Angela Natel On terça-feira, 3 de maio de 2011 At 06:39

Por Luiz Sayão

O problema da confusão presente em muitos ambientes evangélicos está na interpretação equivocada de certos textos bíblicos acerca do nome do Senhor.

Todo mundo entende que Deus se revelou a nós para que pudéssemos conhecê-lo e entender sua mensagem. Todavia, parece que a maioria dos cristãos se confunde com o próprio nome de Deus. Outro dia, estive em uma igreja e ouvi alguém orar assim: “Senhor Jesus, graças te damos, ó Pai, pela teu amor, ó Deus”. Não sei se a boa vontade do homem que orava era acompanhada de algum tipo de reflexão sobre a pessoa do Senhor. Por outro lado, quando nos deparamos com a atitude de um judeu ortodoxo, temos uma espécie de respeito além do compreensível. Como é conhecido, um judeu ortodoxo não pronuncia jamais o nome de Deus, Yhwh, para não tomar o nome divino em vão, contrariando o expresso mandamento registrado em Êxodo 20. Prefere referir-se a seu Deus pela expressão HaShem, isto é, “o Nome”. Até mesmo a palavra Deus – em hebraico, ’Elohîm, é mudada para ’Eloqîm, que não existe, para evitar o uso indevido do nome. Não parece que essa era a intenção do mandamento.

Já no contexto da realidade atual da Igreja Evangélica brasileira fala-se demasiadamente em Deus e até mesmo nos diversos nomes a ele atribuídos. Parece que a tendência popular é enxergar nos nomes do Senhor características um tanto quanto místicas; muitas vezes, o enfoque chega a ser quase que mágico. Acredita-se, muitas vezes, que precisamos pronunciar um dos nomes divinos para se conseguir a concretização de qualquer desejo.

É preciso falar sobre os nomes atribuídos a Deus e seus significados na Bíblia para a nossa melhor compreensão do assunto. O que está por trás de um nome? No contexto bíblico, o nome revela a identidade de quem o recebe. Trata-se de uma descrição da identidade e do caráter de alguém. Deus é conhecido pelo seu nome, já que ele não quis se revelar a nós de modo específico por forma ou imagem. Por outro lado, há na cultura bíblica um elogio da palavra – afinal, Deus revela sua vontade a nós por meio da palavra escrita. Dar nomes é dominar, como se vê no caso de Adão em Gênesis 2. Portanto, diante desse quadro, é preciso reforçar o fato de que o propósito fundamental das Escrituras é revelar Deus ao ser humano. A verdade é que o nome e os nomes do Todo-poderoso na Bíblia têm a finalidade de revelar-nos o caráter e os atributos do próprio Deus. Os diversos nomes divinos nos revelam como o Senhor escolheu ser conhecido por nós.

Assim, devemos destacar que os nomes divinos não são “fórmulas mágicas” que funcionam com base em comandos verbais. Não podemos tratá-los como encantos que fazem os nossos desejos acontecer. Os nomes de Deus falam-nos sobre quem ele é e como age em relação ao ser humano. Devemos entender que Deus não tem uma multiplicidade de nomes, mas os vários nomes divinos mencionados nas Escrituras têm o propósito de revelar aspectos particulares do próprio Deus. Cada um desses nomes revela uma característica específica de Deus a nós. Por isso, o enfoque místico a respeito dos nomes divinos não faz o menor sentido. É equivocada a sugestão que ensina que o simples ato de pronunciar um nome divino libera alguma energia espiritual poderosa, capaz de mudar a esfera metafísica da realidade. Nada pode estar mais longe da verdade. A verdade é que o nome divino tem valor por causa do próprio Deus, que é plenamente real, e não por seu poder fonético e mágico – ou seja, algo quase animista. Na Bíblia, vamos observar que o uso mágico do nome de Deus ou do próprio Jesus não funciona, como querem alguns. A maior prova disso é que não funcionou no caso dos filhos de Ceva, conforme o episódio narrado em Atos 19.14-16. Eles simplesmente não conseguiram expulsar um demônio, ainda que usassem o nome de Jesus.

Sendo muito diferente da perspectiva bíblica, o pensamento pagão acreditava no poder autônomo da palavra mágica. A idéia pagã é que o mundo é regido por forças e poderes ocultos que podem ser domesticados e dominados por quem descobre as verdadeiras e poderosas fórmulas ocultas. Esta é a idéia que transparece, por exemplo, na tão popular palavra mágica “abracadabra”. No pensamento bíblico, é o Deus pessoal quem age, e não o homem que o controla por meio de fórmulas. Já o paganismo não crê num Deus pessoal, e entende que a realidade é um fluxo de energias impessoais controláveis pelo poder humano. No fundo, acaba sendo um tipo de humanismo.

O problema maior dessa confusão presente em muitos ambientes evangélicos está na interpretação equivocada de certos textos bíblicos. E talvez a maior confusão, na prática, esteja no mau uso da frase mencionada em João 14.14: “O que vocês pedirem em meu nome, eu farei.” A palavra de Jesus aqui não significa que basta mencionarmos o seu nome, e tudo acontecerá automaticamente em nosso favor. Pedir alguma coisa “em nome de Jesus” significa pedir alguma coisa segundo a vontade de Deus (I João 5.14). Pedir em nome de Jesus é pedir o que Jesus pediria. O sentido correto de pedir em seu nome é como agir por procuração: não se pretende que a nossa vontade seja feita por meio de Jesus, mas sim, que a vontade dele seja realizada por meio da nossa oração. A abordagem popular sobre a questão é equivocado.

Não é difícil constatar que Deus é descrito de maneira específica através de diversos nomes hebraicos no Antigo Testamento. Entre estes nomes, merecem especial destaque os termos (aportuguesados) Elohim, Javé e Adonai. Elohim (e sua forma variante El) é o nome hebraico genérico para Deus, devendo assim ser traduzido, ainda que possa ter outros significados. Seu sentido etimológico básico é “força, poder”, e refere-se a Deus como criador, como ser transcendente, isto é, a um Senhor que está acima de todos os outros. Uma curiosidade interessante sobre o nome Elohim é que se trata de um substantivo em forma plural no hebraico. Todavia, o verbo que o acompanha aparece no singular. Já o nome El, de modo geral, é muito usado para compor outros nomes divinos (como El Shadai) e também para formar nomes hebraicos comuns, como Joel e Ezequiel. No caso do nome Adonai (e a variante Adon), o termo refere-se ao senhorio e ao domínio de Deus. O significado literal da palavra, “senhor”, nunca é usado para se referir ao homem. Adonai destaca a plena soberania de Deus sobre tudo e sobre todos. É muito usado na Bíblia, e os judeus o utilizam para substituir o nome sagrado, quando se referem ao Deus de Israel.

Com toda a certeza, o nome que mais define o próprio Deus no Antigo Testamento é Javé. O termo hebraico seria Yhwh. Os judeus deixaram de pronunciar o nome divino por respeito, e a pronúncia perfeita se perdeu – por esta razão, as consoantes do nome Yhwh receberam as vogais da palavra Adonai, o que veio a gerar o nome Yehowah, traduzido geralmente em português como Jeová. Todavia, os estudiosos hoje concordam, principalmente com base nas antigas transliterações gregas, que o nome divino seria mais provavelmente Yaweh, ou seja, Javé em português. Por razões históricas e tradutológicas, nossa tradição consagrou o termo Senhor como tradução de um nome tão específico e particular de Deus.

O significado do nome Javé tem sido descrito como “Eu Sou” ou “Sempre estarei sendo” – ou, como gostam os judeus, “o Eterno”. A forma é uma abreviação do “Eu sou o que sou”, mencionado por Deus a Moisés em Êxodo 3.13,14. Javé é o nome pessoal do Deus vivo que age na história de seu povo. Deus revela-se a Moisés de maneira diferente como tinha se revelado a Abraão. A marca é o novo nome, agora conhecido. Ele é mais do que o El Shaddai, ele é Yhwh. Agora, vemos aqui o Deus da aliança com o povo que é libertado do Egito destacando a ação divina na história. Por isso, destaca-se em Javé o seu amor e a sua fidelidade para com o seu povo. Podemos imaginar a dificuldade dos judeus diante da declaração de Jesus, citada em João 8.58, que afirmou sobre si mesmo: “Eu sou”. Naquele momento, a identificação de Jesus com Javé ficou mais do que clara. Além disso, o próprio nome de Jesus significa “Javé é salvação”.

Concluindo, devemos destacar que o nosso grande Deus é descrito na Bíblia por alguns outros nomes, muitos deles compostos a partir dos nomes básicos aqui mencionados. Em diversos casos, são usadas diversas metáforas e figuras para se referir ao Senhor da criação e da história. O importante em tudo isso é, em primeiro lugar, estudar os nomes de Deus e entender o seu significado no texto sagrado. Além disso, a Igreja cristã deve ser corrigida em suas tendências equivocadas místicas de lidar com os nomes sagrados.

Luiz Sayão
Teólogo, hebraísta, escritos e tradutor da Bíblia. É também professor da Faculdade Batista de São Paulo, do Seminário Servo de Cristo e professor visitante do Gordon-Conwell Seminary.

http://slolgt.blogspot.com/2010/11/cuidado-com-o-nome-de-deus.html

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