Angela Natel On segunda-feira, 21 de março de 2011 At 06:31

Essa é a minha “tradução” para a parábola “do rico e do Lázaro” (Lucas 16: 19-31). A estória é das mais fáceis de ser compreendida, pois não há muitos termos antigos ou campestres, entretanto, sua interpretação é difícil. Vamos lá. Entendo que se Jesus contasse essa parábola hoje, diria o seguinte:

“Havia um playboy, muito rico, que só usava ternos Armani, relógios Rolex e que andava de BMW para cima e para baixo, torrando seu dinheiro com sexo, drogas e rock’n roll nas baladas mais caras. Havia também um mendigo chamado Zé, fedido e cheio de sarnas, que dormia na rua em frente à mansão do ricaço. O miserável olhava o modo de viver do rico, e desejava ter um milésimo de sua boa vida. Em certo dia, porém, ambos morreram. O pobre foi para o céu, junto a Pedro, e o rico para o inferno.
Do inferno, o ex-burguês via a boa vida que agora o Zé levava, e pediu a Pedro algo impensável: “Por favor, quero um pouco da boa vida que o Zé está levando, pois estou sofrendo muito aqui nesse lugar horrível!”. Mas Pedro respondeu: “Infelizmente, não será possível. Da mesma forma como você tinha um vidão na Terra e o Zé sofria a beça, agora ocorre o contrário: ele está numa boa, e você numa pior. Além disso, mesmo que ele quisesse, ninguém daqui vai para aí, e ninguém daí pode vir para cá, por isso, desista.”. O rico respondeu: “Ok, já que estou na pior e nada pode ser feito, por favor, peça para que ele apareça em forma angelical para minha família, que vive da mesma maneira como eu vivia antes de vir para cá, pois não desejo o que estou passando para meus parentes.” No que respondeu Pedro: “O evangelho é pregado em todos os locais e em todo tempo, isso é suficiente para seus familiares”. O rico retrucou: “Minha família detesta igreja, se não for uma aparição sobrenatural, não vão dar bola para ninguém!”. Pedro finalizou: “Pois é, se forem céticos assim, nem mesmo que o Zé ressuscitasse, faria com que eles mudassem de vida. É uma pena”.

Moral da estória: quem não se preparar para a vida eterna enquanto estiver vivo, não poderá deixar a tarefa para depois.

Apesar de fácil compreensão, a interpretação da parábola deve ser cuidadosa. Para um simplista, Jesus é um comunista dos sonhos: despreza o rico e manda-o para o inferno, enquanto exalta o pobre mandando-o para o céu. CUIDADO! Essa não é a mensagem objetivada por Cristo. Lembre-se do contexto vivido. Em primeiro lugar, é um judeu falando para outros judeus. Não é Jesus falando para a humanidade, pois se assim fosse, a salvação pelas obras estaria encontrando um forte aliado nesse texto. Essa é uma estória para pessoas que acreditam e professam fé em Deus. Aqui, isso é pré-requisito para o entendimento, uma vez que para os hebreus a existência de Deus é e sempre foi inquestionável.

Na verdade, antes de Jesus a salvação era obtida pelo cumprimento da lei de Moisés. A crítica de Jesus aqui era para a liderança judaica, que, pretensamente, se colocava como referência ética e moral de cumprimento à risca da vontade do Pai. Esses líderes cumpriam a lei com rigor, mas seus corações eram duros e insensíveis. Falavam em nome de Deus, mas eram incapazes de se solidarizar com o sofrimento alheio. Não condenavam a vida dissoluta dos ricos, mas oprimiam os pobres de maneira injusta. Essa parábola questiona exatamente isso, pois os judeus consideravam que só por serem judeus estavam a salvo, independente do modo de vida. A crítica era contra o salvo-conduto que todo judeu sempre achou que teve só por ser judeu. Cristo mostrou que nem todos os judeus iriam para “o seio de Abraão”, ou “para o céu”, como dizemos. Nesse caso, falou do rico e do pobre, por suas posturas de vidas totalmente diferentes.

Precisei explicar tudo isso, para que ninguém pense que o rico vai para o inferno e o pobre para o céu automaticamente só por causa de suas condições sociais e/ou boas obras. Jesus explicita a incoerência entre viver como se Deus e o próximo não existissem, indiferente a tudo e a todos (no caso, como o rico), e a maneira de viver na simplicidade, mas com Deus no coração (nesse caso, o pobre, apesar de isso ser uma inferência na estória). Ninguém com Deus no coração pode viver como o rico vivia e achar que está tudo ótimo, com salvação garantida e tudo mais.

Além disso, a parábola é um tiro no peito da doutrina sobre o purgatório. Esse texto esclarece o assunto de maneira direta, não deixando dúvidas de que não há oportunidades de salvação para o pós-vida. Brasileiramente falando, não tem “jeitinho” para dar uma de mané e entrar pelos fundos das portas celestiais. O período para ouvir, compreender, aceitar e viver o evangelho é aqui e agora. A misericórdiapost mortem pode até existir de alguma maneira que desconheço, mas não renderá frutos de salvação para ninguém.

Mais uma coisa, perceba a coerência entre as parábolas de Jesus. Assim como na do “exemplar morador de favela” (a do “bom samaritano”), a oportunidade para fazer o bem é através de atitudes, não discursos bonitos. Sair da zona de conforto e ajudar é a maneira como Jesus caracteriza a maneira de se fazer a vontade do Pai. Esse é o desafio para nós, que adoramos um banquinho durinho de igreja aos domingos. É para pensar e agir… agir mais e pensar menos.

A próxima parábola a ser contextualizada, escolhida pelos internautas do BereiaBlog, é a da “grande ceia” (Lc 14: 15-24). Não deixe de votar na próxima. Obrigado e até mais.


http://lombel.com.br/bereiablog/?p=1183

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