Angela Natel On segunda-feira, 29 de agosto de 2011 At 06:47


Um tema que surgiu outro dia na caixinha de sugestões foi “pornografia no meio evangélico”. De cara já digo: isso não existe – pornografia no meio evangélico. E explico.
Primeiro, precisamos entender o que é pornografia. A palavra vem do grego πόρνη = porne, “impureza”, “prostituição”, e γραφή=grafé, representação, portanto, a exposição, de cenas ou objetos obscenos e de práticas sexuais diversas, com o intuito de despertar desejo. Parece que a expressão deu origem também ao termo “fornicação” (de “fornicis”, ou “fornix”, que significa abóbada ou arco; “fornice” era um arco sob a qual as prostitutas romanas se exibiam).
Então, nesse contexto,podemos inferir que no meio evangélico, entendido como a igreja cristã, não existe tal coisa. Da mesma forma que é inconcebível uma fábrica de cigarros evangélicos, ou cachaça para crentes. Embora haja tentativas de se criar boates gospel, funk gospel, balada gospel, e atésex-shop gospel, o que se percebe é que existem pessoas dentro da igreja que ainda estão presas a determinados vícios, seja bebida, cigarro ou pornografia, os quais, em si, são coisas externas à Igreja. Isto é, apesar de estarem freqüentando círculos ditos cristãos, há quem ainda não se libertou de certas cadeias, e alguns espertalhões surgem querendo lucrar em cima das fraquezas dos demais. Eles conhecem – e muitos cristãos não! – a diferença entre a sexualidade (e sua representação artística) de um lado, e a comercialização do sexo, de outro lado.
Por exemplo, vende-se a falsa idéia de os homens são naturalmente suscetíveis à pornografia, por ceder mais facilmente ao apelo visual do que as mulheres. Mas este é um argumento estéril, diz o psicólogo Gary Brooks, citado pela jornalista Pamela Paul em seu livro “Pornificados”. Ele afirma que a indústria pornográfica “ensina” homens a serem fanáticos por seios grandes, e embora o tamanho deles nada tenha a ver com a capacidade reprodutiva ou a saúde da mulher, até mesmo psicólogos evolucionistas são enganados por esses argumentos e assim reforçam os lucros da indústria, perpetuando um comportamento compulsivo e doentio.
Não vou entrar em detalhes sobre os malefícios desse negócio, porque há muitos sites especializados no assunto, e muitos ministérios, pastores e igrejas podem falar muito mais e melhor do que eu sobre isto.
Mas o autor da sugestão talvez tenha se referido a pecados sexuais na igreja, o que é diferente de pornografia. Ele, ou ela, pensou em abordar o problema da sexualidade, ou antes, desvios da sexualidade, entre cristãos.
O que eu penso é que a Bíblia não diz nada explicitamente sobre pornografia, mas sim sobre pecados ligados à sensualidade e aos sentidos em geral. Por exemplo, em diversas passagens somos advertidos nesse sentido:
Gálatas 5:19-21, 24 - Ora, as obras da carne são manifestas, as quais são: a prostituição, a impureza, a lascívia, a idolatria, a feitiçaria, as inimizades, as contendas, os ciúmes, as iras, as facções, as dissensões, os partidos, as invejas, as bebedices, as orgias, e coisas semelhantes a estas, contra as quais vos previno, como já antes vos preveni, que os que tais coisas praticam não herdarão o reino de Deus... E os que são de Cristo Jesus crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências.
I Pedro 1:14 - Como filhos obedientes, não vos conformeis às concupiscências que antes tínheis na vossa ignorância.
II Pedro 2:11 - Amados, exorto-vos, como a peregrinos e forasteiros, que vos abstenhais das concupiscências da carne.
Vemos que os pecados sexuais estão em pé de igualdade com o alcoolismo, a feitiçaria, a idolatria, a comilança etc., porque é tudo uma coisa só.
Corinto, a mais rica cidade da Grécia, era um antro de licenciosidade (mais ou menos como nosso país hoje), escandalizando até mesmo os romanos do tempo de Nero, e os cristãos eram diariamente expostos a situações de natureza sexual (mais ou menos como hoje). Lucius Apuleius, escritor do primeiro século, diz que sua população cosmopolita (mais ou menos como nossas cidades hoje) era famosa por seu mercantilismo e imoralidade. Um templo da deusa grega Afrodite (a Vênus romana, “padroeira” do sexo e do prazer) fazia sucesso como santuário e lucrativo bordel. Apuleius descreve um espetáculo que presenciou num teatro local, uma encenação do julgamento de Páris, onde a personagem de Vênus... “apareceu toda nua, exceto em uma parte do corpo que cobria com um fino avental, o qual o libidinoso vento não deixava repousar” (L. Apuleius, X). Mais ou menos como na TV, hoje.
Nesse ambiente licencioso floresceu uma comunidade cristã. Muitos haviam participado de tais atividades, e Paulo diz em I Coríntios 6:9-11 que “...nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o reino de Deus. E tais fostes alguns de vós; mas fostes lavados, mas fostes santificados, mas fostes justificados em nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus”.
Veja que há saída! Pessoas que tinham sido devassas, foram santificadas por Deus.
Na minha opinião, e isto é apenas uma opinião sem nenhuma pretensão de esgotar o assunto, a indústria do sexo é destinada a um determinado público, assim como as bebidas ou drogas, lícitas ou não. Não existiriam se ninguém procurasse. Trata-se apenas de alimentar a carne. E por carne, entendemos não apenas o corpo, mas também aquilo que comumente chamamos de alma, a qual governa o corpo por meio da mente. Watchman Nee fala muito sobre esse assunto em sua obra “O Homem Espiritual”, na qual explica a diferença, a origem e a influência mútua que exercem o corpo, a alma e o espírito.
“É por meio do corpo que o homem entra em contato com o mundo material. Daí podemos qualificar o corpo como a parte que nos faz conscientes do mundo. A alma é formada pelo intelecto, que nos ajuda no presente estado de existência, e as emoções, que procedem dos sentidos.... O espírito é a parte mediante a qual nos comunicamos com Deus, e só por ela podemos perceber e adorar a Deus. Como nos fala de nossa relação com Deus, o espírito é chamado o elemento que tem consciência de Deus. Deus vive no espírito, o eu vive na alma, enquanto que os sentidos vivem no corpo... O espírito pode submeter o corpo através da alma para que obedeça a Deus. Da mesma maneira o corpo, mediante a alma, pode atrair o espírito a amar ao mundo... Destes três elementos o espírito é o mais nobre porque está unido a Deus. O corpo é o mais humilde porque está em contato com a matéria. A alma, ao estar entre eles, une-os e também toma o caráter de ambos. A alma torna possível que o espírito e o corpo se comuniquem e colaborem. O trabalho da alma é manter esses dois em seu lugar adequado, para que não percam sua correta relação... O espírito transmite seu pensamento à alma e a alma utiliza o corpo para obedecer à ordem do espírito”.
Assim, quando há um desequilíbrio entre essas três partes e a ênfase recai sobre o corpo, ou sobre a alma não regenerada, surgem os vícios, os excessos; e os apetites carnais, tanto do corpo quanto da mente, predominam. Isto porque na alma residem as faculdades da vontade, do intelecto, das emoções, desejos e sentimentos, e por isso temos alertas comoColossenses 3:5 (Exterminai, pois, as vossas inclinações carnais; a prostituição, a impureza, a paixão, a vil concupiscência, e a avareza, que é idolatria). Quando a alma torna-se escrava do corpo, aparecem o alcoolismo, o tabagismo, a glutonaria, a dependência química e mais recentemente o que alguns usam para justificar suas esbórnias: o vício em sexo. Michael Douglas, Amy Winehouse, Tiger Woods, David Duchovny, Charlie Sheen, Lindsay Lohan (ao lado) são apenas alguns astros que se dizem vítimas dessa síndrome dos tempos modernos.
Recentemente a TV Record mostrou reportagem sobre um sujeito que deve a bancos e agiotas, cheio de empréstimos “para sustentar o vício” com prostitutas. O psiquiatra Eduardo Ferreira Santos diz que isso é apenas uma desculpa: o indivíduo posa de vítima perante a sociedade, como assassinos que alegam insanidade para escapar de penas mais severas.
Por isso digo que tais coisas não existem na igreja, entendida como a “assembleia dos santos”.
E então, dirão, como se explicam casos como o de Jimmy Swaggart, que foi pego com a boca na botija, e teve seu ministerio arruinado? E Ted Haggard, que pregava de dia e contratava rapazes para dormir com ele à noite? E aquele outro que largou a mulher para ficar com a secretária, depois largou a secretária, arranjou outra e agora fica dando uma de paladino da justiça, entronizado no jardim de uma mansão emprestada, mandando videos pelo Youtube?
Para mim, esses caras não fazem parte da Igreja. Não são salvos. Não são regenerados. São como aquela cantora gospel americana que “saiu do armário” e se declarou lésbica. Ou aquela outra que outro dia foi vista em festas bebendo cerveja argentina e sabe-se lá o que mais. Trata-se de pecados não tratados; falta de arrependimento.
Eu não acredito em crente endemoninhado. São situações excludentes: se o sujeito já recebeu (ou aceitou, como se diz) Jesus como Senhor e Salvador, e pelo batismo foi sepultado para o mundo e passou a ser nova criatura, as coisas velhas já passaram e tudo se fez novo, cf. II Coríntios 5:17. Nele habita o Espírito Santo de Deus e o diabo não lhe toca, porque não “vive pecando” (I João 5:18 e Romanos 8:9).
O homem natural, o incrédulo, está imerso nessas coisas porque ainda não faz parte do Reino de Deus. Nele não há o Espírito. Não se arrependeu. Falta de arrependimento significa ausência de conversão. E pelos frutos conhecemos a árvore.
O pastor que adulterou com a moça do coral ou a dançarina da igreja, ou a secretária, é igual ao padre pedófilo, o bispo gay, os “levitas” que depois do culto vão para o motel; todos fazem o que fazem porque se deixaram levar pela fantasia, escolhendo viver uma aventura. Tiago 1:14, 15 (Cada um, porém, é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência; então a concupiscência, havendo concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte). A escapada que pode custar o ministério nasce na mente, a semente cresce e se transforma numa grande árvore, ruim de derrubar. E não basta cortar, tem que arrancar a raiz, e fica uma cicatriz gigante.
O vício é assim, mais uma vez insisto, a glutonaria, a bebedice, as drogas, e o sexo.
Das duas uma: se alguém pecou, que se arrependa, mude de rumo, peça perdão a Deus e não peque mais, clamando a Deus e trabalhando na renovação da mente cf. Romanos 12:2; isto é, a raiz do problema está na alma. Ela é que se está deixando dominar pelo corpo, pelo apetite exagerado, descontrolado. Mas se a pessoa continua nessa vida indefinidamente, então o caso é de conversão.
E por falar em apetite desordenado, aqui cabe uma reflexão. Já que todos esses pecados têm a mesma origem, é uma grande hipocrisia detonar o adúltero, e acobertar o avarento. Malhar o pornófilo, e aturar o fofoqueiro. Descer a lenha em quem “não dá dízimo”, e depois do culto se empanturrar e dormir a tarde toda, engordando a pança. Já vi gente sair de almoço com os irmãos comendo tanto que precisou tomar Eparema.
Qual a diferença?
Qual pecado é pior?

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