona a missão Cristã.

 A REDEFINIÇÃO DA MISSÃO CONSTANTINIANA
Por cerca de quase três séculos após a vinda do Espírito Santo no Pentecoste, a igreja cristã entendia “missão” como princípios superiores. Mas com as mudanças efetuadas pelo imperador Constantino (306-337), a definição de missão mudou dramaticamente. Sidney Rooy nos dá um excelente resumo do impacto da era constantiniana no entendimento  de missão da igreja. Assim Rooy explana:
“Com o reconhecimento do Cristianismo como uma religião oficial permitida, baseada no Decreto de Milão em 313 AD, o contexto em que os cristãos vinham exercendo sua missão mudou drasticamente. Após aquele primeiro largo degrau, o próximo veio numa rápida sucessão: em 325 [Cristianismo] tornou-se a religião favorecida, em 380 tornou-se a religião oficial, e por volta de 392 era a única religião tolerada [no Santo Império Romano]. Tudo isso em um breve intervalo de oitenta anos, o Cristianismo deixou de ser uma religião perseguida para se tornar uma religião perseguidora... Durante a Idade Média, no ocidente, o rei era considerado o vicário de Cristo e de Deus...
Desta forma, agregou-se à igreja, o [estado-nação] tornando-se um agente da missão representada por pessoas designadas pelo imperador. O método pelo qual a igreja se estendeu a inclusão pela imposição da fé [forçadamente] destruindo as religiões pagãs e a instituição de nova religião. É verdade que em algumas ocasiões o Evangelho foi expandido através do trabalho de missionários,... mas a maioria da Europa foi cristianizada pela conquista, o batismo em massa de pagãos, e a construção de igrejas, monastérios e escolas com o apoio direto dos poderes políticos [daqueles dias].
No Constantiniano [modelo de missão], a motivação dominante era a temporal extensão espiritual do [daquilo que consideravam ser] “reino de Deus” [incorporado no imperador]. Sem dúvida alguma, havia uma confusão a respeito dos dois reinos: o estado e a igreja. Juntos com as grandes massas que adentraram à igreja, muitas crenças e costumes [populares] foram também aceitos. A religião popular [do povo], que sempre tinha existido, tomou uma nova direção que afetou não apenas as doutrinas e cerimônias da igreja, mas também influenciou a forma como missão era entendida.
Formas deste modelo continuaram na era colonial dos séculos 18 e 19. As missões cristãs às vezes eram bem similares ao modelo medieval descrito acima. S. Neill diz:
Gostemos ou não, o fato histórico é que a grande expansão do Cristianismo coincidiu com a explosiva expansão mundial da Europa que se seguiu na Renascença; de que os poderes colonizadores haviam sido os poderes Cristãos; que uma grande variedade de compromissos e relacionamentos existentes entre missionários e governantes; e que principalmente o Cristianismo foi carregado adiante na onda do prestígio e poder do ocidente.
Para nós que vivemos no século vinte um não é tão difícil julgarmos os modelos medieval e colonial de missão. Ao longo dos 150 anos passados, missões protestantes empreenderam do norte e do ocidente do globo para o sul e o oriente a implantação de um protestantismo cultural, muito mais preocupado e interessado em propagar uma forma particular de civilização do que ajudar homens e mulheres a crer em Jesus Cristo. Cultura, civilização, educação, e tecnologia geralmente resgatavam o imperador eclipsando o evangelho da fé em Cristo Jesus. Nas atividades missionárias de hoje, quando denominações, organizações missionárias, ou mega igrejas estabelecem o “plantio” de novas igrejas que são essencialmente filiais de extensão da organização enviadora, os paralelos com a visão de missão do modelo medieval são bastante perturbadores.

 A DEFINIÇÃO DE MISSÃO NA GRANDE COMISSÃO DE WILLIAM CAREY
Ao final dos anos de 1700 W. Carey (1761-1834) sugeriu um caminho diferente para entender missão. Carey “pregava que a responsabilidade primária da igreja eram missões estrangeiras”(REAPSOME). Em sua obra paradigmática. “Uma investigação à obrigação dos cristãos de utilizar os meios para a conversão dos pagãos”, Carey baseou sua visão de missão em Mt. 28.18-20, uma passagem que eventualmente é bem conhecida na igreja cristã, particularmente entre os protestantes como a Grande Comissão. Durante o século dezenove e os primórdios do século vinte, a Grande Comissão (juntamente com Mc. 16.15-16; Lc 24.46-49; Jo. 20.21; At. 1.8) veio cumprir um papel extremamente importante em missões e na missiologia.
A versão da Grande Comissão em Mateus desenvolveu e contribuiu para uma particular visão de Missão. A Grande Comissão de Mateus foi o componente primário do fundamento bíblico para o “Watchword” do Movimento Voluntário Estudantil do final dos anos de 1800 que posteriormente foi popularizado por J. R. Mott (1865-1955) como moto para a grande conferência missionária realizada em Edimburgo em 1910: “A evangelização do mundo nesta geração”. Dispomos um espaço aqui para mencionar apenas um pouco dos compromissos firmados.
Por cerca de 150 anos precedentes aos anos de 1960´s. Os protestantes fizeram uso da Grande Comissão como seu fundamento para missão assumindo o seguinte:
- que salvação era individualista;
- que salvação estabelece primariamente um relacionamento espiritual e pessoal com Jesus Cristo;
- que o chamado primário da missão da igreja era geográfico: os cristãos são chamados a “ir”;
- Que o “ir” era primariamente do ocidente e norte do globo para o oriente e sul;
- Que a porção da Grande Comissão de “fazer discípulos” era mais importante do que as porções de “batizar” e “ensinar”;
- Que os novos convertidos deveriam ser reunidos em igrejas assemelhadas – e geralmente exatamente como – as igrejas e missões enviadoras;
- E (especialmente durante a última metade do século dezenove) que os novos convertidos deveriam ser extraídos dos seus contextos não cristãos, reunidos em instalações de missões cristãs, e ensinados na cultura e civilização dos missionários.
Em 1.955 D. McGravan (1897-1991) “Pontes de Deus: um estudo na estratégia de missões”, no qual ele afirmou, mas radicalmente reinterpretou a missiologia da Grande Comissão de Mt. 28.18-20. McGravan a abordagem do “mission station” (instalações de missões cristãs); sugeriu que a palavra “nações” (ethnë) significava muito mais grupos de pessoas do que indivíduos; afirmava que o imperativo, o mandato, era discipular pessoas e não “indo” definido geograficamente, como enfatizado pelo pensamento de missão mais recente; e sugeriu que o resultado de toda atividade deveria ser aferida pela mensuração em termos de números de pessoas – em grupos etnicamente coesivos – que se tornassem membros da igreja de Cristo. Fundado em 1955 por McGravan, o movimento de crescimento da igreja construído sobre os dogmas da missiologia de seu livro. Por volta dos anos 70 e 80 em alguns círculos evangelicais protestantes, o ethnë veio a ser compreendido como sendo “grupos de povos não alcançados”, uma visão que combinava algumas assunções geográficas e individualistas com certas ênfases de grupos culturais. Mas nunca houve uma clara e precisa compreensão teológica e missiológica do que era “não alcançado” ou queria se dizer com “resistente”.

MISSÃO E O MODELO DE IGREJA INDÍGENA
O entendimento de missão da Grande Comissão enfatizava a evangelização daqueles que ainda não eram seguidores de Jesus. Paralelamente a esta visão estava uma perspectiva mais institucionalizada defendida por H. Venn (1796-1873) na Inglaterra e R. Anderson (1796-1880) nos Estados Unidos. Esses dois administradores de missões trabalhavam no sentido de que o alvo da missão era o nascimento, o cuidado e desenvolvimento de “auto sustentação, autogoverno e auto propagação dessas igrejas” (self-supporting, self-governing, self-propagating churches). J. Scherer descreve essa visão que segue:
A nova visão centrada na igreja [de missão], destacada em meados do século dezenove através da obra de Henry Venn e Rufus Anderson... estabelece a visão de que “plantação de igreja” – especialmente o plantio de “três autos” igrejas locais com sua própria autonomia e indigenidade – devem ser consideradas após a conversão pessoal como um importante objetivo de missões. O reconhecido “pai” da ciência de missão, Gustav Warneck, declarou que a atividade missionária era “uma estrada de uma igreja [existente] para outra igreja [no campo missionário]”.
Embora não tenham pretendido chegar a isso, o alvo de missão advogado por Venn e Anderson como um princípio de administração de missão tornou-se a dominante e virtual definição de missão na teologia de missão e sua prática entre quase todas as denominações mais antigas e agências de missões por cem anos, iniciados no meio do século dezenove. Muitos daqueles que seguiram Venn e Anderson tentaram amenizar os aspectos institucionais na sua visão de missão. J. Nevius (1829-1893), R. Allen (1868-1947). M. Hodges (1909-1986) e A. Tippett (1911-1988) ofereceram refinamentos à fórmula dos “três auto” (three-self) com ênfase no desenvolvimento dos aspectos espiritual, orgânico, teológico, relacional, social, cultural e contextual das congregações missionárias. Mesmo que o conceito original dos “três auto” tenha continuado a dominar na África, Ásia e América Latina semelhantes até certo ponto a algumas outras igrejas e missões norte americanas e europeias ocidentais no modelo “três auto”, que hoje exibem outro tipo de “auto” (self): elas tendem a ser autocentradas (self-centered) e egoístas (selfish).
Durante os anos 70 e 80, muitas denominações nos EUA adotaram a forma dos “três auto” como filosofia administrativa para plantar novas igrejas nos subúrbios das cidades da América do Norte, com muitos resultados distintos. Ainda restam vestígios desse movimento em alguns empreendimentos de plantação de igrejas denominacionais nos EUA.
Mais recentemente o movimento da igreja em emergência (emerging church) parece estar buscando caminhos para nascer, nutrir, e desenvolver congregações que são indígenas ao centro das cidades dos EUA. Este novo movimento mostra um surpreendente paralelo com a busca da geração baby-boomer em formar comunidades de fé transformadoras  orientadas na visão de reino nas cidades dos EUA durante os anos 60. Aqueles que estão liderando esses esforços contemporâneos podem aprender muito com o que seus predecessores experimentaram tanto em missão local como global em termos de gerar, nutrir e desenvolver igrejas “indígenas” ao redor do mundo.

 MISSÃO NOS ANOS 60
Logo após a Segunda Guerra Mundial, muitos missiologistas e teólogos europeus ocidentais juntamente com seus pares na mesma linhagem denominacional na América do Norte, começaram a formular uma nova visão de missão. Encarando as desastrosas consequências do silêncio e da irrelevância da igreja na crise da Europa Ocidental durante os anos 30 e os recentes anos 40 seguindo a inspiração de D. Bonhoeffer entre outros, as igrejas associadas com o recente e inexperiente Conselho Mundial de Igrejas (fundado em 1948) começaram a buscar pelo que eles consideravam ser um missiologia mais relevante. Eles queriam mobilizar as igrejas a se envolver com o que Deus estava fazendo no mundo. Esta nova visão de missão cristalizou-se em torno da frase “missio Dei”, “a missão de Deus”, e representando uma radical secularização da missão. Missiologistas como J. C. Hoekendijk demonstravam um profundo pessimismo a respeito de a igreja ser um viável agente da missão de Deus. De fato Hoekendilk sugeriu que a melhor coisa que a igreja poderia fazer era sair de si mesma, de dentro para fora e essencialmente deixar de existir. Isto conduziu à ênfase da missão de Deus voltada para, e centrada no reino de Deus e o mundo muito mais do que a igreja. J. Scherer resume esse desenvolvimento como segue:
A ultima metade do século dezenove e a primeira metade do século vinte foram amplamente dominadas pelo conceito centrado na igreja como alvo prático que foram então chamados de “missões estrangeiras”. O foco de igreja-centrismo se implantou sobre as anteriores teorias da missão individualística derivadas do pietismo e do reavivalismo evangelical focado na conversão pessoal [conversio gentium] e “salvação da alma”...
De 1860 a 1960 o alvo da missão centrado na igreja serviu ao propósito de substituir o antigo padrão missionário de conversões individuais, nisto definiu claramente a necessidade de dar passos adiante plantando igrejas entre todas as nações. Mas como a tarefa de plantio de igrejas havia avançado nos seis continentes, ela estava rapidamente se tornando obsoleta como alvo missionário...
Após [a reunião do Conselho Missionário Internacional em] Willingen [em 1952], o padrão de missão centrada na igreja... já não era adequado para lidar com os problemas que as igrejas em missões encaravam em, de para todos os seis continentes na era pós-colonial. Estes problemas requeriam uma reação da missio Dei [missão de Deus], com um claro entendimento da base Trinitariana e a natureza da missão da igreja, mediante abertura e sensitividade ao caráter escatológico do reino, e a subordinação do relacionamento da igreja com ele.
[Mas] na década de 60, missio Dei estava se tornando o brinquedo nas poltronas dos teólogos com um pouco mais do que um interesse acadêmico na missão prática da igreja, mas com uma considerável inclinação para especulação teológica e desperdícios...
Deus era visto como que trabalhando fora do propósito divino em meio ao mundo através das imanentes, intramundanas forças históricas, acima de toda secularização. A visão da missio Dei trinitariana  foi substituída pela teoria da transformação do mundo e da história não através da evangelização e a plantação de igrejas, mas pelos significados de um processo histórico imanente divinamente guiado, de alguma forma análoga às visões deístas do Iluminismo. Esta visão secular da missão de Deus fez a igreja empírica virtualmente dispensável como um agente da missão divina, e em alguns casos um obstáculo... O mundo estabeleceu a agenda para a igreja, e o real lugar da missão de Deus não era mais a igreja, mas o mundo. Consequentemente, a igreja deve agora receber a ordem para marchar deste mundo... Humanização foi a nova palavra chave”.
Esta radical redefinição de missão, com seu forte ímpeto da iminente secularização da missão cristã, tornou-se a razão de preocupação entre muitos da maioria dos leais participantes no Conselho Mundial de Igrejas. S. Neill, por exemplo, advertiu: “Quando tudo é missão, nada é missão”. Neill sentiu a necessidade de enfatizar que “o único e central propósito para o qual a Igreja havia sido chamada à existir é que... deveria pregar o Evangelho a toda criatura. Tudo o mais – ministério, sacramentos, doutrina, cultos – é acessório a isto”. Bevans e Schroeder comentam, “É importante ter cautela com a advertência de Stephen Neill de que se tudo é missão, então nada é missão.” Todavia, necessitamos também de prestar atenção à “advertência de David Bosch de tomar cuidado de delinear missão tão pontualmente”. As agências de missões evangelicais no século vinte um estão crescentemente se tornando comprometidas e envolvidas em causas humanitárias e ministérios de compaixão via agricultura, educação, medicina, ministérios envolvidos com AIDS, movimentos de crianças em risco, e assim por diante. Dar estas novas ênfases num ativismo na missão evangelical, convém-nos considerar cuidadosamente como as visões evangelicais da missão hoje podem ser tentadas a repetir os mesmos erros quando a missão foi redefinida e eventualmente perdida no Conselho Mundial de Igrejas entre os anos 60 e 90.

 A REAÇÃO EVANGELICAL – REDEFINIÇÃO E RECONSTRUÇÃO DE MISSÃO: 1980s A 2000
Os anos 60 foi um período de grande “fermentação” ao longo do globo. Somente em 1960 dezessete novas nações africanas nasceram. Na América Latina ditaduras surgiram e caíram. A Europa ocidental estava recuperando suas forças. A Guerra Fria continuava forte, assim como a Guerra do Vietnam. O mundo católico romano estava em alvoroço após o Conselho Vaticano Segundo. Os babies boomers estavam mudando a face da América do Norte. Antigas igrejas e agências de missão estavam enfrentando profundas crises na sua identidade, propósito, direção e prioridades para ação em missão, enquanto um novo grupo de agências de missão iniciadas após a guerra estava começando a dominar o cenário de missões.
No número de abril de 1969 o “The International Review of Missions” (o mais antigo periódico missiológico no mundo) retirou o “s” para se tornar “The International Review of Mission”. Muitas das antigas denominações nos EUA abandonaram as palavras missão e missionário e adotaram o vocabulário de “obreiros fraternais” e “compartilhar ecumênico de recursos”.
A saída de uma visão centrada na igreja que incluía a ideia da conversão individual à fé em Jesus Cristo foi tão drástica que McGravan acusou o Conselho Mundial de Igrejas de “trair os dois bilhões”. E em “Crucial Issues in Missions Tomorrow”, publicado em 1972, McGravan disse:
A aeronave de missões foi sequestrada... Ajudar igrejas antigas assim como ajudar as igrejas mais jovens é considerado missão. Por este novo ângulo, missão deixa de ser a proclamação do evangelho para não cristãos e se torna ajuda entre igrejas ou boas obras feitas em qualquer lugar.
A integração do Conselho Missionário Internacional (IMC) no Conselho Mundial de Igreja impactou fortemente a teologia evangelical de missão dos anos 60. Reagindo contra o pensamento esquematizado na seção anterior, um significante número de líderes evangelicais juntaram-se em duas principais conferências de missão em 1966, inspirados pela Associação Billy Graham: o Congresso na Church´s World Mission em Wheaton e o Congresso Mundial de Evangelismo em Berlin. Estas reuniões mais tarde desaguaram nos grandes congressos em Lausanne (1974), Pattaya (1980) e Manila (1989), entre outros.
Além desse grande fermento, no pensamento evangelical de missão veio à tona uma nova síntese evangelical e nova definição de missão para o século vinte um. Durante os anos 80 e 90 os evangelicais chamaram de missão entre “grupos de povos não alcançados” em locais onde eles viram não ser viável a presença de uma igreja. Isto motivou os evangelicais a enviar uma multidão de missionários para países do antigo bloco soviético após o desmantelamento da União Soviética. Esta visão de missão também conduziu à ênfase de missão na “Janela 10-40”. A área entre os paralelos 10 e 40 do equador, vindo desde a fronteira limite com a Europa Ocidental até o norte do Pacífico, a região menos evangelizada do mundo onde a maiorias dos povos mais pobres vivem.
R. Winter lançou um movimento para “frontier missions”, missão entre que não tinham um contato natural com cristãos. Após o Congresso Lausanne II em Manila, o movimento AD 2000 e Adiante nasceu para mobilizar cristão ao redor do mundo para evangelização mundial, seguindo a visão similar de Edimburgo em 1910.
Juntamente com essas novas iniciativas podem ser observadas o esforço evangelical de buscar trazer o evangelismo e a ação social junto novamente. Em suas extremas rações às ênfases dos anos 60 do Conselho Mundial de Igrejas, os evangelicais deixaram de dissociar palavras e intenções, discurso e ação, proclamação verbal e transformação social. Mediante uma série de consultas, eles buscaram trazer mais perto uma da outra sem necessariamente dar prioridade a uma sobre a outra.
Hoje, no início de um novo século, Missão Evangelical está buscando por uma nova, apropriada, criativa e motivante definição de missão. Cada vez mais, missiologistas evangelicais tem adotado a noção bíblica da Missão de Deus (missio Dei) como norteadora de uma visão de missão mais holística. O. Costas, S. Escobar, R. Padilla, e outros apontam para uma ênfase mais forte no reino de Deus como um paradigma útil da ação de missão transformacional e holística. Os evangelicais hoje provavelmente vão concordar com a observação de Scherer:
Abandonar a estrutura igreja-centrada não significa um abandono da missão da igreja, mas sim uma revisualização daquela missão a partir de um vigoroso, fresco, bíblico, missiológico, e, sobretudo escatólogico ponto de vista. Isto se torna uma tarefa prioritária para a teologia da missão cristã hoje.
A missiologia evangelical segue buscando uma nova e coesiva síntese. Em 1999 V. Samuel e C. Sugden compilaram uma coleção de ensaios intitulados Missão como Transformação. O arcabouço Reino-de-Deus para missão é vigoroso neste volume. Em 2000 teólogos evangelicais de missão reunidos em Foz do Iguaçu, Brasil, para dialogar a respeito da missão da igreja. Uma rápida olhada nos tópicos mostrava uma visão de missão buscando atender diversas e variadas agendas missionais. No grande congresso evangelical de missão na Tailândia em 2004, o conceito “transformação” foi sugerido. Em seu desejo de desenvolver um entendimento holístico da missão, os evangelicais, provavelmente necessitam prestar atenção para a advertência de Neill de que “quando tudo é missão, nada é missão”. Uma missiologia evangelical coesiva, consistente, focada, teologicamente profunda, missiologicamente ampla e contextualmente apropriada ainda não emergiu para este novo século.

 DEFININDO MISSIONAL E MISSÃO: UMA SUGESTÃO
Um possível caminho para definir missão para o século vinte um, deve necessariamente envolver uma tentativa de descrever o que uma igreja missional deva parecer. Eu posso dar uma sugestão para isso.
Com o termo missional eu enfatizo a natureza e vocação natural e essencial da igreja da mesma forma como Deus chamou e enviou seu povo. Uma eclesiologia missional é bíblica, histórica, contextual, praxiológica (prática) e escatológica. Com referência à igreja, o termo vê a igreja como um instrumento da missão de Deus no mundo de Deus. Seguindo L. Newbigin e outros, uma igreja que é missional entende que o Deus da missão chama e envia a igreja de Jesus Cristo, local e globalmente, no poder do Espírito Santo, para ser uma igreja missionária na sua própria sociedade, nas culturas nas quais se encontra, e globalmente entre todas as pessoas que ainda não confessam Jesus como Senhor. Missão é o resultado da iniciativa de Deus, enraizada nos propósitos de Deus de restaurar e curar a criação e chamar as pessoas a um relacionamento de aliança reconciliada com Deus. Missão significa “envio”, e o tema bíblico central descrevendo o propósito da ação de Deus na história humana, com o povo de Deus (agora a igreja) sendo os agentes primários da ação missionária de Deus.
Desta forma, se uma igreja é missional, ela será:
·         CONTEXTUAL: uma igreja missional compreende a si mesma como parte de um contexto mais amplo de um mundo caído muito amado por Deus;
·         INTENCIONAL: uma igreja missional entende a si mesma existindo com o propósito de “seguir Cristo na missão”.
·         PROCLAMADORA: uma igreja missional entende a si mesma como intencionalmente enviada por Deus na missão de anunciar em palavras e ações a vinda do reino de Deus em Cristo.
·         RECONCILIADORA: uma igreja missional entende a si mesma como uma presença reconciliadora e curadora nos seus contextos, local e globalmente.
·         SANTIFICADORA: uma igreja missional entende a si mesma como uma comunidade de fé reunida em torno da Palavra pregada, e desta maneira pessoal e publicamente  vivida com sua verdade e servindo assim como uma purificadora influência na sociedade.
·         UNIFICADORA: uma igreja missional entende a si mesma como uma envolvente, cercante, ajuntamento de uma comunidade de fé, ansiosa em receber pessoas à sua fraternidade.
·         TRANSFORMADORA: uma igreja missional é “o sal da terra” (Mt. 5.13), uma presença transformadora como o corpo de Cristo em missão, chamada para ser, encarnada, e vivendo no mundo seguindo os conceitos bíblicos de missão, entre outros: koinonia, kerygma, diakonia, martyria, profético, sacerdotal, real, libertador, curador, sábio.
Igualmente uma conceituação de igreja missional necessitaria levar em consideração a inter-relação do que Bosch chama de “intenção de missão” da igreja e a “dimensão de missão” da igreja.

 CONCLUSÃO
Então, o que eu diria a Gloria e sua Força Tarefa de Alcance Global? Ela também está ciente de que as formas pelas quais nós definimos missão influenciam as nossas motivações, os agentes, os significados, os objetivos, e a forma pela qual medimos os resultados de nossas vidas, ministérios e ações como cristãos no mundo.
Talvez eu possa ajudar Gloria e os membros de sua igreja a iniciar a ganhar uma visão bíblica de missão centrada em Jesus Cristo e moldada pelo evangelho do reino de Deus. Scherer diz:
Um dos problemas cruciais da missiologia da segunda metade do século vinte foi  como adequar uma transição de sucesso de uma anterior teologia de missão igreja-centrada para reino-orientada sem perder a visão missão missionária ou trair o conteúdo bíblico. Dificilmente poderá ser negado de que estamos no meio de uma grande transição. E de igual modo está claro que ainda não alcançamos o pleno significado de uma mudança para orientação para reino, com estritas correlações com a missio Dei trinitariana... todas as implicações dessas mudanças para nossa prática missionária ainda  estão no futuro.
Em 1986 eu escrevi, “A Broadening Vision: Forty Years of Evangelical Theology of Mission – 1946-1986.” Embora a missiologia evangelical tenha passado por algum desenvolvimento em relação às observações que fiz, eu deixo para o leitor examinar a extensão de quais definições evangelicais de missão mudaram durante os anos deste intervalo.
Retornando para o final do meu almoço com Gloria e sua força tarefa, Eu lhes sugeri a considerarem o pensar, compartilhar insights e trabalhar juntos para escrever sua própria definição de missão.  Uma vez que eles tenham estruturado sua definição como força tarefa, eles poderiam usar a palavra novamente, ensinando e promovendo-a em sua igreja na direção de incrementar a mobilização de sua congregação a participar da missão de Deus no mundo de Deus. Eles acharam a ideia intrigante e desafiadora. Mais tarde, quando estava me preparando para ir para o aeroporto, com um brilho nos seus olhos, Glória me perguntou, “Bem, e como você define missão?”. Isto foi o que eu lhe disse:
Eu venho trabalhando nisso por mais de 40 anos. Já faz um bom tempo que sigo em busca de uma definição. Eu cheguei à seguinte tentativa: “A missão de Deus opera primariamente através do envio de Jesus Cristo do povo de Deus para intencionalmente cruzar barreiras entre igreja para não-igreja, de fé para não fé, para proclamar por palavras e ações a vinda do reino de Deus em Jesus Cristo através da participação da Igreja na missão de Deus de reconciliação de pessoas com Deus, consigo mesmas, um com o outro e com o mundo e reunindo-os na igreja, mediante arrependimento e fé em Jesus Cristo, pela obra do Espírito Santo, com uma visão de transformação do mundo, como im sinal da vinda do reino em Jesus Cristo”.
Que o Espírito Santo possa nos ensinar como ser e nos tornarmos mais autenticamente “povo missionário de Deus” neste novo século, enviado a um mundo perdido e ferido tão amado por Deus.

VAN ENGEN, Charles. “Mission” Defined and Described” - HESSELGRAVE, David J. e STETZER, Ed editores et al – MISSIONSHIFT: Global Misson Issues in the Third Millennium”. B&H ACADEMIC – 2010 – p. 07-29. - Tradução de Rogério Hernandez de Oliveira - texto utilizado em aula para o curso de bacharelado em Teologia da Faculdade Fidelis/2012.

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