Angela Natel On sábado, 19 de março de 2011 At 05:45


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Em 1538, o cardeal italiano Sadoleto escreveu aos líderes de Genebra tentando reconquistá-los novamente para a Igreja Católica Romana, depois de terem se voltado aos ensinamentos reformados. Ele começou sua carta com um longo parágrafo conciliatório sobre a preciosidade da vida eterna, antes de começar com suas acusações contra a Reforma. Calvino escreveu a resposta a Sadoleto em seis dias no outono de 1539. Foi uma das suas primeiras obras, que espalhou seu nome como reformador por toda a Europa. Lutero a leu e disse: "Eis aqui uma obra que possui mãos e pés. Alegro-me em saber que Deus levanta homens como este".

A resposta de Calvino a Sadoleto é importante, pois revela a raiz da disputa de Calvino com Roma, que definiria toda a sua vida. O assunto não inclui, principalmente, os pontos característicos e bem conhecidos da Reforma: justificação, abuso sacerdotal, transubstanciação, oração aos santos e autoridade papal. Todos esses itens serão discutidos. Mas, sob todos estes, o assunto fundamental para João Calvino, desde o começo até o fim da sua vida, era a centralidade, a supremacia e a majestade da glória de Deus. Ele vê na carta de Sadoleto a mesma coisa que Newbigin vê no evangelicalismo moderno cheio de si.

Aqui está o que Calvino disse ao cardeal: "[Teu] zelo por uma vida santa [é] um zelo que mantém um homem inteiramente devoto a si mesmo e não o desperta, em nenhum momento, a santificar o nome de Deus". Em outras palavras, mesmo a verdade preciosa a respeito da vida eterna pode ser bastante distorcida e deslocar Deus do centro e do alvo. Esta era a principal contenda de Calvino com Roma. Isso sempre aparece em seus escritos. Ele continua e diz a Sadoleto o que ele deveria fazer — e o que Calvino almeja fazer toda sua vida — "colocar à frente [do homem], como motivo primordial de sua existência, zelo para demonstrar a glória de Deus".


Aqui está o que Calvino disse ao cardeal: "[Teu] zelo por uma vida santa [é] um zelo que mantém um homem inteiramente devoto a si mesmo e não o desperta, em nenhum momento, a santificar o nome de Deus". Em outras palavras, mesmo a verdade preciosa a respeito da vida eterna pode ser bastante distorcida e deslocar Deus do centro e do alvo. Esta era a principal contenda de Calvino com Roma. Isso sempre aparece em seus escritos. Ele continua e diz a Sadoleto o que ele deveria fazer — e o que Calvino almeja fazer toda sua vida — "colocar à frente [do homem], como motivo primordial de sua existência, zelo para demonstrar a glória de Deus".

Esse seria o tema apropriado de toda vida e trabalho de João Calvino - -zelo para ilustrar a glória de Deus. O significado essencial da vida e da pregação de João Calvino é que ele recuperou e incorporou uma paixão pela realidade e pela majestade absoluta de Deus. Meu desejo é que vejamos isso mais claramente.Benjamin Warfield disse o seguinte acerca de Calvino: "Nenhum homem jamais teve um senso tão profundo de Deus como ele". Eis aqui a chave para a vida e teologia de Calvino.


Geerhardus Vos
, estudioso do Novo Testamento, em Princeton, no ano de 1891, perguntou: Por que, ao contrário de muitos outros ramos da cristandade, a teologia reformada foi capaz de compreender a plenitude da Escritura? Ele responde: "Porque a teologia da Reforma apropriou-se das Escrituras em sua raiz, em sua idéia mais profunda (...) Essa idéia arraigada que serviu como chave para desvendar os ricos tesouros das Escrituras foi a preeminência da glória de Deus na consideração de tudo o que havia sido criado". É essa orientação inflexível para a glória de Deus que dá coerência à vida de João Calvino e à tradição reformada que o seguiu. G. Vos disse que "o lema mais amplo da fé reformada, que a tudo abrange, é esse: a obra da graça no pecador é um espelho para a glória de Deus". Espelhar a glória de Deus é o sentido da vida e do ministério de João Calvino.

Quando Calvino chegou ao assunto da justificação em sua resposta a Sadoleto, ele disse: "Você (...) menciona a justificação pela fé, o tema primeiro e mais agudo da nossa controvérsia (...) Onde o conhecimento desse tema é removido, a glória de Cristo é extinta".8 Portanto, aqui podemos ver novamente o que é fundamental. Justificação pela fé é crucial. Mas há uma razão profunda que a torna tão crucial. A glória de Cristo está em jogo. Sempre que a compreensão da justificação é removida, a glória de Cristo é extinta. Esta sempre é a questão mais pro¬funda para Calvino. Que verdade e que comportamento irão "demonstrar a glória de Deus"?

Para Calvino, a necessidade da Reforma era fundamentalmente essa: Roma tinha "destruído a glória de Cristo de muitas maneiras — apelando aos santos para interceder, quando Jesus Cristo é o único mediador entre Deus e o homem; adorando a Virgem Santa, quando somente Cristo deve ser adorado; oferecendo um contínuo sacrifício na Missa, quando o sacrifício de Cristo na cruz foi completo e suficiente", elevando a tradição ao nível das Escrituras e até mesmo tornando a palavra de Cristo dependente da palavra do homem para sua autoridade. Calvino pergunta, no seu Comentário aos colossenses: "Por que acontece que sejamos 'levados pelos diversos ensinamentos estranhos' (Hb 13.9)?" E ele responde: "Porque a excelência de Cristo não é compreendida por nós". Em outras palavras, o grande guardião da ortodoxia bíblica por todos os séculos é a paixão pela glória e pela excelência de Deus em Cristo. Quando Deus não está no centro, tudo começa a mudar de lugar. Esse fato — não estar no centro - não prediz boas coisas para a fidelidade doutrinária em nossos próprios dias.

Portanto, a raiz unificante de todos os trabalhos de Calvino é sua paixão para expor a glória de Deus em Cristo. Aos 30 anos, descreveu uma cena imaginária na qual, ao final da sua vida, ao acertar as contas com Deus, dizia: "O Deus, o alvo a que dei primazia, e para o que diligentemente trabalhei, foi que a glória da tua bondade e da tua justiça (...) pudessem resplandecer claramente, para que a virtude e as bênçãos do teu Cristo (...) sejam plenamente expostas".

Vinte e quatro anos mais tarde, tendo permanecido inalterado em suas paixões e alvos, e um mês antes de dar, verdadeiramente, um relato a Cristo no céu (ele morreu com 54 anos), Calvino mencionou no seu último testamento: "Nada tenho escrito por ódio a ninguém, mas sempre tenho proposto com fidelidade o que considero contribuir para a glória de Deus".


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