Angela Natel On quinta-feira, 7 de julho de 2011 At 06:24



Marcelo Lemos

Jesus me ensinou a ser herege.

(Pausa para efeito...).

Jesus me ensinou a viver nas alturas.

Apesar de nunca ter passado perto da Bola de Neve Church, tenho descoberto que caminhar com Jesus é pura adrenalina; acredite: se você começar a andar nos passos de Jesus, paraglider vai parecer coisa de criança. Devo explicações. Primeiro, a contextualização do meu sentimento. Sim, estou falando de sentimentos; afinal, crente não é “robô”; ou é? Prossigamos: tenho aprendido a me livrar, dia após dia, das amarras do legalismo religioso que herdei, e também, a me esquivar, a cada dez segundos, da sedução utilitarista da(s) Santa(s) Sé(s) Gospel. Não me canso de falar de tais assuntos, pois, imagino, estes desafios são reais para outras pessoas também. Se eu estiver enganado, melhor.

Livrar-se das amarras de uma religiosidade manca, seja ela qual for, não é tarefa das mais fáceis. Nenhum ser humano vive numa ilha. Nossas decisões, e nossas escolhas, afetam e são afetas por amigos, parentes, amores, e desafetos. De modo que, para mim, cada nova liberdade alcançada é como entrar numa Onda Gigante – pura emoção!

Em segundo lugar, e para evitar mal entendido, esclareço que Jesus me ensinou a ser herege, mas no bom sentido da coisa. Não estou me referindo ao abandono da Ortodoxia Cristã, conforme herdamos dos Credos Históricos. Me refiro, (atentem bem!), as diversas caras que damos a Religião Cristã, e nos iludimos pensando que estes rostos, feitos a nossa imagem e semelhança, tenham sido moldados pelo próprio Cristo.

A Boa Nova é que Jesus não é Religião. Nós somos, por natureza, seres religiosos; mas Cristo, o Filho de Deus, não é religião alguma. Não há nada de errado em ser religioso, pois tal instinto nos foi dado por Deus; todavia, como em todas as áreas, o pecado corrompe até nosso desejo pelo Divino, e terminamos por confundir Jesus com nossa religião.

Quando isso acontece, (e é difícil não acontecer), nos tornamos sectários, desumanos, exclusivistas, fechados em nós mesmos, mesquinhos e, inevitavelmente, hipócritas.

Aos pés da Cruz, tenho aprendido que a minha Religião não é a Verdade, mas busca a Verdade, que está em Cristo, e só nele. Assim, tenho plena consciência de que não sou um eleito de Deus por acreditar nos Cinco Pontos do Calvinismo, ou nos fundamentos da Escatologia Preterista. Também não sou parte dos salvos por acreditar na Atualidade dos Dons, crença que herdei do pentecostalismo; nem por ter descoberto a riqueza da liturgia Broad Church.

Minha salvação está em Cristo, pela fé, e pela fé somente. A fé que salva não é a fé na Religião, nem mesmo a fé na fé; mas a fé em Cristo. A Bíblia diz que Cristo veio ao mundo e “padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus” (I Pedro 3.18). Este pecador ouviu, creu, e foi salvo.

Agora, pense na revolução que isso representa. Perante os olhos da religiosidade humana, tais reflexões nos transformam em hereges; pois, via de regra, tendemos a crer que Jesus salva, mas só dentro da nossa religiosidade particular. Charles Spurgeon foi um excelente pregador reformado do Século XVII. Sou um grande admirador de suas pregações, e de sua teologia, calvinista. Mas, apesar de admirá-lo, há uma afirmação dele que considero temerária. Ao defender a Soteriologia Reformada, Spurgeon escreveu: “O Calvinismo é o Evangelho”.

Por mais admiração que eu tenha por este maravilhoso pregador, e por mais que eu concorde com sua Teologia, não posso aceitar tal afirmação. Na minha opinião, penso que ele poderia ter escrito: “O calvinismo é a melhor interpretação do Evangelho”. Os meus irmãos arminianos iriam resmungar, mas, seria uma afirmação bem melhor. Por que? Por um motivo muito simples: o calvinismo não é o Evangelho: ser calvinista não salva ninguém, enquanto que a fé em Jesus salva calvinistas e arminianos. No inferno se poderá encontrar calvinistas, arminianos, batistas, pentecostais, cessacionistas, católicos... Só um grupo de pessoas estará livre da Morte Eterna: “os que lavaram suas vestes no sangue do Cordeiro”.

O problema fica “mais em baixo” quando olhamos para os modismos, e ventos de doutrinas, que nos rodeiam. Os fariseus da nossa geração pretendem nos fazer crer que blasfemamos contra a Lei e os Profetas, quando na verdade estamos simplesmente questionando suas tradições e mandamentos humanos. Lamento se corro risco de ofender gente querida, mas é um fato: tem fariseu por todo lado e, se bobear, até dentro de cada um de nós.

É farisaica toda tentativa de encaixotar a vida cristã, e propor uma espiritualidade homogênea, como se o Espírito fosse chefe de uma linha de produção de biscoitos. Pregador bom precisa fazer barulho; louvor ungido só se for com choradeira; Igreja santa só usa salmodia exclusiva, ou os hinos da Harpa... E por aí vai; caixotes é o que não falta!

O encaixotamento da espiritualidade cristã, entretanto, não é inimigo fácil de combater, ou vencer. É uma praga, um câncer, e tem o poder de se espalhar como uma lepra. Eu vejo Legalismo todos os dias e, quando me assusto, me pego sendo eu mesmo seu promotor. Quão miserável somos; quão inimigos da Graça!

Ah, a Graça! Esta pequena palavra um dia transformou a minha vida. Acreditem amigos, eu não sabia nada sobre Graça, mesmo tendo passado quase toda a minha infância dentro de um templo evangélico. Isso mesmo, pois, para mim, havia sido dito que ser “cheio da graça” era simplesmente o mesmo que possuir vários dons, ou falar “línguas estranhas”, ou então “pregar poderosamente” (i.e., aos berros!), ou ficar desmaiado de “poder” no Monte!

Graça que liberta? Graça que Salva de nossos pecados? Graça que redime, transforma e glorifica? Graça que significa puro e simples “favor imerecido”? Não senhores, desta Graça eu jamais havia ouvido falar.

Quando os Legalistas judaizantes tentaram impor suas humanas tradições sobre o Ministério do Apóstolo Paulo, ele rapidamente identificou tal tentativa como sendo uma armadilha para “espiar a nossa liberdade, a qual temos em Cristo Jesus, e nos porem em servidão” (Galátas 2.4). Resoluto, e certo de sua liberdade na Graça, o apóstolo diz: “Aos quais nem ainda por uma hora cedemos com sujeição, para que a verdade do evangelho permanecesse entre vós” (v. 5).

Nem durante míseros sessenta minutos somos obrigados a nos sujeitarmos aos ditames dos Fariseus, os de ontem, ou os de hoje. Foi estudando a luta incansável de Paulo contra os judaizantes de seus dias que aprendi o poder subversivo do Evangelho, e com ele aprendi com quais armas devo lutar contra aqueles que “espiam” nossa liberdade.

Estou certo que Paulo herdou sua subversão do próprio Cristo. Havia um “estado atual de coisas” quando o Cristo veio ao mundo, e ele prontamente o combateu, e inaugurou a verdadeira hermenêutica da vida, sob o prisma o Espírito, o prisma da Graça. Ou, alegará alguém, que Cristo tenha se feito cúmplice do “status quo” estabelecido pela religião dos Fariseus? A resposta me parece por demais óbvia e irrefutável, amigos:

“Ele, porém, respondendo, disse-lhes: Por que transgredis vós, também, o mandamento de Deus pela vossa tradição? Porque Deus ordenou, dizendo: Honra a teu pai e a tua mãe; e: Quem maldisser ao pai ou à mãe, certamente morrerá. Mas vós dizeis: Qualquer que disser ao pai ou à mãe: É oferta ao Senhor o que poderias aproveitar de mim; esse não precisa honrar nem a seu pai nem a sua mãe, e assim invalidastes, pela vossa tradição, o mandamento de Deus” (Mateus 15.3-6).

A mensagem da Graça é subversiva, pois derruba os alicerces das Tradições Humanas, as quais colocam percalços no Caminho entre Deus e o homem. Por isso, como já vimos na Carta aos Gálatas, o apóstolo Paulo também se fez subversivo contra as tradições dos cristãos judaizantes. O estudante se lembrará que aqueles homens imaginavam que ter fé em Cristo não era suficiente, sendo necessário ao novo convertido aceitar também as Leis Cerimoniais da Antiga Aliança. É sobre eles que Paulo escreveu: “Aos quais nem ainda por uma hora cedemos com sujeição, para que a verdade do evangelho permanecesse entre vós” (Galátas 2.5).

Também os cristãos primitivos viveram a subversão do Evangelho. Enganam-se aqueles que apresentam um quadro simplista a respeito da cruel perseguição que eles sofreram por parte da maioria dos Imperadores Romanos. Ensina-se, em muitos lugares, que teriam nossos irmãos sido mortos a espada, fogo e por feras, simplesmente por acreditarem em Jesus. Sim, eles morreram por causa de Jesus, mas existe algo que a Igreja de nossos dias deveria se lembrar: os Imperadores odiavam os cristãos pois eles declaravam: “Cristo é o Príncipe dos Reis da Terra” ( Apocalipse 1.5). Esta era a mais grave acusação contra os cristãos primitivos: “Estes que têm alvoroçado o mundo, chegaram também aqui; os quais Jasom recolheu; e todos estes procedem contra os decretos de César, dizendo que há outro rei, Jesus” (Atos 17. 6,7).

Estes que têm alvoroçado o mundo, chegaram também aqui... Os cristãos de hoje se escondem por trás de uma máscara de piedade e santificação. Dizem nada querer com este mundo, e alegam que tudo o que vemos pertence aos domínios de Satanás. Reclamam de leis anticristãs, mas nada fazem para promover o Reino de Cristo. Os cristãos primitivos eram diferentes. Eram bons cidadãos, e respeitáveis; mas lutavam com todas as forças para promover o Reino de Deus, e conseguiram transformar o mundo de seu tempo. Como dizem alguns historiadores, o cristianismo destruiu Roma; o que se deu em cumprimento das visões de Daniel, o profeta. Ora, meus caros, a política de Roma era pela tolerância - aceitava-se toda e qualquer religião, desde que completamente sujeitas ao Imperador. Por este motivo nossos irmãos foram perseguidos e mortos.

E, justamente porque a Graça me é tema tão valioso e caro, que não desisto nunca de lutar por minha liberdade cristã. Às vezes, alguns dizem que estou sendo apenas rancoroso, devido o passado. Talvez possa ser isso; todavia, quem há de condenar um escravo feito livre que se recusa a voltar para Senzala? Estejam certos amigos, vale a pena se agarrar a Carta de Alforria que nos foi dada pela Cruz do Cristo Redentor.

Não é estranho pensar que estamos assim, como Igreja, estabelecendo agendas que diferem tanto do coração da mensagem do Cristo? Fico imaginando Jesus presente em nossos cultos de doutrinamento, de conchavos políticos, de ressuscitação do condenado judaísmo, ou da cabala... Fico imaginando Jesus presente em nossos momentos de louvor e adoração, com muito ritmo, muitas luzes e sons, mas desprovido de conteúdo, de sentido semântico, arrependimento pessoal e conversão...

Há um problema interessante aqui. Quando descobrimos a mensagem subversiva do Evangelho, corremos um grande risco de sermos relegados ao gueto fétido dos hereges. A religião baseada em tradições humanas nunca está disposta a abrir mão de seu legado, pois, sabe, acertadamente, que tal rendição seria o seu fim. É mais fácil mandar para o Gólgota os proclamadores da liberdade...

Mas, minha convicção é que este perigo é apenas relativo e momentâneo; mesmo que nos custasse a vida. Cristo jamais colocaria Sua Mensagem refém dos caprichos e interesses da volatilidade dos homens. O Evangelho é Eterno, e jamais será derrotado. Portanto, se você tem lutado nesta mesma guerra, termino com uma palavra de conforto deixada por Jesus Cristo, nosso mentor:

“O Reino dos céus é como um grão de mostarda que um homem plantou em seu campo. Embora seja a menor dentre todas as sementes, quando cresce torna-se a maior das hortaliças e se transforma numa árvore, de modo que as aves do céu vêm fazer os seus ninhos em seus ramos” (S. Mateus 13. 31,32).

Você e eu, sendo a Vontade do Senhor, poderemos até perder coisas valiosas durante a guerra, (muitos de nossos irmãos primitivos perderam a vida) mas Cristo, este sempre será vitorioso! O Evangelho sempre triunfará!


Marcelo Lemos é herege no Olhar Reformado e no Genizah também!


Leia Mais em: http://www.genizahvirtual.com/2010/11/jesus-meu-herege-favorito.html#ixzz174g3jTfa
Under Creative Commons License: Attribution Non-Commercial Share Alike

0 comentários:

Liberdade de Expressão


É importante esclarecer que este BLOG, em plena vigência do Estado Democrático de Direito, exercita-se das prerrogativas constantes dos incisos IV e IX, do artigo 5º, da Constituição Federal. Relembrando os referidos textos constitucionais, verifica-se:
“é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato" (inciso IV) e "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença"(inciso IX). Além disso, cabe salientar que a proteção legal de nosso trabalho também se constata na análise mais acurada do inciso VI, do mesmo artigo em comento, quando sentencia que "é inviolável a liberdade de consciência e de crença". Tendo sido explicitada, faz-se necessário, ainda, esclarecer que as menções, aferições, ou até mesmo as aparentes críticas que, porventura, se façam a respeito de doutrinas das mais diversas crenças, situam-se e estão adstritas tão somente ao campo da"argumentação", ou seja, são abordagens que se limitam puramente às questões teológicas e doutrinárias. Assim sendo, não há que se falar em difamação, crime contra a honra de quem quer que seja, ressaltando-se, inclusive, que tais discussões não estão voltadas para a pessoa, mas para idéias e doutrinas.