Angela Natel On terça-feira, 23 de março de 2010 At 06:59

Ecos em Uma Terra Estranha

O que acontece­ria se um jovem se deparasse com as palavras de Jesus num texto de Leon Tolstoi e, a partir disto, levasse a sério a pergunta "em seus passos, o que faria Jesus?" Como seria se ele se propusesse a tratar todas as pessoas que encon­trasse - o mendigo sem teto que visse na rua, o milionário, o prefei­to, a mulher que limpava seu ba­nheiro - com atenção, dignidade e respeito? O que aconteceria se ele distribuísse suas posses e ficasse apenas com o estritamente neces­sário, de modo que tudo coubesse numa mochila colo­cada nas costas? E se ele insistisse em lon­gos períodos de medi­tação diária, jamais permitindo que uma agenda herética interferisse em seus momentos de silêncio e soli­dão? Como seria se ele se afastasse de todas as conveniências moder­nas, permanecesse imune aos esti­los e às modas e dedicasse sua vida ao cultivo de uma força espiritual interior?

Além disso, e se sua figura soli­tária se tornasse, a despeito de to­das as excentricidades, uma das pessoas mais famosas do mundo,o líder moral da segunda nação mais populosa do planeta? E, para com­plicar as coisas, se esse homem, que havia optado por modelar sua vida a partir do exemplo de Jesus, decidisse, em sua vida adulta, permanecer deliberadamente fora do aprisco cristão? Assim é a vida de Mohandas K. Gandhi (1869-1948), um homem que viveu de forma destacada. Não houve ninguém como ele: ninguém foi mais disciplinado, teimoso, inconsistente, criativo, desconcertante, amável ou enfurecedor. Muitos dos princípios políticos que aceitamos hoje se originaram na mente des­se homem que levou um quinto da humanidade à independência. Ele rompeu todas as regras do manual de política e, no meio do processo, ajudou a fundar a maior democracia da história do mundo.

Cinqüenta anos depois de sua morte, é possível ao menos começar a avaliar Gandhi perguntando qual é a relevância que ele tem em nosso mundo acelerado de sites de internet e mísseis intercontinentais. Em minhas viagens à Índia com o Dr. Brand, fiquei surpreso em perceber quão pouco os compatriotas modernos de Gandhi sabem sobre esse ho­mem notável. Pelo fato de ele ser chamado "santo" - um santo hindu, certamente, mas alguém estrategicamente formado no cristianismo -, nós, ocidentais, deveríamos parar e analisar que mensagem ele tem para nós. Ele se assenta nos ombros da Igreja ocidental como um superego, fazendo a todos nós a pergunta que Tolstoi fez a si mesmo: por que não praticamos aquilo que pregamos?

Gandhi morreu três anos depois de os Estados Unidos terem jo­gado a bomba atômica sobre o Japão, um evento que o deixou conven­cido de que, se o mundo quisesse sobreviver, precisaria olhar para o Oriente em busca de soluções. Gandhi acreditava que o Ocidente ha­via perdido sua capacidade de liderar a raça humana e representava um futuro de decadência, materialismo e conflito armado.[1] Ele pro­curava um novo caminho, baseado na força espiritual, não na material. Poucos, poucos mesmo estão dando atenção a este chamado nos dias atuais. Os Estados Unidos permanecem como a única superpotência mundial, e sua cultura de sexo e dinheiro continua a se espalhar pelo mundo todo. A Índia moderna honra, mas dificilmente segue Gandhi. Tecelagens gigantes substituíram as pequenas rocas. Complexos de es­critórios sofisticados cospem programas que rodam nos computadores do mundo inteiro. Três guerras sangrentas depois, sua nação exibe a coligação de poder que tanto o aterrorizava: armamentos nucleares.

Ainda assim, a Índia não consegue tirar aquele homem pequeno e es­quisito de sua consciência.

Se alguém fizesse um concurso de beleza para selecionar quem não seria um líder mundial, Gandhi ganharia com facilidade. Com pouco mais de um metro e meio de altura, pesava apenas 50 quilos e suas pernas e braços magricelas brotavam de seu tronco como os membros de uma criança desnutrida. Suas orelhas se projetavam para fora de sua cabeça raspada. Seu nariz, grosso e grande, parecia falso, como aqueles narizes de borracha montados sobre armações de óculos que as pessoas usam em festas e brincadeiras. Óculos de aro metálico esta­vam sempre caindo de seu nariz, pendendo sobre sua boca de formas estranhas, especialmente pelo hábito de usar dentaduras apenas en­quanto comia. Seus lábios se curvavam sobre gengivas quase sem den­tes. "Ele é quase igual a um pequeno pássaro", disse Lord Mountbatten, o último vice-rei da Índia, "um tipo de pardal doce e triste, empoleirado em minha poltrona".

Quando andava, Gandhi se apoiava ou em uma vara de bambu ou nos ombros de suas "muletas", o nome que dava a suas jovens sobrinhas-netas. Ele usava as mesmas roupas todos os dias: uma espécie de tanga indiana e, às vezes, um xale de algodão, ambos feitos de material rústico tecido em sua própria roca. Carregava todos os seus pertences num pequeno saco, exceto um relógio de bolso Ingersoll que ele orgulho­samente usava com uma corrente. Gandhi seguia uma agenda rígida, e ninguém, nem mesmo o rei do Império Britânico, os líderes da Índia ou seus amigos mais chegados, poderiam alterar. Ele levantava todos os dias às 2h para ler escritores hindus ou cristãos e fazer orações, passan­do as tranqüilas horas seguintes respondendo a correspondência, termi­nando com a ablução ritualística, inclusive um enema com água e sal. Ao meio-dia, ele fazia uma pausa para outro ritual, colocando um saco de algodão poroso contendo uma infusão sobre seu abdome e sua testa. Os historiadores modernos, sempre procurando levantar os defei­tos das pessoas famosas, falam sobre as exigências que Gandhi fazia das pessoas próximas, seus hábitos pessoais bizarros, sua teimosia irri­tante. Ele testava seu voto de castidade dormindo com jovens mulhe­res nuas. O homem que atraíra milhões de pessoas falhara como líder de sua própria família, maltratando sua esposa e criando um filho que se rebelou a ponto de se tornar um bêbado fraudador, jogador e pobre.Quando sua esposa estava à beira da morte em função de bronquite aguda e os britânicos enviaram um frasco de um tipo raro de penicilina que poderia ter salvado sua vida, Gandhi não permitiu que o médico lhe aplicasse a injeção intravenosa para que a violência da agulha não violasse seu corpo. Como resultado, ela morreu.

Todavia, depois de as fofocas serem ouvidas, de a imagem de Gandhi ser corroída e de ver sua própria nação não dando importância a muitas das coisas pelas quais ele viveu e morreu, mesmo depois de tudo isso, Gandhi ainda irradia uma qualidade única, que nunca deixou de afetar aqueles que o conheciam. Mountbatten, um experiente comandante militar, resumia sua força moral com uma fórmula simples e estratégica, num tempo em que a guerra civil estava se espalhando pela Índia: "No meu front ocidental, tenho 100 mil soldados e um derramamento de sangue que não cessa. No meu lado oriental, tenho apenas um velho homem, e nenhuma gota de sangue foi derramada".

De alguma maneira, Gandhi mobilizava seus seguidores, milhões deles, a se unir numa cruzada de um modo nunca visto no mundo. "Aque­les que estão em minha companhia", alertava, "devem estar prontos a dormir no chão, usar roupas rústicas, levantar em horários estranhos, subsistir com comida simples e nada convidativa e até mesmo a lavar seus banheiros". Eles lutavam com as armas da oração, do jejum, das prisões e dos corpos dilacerados por espancamentos. No fim de tudo, seus métodos ajudaram a libertar meio bilhão de pessoas.

Os métodos ensinados por Gandhi foram adaptados por Martin Luther King Ir. no Sul dos Estados Unidos. Eles também se mostraram eficazes na África do Sul e no Leste europeu, onde, certa noite, milhares de pessoas marchando, carregando velas e cantando hinos, colocaram abaixo a Cortina de Ferro que fora levantada 40 anos antes. Quando Benigno Aquino [2] saiu de um avião em Manila para enfrentar a bala de um assassino, tinha em suas mãos um discurso em que citava Gandhi: "O sacrifício voluntário do inocente é a mais poderosa resposta à insolente tirania que já foi concebida por Deus ou pelo homem". O poder do povo nas Filipinas logo confirmou Gandhi mais uma vez: os tanques de 50 toneladas do exército foram forçados a parar diante de manifestan­tes desarmados que se ajoelharam na rua.

Tenho me fascinado por Gandhi desde minhas visitas à Índia. Ouço opiniões completamente opostas tanto dos cristãos de lá quanto dos cristãos ocidentais. Aprendi que, mesmo que você o despreze, não é fácil tirá-lo da cabeça. A pincelada que ele deu na História é simples­mente grande demais para ser ignorada. Não escrevo sobre Gandhi porque ele tinha as respostas para o planeta. Ao contrário, volto-me a ele porque ele fez as perguntas mais provocativas. Podemos rejeitar suas respostas, certamente, mas será que podemos fazer isto sem considerar primeiramente suas perguntas?

Apesar de não ser um cristão por crença ou prática, Gandhi tentou, num grau de impressionante profundidade, viver alguns dos princípios de Jesus. A Igreja cristã, nascida no Oriente, mas moldada no Ocidente, compartilha muitas das crises da civilização ocidental, como um todo. Apesar de alguns líderes cristãos terem abordado essas questões, cresce­mos tão acostumados a nossos próprios profetas que não conseguimos mais ouvir sua mensagem de maneira clara. Quando um som está muito alto, às vezes é mais fácil discerni-lo por meio de seu eco.

A mais famosa contribuição de Gandhi, a técnica da desobediência civil, evoluiu gradualmente. Nascido na Índia, estudou e praticou advocacia em Londres, mudando-se posteriormente para a África do Sul. Ele liderou marchas, teve sua cota de surras, passou algumas cen­tenas de dias na cadeia e conheceu os desencorajadores resultados do protesto sob um regime opressivo. Em seu retorno à Índia, confrontou-se com uma situação muito diferente: não se tratava de uma minoria de indianos vivendo numa terra estranha, mas a maioria, cerca de 500 milhões de cidadãos, todos vivendo num subcontinente governado pe­los ingleses. Os indianos esperavam que os britânicos retribuíssem os leais serviços a eles prestados durante a Primeira Guerra Mundial dan­do-lhes maior independência, mas, ao contrário, o poder colonial foi mais severo, com uma série de duras leis não muito diferentes da legislação discriminatória do Sul dos Estados Unidos.

Enquanto o Império Britânico apertava os parafusos, Gandhi passava longas horas meditando sobre uma reação apropriada. A idéia veio-lhe à mente numa madrugada, nos momentos entre o sono e a consciência. Ele decidiu conclamar um dia quando não haveria nenhum tipo de ati­vidade. A Índia responderia a seus senhores simplesmente recusando-se a cooperar. As lojas ficariam fechadas, o tráfego pararia, o país ficaria fechado por um dia. Nós, que vivemos numa época posterior à dele, depois de dúzias de adaptações ao redor do mundo, podemos facil­mente perder de vista a extraordinária natureza desse movimento. Nada semelhante havia sido tentado antes.

A seguir, Gandhi atacou o sistema econômico colonial. A Grã-Bretanha plantava algodão na Índia, transportando-o para a Inglaterra para moagem e manufatura, e então exportando o produto manufatu­rado de volta para a Índia, para ser vendido a altos preços. Para que­brar esta cadeia, Gandhi pediu a todo indiano, quer do campo, quer da cidade, que passasse pelo menos uma hora por dia numa roca, fiando. Ele próprio deu o exemplo, encontrando uma velha roca de madeira que ele usaria pelo restante de sua vida.

Em resposta ao monopólio britânico sobre o sal, um gênero necessá­rio a todo o mundo, Gandhi contra-atacou com a famosa Marcha do Sal, uma dolorosa e lenta viagem de 380 quilômetros até o mar. Como os oficiais de Londres seguiam cuidadosamente cada passo, um milhão de camponeses juntaram-se a seu séqüito por todo o caminho. Chegan­do à costa, Gandhi caminhou com dificuldade pelas rasas piscinas de evaporação e tirou uma das mãos cheia de sal, segurando-o no ar como um cetro que representava o desafio ao império. Que a Índia boicote o império e recolha seu próprio sal!

Para apreciar com mais detalhe a marca de Gandhi na História, basta contrastar a Marcha do Sal com a reação dos colonos americanos aos selos de taxas impostas pelos britânicos. Tivemos uma guerra por causa disto. Como Gandhi pesquisou a história da Europa, da Europa cristã, viu uma série de guerras travadas em função de diferenças ra­ciais, pontos específicos de doutrina religiosa, fronteiras de terras e atos de agressão colonialista. Mas o próprio Jesus havia pregado o amor pe­los inimigos e mostrado um espírito de sacrifício, não de violência. Gandhi buscava uma nova forma de mudança, algo mais próximo do espírito de Jesus.

Gandhi colocou-se como um espinho no Império Britânico porque os meios formais de controle não tiveram efeito contra seus protestos nada ortodoxos. Quando os policias tentavam barrar os manifestantes batendo neles com cassetetes, os rebeldes colocavam-se em fila para re­ceber os golpes. Os indianos logo encheram as cadeias até superar sua capacidade, o que era exatamente seu intento. Quando as autoridades levaram o próprio Gandhi aos tribunais e o ameaçaram com prisão, ele calmamente pediu a pena máxima. Longe de ser uma punição, a prisão dava a ele mais luxo do que ele se permitia quando livre, proporcionando-lhe períodos mais longos para a reflexão e a produção de textos. Ao todo, Gandhi passou 2.338 dias nas cadeias britânicas.

Quando os britânicos tentaram métodos mais brutais de opressão, como abrir fogo contra os manifestantes, criaram mártires e involun­tariamente uniram a nação contra eles. No famoso incidente de Amritsar, tropas sob liderança britânica apontaram rifles na direção de um ajuntamento pacífico, mas ilegal, de homens, mulheres e crianças desarmados, disparando 1.650 tiros em dez minutos e provocando 1.516 mortes. A cruzada pela independência reuniu ainda mais adeptos.

Mais tarde, Gandhi imaginou uma forma de protesto que se mos­trou a mais poderosa de todas: ele simplesmente se recusou a comer. Planejou seu jejum com o mesmo cuidado que um general elabora sua estratégia militar, às vezes jejuando por um período de tempo especí­fico, e em outras ocasiões alertando que faria um jejum até a morte, caso certas exigências não fossem atendidas. A ironia desafia a compreensão: jejum voluntário numa nação de famintos, o sacrifício de um único homem opondo-se ao mais abrangente império de toda a história da humanidade.

Contra todas as possibilidades, a tática funcionou. Churchill irri­tou-se com "o nojento e humilhante espetáculo daquele homem que um dia fora um advogado em nossa corte, agora um sedicioso faquir, cami­nhando seminu pelos corredores do palácio do vice-rei, indo até ali para negociar e conferenciar em termos iguais com o representante do rei imperador". Enquanto isso, Gandhi ganhava entre sua nação a reputa­ção de Mahatma - "Grande Alma". Quando ele publicamente colocou sua própria vida na mesa de negociações, ninguém estava disposto a correr o risco de ser o responsável pela morte da "Grande Alma". Um a um, generais, vice-reis, primeiros-ministros e, finalmente, o rei impera­dor cederam diante daquele faquir seminu que jejuava.

O compromisso de Gandhi com a questão da não-violência desen­volveu-se enquanto ele trabalhava como advogado na África do Sul. Protestando em favor dos direitos civis, ele era jogado para fora de trens, expulso de hotéis e restaurantes, acusado pela polícia montada e preso. Seus protestos pareciam ter pouco efeito sobre as pessoas que faziam e impingiam a lei. Somente depois de ler Kingdom of God is Within You e de se corresponder com Tolstoi, o autor da obra, é que Gandhi decide aceitar o princípio literal do Sermão da Montanha, es­pecialmente suas palavras sobre pacificação e amor aos inimigos.

O filme Gandhi, de Richard Attenborough, contém uma cena belíssima em que Gandhi tenta explicar sua nova filosofia ao missioná­rio presbiteriano Charlie Andrews. Andando juntos numa cidade da Áfri­ca do Sul, os dois repentinamente vêem seu caminho bloqueado por uma gangue de jovens. O reverendo Andrews dá uma olhada para os marginais ameaçadores e decide enfrentá-los. Gandhi o impede. "O Novo Testamento não diz que, se um inimigo lhe bater na face direita, você deve oferecer-lhe também a esquerda?", pergunta Gandhi. Andrews res­munga, dizendo que ele achava que a frase fora usada no sentido meta­fórico. "Não estou bem certo", responde Gandhi. "Suspeito que ele quis dizer que você deve mostrar coragem, estar disposto a receber um gol­pe, vários golpes, simplesmente para mostrar que você não vai revidar nem será dissuadido. Quando você faz isto, algo apela à natureza hu­mana, algo que faz seu ódio diminuir e seu respeito aumentar. Acho que Cristo compreendia isto muito bem, e eu vejo que isto funciona."

A profunda sensibilidade de Gandhi gradualmente tomou forma como uma doutrina bem estabelecida. Violência contra outro ser hu­mano, mesmo direcionada a um soldado atirando contra uma multidão desarmada, contrariava tudo que ele acreditava sobre a dignidade uni­versal humana. Você não pode mudar a convicção de uma pessoa por meio da violência, acreditava. A violência brutaliza e divide: ela jamais reconcilia. Se algum de seus seguidores tornava-se violento durante suas campanhas, Gandhi pedia que ele se retirasse. Nenhuma causa, por mais justa que fosse, justificava derramamento de sangue. "Eu morreria pela causa", afirmou, "mas não existe causa pela qual eu esteja preparado para matar".[3]

Desde Gandhi, outros líderes políticos adotaram suas táticas. Martin Luther King Jr., que considerava a si mesmo um sucessor espiritual, visi­tou a Índia e importou os métodos para os Estados Unidos. Ele e muitos outros provaram que a não-violência pode mover montanhas em socie­dades relativamente abertas, mas o que dizer de lugares como a Ale­manha nazista, a China moderna, Myanmar/Birmânia, onde regimes militares anulam qualquer protesto? Ironicamente, alguns líderes hindus, os verdadeiros herdeiros religiosos de Gandhi, sugerem que este prin­cípio surgiu de sua influência cristã, e não tinha lugar no hinduísmo. Especialistas em ética, políticos e teólogos continuarão a discordar so­bre onde e quando a força armada é justificada. Mas depois de Gandhi, ninguém pode negar o poder da não-violência de promover mudanças. Afinal, ela trouxe liberdade à segunda nação mais populosa da Terra.

Nos tempo de Gandhi, um sexto da população da Índia parecia-se mais com animais do que com seres humanos. Viviam em favelas miseráveis, entre esgotos a céu aberto, nos quais fervilhavam ratos e outros agentes transmissores de doenças. A doutrina hindu do carma dava uma base teológica para o elaborado sistema de cinco mil subcastas que mantinham as pessoas presas em seus lugares. O sistema de castas, um conceito de agrupamento humano mais profundo do que a idéia de tribo ou raça, era aceito havia mais de cinco mil anos, e poucos o ques­tionavam. A casta mais baixa de todas, a dos "intocáveis", prestava um valoroso serviço à sociedade, varrendo as ruas e limpando as latrinas e os esgotos, atos que um hindu de uma classe mais elevada jamais faria. Você podia perceber quem eram os intocáveis por sua pele escura e por sua postura, pois encolhiam-se como animais que apanhavam. O nome da casta os definia: se um hindu de outra casta tocasse um deles ou numa gota de água que tivesse sido poluída por algum dos intocáveis, precisava dar início a um elaborado processo de purificação. Um intocável tinha de recuar e se espremer no caminho de outro hindu para não pro­jetar sua sombra sobre aquele de casta mais elevada, evitando, assim, contaminá-lo. Na década de 1930, os britânicos descobriram uma nova subcasta, os "invisíveis", os quais não haviam sido encontrados em três séculos de ocupação britânica. Responsáveis pela lavagem das roupas dos intocáveis, essas pobres criaturas acreditavam que poderiam conta­minar pessoas de castas superiores simplesmente pelo olhar, de modo que saíam apenas à noite e evitavam qualquer contato com as outras pessoas.

Sem muitas possibilidades de receber algo que não fosse desprezo de seus pares, Mahatma Gandhi assumiu a causa dos intocáveis. Pri­meiramente lhes deu um novo nome: não seriam mais chamados "intocáveis", mas "harijans", os filhos de Deus. Em um primeiro ashram [4], uma comunidade espiritual na África do Sul, Gandhi provocou uma tempestade de protestos ao convidar os intocáveis para morar ali. Quando o principal patrocinador financeiro da comunidade experimen­tal retirou seu apoio, Gandhi fez planos de se mudar para a própria região dos harijans. Por fim, ele fez o ato mais aviltante possível para um hindu, limpando as latrinas dos intocáveis. Quando voltou para a Índia, chamava-os "irmãos" e se hospedava em suas casas sempre que possível.

Anos mais tarde, após a independência, quando outros líderes da Índia pressionavam lorde Mountbatten a aceitar o posto honorário de governador geral, Gandhi propôs um candidato alternativo, uma varredora intocável "de bravo coração, incorruptível e de pureza crista­lina". Embora sua candidata não tivesse recebido a indicação, com aquele ato simbólico, Gandhi ajudou a mudar a imagem dos intocáveis por toda a Índia. Leis foram modificadas e restrições abolidas. Na Índia de hoje, o sistema de castas permanece numa forma mais branda e menos re­pressiva. Mas agora, 100 milhões de pessoas referem-se a si mesmas não como uma maldição - "intocável" -, mas como uma bênção: elas são filhas de Deus.

Gandhi empenhava-se em reconhecer a dignidade inerente de cada pessoa. Em seu ashram na Índia, ele adotou um portador de hanseníase, outro grupo desprezado naquele país. Todos os dias, ele trocava as bandagens daquele homem e o banhava. Como disse, ele gostaria de devotar o mesmo cuidado em fazer um emplastro para uma vítima de lepra como em conduzir uma entrevista com o vice-rei da Índia. Ele também ajudou a elevar o status das mulheres do país, cercando-se de seguidoras altamente competentes.

Gandhi resumia sua crença em três pontos, os quais creditava ao escritor vitoriano John Ruskin [5]:

1) que o bem de uma pessoa está conti­do no bem de todos;

2) que o trabalho de um advogado tem o mesmo valor do de um barbeiro, visto que todas as pessoas têm o mesmo direito de obter seu sustento a partir de seu trabalho;

3) que uma vida de tra­balho, seja a de um agricultor ou de um artesão, é digna de ser vivida. Gandhi buscava maneiras de colocar estes conceitos em prática. Em cidades como Bombaim e Calcutá, ele preferia ficar na choupana da Colônia dos Varredores de Rua a se hospedar num hotel. Usava um lápis até que ele se transformasse num toco impossível de ser manuseado, tudo em respeito ao ser humano que havia feito aquele objeto.

John Ruskin foi um escritor cristão, e Gandhi reconhecia que, cm certos aspectos, a Igreja cristã havia mostrado o caminho para o res­peito à dignidade humana. Alguém que visitasse a Índia encontrava hospitais, orfanatos, leprosários e escolas destinadas aos excluídos e mantidas por missionários cristãos. Mas nós, aqui no Ocidente, ainda estamos aprendendo a diferença entre atos de caridade e a tarefa mais difícil, que é mudar a percepção que uma pessoa tem de si. Com freqüên­cia, nossa motivação tem sabor de paternalismo (a notar pelos termos "excluídos" ou "subclasse"). Eu, o instruído e rico americano, estendo minha mão compassiva para ajudar você a melhorar. Vemo-nos como aqueles que estão do lado de Cristo simplesmente por estarmos doando algo aos necessitados. O Novo Testamento deixa claro, porém, que Jesus está ao lado dos pobres, e que serviremos mais adequadamente se ele­varmos os excluídos à posição de Jesus.

"Vejo a face de Jesus disfarçada", dizia Madre Teresa, referindo-se aos mendigos moribundos que ela convidava à sua casa em Calcutá. "Às vezes, um disfarce desolador." Como Gandhi, ela entendia que a motivação da caridade não é a condescendência, mas a ascendência: ao servir o pobre e fraco, temos o privilégio de servir o próprio Deus.

Gandhi empenhava-se muito em se identificar com o pobre, removen­do quaisquer barreiras que pudessem afastá-lo. A todos que estiveram na Índia, preciso mencionar apenas um exemplo da disposição de Gandhi: sua insistência em viajar na terceira classe dos trens. Ele era capaz de sentar-se em bancos duros, abarrotados de lavradores sujos e seus animais, uma experiência de estar cercado por uma enorme quanti­dade de pessoas, ruído, imundice, e odores, inimaginável para a maioria dos ocidentais. "Por quê?", perguntaram-lhe certa vez. Sua resposta foi: "Porque não existe a quarta classe". (Comparo esta atitude com meu próprio entusiasmo quando reúno um número suficiente de milhas para ganhar um upgrade para a classe executiva numa companhia aérea.)

Gandhi não tinha amor inato algum ao sofrimento, e foi bastante assertivo em suas lutas iniciais pelos direitos pessoais na África do Sul, depois de ter sido expulso de uma cabina na primeira classe por causa da cor de sua pele. Mas quando ele adentrou nas sagradas escrituras do hinduísmo, do islamismo, do budismo e do cristianismo, ficou convenci­do de que a humildade de um servo é uma das posturas exigidas por Deus. Somente então ele se livrou de suas roupas européias, desfez-se de bens materiais e buscou companhia junto aos pobres e sofredores. "Um líder", disse ele, "é somente um reflexo dos seus liderados".

Gandhi não permitiu que ninguém de importância interferisse em seu estilo. Quando lorde Mountbatten ofereceu um lugar em seu avião particular para viajar até o lugar de uma importante reunião, Gandhi preferiu sua passagem de terceira classe, como de costume. Ele provo­cou certo escândalo ao visitar a Inglaterra para se encontrar com o Par­lamento e o rei George. Chegou debaixo de grande festa e cobertura da imprensa, e a nação perdeu o fôlego quando ele desceu a prancha bambo­leante do vapor usando apenas uma tanga de algodão e levando uma cabra, seu suprimento de leite, presa numa corda. Rejeitando ofertas para ficar nos melhores hotéis, ele preferiu ficar numa favela de East End. Quando os repórteres pediram que ele explicasse como ousava se encontrar com um rei estando "seminu", Gandhi respondeu com um sorriso: "O rei estava usando roupas suficientes para nós dois".

Gandhi nunca insistiu que líderes políticos seguissem suas posições tão severas; sua cruzada era moral e religiosa, e não apenas política. Mas ele realmente pediu, depois da independência, que cada ministro do governo vivesse numa casa simples, sem empregados e sem carro, praticasse uma hora de trabalho manual por dia e limpasse seu próprio banheiro. Muito tempo depois de sua morte, líderes do Congresso conti­nuavam a usar o uniforme de algodão tecido em casa que ele adotara, e promoviam festas em que as pessoas se reuniam para tecer em rocas.

Nos dias de hoje, a filosofia de Gandhi parece singular e arcaica. Ele indicou uma varredora de rua dos intocáveis para o cargo mais alto do país e passou grande parte de seu tempo em favelas e leprosários. Em contraste a isso, nós, no Ocidente, valorizamos os bilionários das empre­sas pontocom e as maravilhosas top models. Para correr atrás de uma bola num campo qualquer, pagamos a um atleta profissional mais dinheiro do que o necessário para montar e fazer funcionar dezenas de hospitais em países como a Índia. Enquanto isso, muitos dos moradores de fave­las no Ocidente - com luz elétrica, água corrente e outros luxos inimagináveis na área rural da Índia - vivem num estado de ganância, ressentimento e inquietude. Ao exaltar o rico, o bonito e o poderoso, o que fazemos com a dignidade daqueles que não atingem estes padrões? E o que podemos aprender de um Gandhi, uma pessoa que escolheu outro caminho?

A mensagem cristã que ganha a maior exposição nos dias atuais no mundo ocidental segue a corrente cultural. Ela oferece o apelo "Deus tem algo de bom guardado para você", e apresenta a promessa de auto-satisfação. A afirmação de Jesus acerca de achar-se quando se perde (Mt 8:35) é convenientemente desprezada. Uma teologia baseada no sucesso pode funcionar razoavelmente bem nos Estados Unidos sim­plesmente porque os recursos da nação são muito grandes. Mas uma teologia desse tipo tem pouco a dizer aos cristãos da China, Indonésia ou Irã, onde a fé cristã implica sofrimento.

No estudo que fez sobre o Novo Testamento, Gandhi encontrou o conselho de buscar a verdade de todo o coração, não esperando nada, não obstante os resultados. Ele costumava cantar um poema indiano enquanto caminhava entre as plantações de arroz na época em que seu próprio povo o perseguia: "Se eles disserem 'não' ao seu chamado, cami­nhe só, caminhe só". Em países como os Estados Unidos, francamente, esta mensagem não vende.

Os tempos atuais têm demonstrado o poder moral de um único in­divíduo. Nelson Mandela [6] subiu pacificamente à liderança de uma nação que praticamente todo observador esperava ver entrando numa guerra civil. O tom de conciliação que ele estabeleceu provou que os profetas estavam errados. Alexander Solzhenitsyn, Lech Walesa, Cory Aquino e Vaclav Ravel levantaram-se corajosamente e, com sua autori­dade moral, ajudaram a mudar a História. Em outras nações - Sudão, Ruanda, Iugoslávia, Congo -, onde ninguém tinha liderança moral para restringir a violência, o resultado foi a carnificina.

Em 1947, quando o movimento pela independência cruzou a Índia, animosidades centenárias começaram a florescer novamente. Hindus e muçulmanos voltaram-se uns contra os outros com violência. Muçul­manos queimaram as cabanas de seus vizinhos hindus, forçaram-nos a comer as vacas sagradas, massacraram os maridos e estupraram suas mulheres. Os hindus responderam na mesma moeda, e milhares de muçulmanos também morreram nos meses que precederam a indepen­dência. Parecia cada vez mais que o país explodiria em chamas.

Enquanto os políticos se sentavam em elegantes palácios em Nova Délhi e negociavam o poder e a terra, Gandhi prosseguia em sua cruzada do "ungüento". "Deixe-os discutir", dizia ele. Gandhi dirigia-se ao povo, às hordas iradas que investiam violentamente uns contra os outros. Aos 77 anos, foi a uma região onde ocorriam os encontros mais violentos. Ele conduziu seu grupo de discípulos hindus por vilarejos muçulmanos semidestruídos para ouvir insultos e receber pedras e garrafas. Quando rejeitado, procurava uma árvore sob a qual pudesse dormir. Se aceito, lia a Bhagavad Gita, o Corão e o Novo Testamento, ensinava noções básicas de saúde e higiene, e então se arrastava para a próxima vila. Ao todo, visitou 47 vilarejos, caminhando descalço 185 quilômetros.

Em cada vila, Gandhi tentava persuadir um líder hindu e um mu­çulmano a entrarem juntos na mesma casa, como garantia de paz. Pedia a eles que se lançassem num jejum até a morte se um dos seus atacasse um inimigo religioso. Por incrível que pareça, o método fun­cionou. Enquanto os debates continuavam nos palácios de Nova Délhi, o linimento pessoal de Gandhi começou a curar as feridas por toda a região. Por algum tempo, a matança foi interrompida.

Porém, quando os políticos decidiram criar a nação do Paquistão, separada da Índia, o país precisou de mais daquele ungüento; precisava de muito mais bandagens para conter o fluxo de sangue que quase lite­ralmente se transformara em rios escarlates repletos de abutres. Como Gandhi havia previsto em seus apelos contra a separação, ela provocou uma reação sem precedentes na História. Quando as fronteiras foram finalmente anunciadas, os hindus se viram presos dentro dos limites de um Paquistão recém-criado e hostil, e os muçulmanos dentro de uma Índia hindu. Assim teve início a maior migração em massa que jamais existiu, na qual dez milhões de pessoas deixaram suas casas e empreende­ram uma marcha frenética pelas montanhas e pelos desertos, em busca de um novo lar.

Lorde Mountbatten, o vice-rei que supervisionou a independência, sabia que as duas áreas eram potenciais conflagrações. No Oeste, onde a Índia fazia divisa com o Paquistão Ocidental, as hostilidades certa­mente irromperiam. Mas na fronteira do Paquistão Oriental (atualmente Bangladesh) ficava a maior ameaça. Próximo à fronteira estava a cidade de Calcutá, a mais violenta da Ásia. Nenhuma cidade do mundo se com­parava a ela em pobreza - mais de 400 mil mendigos -, fanatismo reli­gioso e paixões desenfreadas. Calcutá abertamente adorava a deusa hindu da destruição, a qual usava uma grinalda de crânios em sua cintura. Numa prévia do que estava por vir, a violência explodiu em Calcutá, e em apenas um dia seis mil corpos foram jogados no rio, atira­dos nas sarjetas ou deixados para apodrecer nas ruas. A maioria havia apanhado ou fora pisoteada até a morte.

Conforme os relatórios das atrocidades foram sendo divulgados, Mountbatten enviou sua força de ataque das fronteiras para o lado oeste, a fim de verificar a crescente violência (que tiraria a vida de meio milhão de pessoas). Isto o deixou sem qualquer reserva de tropas para serem enviadas ao front oriental. Desesperado, Mountbatten insistiu com Gandhi para que ele fosse a Calcutá e fizesse ali, com os intocáveis que ele abraçara como irmãos, algum tipo de milagre. Gandhi consentiu so­mente depois de um líder muçulmano, um dos políticos mais corruptos de Calcutá, ter concordado em viver com ele, desarmado, numa das piores favelas de Calcutá. Gandhi garantiu que se um único hindu mor­resse nas mãos de um muçulmano, ele jejuaria até a morte.

Foi desta forma que, dois dias antes da independência, Gandhi che­gou a Kipling, a "Cidade da Noite Macabra". Como sempre, uma gran­de multidão o aguardava, mas saudando-o com gritos de ódio, não com satisfação. Eram hindus que haviam partido para a vingança e, para eles, Gandhi representava uma capitulação às injustiças muçulmanas. Não tinham eles visto parentes assassinados e esposas e filhas defloradas pelas massas de muçulmanos? Gandhi saiu de seu carro sob uma chuva de pedras e garrafas. Levantando uma das mãos num frágil gesto de paz, o velho homem caminhou sozinho por entre a multidão. "Vocês querem me fazer mal", disse ele, "e é por isso que venho até vocês". A multidão silenciou. "Vim até aqui para servir tanto a hindus quanto a muçulmanos. Estou me colocando sob sua proteção. Vocês estão livres para se colocarem contra mim, se assim o desejarem. Estou chegando ao fim de minha jornada na vida. Não tenho muito mais o que caminhar. Mas se vocês se enfurecerem novamente, não serei uma testemunha viva disto."

A paz reinou em Calcutá naquele dia, no dia formal da independên­cia da Índia, no dia seguinte, no outro e no outro, somando, ao todo, 16 dias. No corredor externo da casa de favela em que Gandhi se hospeda­va, as pessoas se reuniam todas as noites para participar das reuniões de oração - mil no começo, depois dez mil e, por fim, um milhão de pessoas ocupavam as ruas da favela para ouvir suas preleções sobre paz,amor e irmandade, transmitidas por alto-falantes. Mais uma vez, Gandhi estava confrontando uma crise política com aquilo que ele chamava "força da alma", o poder inato da espiritualidade humana. Enquanto Estados inteiros da Índia ardiam em chamas, milhões de pessoas deixa­vam seus lares e dezenas de milhares eram mortas, nem um ato sequer de violência aconteceu na cidade mais violenta. O mundo inteiro se re­feria a este acontecimento como "o milagre de Calcutá". Um aliviado lorde Mountbatten chamava Gandhi "minha força de fronteira de um só homem".

O milagre não perdurou. No 17º dia, dois muçulmanos foram assas­sinados, o rumor sobre uma vítima hindu se espalhava, e então, a algu­mas poucas centenas de metros da casa de Gandhi, alguém atirou uma granada em um ônibus cheio de muçulmanos. As pessoas haviam que­brado seu compromisso, e Gandhi deu início a um jejum até a morte, direcionado não contra os britânicos, mas contra seus próprios compa­triotas. Ele não ingeriria comida até que todos aqueles que cometeram tais atos se arrependessem e solenemente resolvessem parar com aque­las ações.

No começo, ninguém se importou. O que era a vida de um velho doente diante do aviltamento que sofriam as pessoas em sua religião, suas famílias e sua honra? A vingança parecia muito mais adequada do que o perdão. Disparos de armas de fogo ecoaram pelas ruas de Calcutá no primeiro dia do jejum de Gandhi. Depois de 24 horas, seu cansado coração começou a perder uma batida em cada quatro, e sua pressão sangüínea caiu vertiginosamente. No dia seguinte, quando seus sinais vitais caíam muito, os agitadores pararam e ouviram os repórteres que transmitiam notícias sobre a pressão e os batimentos cardíacos do velho homem. Rapidamente, a atenção de todos os moradores de Calcutá voltou-se totalmente à cama de varas onde ele jazia, fraco demais para falar. A violência cessou. Ninguém estava disposto a cometer um ato que pudesse fazer com que a "Grande Alma" morresse.

Mais um dia se passou, e a gangue responsável pelos assassinatos veio se confessar a Gandhi, pedindo perdão e lançando as armas a seus pés. Um caminhão cheio de armas e granadas, entregues volunta­riamente pelas pessoas, chegou à sua casa. Os líderes de todos os gru­pos religiosos da cidade assinaram uma declaração, garantindo que não aconteceria mais assassinato algum. Persuadido por suas ações,

Gandhi tomou seus primeiros goles de suco de laranja e fez suas pri­meiras orações. Desta vez, o milagre perdurou, e Calcutá foi salva.

Assim que recuperasse as forças, Gandhi planejava ir para o Oes­te, no coração da violência que havia tirado a vida de meio milhão de pessoas.

Quando leio a história de Mahatma Gandhi e a comparo com a história da Igreja cristã, não posso deixar de pensar no que acon­teceu de errado. Por que um hindu abraçou os princípios de reconcilia­ção, humildade e sacrifício vicário tão claramente demonstrados por Jesus? Gandhi considerava Jesus como a fonte da qual aprendeu esses princípios de vida, e trabalhou como um soldado disciplinado para colocá-los em prática. O que impede que os cristãos sigam a Jesus com o mesmo desprendimento?

Sim, temos o exemplo de Francisco de Assis, tentando impedir as cruzadas; de monges que superaram o ascetismo de Gandhi; de mis­sionários que servem os necessitados; de quakers e anabatistas que se opuseram à violência. Mas o cristianismo europeu tem muito mais re­gistros de uma Igreja baseada na riqueza, no poder, no prestígio e até mesmo na coerção e na guerra para fazer avançar sua causa.

O mundo mudou, naturalmente. Agora, apenas um terço dos cris­tãos do mundo vive na Europa e na América do Norte, e o centro da Igreja está se movendo para a África e para a Ásia. Depois de dois milê­nios de dominação ocidental, será o momento de olhar para o Oriente em busca de sabedoria acerca da fé que temos praticado de maneira tão errática?

Quando me volto para a autobiografia de Gandhi, um arrepio per­corre minha alma, porque ele tira o foco de movimentos e líderes da História e o coloca sobre si. A questão crucial para ele não era como outros cristãos, hindus ou muçulmanos haviam agido no passado, mas como eles estavam agindo no presente. Confrontando Gandhi, sou for­çado a transformar uma revisão da História cristã, feita calmamente numa poltrona, em uma avaliação muito mais dolorosa de mim mesmo como uma pessoa que se diz seguidora de Jesus. Os historiadores podem tratar dos resultados exteriores das ações de Gandhi; ele se preocupava com a vida interior.A autobiografia apresenta eventos numa estranha proporção, The Story of My Experiments with Truth (A história de minhas experiências com a verdade) é o título que ele deu à obra. Ela retrata eventos externos como sendo simplesmente o palco no qual o drama interno do desenvolvi­mento de seu próprio caráter estava sendo representado. Um parágrafo menciona a grande Marcha do Sal, um momento decisivo na carreira de Gandhi e na história da Índia, mas os quatro capítulos seguintes vão explorar sua agonia interna sobre a dúvida se deve ou não incluir leite de cabra em sua dieta vegetariana. Gandhi projeta sua vida como o gradual refino de uma alma.

Em sua autobiografia, Gandhi traça a evolução de seu estilo de vida simples. Ele havia tentado os caminhos ocidentais como estudante de Direito em Londres, comprando roupas finas, chapéus revestidos de seda, sapatos de couro de marca, luvas brancas e uma bengala com manopla de prata. Ainda era um tipo almofadinha quando voltou para a Índia, e não começou a mudar até ir para a África do Sul. Começou passando suas próprias camisas, para a ridicularização de seus colegas de ofício. Então, passou ele mesmo a fazer o corte de seu cabelo, deixando enor­mes falhas que provocavam ainda mais risos. Embora recebesse um bom salário, decidiu cortar as despesas com a casa pela metade, cortando mais uma vez ao meio algum tempo depois. No fim de cada dia, ele fazia uma contabilidade minuciosa de cada centavo gasto.

A partir dessas experiências, Gandhi descobriu que o processo de gastar menos dinheiro e adquirir menos propriedades simplificaria sua vida e lhe daria paz interior. Além disso, permitiria que ele se identifi­casse mais com as pessoas pobres que com freqüência representava na corte. Com o passar do tempo, ele resumiu suas propriedades ao seguin­te: óculos, um relógio, sandálias, um livro de músicas, uma tigela. Para responder à correspondência, ele usava blocos de papel feitos com os envelopes das cartas que recebia. Comia com uma colher que se que­brou e foi remendada com um pedaço de bambu amarrado com uma corda.

Ao ler seu relato, lembro-me, com certa angústia, que quando me mudei de Chicago para o Colorado, a empresa que fez minha mudança calculou que todos os meus pertences pesavam cerca de 5,5 toneladas. Mesmo extraindo as 2,7 toneladas de livros, isto perfazia um total de quase três toneladas de acumulação material! E será que, com toda essa bagagem, eu tinha uma vida mensuravelmente mais rica que a de Mahatma Gandhi?

Ontem interrompi este capítulo para passar uma hora procurando arrumar o controle remoto da porta de minha garagem. Tive outra frus­trante interrupção tentando configurar o programa de fax do computador. A bateria do meu celular descarregou. Percebi, num momento, quanto minha vida era governada por coisas materiais. Posso justificar, ou pelo menos racionalizar, muitas dessas posses, pois elas me ajudam no meu trabalho. Mas qual é a atenção que dou ao ensino de Jesus sobre o perigo de alguém ganhar o mundo inteiro e perder sua alma? Devo admitir que o estilo de vida de Jesus tinha muito mais a ver com o de Gandhi do que com o meu.

Várias vozes ocidentais estão clamando por um retorno à simpli­cidade. Alguns cristãos defendem as virtudes de uma vida simples e levantam questões sobre a moralidade dos padrões ocidentais à luz das injustiças do mundo (embora, para ser justo, o nível de simplicida­de que eles defendem mais se parece com o início da vida de Gandhi do que com aquilo que ele tinha no fim). Deixarei a questão da moralidade do estilo de vida para outros mais seguros que eu. O que aprendi de Gandhi foi a razão da simplicidade, não o seu nível. Gandhi perseguia a simplicidade não por culpa, mas por necessidade, em fun­ção de sua própria saúde espiritual.

Gandhi sentou-se à mesa com grandes líderes. Ele viu a sedução do poder, a confiança nos servos que realizavam qualquer desejo, a infindável escada espiralada do luxo, a cativante ansiedade sobre os investimen­tos, a enxurrada de cartas, convites, apoios e ligações telefônicas, solici­tando seus discursos. Conhecendo bem o fardo da fama, ele também sabia que a única forma de combatê-la era buscar a simplicidade com todo o coração. Se não fizesse isto, o vigor de sua alma, a força interior de onde ele retirava a perseverança e a coragem para as confrontações morais, se esvairia.

Gandhi tinha suspeitas quanto à tecnologia moderna. Acreditava que as pessoas que possuíam carros, rádios, geladeiras cheias e muitas roupas no armário poderiam se tornar psicologicamente inseguras e mo­ralmente corrompidas. Ele conhecia bastante sobre conservação de solo para entender que a terra da Índia não toleraria algumas poucas déca­das do abuso provocado pela agricultura tecnológica (em 150 anos, o Estado norte-americano de Iowa perdeu mais áreas cultiváveis do que a Índia em cinco mil anos). Tinha perguntas sobre o tempo que as fontes de energia durariam. Além disso, Gandhi disse que continuaria a reco­mendar o uso de vacas até que fosse inventado um trator que pudesse produzir leite, iogurte e adubo. Ironicamente, a ênfase na simplicidade veio de escritores ocidentais - Tolstoi, Ruskin e Thoreau -, os quais o convenceram de que as riquezas eram um fardo e que somente a vida de trabalho era digna de ser vivida. Gandhi deu o nome Fazenda Tolstoi à sua primeira comunidade, em homenagem ao romancista.

O Ocidente - e a Índia, especialmente por esta questão - ignoraram Gandhi. O capitalismo governa no mundo inteiro, e a sociedade cujo tecido econômico depende de crescimento constante exige que seus cidadãos tenham necessidades de consumo e desejos de gasto constantes. Se dez milhões de seguidores de Gandhi, com a mais alta das motivações, decidissem simplificar suas vidas, renunciando a seus carros novos, usan­do roupas fora de moda, plantando sua própria comida e eliminando aparelhos elétricos, o resultado seria o caos econômico, e milhares de pessoas perderiam seus empregos. Era exatamente este dilema que Gandhi queria evitar na Índia. No Ocidente, seria necessário alguém com a mesma força de um Gandhi para mudar o dogma estabelecido do PIB sempre crescente. É possível que sejamos forçados a mudar nossos modos esbanjadores um dia, quando o solo estiver exaurido, as fontes de água tiverem secado, as calotas polares tiverem derretido e todos os poços de petróleo estiverem secos. Mas a crise vai esperar mais uns 50 anos ou mais; deixaremos estes problemas para a geração que ainda nem nasceu.

Todos os meses, leio sobre alguma nova invenção que permite que eu me conecte ao resto do mundo. Três canais da TV a cabo agora trazem notícias 24 horas por dia. Se eu quiser, posso enviar um e-mail através do meu telefone celular. Posso obter informações sobre fatos, esportes e ações da bolsa de valores através de pagers. Todas as vezes que cedo e compro um aparelho como estes, sinto-me importante e valorizado. Tenho uma vida ocupada, e assim é a indústria da comunicação. Esses aparelhos permitem que eu alcance mais pessoas de maneira mais eficiente.

De alguma maneira, porém, Gandhi conseguia ser bastante eficien­te sem sequer um telefone de disco a seu alcance. "Nossas invenções são brinquedos bonitos, os quais tiram nossa atenção das coisas realmente sérias", disse Thoreau, seu mentor. "São nada mais que meios melhora­dos de um fim não aperfeiçoado, um fim ao qual já era fácil se chegar (...) Temos grande pressa de construir um telégrafo magnético do Maine ao Texas, mas é bem possível que o Maine e o Texas não tenham nada importante a comunicar." Um século e meio depois, uma pessoa só pre­cisa clicar numa sala de bate-papo virtual da internet para entender o que ele disse. Gandhi também observava todas as segundas-feiras como um dia de silêncio, tanto para descansar suas cordas vocais quanto para promover a harmonia interior. Ele se dedicava a esse silêncio mesmo quando era convocado para reuniões no calor das negociações sobre o futuro da Índia.

Como jornalista, vejo um padrão perturbador naquilo que fazemos com os líderes religiosos atualmente. Premiamos a todos com aplauso, fama, atraentes contratos e uma enxurrada de convites de discursos e aparições na mídia. Fazemos com que nossos pastores trabalhem como psicoterapeutas, oradores, sacerdotes e altos executivos. Quando um líder demonstra perspicácia acima da média, acenamos com a tentação de um programa de rádio ou de televisão completo, com uma máquina de levantamento de fundos para tocar a organização. Em resumo, nós, de dentro da Igreja, copiamos descaradamente o modelo secular de propaganda enganosa da mídia e do crescimento da corporação. Fico pensando em quão mais eficazes seriam nossos líderes espirituais se os encorajássemos a reservar as segundas-feiras como um dia de silêncio para reflexão, meditação e estudo pessoal.

Em seus hábitos pessoais, Gandhi foi muito além da autodisciplina, chegando até à renúncia. Não permitia qualquer tipo de prazer sensual, e, em sua autobiografia, você não encontrará experiência agra­dável alguma relacionada à música, à natureza ou qualquer satisfação provocada por um sabor ou aroma. Sua refeição típica consistia de dois gomos de toranja (grapefruit)[7], coalho de leite de cabra e sopa de limão. Durante toda sua vida, ele empreendeu uma luta contra a cobiça. Aos 37 anos, embora casado, fez um voto solene de celibato. Passou muito tempo pesquisando quais alimentos tinham o menor traço de substâncias afrodisíacas, depois eliminou o sal, temperos fortes, chá e a maioria de frutas e vegetais de sua dieta.

Tal rigor parece estranho aos ocidentais modernos, embora a Histó­ria cristã tenha seu grupo de ascetas. O Oriente possui um rico legado de "homens santos" que buscam controlar as paixões humanas. "E por mim mesmo", explicava Gandhi a seus críticos, "que insisto em práticas tão espartanas. Eu sou aquele que vai sofrer se der vazão à minha natu­reza carnal".

Em uma conferência na Carolina do Sul, ouvi Arun Gandhi, neto de Mahatma, contar sobre a viagem que fez da África do Sul para a Índia aos 12 anos de idade para encontrar-se com seu avô. O pai de Arun, um líder do movimento pelos direitos civis na África do Sul, providenciou essa viagem em função do medo que tinha de Arun estar crescendo como um garoto mimado. O primeiro encontro com o avô famoso não foi mui­to bom.

Mahatma estava tentando ensinar o garoto a manter um diário de raiva. "É normal você sentir raiva", disse o avô. "O que importa é como você canaliza esta raiva." Ele pediu a Arun que parasse todas as vezes que sentisse raiva de alguma coisa e, no calor do momento, escrevesse todos os seus pensamentos e sentimentos. Então, no dia seguinte, de­pois que as emoções tivessem esfriado, ele deveria voltar e ler seu diá­rio, refletindo sobre como canalizar aquele poder para o bem. "Vá em frente e tente", disse Mahatma. "Escreva tudo aquilo que o deixa com raiva."

O jovem Arun, com seus 12 anos, sentiu tanto ódio por ter de passar tempo registrando sua raiva que quebrou seu lápis em dois e o jogou por cima do ombro. De maneira gentil, porém firme, seu avô fê-lo se sentar e deu-lhe um sermão. "Este lápis é apenas um toco", disse, "mas imagine se 20 milhões de meninos ao redor do mundo jogassem fora seus lápis. Pense nas árvores que teriam de ser cortadas. Pense nos trabalhadores que colocaram o grafite dentro do lápis. Pense no desperdício tão desnecessário". Mahatma pediu emprestada uma lan­terna, e os dois passaram a hora seguinte agachados, procurando pelo toco de lápis.

Nas várias semanas que se seguiram, Mahatma orientou seu neto sobre como controlar suas expressões de emoção. "Ele ensinou-me a me controlar", lembrou Arun. "Foram necessários muitos meses de prá­tica até que estivesse pronto para voltar para casa. Mas no tempo devido, consegui perceber que aquilo estava me libertando. Eu era uma vítima desesperada de minhas próprias paixões. Naquele momento, eu estava aprendendo a ser o mestre."

De volta à África, Arun seguiu os passos de seu pai como um líder dos direitos civis. Por fim, emigrou para os Estados Unidos, onde dirige o Instituto Mohandas K. Gandhi de Não-Violência. "Eu jamais teria suportado o abuso e até mesmo a violência física envolvida na campa­nha pelos direitos civis na África do Sul se não tivesse aprendido aquela lição aos 12 anos de idade."

No dia seguinte, na mesma conferência, participei de um painel que discutia a tendência cultural em relação à obscenidade e ao ódio, como a demonstrada na música rap por cantores como Eminem e em programas de televisão como South Park e Beavis e Butthead [8] . Ouvi pais expressarem sua preocupação com letras descrevendo assassinatos de esposas, de policiais e ódio racial, e por ver adolescentes defendendo vigorosamente seu direito de expressar quaisquer emoções que sen­tissem. "Shows como estes e a música rap são a forma que temos de expressar a hostilidade que sentimos", disse um jovem de 18 anos de idade. "Tire-os de nós e os jovens provavelmente partirão para a violên­cia explícita." A diferença entre duas abordagens sobre a paixão humana, o jeito do Oriente e o do Ocidente, nunca pareceu tão patente.

Mahatma Gandhi sabia que o único poder moral que exercia sobre os outros viera daquilo que ele mesmo já dominava. Certa vez, uma mulher de sua vila trouxe-lhe seu filho e pediu a Gandhi que dissesse à criança para parar de comer açúcar, pois aquilo não era bom. Ela disse que o filho não lhe dava ouvidos, mas que ouviria a Gandhi. "Traga o garoto de volta na semana que vem e eu falarei com ele", disse Gandhi. Uma semana depois, a mulher voltou com seu filho. Gandhi tomou o menino em seus braços e disse que ele não deveria comer qualquer açú­car. Então, disse adeus aos dois. A mãe hesitou um pouco e perguntou: "Mas, Bapu,[9] por que o senhor precisou esperar uma semana? Não po­deria ter falado na semana passada mesmo?" Gandhi respondeu: "Não. Na semana passada, eu ainda estava comendo açúcar."

Foi este princípio, o da persuasão moral por meio do exemplo, do sofrimento vicário, que Gandhi aperfeiçoou em sua prática de jejum. Logo no início de sua carreira, dois jovens sob sua tutela descambaram para a imoralidade, e Gandhi ficou angustiado vários dias em busca de uma resposta adequada. A maioria dos membros do ashran clamava pela punição exemplar dos transgressores, mas Gandhi acreditava que um guardião ou mestre era, ao menos parcialmente, também responsá­vel pelas falhas de seus alunos ou aprendizes. Ele não acreditava que os outros alunos fossem capazes de perceber a profundidade de sua aflição e a seriedade da transgressão, a não ser que ele aplicasse alguma puni­ção. E assim, em resposta à transgressão dos alunos, ele promoveu um jejum total de sete dias, e passou a fazer apenas uma refeição por dia por 40 meses e meio. "Minha penitência feriu a todos", concluiu ele, "mas limpou a atmosfera. Todo mundo percebeu que coisa terrível era ser pecador, e os laços que me uniam aos meninos e meninas se torna­ram mais fortes e verdadeiros".

Finalmente, o jejum passou a ser a mais poderosa arma de Gandhi. Já mencionei seu jejum contra a violência em Calcutá. Depois disso, Gandhi anunciou mais um jejum, em Nova Délhi, a capital do novo país, uma cidade que, no começo de 1948, vivia em trevas. Cinco mi­lhões de refugiados haviam fugido pelo Punjab, vindos do Paquistão para a nova capital, e muitos deles estavam vivendo agora em campos provisó­rios de refugiados. Depois de serem perseguidos, estuprados e brutali­zados pelos muçulmanos, aqueles hindus tinham sede de vingança.

Quando Gandhi chegou e sentiu a atmosfera de ódio, anunciou um jejum até a morte. Seus médicos não concordaram, pois ele ainda não tinha se recuperado do jejum quase fatal de Calcutá. As multidões já estavam fartas do velho homem e de seus desvarios de paz e irmandade. Nos dois primeiros dias, eles zombaram da figura já abatida que jazia numa cama de varas, marchando diante dele com uma nova canção nos lábios: "Deixem Gandhi morrer! Deixem Gandhi morrer!" Então, no terceiro dia, seus rins pararam de funcionar, seu coração estava des­compassado e ele começou a respirar com grande dificuldade. Todas as rádios da Índia começaram a transmitir boletins sobre sua saúde a cada hora.

No quarto dia, em total desespero, os mais poderosos líderes da Índia - fascistas, comunistas e todas as facções entre os dois - vieram até Gandhi e fizeram um voto solene de proteger os muçulmanos e renunci­ar à violência. As armas recolhidas encheram caminhões e foram destruídas. Líderes civis garantiram que residências, lojas e mesquitas seriam devolvidas a seus verdadeiros donos. O parlamento indiano vo­tou pagar ao inimigo Paquistão 55 milhões de libras. Por fim, depois que todas as condições impostas por Gandhi haviam sido atendidas e o país estava novamente em paz, ele concordou em interromper o jejum. Ele durou 121 horas.

Duas semanas depois, seu corpo debilitado estava novamente na cama de varas, morto não por um jejum, mas por três balas de um faná­tico hindu que se ressentia daquilo que chamava "traição" de Gandhi a seu país. Em seu último ato de morte, Gandhi conseguiu fazer muito mais do que os milhares de policiais e soldados que patrulhavam em vão as vilas de Punjab. Com a morte de Gandhi, a Índia parou; as execuções em massa cessaram; a nação ficou profundamente chocada. Um ho­mem santo de Bombaim caminhava pela cidade, dizendo: "O Mahatma está morto. Quando virá outro como ele?" Muitos dos feitos de Gandhi morreram com ele. Sua nação amada seguiu um caminho diferente da­quele que ele defendia, assim como o resto do mundo, ficando cada vez mais beligerante e menos receptivo a suas crenças principais. Contudo, por um tempo, aquele homem desconcertante e estranho conseguiu elevar homens e mulheres a um patamar superior ao que possuíam anteriormente. Ele não tinha escritório algum, e aqueles que o seguiam o faziam voluntariamente. O único atrativo que tinha como líder era a força de sua própria alma. "O feito comum é um grande passo e um maravilhoso compromisso", disse Gandhi. "Sua beleza reside no fato de o compromisso de hoje ser menos impuro que o de ontem; consiste em nossos olhos serem conduzidos numa linha reta em direção a algo maravilhoso no momento em que olhamos não para os feitos, mas na direção em que eles são realizados."

Em 1983, depois de eu ter retornado da Índia e de o filme Gandhi, de Richard Attenborough, ter sido lançado, escrevi um perfil do homem para a revista Christianity Today. Apesar de sempre receber cartas ferinas no decorrer dos anos, não estava preparado para a quantidade de men­sagens odiosas que o artigo causou. Leitores me disseram que Gandhi estava agora queimando nas profundezas do inferno, e que até os de­mônios acreditam em Deus e citam a Bíblia. "E então, vemos Gandhi na capa deste mês", escreveu um dos leitores. "Quem será a capa do mês que vem, o aiatolá?" Outro leitor o chamou "o agitador pagão que mais fez para debilitar a influência da civilização ocidental". Um proeminen­te porta-voz cristão rebelou-se contra a revista por "colocar na capa, no lugar de Jesus, a figura de Mahatma Gandhi".A maioria das reclamações surgia de uma pergunta: os cristãos têm alguma coisa a aprender de alguém que rejeitou sua fé? Cheguei à con­clusão que sim. Apesar de Gandhi jamais ter aceitado os apelos da teologia cristã, ele baseava a filosofia de sua vida nos princípios apren­didos com Jesus. De uma maneira bastante diferente, o impacto de sua vida ajudou-me a me convencer da verdade da fé cristã. Comecei a ver que Jesus disseminou na terra um novo tipo de poder, uma inver­são que virou de cabeça para baixo as suposições básicas da História. "Os últimos serão primeiros, e os primeiros serão últimos", disse ele, dando cumprimento a esse princípio buscando os excluídos, os pobres, os sofredores. Ele foi a pessoa mais influente que já viveu, apesar de não ter um escritório, de possuir uma atitude de desprezo em relação ao poder político e de não ter deixado para trás de si nenhum bem material, senão um lençol.

Jesus ofereceu perdão aos pecadores, amor aos inimigos, compaixão profética àqueles de quem discordava. Hoje, todo grupo marginalizado do mundo - minorias, mulheres, deficientes, prisioneiros, doentes - pode olhar para Jesus como uma fonte de inspiração moral e um modelo para ações efetivas, quer sigam ou não seus ensinamentos. Por intermédio de Gandhi, pude ver que, além de fundar uma Igreja, Jesus produziu uma corrente de autoridade moral que liberta os cativos, alivia os oprimidos e despreza um mundo violento e competitivo. Essa corrente flui quer a Igreja se junte a ela ou opte por permanecer nos bancos. Devido ao meu próprio passado, sempre fui rápido em acusar a Igreja de permanecer estática enquanto a corrente fluía. Gandhi ensinou-me que o evangelho tem vida em si, e que executa sua obra lenta e firme, independente­mente do resto. Apesar de nunca ter aceitado Jesus da maneira como os cristãos desejavam, Gandhi provou a verdade dos ensinos de Jesus, canalizando essa corrente para uma nação marcada pela paixão e pela violência.

Gandhi tinha amigos íntimos cristãos, como os missionários Charlie Andrews e E. Stanley Jones. Como seus escritos demonstram, compre­endia os detalhes da doutrina cristã melhor do que muitos cristãos. Por que, então, ele terminou por rejeitar essa fé?

Criado na Índia, Gandhi teve pouco contato com cristãos quando era jovem. Espalhavam-se rumores em sua cidade que, se um hindu se convertesse ao cristianismo, seria forçado a comer carne, tomar bebidas fortes e usar roupas européias. Gandhi também se recorda de um epi­sódio desagradável, em que viu um missionário cristão numa esquina, escarnecendo dos hindus e de seus deuses.

Como estudante de Direito em Londres, Gandhi teve uma exposi­ção mais prolongada ao cristianismo. A pedido de um colega, ele leu a Bíblia de capa a capa. Confessou que o Antigo Testamento não lhe inspirava, provocando-lhe sono, mas o Novo Testamento causou uma profunda impressão. Por toda sua vida, Gandhi viu-se retornando aos ensinos de Jesus, seu modelo de não-violência e vida simples. Ele tam­bém leu Many Infallible Proofs, de Pearson (que "não teve efeito algum sobre mim") e The Analogy of Religion, de Butler, entre tantos outros livros e comentários cristãos. Ainda assim, não conseguia reconciliar a disparidade que via entre Cristo e os cristãos. Como ele mesmo disse, "apedrejar profetas e, mais tarde, levantar igrejas em sua memória tem sido a prática do mundo durante eras. Hoje, adoramos Cristo, mas o Cristo encarnado nós o crucificamos".

Gandhi viveu na África do Sul durante os anos formativos de sua vida, e alguns incidentes desagradáveis ocorridos ali fizeram pouco para mudar as posições que tinha em relação ao cristianismo. Encontrou discriminação ferrenha numa sociedade ostensivamente cristã, sendo colocado para fora de trens, expulso de hotéis e restaurantes e barrado em algumas reuniões cristãs.

Uma mulher branca que costumava convidar Gandhi para as refeições de domingo deixou claro que ele não era mais bem-vindo depois de observar a influência que o vegetarianismo de Gandhi es­tava exercendo sobre seu filho de cinco anos de idade. Antes disto, ele freqüentava a Igreja Wesleyana com a família dela todos os do­mingos. "A igreja não me causou uma impressão favorável", relembra ele, citando sermões tolos e uma congregação que, "ao contrário, pa­recia ser mais mundana, com pessoas indo à igreja para recreação e por hábito".

Em sua autobiografia, Gandhi conta vários episódios de cristãos que tentavam convertê-lo. Um cavalheiro levou-o a uma reunião de avivamento para ouvir o reverendo Andrew Murray. Gandhi ficou bastante impressionado com as histórias que Murray contou sobre a fé de George Müller, fundador de um orfanato inglês. Gandhi lembra­va-se das histórias da seguinte maneira:

O senhor Baker tinha dificuldade de ter um "homem de cor" como eu em sua companhia. Precisamos passar por alguns inconvenientes em muitas ocasiões, inteiramente por minha causa. Precisávamos interromper uma viagem no meio porque calhou de um dos dias ser um domingo, e o senhor Baker não viajava no sabbath.

Esta convenção era uma reunião de cristãos devotos. Eu estava ma­ravilhado com sua fé. Encontrei o Sr. Murray. Vi que muitos estavam orando por mim. Gostava de muitos de seus hinos, que eram bastante agradáveis.

A convenção durou três dias. Pude compreender e apreciar a devoção daqueles que a freqüentaram. Mas não vi razão alguma para mudar minha crença, minha religião. Para mim, era impossível acreditar que somente po­deria ir para o céu ou obter salvação se me tornasse um cristão. Quando disse isto de maneira franca a alguns bons amigos cristãos, eles ficaram chocados. Mas não há remédio para isto.

Minhas dificuldades eram mais profundas. Eram mais do que acreditar que Jesus era o único Filho encarnado de Deus, e que somente aquele que cresse nele teria a vida eterna. Se Deus podia ter filhos, todos nós éramos seus filhos. Se Jesus era como Deus, ou o próprio Deus, então todos os homens eram como Deus e poderiam ser o próprio Deus. Minha razão não estava pronta para aceitar literalmente que Jesus, através de sua morte e de seu sangue, redimiu todos os pecados do mundo. Metaforicamente, poderia haver alguma verdade nisto.

Mais uma vez, de acordo com o cristianismo, apenas os seres humanos tinham alma, e nenhum outro ser vivente a possuía, o que, para eles, signifi­cava que a morte era a extinção completa; eu tinha uma posição contrária. Podia aceitar Jesus como mártir, um sacrifício corporificado e um mestre divino, mas não como o homem mais perfeito que já nasceu. Sua morte na cruz era um grande exemplo ao mundo, mas minha alma não conseguia aceitar que havia algo misterioso ou alguma virtude miraculosa nisto. As vidas piedosas de cristãos não me davam coisas que as vidas de outros ho­mens de outros credos haviam deixado de me ofertar. Já vira em outras vidas o mesmo tipo de reforma que ouvira entre os cristãos. Filosoficamente, não havia nada de extraordinário nos princípios cristãos. Do ponto de vista do sacrifício, parecia-me que os hindus superavam em muito os cristãos. Era impossível para mim considerar o cristianismo uma religião perfeita ou a maior de todas as religiões.

Compartilhava estas idéias com meus amigos cristãos todas as vezes que havia uma oportunidade, mas suas respostas não me satisfaziam.

(Extraído de Gandhi: An Autobiography)

Ele resumia sua posição com a frase: "Não posso dar ao cristianismo um trono solitário".

É triste notar que os conceitos de graça e perdão de Deus não apa­recem nas obras de Gandhi. O hinduísmo tropeça na questão da graça. "Se alguém deseja encontrar salvação", dizia Gandhi, "deve ter tanta paciência quanto a de um homem que se assenta à beira-mar e, com um canudo, pega apenas uma gota de água, colocando-a em outro lugar, até que o oceano fique vazio". No fim de sua autobiografia, ele ainda la­menta que não esteja livre da paixão em seus pensamentos, seus discur­sos ou suas ações. "Devo reduzir o meu 'eu' a zero", conclui.

Gandhi graciosamente omite de sua autobiografia outra lembran­ça dolorosa da África do Sul. A comunidade indiana tinha especial admiração pelo missionário C. F. Andrews, a quem apelidaram "o fiel apóstolo de Cristo". Tendo ouvido tantas coisas sobre Andrews, Gandhi estava desejoso de se encontrar com ele. Mas na primeira oportunida­de que teve de ouvi-lo, Gandhi foi dispensado do culto porque a cor de sua pele não era branca. Mais tarde, Gandhi e Charlie Andrews torna­ram-se grandes amigos, mas Gandhi nunca se esqueceu da dor daquele incidente.

Ao comentar as experiências de Gandhi na África do Sul, E. Stanley Jones conclui que "o racismo tem sobre si muitos pecados, mas talvez o pior deles tenha sido o de obscurecer a Cristo na hora em que uma das maiores almas nascidas de uma mulher estava tomando sua decisão".

Numa das visitas que fiz à Índia, vi-me em uma comunidade cristã em Nova Délhi, um tipo de ashram composto por jovens indianos que estão tentando cumprir corporativamente o chamado radical que Jesus fez a seus seguidores. Por algum tempo, discutimos os paralelos entre Gandhi e Jesus Cristo. Como já disse, Gandhi creditava aberta­mente aos ensinos de Jesus a base de seus princípios. Porém, embora Gandhi tenha causado um profundo impacto no país inteiro, o cristianismo é quase incipiente na Índia: menos de 3% da população se dizem cristãos.Juntos, exploramos a idéia de que seus representantes apresentaram o cristianismo à Índia, mas não o verdadeiro Cristo.

Conversamos sobre a forma como o indiano medianamente letrado percebe o cristianismo. Aqueles que visitam a América voltam impres­sionados com todas as igrejas. Contam histórias sobre os pastores televisivos e quanto dinheiro arrecadam de seus patrocinadores. Falam de líderes cristãos que se encontram com o presidente e de vários polí­ticos que se dizem nascidos de novo. Os líderes espirituais ocidentais normalmente são de classe média e elegantes, em nada semelhantes aos homens austeros que se costuma ver na Índia. Ninguém é chamado "Grande Alma" nos Estados Unidos. Refletindo sobre o cristianismo, esses indianos falam de seu poder e seu sucesso. Raramente falam sobre a vida de Jesus ou os princípios deixados por ele.

No desejo de incentivar meus amigos cristãos de Nova Délhi, trou­xe-lhes à lembrança a declaração de Gandhi de que o insight para os problemas do mundo deve vir do Oriente, e não do Ocidente. "Precisa­mos ser a mudança que queremos ver", disse Gandhi. Implorei a eles que tomassem o que de melhor seu continente poderia produzir, al­guns dos ideais que atraíam Gandhi, e traçassem suas raízes cristãs. Eles poderiam desafiar minha nação de uma maneira que eu, como norte-americano, não poderia fazer, como mostrado pelo fato de que alguns jovens dos Estados Unidos às vezes ouvem sobre Gandhi antes de ouvir sobre Jesus. "O mundo pode ser receptivo a esta mensagem", disse eu.

Um jovem indiano bastante pensativo, que ficou sentado durante toda a discussão, falou o seguinte: "Não entendo. Parece que você está dizendo que o Ocidente, de modo geral, é receptivo a um santo, alguém como Gandhi, que se levanta defendendo idéias distintas da cultura em que vive. Mas será que a Igreja é receptiva? Você disse que o cristia­nismo norte-americano nunca produziu um santo que caminhasse nas linhas traçadas por Gandhi. Todos os líderes são muito diferentes dele. Parece que você está concluindo que, se Gandhi se levantasse numa igreja dos Estados Unidos hoje, ele não seria levado a sério; seria tal­vez até ridicularizado e rejeitado. E, ainda assim, todos esses cristãos dizem que adoram a Jesus Cristo. Por que eles não o rejeitam? Ele viveu uma vida simples, pregou o amor e a não-violência, recusou-se a se comprometer com os poderes deste mundo. Pediu a seus seguidores que carregassem as suas cruzes e suportassem os sofrimentos. Por que os cristãos norte-americanos não o rejeitam?"

Foi uma excelente pergunta, para a qual eu não tenho resposta.

Apedrejar profetas e, mais tarde, levantar igrejas em sua memória tem sido a prática do mundo durante eras. Hoje, adoramos Cristo, mas o Cristo encarnado nós o crucificamos.

(Mahatma Gandhi)

MAHATMA GANDHI PARA INICIANTES

Diversos autores procuraram produzir biografias de Gandhi a partir de pontos de vista políticos, psicológicos e sociológicos. A obra Gandhi's Truth, de Erik Erikson, é uma das mais recompensadoras. Freedom at Midnight, dos famosos escritores Larry Collins e Dominique Lapierre, capta o espírito à época da independência da Índia num estilo semelhante à prosa de uma revista semanal. A própria Auto­biografia de Gandhi nos dá um vislumbre daquele homem complexo. Gandhi, de E. Stanley Jones, descreve a sui generis amizade de Mahatma com o missionário metodista. Considere também a internet. Arun Gandhi administra um site bastante completo nos Estados Uni­dos (www.gandhiinstitute.org), que contém bastante material sobre seu avô e um bom mecanismo de busca que rapidamente localiza uma enorme lista de outros sites baseados na Índia.

Phillip Yancey - Alma Sobrevivente

[1] Robert Coles recorda uma cena dos dias em que estudava e era voluntário no movimento dos Obreiros Católicos. Um colega de trabalho havia pichado alguns garranchos na parede lateral do prédio que abrigava os pobres: "Sr. Gandhi, o que o senhor acha da civilização ocidental?" Gandhi respondeu: "Acho que seria uma grande idéia" (nota do autor).

[2] Benigno Aquino (1932-1983), político e militante de oposição nas Filipinas, foi assassinado pela ditadura de Ferdinand Marcos.

[3] Nos últimos anos de sua vida, Gandhi tornou-se absolutamente inflexível nesta questão. Durante a Segunda Guerra Mundial, ele aconselhou primeiramente os etíopes invadidos pelos exércitos nazistas, depois os judeus e, por fim, a Grã-Bretanha a receber seus inimigos e se postarem diante dos algozes com serenidade e uma consciência limpa. Disse a seus seguidores que, se uma bomba atômica fosse jogada sobre a Índia, eles deveriam olhar para cima, "assistir sem medo e orar pelo piloto" (nota do autor).

[4] Retiro religioso ou comunidade em que vivem homens hindus considerados santos.

[5] John Ruskin (1819-1900), crítico de arte e escritor britânico.

[6] Militante negro sul-africano, libertado da prisão para se tornar o primeiro presidente democraticamente eleito do país, em 1994.

[7] Fruta cítrica de casca fina e polpa levemente ácida.

[8] Exibidos no Brasil pela MTV e por canais por assinatura.

[9] "Pai."

8 comentários:

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Liberdade de Expressão


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