Angela Natel On quarta-feira, 19 de outubro de 2011 At 06:46

O que os cristãos creram a respeito do inferno ao longo da história?
Após uma introdução das três principais visões sobre o inferno, apresentamos aqui grandes nomes da história e o que defendiam sobre o assunto. (acesse a introdução para ver o índice)
Jerônimo (c. 347-420)
Jerônimo foi influenciado por Orígenes em seus primeiros escritos e supostamente defendia a posição de que todos os batizados no fim seriam salvos, e que somente seriam condenados por toda a eternidade os demônios e os não-cristãos. Essa crença foi rejeitada por Agostinho, e o próprio Jerônimo, em seus últimos anos, voltou-se severamente contra as posições de Orígenes.
Agostinho de Hipona (354-430)
Agostinho, sem dúvida alguma o teólogo mais influente da igreja ocidental, defendia a doutrina da punição eterna, contrapondo-se aos seguidores de Orígenes e a outros que abraçavam uma compreensão mais “purgativa” do inferno. (Agostinho cria também em alguma forma de purgatório, mas para ele se tratava de algo fundamentalmente distinto do inferno.) De maior relevância, talvez, foi sua doutrina acerca do pecado original e a crença resultante de que os seres humanos decaídos constituem uma massa damnata, sendo todos condenados pelo pecado de Adão e de Eva, o qual lhes foi transmitido na forma de uma corrupção da vontade. Deus em sua graça escolhe alguns seres humanos dentre esse “todo” condenado, os quais por sua vez partilham da salvação que foi conquistada por Cristo no momento em que ele resgatou a humanidade das mãos do Diabo.
Máximo, o Confessor (c. 580-662)
Máximo é amplamente conhecido por defender a doutrina segundo a qual Jesus tem uma vontade humana diferente de sua vontade divina, além do entendimento de que a humanidade de Jesus tem implicações salvíficas para a redenção dos seres humanos. A teologia de Máximo foi profundamente moldada pela teologia dos Pais Capadócios, dentre os quais Gregório de Nissa, e consequentemente também por Orígenes. Máximo usou o termo apocatástase, mas também fez suas ressalvas, afirmando que os seres humanos podem rejeitar a graça de Deus e experimentar “mal-estar” no lugar de “bem-estar”. Parecia crer que toda a criação retornará ao conhecimento primevo acerca de Deus, mas para os que escolheram rejeitá-lo, esse conhecimento será fonte não de alegria, mas de tristeza. Ainda assim, as implicações cósmicas de sua cristologia são tais que, no fim, todos retornarão a Deus. Esse processo de retorno requer purificação, e o “mal-estar” e a tristeza no fim se transformarão em “bem-estar” e alegria.
Idade Média (c. 500-1500 d.C.)
A Era Medieval presenciou uma mudança de ênfase. O realce da igreja primitiva nas “últimas coisas” apresentadas pelas Escrituras — a segunda vinda de Cristo,a ressurreição geral e o juízo final — cedeu espaço para uma nova concentração, agora na vida após a morte. Até os anos 400 e mesmo depois, a volta de Jesus era ainda esperada como algo iminente. Assim, em geral se entendia que os que morriam nessas gerações intermediárias estavam dormindo ou aguardando a ressurreição. Não havia muita coisa escrita nesse período inicial a respeito do destino imediato dos que morressem antes da volta de Cristo.
Todavia, à medida que a segunda vinda começava a parecer mais remota, os cristãos foram se concentrando cada vez mais na doutrina do juízo imediato de cada alma após a morte. O livro de Apocalipse em especial começou a servir de guia para o imaginário cristão acerca do destino das pessoas após a morte. Esse realce no pós-morte resultou em um novo gênero literário, grotesco e sempre com um excesso de ilustrações: eram as visões da viagem rumo ao outro mundo. A Divina comédia de Dante representou o ápice do gênero. Nessas viagens, muito mais tempo se gastava, de forma geral, descrevendo o inferno que o purgatório ou mesmo o céu ― e dentre as figuras mais comuns estavam o fogo que ardia eternamente, as cobras, os caldeirões ferventes, os campos de gelo eterno, os rios sulfúreos em ebulição e as torturas infligidas por demônios.
Não raro essas jornadas imaginárias tinham por objetivo mostrar o inferno aos leitores do ponto de vista de alguém que tinha morrido (fazia pouco tempo), tinha visitado o reino dos mortos  e depois tinha retornado para relatar o que vira. O objetivo dessas histórias era quase sempre exortar o leitor ou ouvinte a levar uma vida moralmente boa na terra, evitando os pecados que poderiam condená-los para sempre.

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Um comentário para “A História do Inferno: de 400 a 1000 d.C.”

"Todo aquele que ler estas explanações, quando tiver certeza do que afirmo, caminhe lado a lado comigo; quando duvidar como eu, investigue comigo; quando reconhecer que foi seu o erro, venha ter comigo; se o erro for meu, chame minha atenção. Assim haveremos de palmilhar juntos o caminho da caridade em direção àquele de quem está dito: Buscai sempre a Sua face."
Agostinho de Hipona

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