Angela Natel On terça-feira, 5 de julho de 2011 At 06:08


Carlos Moreira

Deus está morto, e o seu túmulo é a igreja”. A frase famosa de Friedrich Nietzsche, filósofo alemão do século XIX, filho de uma família luterana, homem que pensou em seguir o sacerdócio, mas que “rejeitou a fé” durante a adolescência para dedicar-se a filosofia, é de chocar, a primeira vista. Mas para entender o pensamento de Nietzsche, primeiramente, você deve lê-lo. Criticá-lo utilizando-se de frases feitas por fundamentalistas é por demais clichê. A leitura de um filósofo é como a leitura de um profeta, nunca deve ser feita fora de sua matriz existencial, de seu tempo, sua cultura e sociedade. São estes matizes históricos que constroem o mosaico sobre o qual o pensamento e as palavras de alguém ganham significado.

As críticas de Nietzsche ao cristianismo e as suas asseverações sobre a “morte de Deus”, sobretudo aquelas encontradas no livro “Assim Falou Zaratustra”, precisam levar em consideração a herança medieval que a igreja de seu tempo trazia consigo. O “Deus” que o filósofo afirma que está morto é o ídolo que entorpece os sentidos e percepções humanas, o ser castrador, manipulador e egocêntrico criado pela Instituição, o “Deus” do dogma, da repressão, do medo e da punição.

Se Nietzsche vivesse em nossos dias, observando as aberrações praticadas em nossas “igrejas”, seus escritos seriam transmutados de profanos para proféticos! O que se faz hoje, comparado com o que se fez na idade média, transforma os monstros da santa inquisição em criancinhas dóceis de escola dominical. Creia-me, em termos de bizarrice, deformidade, estelionato e manipulação, nada se compara ao que estamos assistindo ao vivo e a cores nos cultos de várias denominações, nos shows gospel de “astros evangélicos”, nas campanhas e correntes de “fé”, onde o sincretismo associa práticas judaizantes, religiões de mistérios, macumba, feitiçaria e espiritismo, tudo em nome de “Deus”.

Esta afirmação de Nietzsche de que o túmulo de Deus é a igreja não é despropositada. No passado, era prática comum enterrar as pessoas dentro de igrejas, sobretudo aquelas que possuíam maiores posses. Assim, famílias influentes, ricas e poderosas, tinham seus próprios jazigos nos corredores e assoalhos das catedrais e igrejas. Sacerdotes também eram enterrados no “solo sagrado”, sobretudo em locais próximos ao altar ou mesmo abaixo dele.

Com a pandemia da peste negra na Europa no século XIV, que dizimou aproximadamente 75 milhões de pessoas, o sepultamento em igrejas tornou-se algo inviável. Nesta época, sobretudo por questões de saúde pública, os cemitérios começam a ser implantados nos grandes centros. Assim, os sepulcros sacros, tanto do lado de dentro quanto do lado de fora das igrejas, foram totalmente abandonados, ficando a prática restrita apenas ao clero que, em determinados lugares, ainda mantinha o ritual.

Tudo isto me veio à mente porque eu tenho considerado a “igreja” dos nossos dias como cemitério de gente, mas com uma distinção fundamental em relação ao passado: é que hoje as pessoas estão sendo enterradas vivas, ou seja, elas vão sendo sepultadas paulatinamente, em doses homeopáticas. Sei que a afirmação é terrível, mas a explicação é lógica e simples. Se não, vejamos...

O sujeito vem do “mundo” com sua vida arrebentada, desacreditado de tudo, desencontrado de si mesmo, de sua própria alma, cético e, por vezes, cínico. Não raro sua família está escangalhada, isso quando ele já não vêm separado. Os filhos, via de regra, são um outro grande problema, pois ou cresceram com péssimas referências, ou estão sendo criados pela TV e pelas babás. Sexo é outra dificuldade. A grande maioria vem de relacionamentos “reciclados”, com parceiros dos mais diversos com os quais trocaram não apenas “fluidos”, mas simbiotizaram suas próprias almas e espíritos com gente de todo tipo. Isso dilui o ser, torna a substância interior uma pasta, muda referências e até padrões comportamentais e psicológicos.

Não bastasse tudo isso, tem as questões periféricas, não obstante importantes. Por exemplo, a vida financeira, quase sempre está desarrumada. Movidas pela concupiscência dos olhos e pela necessidade de manter aparências, as pessoas de nossos dias fazem do cartão de crédito o que poetizou o Cazuza, uma navalha. Ética é outro tema confuso, sobretudo tratando-se de práticas profissionais, pois, para manter privilégios ou garantir oportunidades as pessoas estão dispostas a relativizar o absoluto e absolutizar o relativo.

Pois bem, vindo com esta “bagagem” toda nas costas, enfim, o sujeito aporta na “igreja”... Ah, que alívio! Que bom! Que maravilha! Mas a ilusão dura pouco, apenas o tempo necessário para ele constatar como as coisas, de fato, funcionam. A máquina institucional-religiosa é cruel e não poupa ninguém. Não há fé que resista, não há paixão que suporte. É aí que começa a morte compulsória, o enterro antecipado, o sepultamento desdobrado em módicas parcelas.

Massacrado por práticas perversas, dogmas irrefutáveis, liturgias alucinógenas, ritos, mitos, medos, modos, e mais um compêndio de doutrinas bizarras, que vão dos absurdos “usos e costumes”, até o pagamento do imposto-dízimo, o fiel vai tendo a sua consciência cauterizada, suas emoções anestesiadas, seu coração petrificado, suas inquietações aumentadas e suas contradições ainda mais realçadas. Em resumo, passa a viver na igreja em situação pior do que vivia fora dela. Pode?!

De fato, creio que a “igreja” tornou-se novamente um cemitério, um lugar onde a morte é mais propagada que a vida. Ela vem embalada de várias maneiras: é nas leis eclesiais, nas proibições, nas castrações, na propagação do medo – medo do inferno, do diabo, do castigo, medo da alegria, da diversão, da cultura, do saber, e até medo de Deus! E assim, a cada domingo, a cada “culto”, a cada pregação, o sujeito vai perdendo a vida, não da forma como Jesus falou, que é a perda que produz ganho, mas da pior forma possível, a perda que produz frustração, angústia e inconformismo.

Há muitos anos atrás eu aprendi algo importante: que o lugar mais rico da terra era o cemitério. Sim, o cemitério é o lugar onde muitos sonhos foram enterrados, onde livros que nunca foram escritos estão sepultados, onde canções que nunca foram compostas se perderam, onde idéias que nunca se materializaram foram soterradas, onde negócios que jamais se realizaram sucumbiram, onde relações que poderiam ser construídas desapareceram, onde a vida foi tragada pela morte. Ali existe um tesouro incontável, mas que não tem qualquer proveito.

Quero lhe dar um conselho: não permita que sua igreja se transforme num cemitério! Não se deixe enterrar vivo! Não morra sem realizar os sonhos de Deus! Não perca sua alegria, não permita que sua esperança sucumba, não consinta com o sepultamento de sua consciência, de sua razão, de sua autocrítica, de sua sensibilidade, de seu gosto pelo belo, pela arte, pela música, pela dança, pelo amor! Fuja de todo radicalismo, fuja de toda ortodoxia neurótica, fuja de todo fundamentalismo insano, fuja de toda dogmatização presunçosa. Nada disto tem a ver com o Evangelho ou com Jesus de Nazaré, pois seu convite é para que experimentemos a vida, nunca a morte!
Georges Clemenceau escreveu: “os cemitérios estão cheios de pessoas insubstituíveis”. Quero lhe afirmar com toda convicção: para Deus você é único, irrepetitível e insubstituível! Ele não lhe vê como mais um, pois você não é um número, nem um rosto na multidão, não é um dizimista, nem mesmo um crente, mas sobre todas estas coisas você é Filho, pois, segundo João, todos que receberam a Cristo foram constituídos membros da Família de Deus.

Eu tenho certeza que um dia serei sepultado. Não sei quem fará o ofício, mas espero um funeral de categoria, com muita música e alegria. Quero que celebrem a minha vida, nunca a minha morte, pois eu, naquele momento, estarei indo de encontro para aquilo que fui designado, para ser inteiro, completo, para conhecer como sou conhecido, para não mais ver por espelho, mas face a face, para tornar-me ser integral, com corpo ressurreto e vida eterna.

Por fim, quero dizer só mais uma coisa: não estou com nenhuma pressa de morrer e muito menos de ser sepultado antes da hora, principalmente, porque ainda estou vivo. E mais: Deus não está morto, mas vive, não pode, todavia, ser algemado a uma igreja, pois, por sofrer de claustrofobia, não é possível ser contido ou enclausurado. Quem puder entender que entenda...

Carlos Moreira é culpado pelo que escreve. Julgado, tornou-se réu do Genizah. Outros textos seus podem ser lidos em A Nova Cristandade.


Leia Mais em: http://www.genizahvirtual.com/2010/11/enterrado-vivo.html#ixzz16d4uksKt
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