Angela Natel On sábado, 12 de março de 2011 At 06:35

Por Rômulo da Silva Vargas Rodrigues

Amor e exclusão não combinam. O Evangelho deveria ser uma forma das pessoas se libertarem dos preconceitos e de suas dificuldades com os seus semelhantes. Infelizmente, seja por vaidade, orgulho ou pura maldade, a prática mais comum é que as pessoas, ao se depararem com o Evangelho, lancem mão dele como mais um instrumento de agressão, exclusão e vergonhosa separação entre os seres humanos. Muitos batem no peito e se proclamam “separados” dos seus semelhantes. Eu diria desgraçadamente separados para um Deus que clama pela unidade!

E assim prosseguem lutando com todas as suas forças para repartir um corpo indivisível. Incoerentemente, apesar de se confessarem pecadoras, na sua prática de vida, não admitem nem que tenham pecado, nem conviver com pecadores. E é dessa maneira que o cristianismo, de bálsamo para as dores dos seres humanos, torna-se pedra de apedrejamento para qualquer pessoa que não esteja fingindo ser um bom cristão. Sem mudar a máxima de Cristo, atiram pedras porque acreditam piamente que não têm pecado.

Não são poucas as pessoas que foram banidas do seio da igreja por essa atitude exclusivista dos irmãos. Mesmo quando pessoas diferentes permanecem na convivência do corpo da igreja, são forçadas a um silêncio cruel e mortífero. Estou me referindo a pessoas cuja natureza, comportamento ou, até mesmo, pela maneira como se trajam, ou pelos adornos que usam são consideradas “inadequadas” para a convivência no corpo de Cristo.

Muitos cristãos, pais ou orientadores de jovens, lastimam profundamente o fato de que o provérbio “diga-me com quem andas que lhe direi quem tu és” não seja bíblico, mas popular. Ele justificaria perfeitamente a acepção de pessoas. Para se escusar do peso de cometerem acepção, uma falha grave, de acordo com as escrituras, afirmam virtuosamente “Deus aceita o pecador, mas não aceita o pecado”. Curiosamente, essa máxima da “fé” cristã, tampouco se encontra na Bíblia.

Jesus, ao morrer na cruz, pagou pelos nossos pecados, transformou a lei em graça, e autorizou o acesso de qualquer imundo a seu trono. Muitos cristãos dirão que seu acesso ao trono de Deus se dá porque foram purificados pelo sangue do Cordeiro, porém, deixam de considerar que essa purificação que de fato sofreram é ainda parcial. Arrastamos conosco inevitavelmente o corpo de nossa morte. Sim, aquele em que estivemos nadando de braçadas e nos esbaldando no pecado. Ou seja, somos igualmente imundos como qualquer ser humano é. Muitos, porém , preferem o consolo de pensar que foram totalmente purificados e são diferentes de qualquer pessoa que não o tenha sido. Preferem, assim, o consolo do engano à verdade que nos liberta.

Sim, Jesus veio ao mundo para remir a todos do pecado, entretanto, nenhum de nós, enquanto viver neste mundo, ficará isento de cometer erros. Assim é que se podem perceber dois problemas na maneira como as igrejas têm tratado dessa questão. Muitos cristãos afirmam que a convivência com Cristo faz toda a diferença na vida das pessoas. Como cristão, não duvido disso. O problema é que, fazem tão afirmação dando a entender que, aquele que convive com Cristo deixará toda as práticas malignas no passado, ignorando que, enquanto não estivermos presentes com Ele no esplendor de Sua glória, seremos pecadores, defeituosos e maus, incapazes de abandonar o erro.

A segunda questão é que, as igrejas não fazem apenas acepção de pessoas, também fazem acepção de pecados. Isto é, alguns pecados são permitidos e até estimulados. Nas igrejas que frequentei, inúmeras vezes vi a gula ser tratada como aquilo que os crentes podem e devem fazer. Ninguém apregoava que, no deserto, Deus fez perecer uma enorme quantidade de glutões gulosos por um único problema: a gula!

Associando a acepção de pessoas à acepção de pecados, a multidão dos que creram e que se tornam líderes do povo de Deus, prossegue julgando, condenando e absolvendo, usando pesos e medidas diferentes. E assim, servos de Deus, e não da igreja, são afastados, silenciados, julgados, condenados, expulsos ou esquecidos no ostracismo. A instituição se tornou mais importante que o Evangelho. A boa nova agora é uma notícia amanhecida, carente de novidades. E a graça agora é uma lei a que todos os que creem devem se submeter sem questionar. Por amor a Deus, é necessário obedecer às autoridades, muitas vezes, ao arrepio da própria Bíblia.

Nessa ordem de vivência cristã, o farisaísmo toma conta de quase todas as igrejas. Nicolaítas em pele de cordeiro profanam o amor de Deus pelos mesmíssimos motivos de sempre: apego ao dinheiro, apego aos bens, apego ao poder. Como asseverou Paulo, “ainda que me condenem por minhas algemas, dou graças a Deus porque o evangelho está sendo levado adiante.” Contudo, há um dano sobre o qual não se pode calar.

Graves problemas de tradução e uma hermenêutica sempre favorável a uma leitura carregada de machismo e preconceitos levam a categorizações de pecados que, uma leitura mais austera das escrituras, e a crítica das traduções, inequivocamente, desarmam. Ainda que classificar pecados sempre foi uma tendência humana, apontar a preferência alheia como pecado é mais que humano, é satânico.

Dessa maneira, àquelas pessoas que, devido a sua própria natureza (que lhe nega opções), ou devido às opções que pode fazer, tristemente, a mensagem de liberdade e paz do Evangelho é transformada em algemas e dor. Serão aceitas desde que deixem de amar a quem amam, escondam o que lhes é caro, mintam, e imitem o comportamento “adequado” dos demais. Manipular pessoas, traficar dinheiro, apropriar-se do dinheiro público, devorar as casas das viúvas, tudo te é lícito, mas ser gay, tatuado ou usar piercing não te convém.

Sem se dar conta da dor que impingem a seu próximo, muitos irmãos seguem torturando psicologicamente a pessoas que tenham orientação sexual não padrão, tatuagens, brincos, entre outros aspectos condenados sem nenhuma base bíblica, ou a partir de uma leitura desprovida de amor e preconceituosa das sagradas escrituras. Jesus Cristo foi crucificado por gente assim, zelosa demais da palavra, mas incapaz de amar.

Hoje, por outro lado, a igreja crucifica gays e lésbicas, transexuais e roqueiros. Crucifica-se, igualmente, os irmãos que não fazem acepção de pessoas. Que, como dizem, colocam-se em julgo desigual com os infiéis. É difícil admitir que o primeiro a se colocar em julgo desigual foi um tal de Jesus Cristo. Homem sem critérios, que comia sem lavar as mãos, e que se sentava à mesa para comer com prostitutas e cobradores de impostos. Imagine você, aquelas pessoas eram, naquela sociedade, tão condenáveis quanto gays, lésbicas, transexuais e bissexuais o são na nossa sociedade.

Neste texto não se pretende discutir se as sexualidades não padrão seriam ou não pecado. Essa é uma discussão importante, porém, por demais complexa e técnica. Tampouco acredito que seja a questão básica, afinal, quem não tem pecado? Sem discutir isso, então, observando a maneira como os cristãos tratam o problema da sexualidade, o que se pode notar é uma completa ausência de amor para com essas pessoas. É comum escutar coisas do tipo: “deveriam morrer”; “têm mais é que ficar em silêncio”; “são servos do diabo”. Ninguém faz o que Jesus faria, nem mesmo se colocam a questão básica dos discípulos de Cristo: “o que Jesus faria?”. Sem se perguntar isso, afirmam apenas que Cristo tem reservado para tais pessoas o inferno.

Dessa maneira, a teologia vigente prega que “os gays serão condenados ao fogo eterno se não abandonarem as suas práticas pecaminosas”. Em contrapartida, “aos glutões é reservado o reino de Deus”. Afinal, glutonaria é o único pecado que resta aos cristãos para que possam lidar com a pressão de não cometer nenhum outro erro! Curiosamente, elegeram um pecado contra o corpo (porque a glutonaria é contra o corpo) como pecado de pouca importância.

Assim é que a igreja deixou o lugar de difusora do Evangelho para assumir a posição de juiz do povo. O cristãos julgam-se entre si, mas também lançam os tentáculos de seu tribunal sobre os que professam outras crenças. Curiosamente, o verdadeiro juiz nunca excluiu a ninguém. Aquele que tem realmente autoridade para julgar, consoante a fé cristã, veio para nos incluir em seu Reino, que é paz, amor, perdão, verdade e vida. Aquele que verdadeiramente pode atirar pedras, condenando não só o corpo, mas também a alma, a ninguém excluiu. Pelo contrário, fez questão de estender a graça sobre os chamados gentios, pessoas odiosamente carregadas de pecados.

Que ninguém, ao tornar graça em lei prospere em seus malefícios. E que a verdadeira e plena graça de nosso Senhor Jesus Cristo alcance a cada alma que ler este texto, tornando exclusão em perdão e fobia em amor.

Amém.


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