Angela Natel On sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011 At 06:17




Por Carlos Moreira


Publicação em Jornal de grande circulação:"Obrigada por razões profissionais, me transferi para São Paulo. Encontro-me sozinha e sem amigos. A cidade me sufoca, durante o dia, e me isola à noite num pequeno apartamento de bairro. Não sei o que fazer, não tenho a quem recorrer e, às vezes, chego quase ao desespero. Quero gente para conversar e para conviver. Ajude-me, por favor.

Solidão é o estado de quem se encontra ou se sente desacompanhado ou só. É um sentir humano, complexo, e psicológico. Quem sofre de solidão vive como se estivesse fora da sociedade. Sabemos que o ser humano precisa se relacionar com outros indivíduos para aprender, desenvolver-se e afirmar-se como ser social. Quando isto não acontece, surgem os distúrbios de comportamento, principalmente nas pessoas tímidas, sensíveis, e nos que enfrentam problemas para expor idéias e interagir.

Eu não tenho dúvidas em afirmar que a solidão é um dos mais graves problemas da humanidade neste início de século XXI. O escritor francês André Malraux disse que nós integramos o que pode ser denominado de “a civilização da solidão”. Dados da Organização Mundial da Saúde apontam à solidão como um dos fenômenos psicossociais que mais tem levado pacientes aos consultórios terapêuticos e a dependência de ansiolíticos e antidepressivos. Raimundo de Lima, psicanalista e professor da USP, explica que “são muitas as situações geradoras de solidão: existe a solidão gerada pelo poder, a decorrente da riqueza, a dos mal casados, a imposta pelo trabalho automatizado, a da criança cujos pais são egoístas ou inafetivos, a dos velhinhos rejeitados, abandonados pelos familiares, a dos órfãos, a solidão da loucura, a dos enfermos hospitalizados, a dos excluídos do mercado de trabalho” e, citando Kublerross, a solidão da morte, pois morrer nos nossos dias é solitário, é algo que acontece no isolamento dos CTI’s, longe dos amigos e da família.

A Bíblia Sagrada nos fala sobre a vida de um profeta solitário, vivendo as agruras de seu tempo, mergulhado num mundo desprovido de propósitos e significados. Trata-se de Miquéias, um hebreu que viveu entre 704 e 696 A.C. Sua solidão não está associada a um processo de depressão ou a ausência de companhia. É algo muito mais complexo e profundo. O texto do capítulo 7 nos expõe o que chamo de “Esquematismo da Solidão” – o conjunto de fatores e situações que desencadeiam, inevitavelmente, situações de isolamento na vida. O “mosaico” da passagem nos põe diante da fragmentação do mundo, em todos os sentidos, algo significativamente parecido com o que temos em nossos dias. Neste contexto trágico, envolto numa profunda solidão, Miquéias ora a Deus e fala consigo mesmo opinando sobre o que observa na existência ao seu redor. É a partir de sua fala que identifico estas 5 “estações” da solidão.
Em primeiro lugar, a solidão como conseqüência de UMA ALMA QUE PERDEU O APETITE PELA VIDA. Cap. 7:1 “Que desgraça a minha! Sou como quem colhe frutos de verão na respiga da vinha; não há nenhum cacho de uvas para provar, nenhum figo novo que eu tanto desejo”. Eis a fala de quem sente que o tempo passou, que o melhor da vida se foi, que a “primavera da existência” findou, e pior, que tudo seguiu despercebido. Existir, nestas circunstâncias, gera fastio de alma, É que a vida, de tão agitada que foi, nos privou de ver e sentir coisas boas e belas. É que tínhamos nossa agenda interminável, compromissos inadiáveis, reuniões, e-mails, metas a bater, tantas coisas que o melhor da vida fugiu de nós. Não vimos nossas crianças crescerem, não brincamos com elas no parque, não namoramos de mãos dadas na praça, não tomamos vinho ao por do sol na praia, ou dançamos a luz do luar. A existência se complexificou tanto, que a felicidade, coisa singela e simples, tornou-se algo tão sofisticado que a perdemos. Agora, é tarde demais...

Em segundo lugar, a solidão como resultado de UMA EXISTÊNCIA ESVAZIADA DE VALORES E CONTEÚDOS. Cap. 7:2 “Os piedosos desapareceram do país; não há um justo sequer. Todos estão à espreita para derramar sangue; cada um caça seu irmão com uma armadilha”. Nietzsche afirma:na solidão, o solitário devora a si mesmo. Na multidão devoram-no inúmeros”. Miquéias olha para a vida e vê que já não há mais gente boa na Terra, de coração verdadeiro, que não queira tirar proveito e vantagem de tudo. É como nos nossos dias... na sociedade das aparências, da imagem, dos relacionamentos reciclados, dos encontros dessignificados, onde todo mundo “se dá” a todo mundo e ninguém é de ninguém. Isto dilui a substância interior das pessoas, a alma vira sopa, os conteúdos se desfazem, os princípios se esvaem. Na busca da felicidade a qualquer custo – a tirania de ser feliz – tudo é possível, gente é tratada como coisa; coisa é amada como gente!

Em terceiro lugar, a solidão como subproduto da ALIENAÇÃO E CORRUPÇÃO SOCIAL. Cap. 7:3,4 “Com as mãos prontas para fazer o mal o governante exige presentes, o juiz aceita suborno, os poderosos impõem o que querem; todos tramam em conjunto O melhor deles é como espinheiro, e o mais correto é pior que uma cerca de espinhos”. Nada mais atual. A autoridade política pede a condenação por interesse. O Juiz aceita negociar sentenças por preço. O homem rico e poderoso faz conluios e negociatas. É o dinheiro do suborno na meia, na cueca, é a morte encomendada, é o extermínio dos jovens, é o descaso com as vítimas das avalanches e enchentes, com os viciados da cracolândia, com os indigentes dos hospitais, com os desterrados da vida, com os que separam o alimento nos lixões e disputam com urubus o café da manhã. É por isso que Sartre diz que “o inferno é o outro”, pois é o outro que ocupa o nosso espaço, quer o nosso cargo, rouba a nossa mulher, deseja a nossa roupa, quer a nossa vida! Mas Jesus, de forma diametralmente oposta, nos ensina, na parábola de “Lázaro e o Rico”, que é justamente o existir sem perceber o outro que é inferno.

Em quarto lugar, a solidão gerada pela DESCONTRUÇÃO DE RELACIONAMENTOS AFETIVOS E AMOROSOS. Cap. 7:5 “Não confie nos vizinhos; nem acredite nos amigos. Até com aquela que o abraça tenha cada um cuidado com o que diz”. Aqui a tônica é: não acredite em mais ninguém! Não confie nem mesmo nos seus companheiros, pois eles podem mudar de lado conforme a conveniência. Não se apegue nem com quem você faz amor, com quem partilha de sua cama, pois ele(a) pode lhe trair! Vai casar? Faça um contrato nupcial; jamais entre num regime de comunhão de bens; não acredite em relacionamentos duradouros, pois nós vivemos no tempo da impermanência. Veja os casais: eles possuem dois carros, duas casas, duas camas, dois computadores, duas contas correntes, amigos separados, lazer separado, projetos de vida separados. É a “solidão a dois” que poetizou o Cazuza.

Em quinto e último lugar, a solidão gerada pelo ANIQUILAMENTO DAS ESTRUTURAS FAMILIARES. Cap. 7:6Pois o filho despreza o pai, a filha se rebela contra a mãe, a nora, contra a sogra; os inimigos do homem são os seus próprios familiares”. Estarrecedor! Em nossos dias, o número de assassinato de pais contra filhos subiu assustadoramente. Os casais estão desconjuntados, as crianças são criadas a revelia, ou pelas babás, ou pela televisão. Some-se a isso os novos arranjos familiares surgidos a partir da segunda metade do século XX: as produções independentes – mulheres tendo filhos sozinhas e utilizando o “pai” apenas como reprodutor; casais de orientação homoerótica adotando crianças; filhos criados em mais de uma casa, por vezes, com dois pais e duas mães. Família hoje é apenas família nuclear – pai – mãe – filhos. Tios, avós, primos, já não fazem parte do contexto, são parentes mais do que distantes. Os idosos, não raro, são tratados sem respeito, perdem a dignidade, são lançados em depósitos humanos para “cuidados geriátricos”. O que esperar de uma sociedade que vive desta maneira?

Tenho uma pergunta a lhe fazer: você se sente só? Mesmo em meio a uma multidão de pessoas, imagina-se solitário? Então quero lhe indicar uma alternativa para mudar o panorama de sua existência. E aqui não me refiro apenas a eliminar o, talvez, aparente problema de você não ter uma companhia. Isto não é solução! Fernando Pessoa escreveu:a liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo”. Também não se constitui alternativa, como alguns pensam, uma mudança radical na vida! Tenho acompanhado muitos que fizeram isto e pioraram sensivelmente seus estados existenciais. A saída não é mudarmos de casa, de profissão, de amor, de cidade, de igreja, de empresa, pois, mesmo fazendo tudo isto, o problema ainda persistirá. Débora Bötcher afirma: Que importa morar aqui ou lá, quando se descobre que se está sozinho em qualquer lugar?”.

A única mudança que pode provocar uma revolução em sua vida não está associada a nada exterior, mas a algo que acontece do lado de dentro do ser, e só aquEle que pode ressignificar a vida é capaz de fazê-la. Vamos voltar a Miquéias... Observemos como ele, após constatar todos estes matizes expostos acima, conclui o seu pensamento: Cap. 7:7Mas, quanto a mim, ficarei atento ao SENHOR, esperando em Deus, o meu Salvador”. É em Deus que está à única alternativa para toda a calamidade humana, para todo desencontro, para todas as nossas interjeições e contradições. Se buscarmos isto como alguém que busca o ar que respira, poderemos experimentar o que nos promete o Senhor nas Escrituras “nunca te deixarei, jamais te desampararei”. A partir deste ponto, meu mano, toda solidão será apenas circunstância existencial, pois, na companhia dEle, quem poderá sentir-se sozinho?



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