Angela Natel On segunda-feira, 28 de março de 2011 At 06:21


Dias atrás, durante entrevista a uma emissora de rádio sobre meu novo livro "Pombas e Gaviões", perguntaram-me se eu era contra o pluralismo, o multiculturalismo e a tolerância. A resposta foi um triplo "não". Não, não e não. Cada qual com o seu devido "mas". O pluralismo é um dado da realidade. Ser contra o pluralismo é negar a liberdade humana e recusar o fato de que as pessoas veem a realidade desde diferentes pontos de vista e a escrutinam segundo critérios distintos. Mas... isso não significa adotar uma atitude passiva no contexto do pluralismo, como se todas as ideias fossem igualmente corretas. Não são. O pluralismo adquire valor na exata proporção em que as várias correntes de opinião conhecem seus próprios fundamentos e as marcas deixadas pelas respectivas experiências ao longo do processo histórico. Ou seja, caro leitor: pluralismo é coisa séria, não se confunde com somatório de palpites, pressupõe honestidade intelectual, firmeza de convicções, sentido de história e possibilidade de confronto retórico e político.

O que no Brasil chamamos de pluralismo é uma coisa volátil como fumaça - os achismos de cada dia - soprados por meia dúzia de plantonistas da tal opinião pública. Coloque-se um microfone na boca do transeunte para ouvir o que ele pensa e pronto: parece entrevista com aDilma. Dificilmente se recolhe uma sequência congruente de ideias. Sabem-no muito bem os pesquisadores. Não se introduza num questionário perguntas em que qualquer resposta deva guardar coerência com a precedente. O trabalho resultará perdido por inconsistência das informações obtidas.

Isso acontece por deficiência educacional e cultural, é claro, mas sob o ponto de vista político, também ocorre porque o sistema adotado pelo país serve para qualquer coisa, menos para formar e organizar correntes de opinião. Os partidos e suas condutas erráticas em torno das lamparinas do poder são a imagem mais visível desse pluralismo anarquizado que caracteriza o pensamento nacional (se é que existe algo que mereça esse nome).

O multiculturalismo é outro dado da realidade, transversal à história humana. Mas ... reconhecer que convivemos com diversidades culturaIs, não equivale a afirmar que todas as culturas têm o mesmo valor e conferem a mesma dignidade à pessoa humana. Não! Existem culturais desrespeitosas a essa dignidade, que violentam valores fundamentais. Os relatos deAyaan Irsi Ali, no livro "Infiel", retratam bem o que afirmo. Essa somali, após passar por todas as violências e mutilações a que são submetidas as mulheres naquela região da África, fugiu para a Europa quando pretenderam casá-la contra sua vontade. Foi parar na Holanda, onde se destacou no grupo dos refugiados. Convivendo com eles, na condição de tradutora, percebeu que as mulheres continuavam submetidas às práticas brutais e indignas de suas clãs originais e que as autoridades holandesas, em respeito ao multiculturalismo, toleravam a situação. Ayaan reagiu contra isso, mobilizou a opinião pública e acabou tornando evidente ser intolerável que seres humanos de qualquer grupo cultural, acolhidos em território holandês, fossem submetidos a violências condenadas pela legislação do país. Foi tão bem sucedida em sua mobilização que acabou deputada.

Bastaria esse exemplo, e eles se contam aos milhões, para mostrar que existem práticas culturais deploráveis, que diferentes culturas não costumam ser moralmente equivalentes e que algumas, inclusive, precisariam ser retificadas pelo muito que afrontam a vida e a dignidade da pessoa humana. Só uma percepção miserável dessa dignidade, associada a uma completa cegueira moral pode obstruir a percepção dos terríveis dramas associados a determinadas práticas culturais. Como disse um amigo meu, professor universitário para a aluna que o procurou afirmando não haver relações de superioridade ou inferioridade entre diferentes culturas: "É, minha filha, gilete no clitóris das outras é refresco".

A tolerância, por fim, é um importante valor social. O convívio fraterno e solidário entre os diferentes é sua principal consequência e a igual dignidade de todos, seu maior fundamento. Mas... a tolerância não se confunde com a permissividade que costuma andar associada à sua atual concepção entre nós. A tolerância com o intolerável, a tolerância para com quem se vale dela com vistas ao seu próprio agir intolerante, deixa de ser uma virtude social para se tornar um comportamento irresponsável e condenável. É muito comum que, em nome da tolerância, a sociedade contemple de modo passivo a violência que pisa no jardim do vizinho, que invade sua casa, que o prende e o leva. Ou, no viés político, é intolerável a tolerância para com os partidos que pregam e estimulam a violência, valendo-se da democracia para agir contra a democracia.

"Pombas e gaviões" ( pombasegavioes@puggina.org ), o livro que debatíamos naquele programa a que me referi inicialmente, é uma obra que se dedica a promover tais advertências, prestando um serviço ao verdadeiro pluralismo (consciente e esclarecido), ao verdadeiro multiculturalismo (que recusa toda agressão à dignidade natural da pessoa humana ainda que fundada em tradições de base cultural) e à verdadeira tolerância (que sabe discernir o que pode e o que não pode ser tolerado).

Fonte: Percival Pugina

NOTA: Este é o ponto que diversos intelectualóides não conseguiram (ou fingem não ter conseguido) entender: quando se rechaça alguma coisa por ser diferente do sendo comum, por exemplo, não se está sendo tolerantemente intolerante? Estes tipos de paradoxos sociais estão mais presentes do que nunca, na sociedade dita aberta. Nestas incongruências do saber (e da prática), fundamentam-se os mais prestigiados pressupostos da sociedade moderna, cauterizada pelos devaneios politicamente corretos de suas próprias elocubrações. É nesse mundo sem regras que, ao que tudo indica, nascerá o totalitarismo global denunciado, dentre outras frentes, por este blog!

Em Cristo Jesus,
Pr. Artur Eduardo

1 comentários:

Leandro M. D. disse...

Alguns conceitos, como o de tolerância, convivência e pluralismo, devem ser entendidos sempre na perspectiva histórica:

Nem sempre os movimentos, discursos e regras em favor da tolerância agiram coerentemente com seus princípios. Por exemplo, os revolucionários franceses, admiradores de Voltaire ou de Rousseau, quiseram os padres paroquais e proscreveram o culto cristão até 1803, além de eliminarem os falantes do alemão na Alsácia e os homossexuais. Na Espanha, os liberais fizeram o mesmo contra os bascos, galegos e catalães, sem perder uma linha do seu discurso pelo fim da opressão secular representada pela Igreja.

A tolerância e o diálogo inter-religioso, hoje presentes no discurso secularista, são medidos na sua confrontação com uma dogmática que lhe é adversa, mas isso não quer dizer que tolerem na prática.
Da mesma forma, as dogmáticas exclusivistas (que admitem que estão com a verdade, que lhe é exclusiva) nem sempre resultam em políticas intolerantes.

A agenda secularista que propõe a adoção de "leis de ódio" em diferentes países entra bem nessa perspectiva, porque se aplica explicitamente a situações em que um grupo emergente na sociedade (seja intelectualmente, ou economicamente) se volta contra tradições exclusivistas (no caso, a cristã), mas é incapaz de exercer a mesma pressão sobre grupos social recém chegados (no caso, os imigrantes muçulmanos).

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