Angela Natel On sábado, 23 de julho de 2011 At 06:54


A alguns anos atrás no ano de 2002 se não me engano, essa matéria com um titulo nada amistoso como a gente pode olhar na capa da Super Interessante foi uma surpresa para muita gente, você caro leitor nem tem a idéia de que o escritor dessa matéria que realmente chama a atenção de fato, era um jornalista na área de turismo que se mostrou um verdadeiro leigo no assunto de arqueologia biblica, para começar ele fez um resumão de varias partes do livro polêmico de Israel Finkelstein “E A BIBLIA NÃO TINHA RAZÃO”, para se ter uma idéia ele nem se deu o trabalho de pesquisar o outro lado da historia que não concordavam com as alegações do Israelense sendo algumas dessas pessoas arqueólogos de renome e reconhecimento tão respeitados e competentes quanto Finkelstein, pois bem eu achei na internet a carta de um leitor que mandou um e-mail para eles refutando várias afirmações e erros na matéria da revista, mas os caras não publicaram pois sabiam que isso ia pegar mal para eles porque o reclamante tem doutorado de historia pela Escola de arqueologia da Universidade de Liverpool, vejam a carta dele para a revista:

Marcio L. Redondo

Comprei a revista Superinteressante de julho devido à reportagem de capa (A Bíblia passada a limpo), pois trata de assunto de minha especialização.

O articulista, Vinícius Romanini, deve ser elogiado pela sua disposição de tratar de um assunto difícil. No entanto, o artigo ficou muito aquém do que os leitores da revista merecem, pois apresenta demasiadas incorreções. Vejamos algumas:

1) “Torá” não significa “lei” (p. 41, Superinteressante, jul. 2002), mas “instrução”.

2) No seu artigo, Romanini afirma que “o povo hebreu entrou em contato com o mito de Gilgamesh no século VI a.C.” (p. 43). Essa colocação é questionável, pois a descoberta em Megido de um fragmento do Épico ou Mito de Gilgamesh datado de meados do século 15 a.C.
levanta a possibilidade de os hebreus terem entrado em contato com o Épico de Gilgamesh cerca de 900 anos antes.

3) É interessante a declaração de que as “Dez Pragas [do êxodo] seriam o eco de um desastre ecológico ocorrido no Vale do Nilo” (p. 43). G. Hort foi a primeira pessoa a oferecer uma explicação científica plausível ao relato das pragas, inclusive levando em conta os inúmeros detalhes encontrados nesse relato e demonstrando a relação causa–efeito entre as pragas
. Essa explicação sugere que a história das dez pragas é o relato cuidadoso de testemunhas oculares do evento, e não o simples eco de um desastre ecológico. É temerário, portanto, dizer que “o êxodo nunca aconteceu”, como é dito na capa da revista.

4) A afirmação de que os camelos ainda não haviam sido domesticados por volta de 1850 (p. 43) é infundada. Veja-se, por exemplo, a estatueta de um camelo ajoelhado, a qual foi descoberta em Biblos, sendo-lhe atribuída a data de aproximadamente século 19 ou 18 a.C.


5) Ao contrário do que afirma o articulista, a pedra de basalto encontrada em 1993 não menciona a existência de um rei hebreu chamado Davi (p. 45). O texto diz simplesmente bytdwd. O exato significado dessa expressão, que vários estudiosos entendem ser “casa (ou dinastia) de Davi” é objeto de disputa.


6) Romanini rejeita a afirmativa bíblica de que Salomão construiu palácios e fortalezas em Jerusalém. Num raciocínio tortuoso, o articulista diz que “não há sinal de arquitetura monumental em Jerusalém” (p. 45), o que “leva a crer que Salomão, como David, eram apenas pequenos líderes tribais de Judá, um Estado pobre”. Assim sendo, o reinado de Salomão não teria sido caracterizado por opulência e poder e, conseqüentemente, ele não teria construído palácios e fortalezas em Jerusalém e outras cidades. O autor do artigo cometeu um erro fundamental. Mas ele não é o primeiro nem será o último a cometê-lo. Inexistência de prova não é prova de inexistência. Jerusalém foi várias vezes arrasada e reconstruída. Por isso não é de surpreender que eventual arquitetura monumental jamais tenha sido encontrada.

7) Ligada ao ponto anterior, encontramos ainda a afirmação de que foi Omri quem determinou a construção dos palácios de Megido (p. 45) e de que “Salomão nunca ergueu palácios” (p. 46). Essa idéia, que Romanini provavelmente extraiu de sua leitura de The Bible Unearthed (livro mencionado no final do artigo), envolve questões muito técnicas, tais como datação de cerâmica, cultura material de vários sítios arqueológicos e movimentos migratórios de diferentes povos. Contudo, “com base em sólidos argumentos arqueológicos a comunidade arqueológica em geral rejeita a cronologia cerâmica de Finkelstein”.

8) É dito que o livro de Deuteronômio “possui até profecias que afirmam [...] que um rei chamado Josias [...] seria escolhido por Deus para salvar os hebreus” (p. 47). Qualquer leitor cuidadoso da Bíblia sabe que Deuteronômio não traz tal profecia.

9) Finalmente, quanto à origem de Jesus, Romanini começa dizendo que “alguns textos apócrifos dos séculos II e III sugerem que Jesus é fruto de uma relação de Maria com um soldado romano” (p. 47). Logo em seguida Romanini declara taxativamente que ele “casou-se” com Maria para poupá-la de uma possível execução por apedrejamento. É sutil a maneira como o articulista escreve. O que era uma possibilidade (ele usa a palavra “sugerem”), tornou-se fato (“casou-se”). Se tivesse sido coerente com sua linha inicial de raciocínio hipotético, o certo seria dizer que José “teria se casado com ela”. Além disso, ele prefere textos apócrifos do segundo e terceiro séculos da era cristã aos relatos dos evangelhos, que foram escritos poucos decênios após a vida de Jesus, isto é, ainda no primeiro século.Agora, não um reparo, mas uma sugestão. É pena que no final do artigo haja apenas textos em inglês para o leitor que quer conhecer mais o assunto. Há obras em português, como é o caso de Descobertas dos Tempos Bíblicos (São Paulo: Vida, 1999), de autoria de Alan Millard, arqueólogo britânico de renome internacional e catedrático de línguas semíticas na Universidade de Liverpool,Sei que jornalismo científico não é fácil. (Minha única incursão na área limitou-se à tradução de O Buraco no Céu, de John Gribbin, livro que trata do problema do buraco de ozônio na atmosfera e que foi publicado em 1988 por Diagrama & Texto.) Mas, justamente por não ser fácil, é que o jornalista científico deve fazer uma pesquisa cuidadosa, procurando entender as várias questões envolvidas, conheço Superinteressante desde seu início. Sempre a admirei. Mas devo dizer que fiquei decepcionado com a maneira superficial como o assunto em epígrafe foi tratado.

Marcio L. Redondo é pastor batista, coordenador de pós-graduação e pesquisa da Faculdade Teológica Sul-Americana e coordenador para o Paraná do Grupo de Trabalho de História Antiga da Associação Nacional de Professores Universitários de História. É doutor em história antiga pela Escola de Arqueologia da Universidade de Liverpool, Inglaterra


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