Angela Natel On terça-feira, 11 de outubro de 2011 At 06:36

Texto de Paulo Nascimento publicado originalmente em Novos Diálogos
No último dia 3 de setembro o estado de Alagoas viu ressurgir algo que havíamos pensado estar fora de moda: o crime de mando. Tombou, sob o impacto de doze covardes tiros, o médico e professor Luiz Ferreira, que também atuava na vida pública como vereador no município de Anadia.
Virtual candidato à prefeitura daquela cidade, Luiz Ferreira foi vítima de uma emboscada logo após deixar um programa de rádio, onde anunciara sua virtual candidatura. Aos sessenta e um anos de idade, com um amplo currículo de serviço à sociedade alagoana nos campos da saúde, da educação e da política, Luiz Ferreira pagou com o próprio sangue o preço de assumir a postura político-ideológica que quis, e de colocar-se a serviço dos pequenos.
Infelizmente, a história recente de Alagoas tem sido constantemente manchada com o sangue de gente inconformada com os feudos políticos e com os currais eleitorais ainda muito vigentes por aqui. É muito grande a lista de pessoas que, seja no enfrentamento político, seja nos enfrentamentos dos movimentos sociais (principalmente na luta pela terra), foram vítimas dos caciques que não suportam sequer a ideia de terem seu poder questionado.
Estranhamente, não há a presença de padres, bispos, pastores e apóstolos nesta lista de mártires.
Digo “estranhamente” porque a Bíblia, livro-guia da fé cristã e chamado por padres, bispos, pastores e apóstolos de “regra de fé e prática”, está cheia de exemplos de pessoas que tais como Luiz Ferreira, pagaram com suas próprias vidas o preço do serviço aos mais humildes e do enfrentamento dos poderosos. Nós protestantes, por exemplo, professamos o sola scriptura, isto é, professamos que apenas as Escrituras Sagradas devem ser o referencial de nossa fé. Mas não são justamente as Escrituras Sagradas que chamam de “bem-aventurados” aqueles que são perseguidos e mortos por causa da justiça? (Mateus 5.10-12)
Os profetas do Antigo Testamento, em sua maioria, viram-se perseguidos por questionarem a manipulação religiosa, as falsas consolações populares, o monopólio do poder e a opressão que se impunha ao povo mais pobre. Elias foi perseguido por se opor à idolatria e aos desmandos reais de Acabe e Jezabel. Isaías, conforme certa tradição religiosa, foi perseguido e cerrado ao meio por conta de sua mensagem de denúncia à opressão política e religiosa. Jeremias foi perseguido por Zedequias por conta de sua denúncia das falsas consolações populares em relação à invasão babilônica.
Conforme a tradição mais crida entre os cristãos, todos os apóstolos de Jesus Cristo foram perseguidos e mortos em função do conteúdo subversivo de sua mensagem. Apenas João teria tido morte natural. O próprio Jesus de Nazaré teve na cruz a resposta do Império Romano à sua práxis subversiva, considerada perigosa à estabilidade imperial nas províncias da Galiléia e da Judéia. A mensagem do “sacrifício vicário e salvífico” veio depois, como produto da fé dos primeiros cristãos.
Embora se dê muita ênfase aos aspectos sombrios e nefastos da Igreja Cristã na História – como as cruzadas, as caças às bruxas, as guerras religiosas europeias, a perseguição aos livres pensadores, a intolerância frente a outras religiões etc. –, não se pode esquecer que o Cristianismo também tem legado ao mundo uma rica lista de homens e mulheres que foram mártires em defesa da vida.
Dietrich Bonhoeffer (†1945), pastor protestante alemão, foi perseguido e morto pelo nazismo por conta de sua oposição a Hitler. Martin Luther King Jr. (†1968), pastor batista norte-americano, foi assassinado por conta de sua luta em prol dos direitos civis nos Estados Unidos. Dom Oscar Romero (†1980), arcebispo católico, foi assassinado em El Salvador por conta de sua defesa dos pobres e do seu enfrentamento dos poderosos.
Ignácio Martin-Baró (†1989), padre católico e psicólogo social, e Ignácio Ellacuria (†1989), padre católico e teólogo da libertação, foram brutalmente assassinados com mais quatro companheiros da Universidade San José em El Salvador, por representarem ameaçadas às oligarquias que historicamente mantinham-se no poder.
Dorothy Stang (†2005), missionária católica na Amazônia, foi brutalmente assassinada por conta de sua defesa dos direitos da floresta e daqueles que dela viviam e estavam sendo alijados desse direito. Esta é uma lista muito grande. Estes são apenas os nomes mais conhecidos.
Alagoas também tem sido uma terra de mártires. Mas, quem são eles? Este estado, historicamente caracterizado pela imposição voraz das oligarquias da terra, pela centralização das atividades econômicas na nefasta monocultura da cana, e pela idolatria do poder político caracterizada pelos feudos familiares, tem tido seu chão manchado pelo sangue de muita gente que ousou sonhar com uma Alagoas diferente. Mas, quem são essas pessoas? Repito: estranhamente não há a presença de padres, bispos, pastores e apóstolos nesta lista. Portanto, é inevitável perguntar: quem são os verdadeiros profetas nesta terra? É com vergonha e pesar que respondo olhando para mim mesmo: não somos nós, os religiosos.
Nós, padres, bispos, pastores e apóstolos não somos os profetas que têm manchado o chão de Alagoas com o sangue que rega a luta pela justiça. No lugar do enfrentamento, preferimos o conforto. No lugar de uma sociedade mais justa e inclusiva, preferimos o céu e suas delícias. No lugar da denúncia, preferimos o silêncio, quando não a camaradagem e o favor de certos déspotas alagoanos.
Denunciamos os “perigos do mundo”, sem notar que nossa vidinha mesquinha e aquietada por nossos gordos salários, é tudo que “o mundo” espera de nós. Somos leões da moralidade, gigantes na defesa da família, vigilantes intermitentes dos perigos do sexo, ao mesmo tempo em que somos gatinhos manhosos frente à opressão política, anões frente à imposição das oligarquias econômicas, e completamente cegos para a dor da maioria do povo de Alagoas. Definitivamente, nós nunca fomos profetas de nada!
A voz do sangue de Luiz Ferreira clama por toda terra de Alagoas até os céus (Gênesis 4.10). O sangue deste mais novo mártir alagoano clama, em primeiro lugar, para que a justiça seja feita em relação aos seus algozes materiais e intelectuais. Em segundo lugar, a voz do sangue de Luiz Ferreira clama a toda sociedade alagoana, como uma trombeta tocando no alvorecer do dia, convidando-nos todos a acordar do sonho de paz e segurança.
Em terceiro lugar, a voz de seu sangue clama nos recordando de que os poderes da morte estão muito vivos, e não querem conceder espaço para coisas diferentes, para uma sociedade mais igualitária, mais inclusiva e mais participativa. Em quarto lugar, a voz do sangue de Luiz Ferreira clama a nós, padres, bispos, pastores e apóstolos, para que saiamos de nosso mundo imaginário e sublimatório de paz e segurança. Ela clama nos convidando a despedaçar o cálice de ópio que nos embriaga há tanto tempo.

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