Angela Natel On quinta-feira, 10 de novembro de 2011 At 11:18
         (Angela Natel)

        Ao buscar embasamento teórico para uma pesquisa como esta, muito se encontra a respeito de uma interpretação messiânica do livro que leva o nome do profeta Isaías. É até possível que se trate de uma reinterpretação histórica do passado a partir de dados já experimentados, sem que isso implique, necessariamente, em uma predição do futuro nas épocas que abrangem os três períodos básicos da escrita do livro de Isaías. Porém, a maior parte dos autores concorda que se trata de uma visão profética em determinados trechos (e.g. Isaías 53), que concluem numa predição futura a respeito do servo escolhido por YHWH para salvar o povo de seus pecados.
            O que fica difícil de combinar é a noção de Reino de Deus que havia no Antigo Testamento com esse conceito de salvação messiânica do Novo Testamento. Para que o texto de Isaías realmente fosse direcionado para a pessoa de Jesus Cristo, por exemplo, seria necessário que o mesmo conceito de salvação, libertação e estabelecimento do Reino de Deus fossem equivalentes aos seus respectivos conceitos na época do Novo Testamento, quando isso, de fato, se deu. O que se vê, porém, é uma idéia equivocada de Messias que o povo judeu carregou consigo até a época de Jesus, e que por isso não o reconheceu como tal, quando este agiu abertamente em seu ministério.
            Não é possível afirmar que essa tenha sido uma ação proposital da parte de Deus, para que o povo rejeitasse de fato o verdadeiro Messias, iludindo-o com falsas expectativas de um Reino terreno e uma justiça contra o domínio opressor de outras potências mundiais para, dessa forma, cumprir sua ida à cruz. Entretanto, o contrário também não pode ser sustentado com tanta veemência, já que o que se tem são fatos de diferentes épocas e suas respectivas expectativas, que podem ou não se inter-relacionar. Devido à nossa posição histórica, cai-se inevitavelmente no erro de analisar os fatos independentemente de sua posição histórica ou contexto em que se deram, relacionando-os a nosso bel prazer. O perigo está em afirmar uma relação inexistente e, com isso, interpretar o texto bíblico em um propósito para o qual ele não foi escrito e usá-lo de maneira leviana fora da mensagem de seu contexto original.
            Indo direto aos dados, um dos equívocos mais comuns parte do próprio nome do profeta, Isaías (ישעיהו = YH salvou) que possui o mesmo significado do nome de Jesus (Yhowshuwa). O tema da profecia de Isaías é a salvação de YHWH, e isso tem estreita ligação com o conceito messiânico dos dias atuais. A salvação, para Judá, tratava-se da libertação da opressão assíria, da ajuda babilônica sem nenhum tipo de vassalagem e a prosperidade na terra. O próprio Isaías, a partir disso, serviu como um tipo de Messias.
            Gerard van Groningen é um dos autores que defende acirradamente a teoria da visão messiânica no AntigoTestamento. Para ele, em Isaías as figuras do renovo de YHWH (Is.4), do toco (Is.6), do filho da virgem (Is.7), do renovo de Jessé (Is.11), nada mais são do que predições descritivas a respeito do Messias que estava por vir, e justifica a omissão da análise de outros pontos de vista a respeito em razão do enorme volume de informação já trabalhado em seu material.
            Quando se trata de defender a interpretação messiânica de Isaías, o texto de Isaías 9:2-7 fornece amplo material, uma vez que apresenta ambigüidades, amplitude de significado em diversos termos e inúmeras possibilidades de interpretação. Gerard, por exemplo, analise nome por nome, na língua original de escrita, trabalhando o sentido dos termos à medida em que explana o direcionamento de YHWH para um reinado eterno do Messias (cf. GERARD: 518-530). O quadro apresentado por esse autor, que identifica o rei universal (Messias) e que aparece, segundo ele, no livro de Isaías, é o seguinte:

            Mais tarde, é apresentada uma ampla explanação e análise a respeito do Filho/Servo em Isaías 40-42, sempre apontando na mesma direção que os demais textos.
            Apesar dessa visão comumente difundida no meio teológico, a perspectiva libertadora ainda se pronuncia através de diversas vozes na releitura do profeta Isaías. Nessa visão, a interpretação e análise textual se aproximam mais da realidade de onde o texto se deu, a realidade imediata da profecia, numa sociedade em que o Reino de Deus era visto mais no sentido da justiça social e direitos aos fracos. É nessa linha que segue, por exemplo, Anthony R. Ceresko, que apresenta um panorama básico, porém bem menos ‘fantasioso’ a respeito da mensagem de Isaías. O autor enfatiza as figuras de linguagem utilizadas pelo profeta e realça o valor da ironia em mensagens que outros poderiam considerar messiânicas, como em Isaías 9.
            Infelizmente, quando se trata de buscar exposições teológicas e homiléticas em meio a essas duas vertentes que claramente se nos abrem, a linha da interpretação messiânica mostra-se melhor servida de defensores e, por isso, parece melhor documentada. Quando nos aproximamos para verificar a qualidade do que nos é apresentado, porém, não há muita consistência.
            Os textos que mais são usados para estabelecer uma correlação direta com a figura messiânica de Jesus são Isaías 7:14, 9:6 e capítulo 53. Ao analisarem-se os termos, fica difícil manter uma opinião tão consistente como a apresentada por Gerard, acima.
Em Isaías 7:14, o termo traduzido em muitas versões em português para ‘virgem’ é העלמה, que na maioria de suas ocorrências na Bíblia, é traduzido por ‘jovem’.
            Em Isaías 9:6, muito se escreve afirmando que os termo não poderiam ser dirigidos a uma pessoa comum, mas somente ao Messias, descendente de Davi. Mesmo assim, nada há que negue o contrário.
            O capítulo 53, a meu ver, é o mais difícil de analisar, tendo em conta nosso conhecimento a respeito da vida e morte de Jesus, e, portanto, não somos imparciais nesta análise.O que se pode afirmar, porém, é que o profeta (mesmo o terceiro Isaías, no período pós-exílico) não tinha condições de prever tal situação, e seu contexto era por demais diferente do primeiro Isaías para afirmarmos que tinha as mesmas expectativas.
            Ao ler diferentes posições, refletir a respeito do que foi apresentado em sala de aula e conferir os textos para análise, chego à conclusão de que deve-se buscar, em primeira instância, um entendimento o mais próximo possível do que foi recebido pelos ouvintes originais, dentro de seu contexto e com suas expectativas, a fim de não interpretarmos os fatos de maneira invertida, crendo que uma situação futura determina o passado, ou acrescentando fatos dantes inexistentes no decorrer do processo.
           


Referências bibliográficas:
CERESKO, Anthony R.. Introdução ao Antigo Testamento numa perspectiva libertadora. São Paulo: Paulus, 1996.

GRONINGEN, Gersrd van. Revelação Messiânica no Antigo Testamento – a origem do conceito messiânico e o seu desdobramento progressivo. 2ª Edição. São Paulo: Ed. Cultura Cristã, 2003.

Interlinear Scripture Analyzer - ISA basic  2.1.4 Copyright © 2011 André de Mol. All rights reserved.

1 comentários:

Thiago Ottobeli disse...

Ah, já sei o que vou usar no trabalho do Jimmy! hehe

Fui pesquisar e olha o que eu encontro... o trabalho da dona Angela! rsrs


Fica com Deus, abração!

Liberdade de Expressão


É importante esclarecer que este BLOG, em plena vigência do Estado Democrático de Direito, exercita-se das prerrogativas constantes dos incisos IV e IX, do artigo 5º, da Constituição Federal. Relembrando os referidos textos constitucionais, verifica-se:
“é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato" (inciso IV) e "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença"(inciso IX). Além disso, cabe salientar que a proteção legal de nosso trabalho também se constata na análise mais acurada do inciso VI, do mesmo artigo em comento, quando sentencia que "é inviolável a liberdade de consciência e de crença". Tendo sido explicitada, faz-se necessário, ainda, esclarecer que as menções, aferições, ou até mesmo as aparentes críticas que, porventura, se façam a respeito de doutrinas das mais diversas crenças, situam-se e estão adstritas tão somente ao campo da"argumentação", ou seja, são abordagens que se limitam puramente às questões teológicas e doutrinárias. Assim sendo, não há que se falar em difamação, crime contra a honra de quem quer que seja, ressaltando-se, inclusive, que tais discussões não estão voltadas para a pessoa, mas para idéias e doutrinas.