Angela Natel On terça-feira, 19 de julho de 2011 At 06:14










É muito comum, ao iniciarmos a leitura do Antigo Testamento, sentirmos estranheza diante de algumas passagens. Isso ocorre porque os judeus usavam uma linguagem muito concreta, quase sem termos abstratos.
Por exemplo, para um hebreu, a expressão “lançar a sandália” significavaexercer domínio ou tomar posse de algo (p. ex. Sl 108,9). Mesmo nos dias de hoje ainda usamos linguagem semelhante. Se alguém nos diz que “está na fossa”, “foi para o brejo”, “foi para o buraco”, entendemos logo o que quer dizer e não perguntamos qual a fundura do buraco nem onde é o brejo. Podemos citar ainda como exemplo uma frase dita por Salomão em 1 Rs 3,7: “Sou pequenino e jovem, não sei sair nem entrar”. Na língua hebraica “sair e entrar”, tendo ambos os verbos o mesmo sujeito, servia para exprimir todaa atividade de um indivíduo. Com essas palavras Salomão queria dizer que se achava incapaz para o trono. Há inúmeras expressões hebraicas difíceis de entender caso desprezemos o contexto ou a maneira como os hebreus empregavam as palavras.

A expressão “sentir-se feliz, alegre” podia ser substituída pelos dizeres “ter a alma saciada de gordura”, visto ser a gordura sinal de suficiência ouplenitude, ainda hoje o alimento predileto dos árabes da Palestina:
“Minha alma será saciada como que de alimento gorduroso, e de meus lábios alegres prorromperá o teu louvor”. (Sl 63,5; cf. Sl 36,8).
Quando alguém se julgava “em perigo de vida”, dizia concretamente que “trazia a sua alma nas mãos”, já que “ter nas mãos” é a atitude que imediatamente precede a entrega:
“Minha alma está sempre emminhas mãos, mas não esqueço a tua lei”. (Sl 119,109) Cf. Jz 12,3; 1Sm 19,5; Jó 13, 14; Est 14,4.
“Expor a própria vida” ou “estar decidido a morrer” era equivalente a “tomar a própria carne entre os dentes”, ou seja, morder-se:
“Tomo a minha carne entre os meus dentes,Coloco a minha vida em minha mão”. (Jó 13,14).
“Poder, força” era conceito expresso pelo vocábulo “chifre”, pois é neste que parece residir a força de muitos animais:
“(Deus é) meu escudo e o chifre de minha salvação” (= a força que me salva) (Sl 18, 2).
Essas são apenas algumas das dificuldades encontradas pelos tradutores. A tarefa de traduzir a Bíblia é algo bem mais difícil do que parece. As críticas são muitas. De um lado estão os que enfatizam a necessidade de uma tradução mais literal (como as feitas acima). Outros entendem que expressões hebraicas que não fazem sentido para nós hoje (p. ex. “lançar a sandália”) devem ser contextualizadas.

Fazer uma análise crítica das traduções é sempre útil. Mas acima de tudo é importante lembrar das dificuldades dessa tarefa. Pensemos nisso!
Jones F. Mendonça

Bibliografia:
BETTENCOURT, Estêvão. Para entender o Antigo Testamento. Aparecida, SP: Editora Santuário, 1990.
Jones F. Mendonça

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