Angela Natel On quarta-feira, 31 de março de 2010 At 06:06

O Movimento das Asas

Lembro-me do primeiro dia em que peguei um livro de Frederick Buechner. Ele veio em um monte de livros que recebi de presente de um ami­go, e o escolhi dentre os outros especialmente por sua brevida­de (pouco menos de 100 pá­ginas). Era um livro que, entre outras coisas, continha sermões que Buechner havia pregado. Estes, porém, tinham muita semelhança com um sermão co­mum, como os sermões que re­presentavam o Natal nas peças de Shakespeare.

Nos bancos da fren­te, as senhoras de idade ligam seus apa­relhos de surdez e uma jovem senhora entrega à filha de seis anos um livro e um marcador. Um calouro universitário, em casa devido às férias e levado ali à força, está inclinado para a fren­te, com a mão no queixo. O vice-presidente de uma empresa que, naquela semana, havia pensado seriamente em suicídio por duas vezes, coloca o hinário no encosto do banco da frente. Uma garota grávida sente a vida se mexendo dentro dela. Um professor de Matemática do segundo grau que, por 20 anos, conseguiu manter sua ho­mossexualidade oculta para a maioria das pessoas, inclusive ele mesmo, dobra o programa do culto ao meio com seu polegar e o coloca embaixo da perna (...) O pregador puxa a pequena corda que acende a luminária do púlpito e revira as notas feitas em cartões, como se fosse um jogador de cassino. As apostas nunca foram tão altas.

O livro se parece mais com um romance do que com um sermão, o que faz sentido, pois, como eu viria a descobrir, Buechner era roman­cista muito antes de se tornar pregador. Independentemente do as­sunto que abordasse, ele fazia uso das técnicas da ficção: detalhes sensoriais, uma história intrigante, a tensão característica do suspense. Em meu primeiro encontro, porém, prestei pouca atenção na técnica da prosa, sendo, sim, cativado pela forma completamente nova de contar aquela velha história. Aquele fino livro, chamado Telling the Truth, tinha como subtítulo The Gospel as Tragedy, Comedy and Fairy Tale (O evangelho como tragédia, comédia e conto de fadas), e se dividia em três partes, nas quais Buechner recapitulava toda a história do Na­tal. Ele cita Rei Lear e O mágico de Oz com a mesma freqüência que se refere a Isaías e Mateus, e, por alguma razão, achei que isto fazia o evangelho ainda mais crível.

Walker Percy costumava dizer que a boa ficção nos conta aquilo que sabemos sem saber que sabemos. A boa Teologia faz a mesma coisa. Frederick Buechner lembrava-me que o evangelho não é uma camada colocada sobre a vida, mas, ao contrário, um resumo de tudo que é mais verdadeiro sobre ela. A vida é tão trágica quanto os últimos e tristes dias do rei Lear e de Jesus; tão engraçada quanto um tatu ou a gravidez de uma senhora judia de idade avançada chamada Sara. Se a história de Jesus contém alguma promessa, a vida também é um conto de fadas, uma história com um final bom demais para ser verdade, uma "brisa de alegria que sopra para além dos muros do mundo, mais pungente que o pesar".

Buechner tornou-se para mim um mentor na redescoberta de um evangelho com o qual eu era familiar desde pequeno. Ao contrário de mim, ele não precisou reaprender aquilo que havia aprendido na igreja, uma vez que nunca aprendeu muito ali. Sua peregrinação foi iniciada voluntariamente, já como adulto, uma jornada perigosa e arriscada, muito diferente de um passeio em grupo com um itinerário predetermi­nado. O resultado é que ele faz os fatos básicos do evangelho brilharem como se tivessem sido descobertos recentemente, em um jarro de cerâ­mica no Oriente Médio. A fé cristã o atinge como boas novas porque apresenta a verdade do mundo do modo como ele tem experimentado, transformando em palavras as coisas mais profundas que ele sente en­quanto vive neste planeta.

Buechner diz que um pastor tem duas histórias para contar: a histó­ria de Jesus e a do próprio pastor. No caso de Buechner, a própria história do pastor ilumina o modo como ele conta a outra, pois alguns eventos importantes de sua vida fornecem a iluminação necessária para virtualmente tudo o que Buechner tem escrito. Aos dez anos, Fred e seu irmão mais novo, Jamie, assistiram da janela de seu quarto, no andar superior, a sua mãe e sua avó, descalças e com suas roupas de dormir, tentarem reanimar o corpo inerte de um homem vestido com calças cin­za e suéter castanho, estirado com o rosto para cima na calçada. Era o pai dos garotos, morto por envenenamento com dióxido de carbono, proveniente de um carro ligado em uma garagem fechada. Poucos anos depois, o irmão mais novo de seu pai - portanto, tio de Fred - também deu fim a sua própria vida.

Em suas próprias palavras, Fred era "uma criança louca por livros, com olhar introspectivo e amante da chuva". As mortes de seu pai e de seu tio despertaram nele uma consciência de sua própria mortalidade que nunca mais o abandonou. Durante algum tempo, ficou pensando se a família não era afetada por uma espécie de gene do suicídio. En­quanto crescia, as tragédias da família também ajudaram a convencê-lo de que a maioria de nós é moldada menos pelas forças globais descritas todas as noites nos programas jornalísticos da televisão do que pelas forças íntimas da família, dos amigos e dos segredos compartilhados. Como todo bom romancista, aprendeu que o comportamento humano não pode ser explicado ou predito, somente observado.

Um tipo bastante diferente de ruptura aconteceu quando ele che­gou aos 27 anos. Com dois romances no currículo, sendo um deles, A Long Day's Dying, grandemente aclamado pelos críticos, Buechner mu­dou-se para a cidade de Nova York para se lançar numa empreitada de escritor em tempo integral. Ele se viu num bloqueio de criação, incapaz de escrever qualquer coisa. Foi ficando deprimido e começou a pensar em outra carreira - na propaganda, talvez, ou então trabalhando para a CIA. Decidiu fazer algo incomum. Simplesmente pelo fato de o impo­nente prédio da Igreja Presbiteriana da Avenida Madison ficar a apenas um quarteirão de seu apartamento, Buechner começou a freqüentar aquela igreja, conduzida pelo célebre pregador George Buttrick. Em 1953, na época da coroação da rainha Elizabeth II da Inglaterra, Buechner ouviu um sermão que mudaria sua vida. Buttrick estava con­trastando a coroação de Elizabeth com a coroação de Jesus no coração do cristão, o que, como disse o pregador, deveria acontecer em meio à confissão e às lágrimas. Até aí, tudo bem.

Então, com sua cabeça se mexendo para cima e para baixo, de modo que seus óculos brilhavam com o reflexo das luzes, com sua voz singular e triste, como a de uma enfermeira idosa, ele falou que a coroação de Jesus havia ocorrido em meio à confissão e às lágrimas. Logo, com Deus como minha testemunha, um grande riso surgiu, por razões que nunca entendi completamente. A Grande Muralha da China ruiu e Atlântida surgiu do mar. Ali, na Avenida Madison, esquina com a rua 73, as lágrimas escorreram de meus olhos como se eu tivesse sido golpeado na face.

(Extraído de The Alphabet of Grace)

Uma semana depois, o jovem romancista estava perguntando a Buttrick que seminário ele deveria freqüentar. Buttrick o levou ao Union Theological Seminary, onde, no outono seguinte, Buechner se matri­culou como aluno para aprender com Reinhold Niebuhr, James Muilenburg e Paul Tillich, vindo a ser ordenado, mais tarde, ministro presbiteriano. Sua família e seus colegas chamaram-no tolo por estar abdicando de uma promissora carreira de escritor. "Freddy, você tomou esta decisão por si ou alguém o induziu a fazer isto?", perguntou a mãe, condescendente, durante um coquetel.

Há momentos em que Buechner ainda é tentado a interpretar sua experiência de conversão em termos freudianos, como uma busca por um pai ausente, ou sob a ótica do existencialismo, como uma reação do tipo "salto de fé" diante da ansiedade de um fracasso na carreira. Ele resiste à tentação, vendo, de outro lado, como um antigo exemplo da "velha e louca graça" que brota de tempos em tempos "através das falhas e fissuras das ásperas pedras da vida".

Muitos escritores modernos procuram medir o desespero de um mun­do em que Deus está praticamente ausente, mas poucos tentam lidar com a realidade do verdadeiro significado da presença de Deus. Buechner nunca se esqueceu de que Cristo foi coroado num espírito de alegria. Ele escreve sobre um reino mágico, sobre um fim de nossa exaustiva jorna­da, de um lar que vai saciar a falta que sentimos tanto em nossos dias. Como pregador e escritor, ele tenta despertar novamente a criança que existe nas pessoas: aquela que acredita inocentemente, que ao menos sai para ver o lugar mágico, que não tem vergonha de não saber as respostas porque não se espera que realmente saiba. Dada minha me­lancolia, minha obsessão pelo problema da dor e por minha infância emocionalmente truncada, foi uma mensagem que soprou vida em mim.

"Tenho sido poupado do olhar profundo e visceral do abismo", diz Buechner. "Talvez seja verdade que Deus reserva seu profundo silên­cio para seus santos, e, se é assim, eu não mereço tal silêncio. Tenho dúvidas intelectuais, é claro. Mas, como disse John Updike, se Deus não existe, então o universo é um show de aberrações. Eu não o vejo assim. Embora eu não tenha a visão maléfica nem a beatífica, ouço o som de asas batendo no palco."

Encontrei-me pela primeira vez com Buechner em 1979, quando ele decidiu doar sua correspondência e seus originais para a Faculdade Wheaton para que eles repousassem ao lado dos textos de C. S. Lewis, G. K. Chesterton, Charles Williams, J. R. R. Tolkien e Dorothy L. Sayers. Buechner não conhecia praticamente nada daquela entidade - durante nossos contatos telefônicos, ele dizia "Faculdade Wheatland" -, mas a escola que cursou (Princeton) mostrou pouco interesse, ao passo que as pessoas da Coleção Wade foram solícitas e carinhosas. Depois de visitar a escola e o campus de Wheaton, perguntei o que ele achava de sua deci­são. "Bem, parece um bom lugar para meus originais se desfazerem", comentou. "Um lugar seguro, em que eles, pelo menos, vão estar em boa companhia."

Ele voltou ao campus várias vezes nos anos seguintes, como profes­sor visitante. Pela primeira vez, estava sendo exposto de maneira regulara cristãos evangélicos, um tipo de pessoas com as quais ele nunca havia se encontrado antes. Ele me disse, depois, que alguns o faziam lembrar um grupo de turistas americanos na Europa que, sem conhecer a lín­gua de seus interlocutores, simplesmente falam mais alto. Tais cristãos falavam de maneira confiante sobre assuntos que Buechner imaginava estarem cercados de mistérios. Esta firmeza tanto o fascinava quanto o perturbava. "Estava pasmo por ouvir os alunos mudarem rapida­mente de uma conversa sobre o tempo para uma discussão sobre o que Deus estava fazendo em suas vidas. Eles falavam de 'diários de oração' e usavam frases como 'Deus me disse que...' Se alguém dissesse alguma coisa assim em qualquer parte do meu mundo, é bem prová­vel que o teto caísse, que a casa pegasse fogo e os olhos das pessoas revirassem."

Buechner contrasta o ambiente com aquilo que ele descobriu como orador convidado em lugares como a Harvard Divinity School. "Ali você encontra alunos militantes homossexuais ou ateus orgulhosos, e al­guns que são bruxos fora da capela. Certa vez, iniciei uma aula sobre pregação fazendo uma oração simples, e os alunos ficaram chocados. Obviamente, ninguém ora na Harvard Divinity School."

Embora tenha aprendido a apreciar o fervor dos evangélicos, Buechner fala de sua fé em tons mais brandos. Ele verdadeiramente crê que Deus está vivo e presente no mundo, mas não é surpresa para ele que Deus nos dê somente "alguns vislumbres temporários do mis­tério de tal profundidade, poder e beleza, pois, se o víssemos frente a frente ou de qualquer outra maneira que não fosse através de vislum­bres, seríamos aniquilados".

Há duas maneiras de entender como Deus interage com a História. O modelo tradicional nos mostra um Deus que vive lá no céu e que periodicamente envia um trovão como intervenção: o chamado de Moisés diante da sarça ardente, as dez pragas, os profetas, o nascimento de Jesus. A Bíblia realmente retrata esse tipo de intervenção, embora elas sejam acompanhadas de anos de espera e de dúvidas. O outro modelo mostra Deus embaixo da História, sustentando-a continuamente, e even­tualmente rompendo a superfície com um ato visível que emerge de maneira visível, como a ponta de um iceberg. Qualquer um é capaz de notar essa dramática erupção - o Faraó do Egito certamente não teve nenhum problema em notar cada uma das dez pragas -, mas a vida de fé também envolve uma busca abaixo da superfície, com um ouvido afinado para perceber os rumores da transcendência.

Buechner costuma falar desta busca pela presença subterrânea da graça no mundo. Ele escreve sobre um momento de ansiedade no aero­porto (ele luta contra o medo de avião) quando repentinamente nota um prendedor de gravata com suas iniciais gravadas: C. F. B. Também fala de um bom amigo que morre durante o sono e visita Buechner num sonho, deixando atrás de si um fio de lã azul de seu suéter que Buechner acha sobre seu carpete no dia seguinte. Ou então, de um momento em que está sentado à beira do caminho e vê um carro passando pela rua com uma placa na qual se lê: "Confie".

Buechner admite que cada uma dessas ocorrências permite uma interpretação mais abreviada. Talvez não tenha acontecido nada além de um gato brincando com um novelo de lã, ou que um passageiro te­nha esquecido o prendedor de gravata no balcão ou que um funcionário de uma empresa de segurança tenha passado com seu carro por aquela rua. Contudo, Buechner prefere ver nessas ocorrências - ou erupções -uma notável providência. Com relação ao carro, por exemplo: "De todas as palavras possíveis, "confie" era a que eu mais precisava ouvir. Foi um acaso, mas também uma epifania' - uma revelação -, dizendo-me: 'Creia em seus filhos, creia em você mesmo, creia em Deus, simples­mente creia'".

É assim, de maneiras ambíguas, difíceis de compreender e sujeitas a diferentes interpretações, que Deus molda nossa vida. Para Buechner, tais eventos aleatórios apresentam um tipo de jogo pascaliano:2 pode-se tanto apostar num Deus que dá à vida o mistério e o sentido ou então concluir que o que acontece acontece e pronto, sem qualquer outro significado. Seja como for, a evidência continua fragmentária e inconclusiva, exigindo fé. Onde não houver espaço para a dúvida, tam­bém não haverá espaço para a fé.

Fé é nostalgia. É um nó na garganta. A fé é mais um passo adiante do que uma posição, mais um pressentimento do que uma certeza. A fé é espera. Ela está caminhando no tempo e no espaço.

Portanto, se alguém se achega a mim e me pede (o que acontece com freqüência) para falar sobre minha fé, é exatamente sobre essa jornada no tempo e no espaço que falo. Os altos e baixos das lágrimas, os sonhos,os momentos particulares, as intuições. Falo sobre a sensação ocasional que tenho de que a vida não é uma seqüência de eventos que gera outros eventos tão a esmo, quanto uma tacada no jogo de bilhar faz que as bolas se afastem em diferentes direções, mas que a vida tem um roteiro, assim como num romance - aqueles eventos que, de algum modo, nos levam a algum lugar.

(Extraído de Going on Faith)

Encontro conforto nos textos de Buechner porque, para mim, a fé tam­bém é um jogo pascaliano. Embora passe a vida à busca de Deus, com freqüência sinto que Deus está na próxima curva do caminho, ali atrás da próxima árvore na floresta. Continuo andando porque gosto de onde a jornada me levou até agora, pois outros caminhos parecem ainda mais problemáticos do que o meu próprio e porque anseio pela conclusão do plano. Conheço pouco das tragédias da vida. Provei de sua comédia. Continuo andando porque creio no conto de fadas de que um Deus forte e sábio o suficiente para criar um mundo marcado por tal beleza e bondade será fiel em restaurar sua aparência original. Com Buechner, eu coloco minhas fichas na firme promessa de Deus de que, no final, tudo sairá bem.

Durante uma das visitas de Buechner a Wheaton, conversei com ele sobre uma possível ida à minha igreja no centro de Chicago. Fiquei cada vez mais ansioso à medida que o dia se aproximava. Nossos cultos eram planejados por uma comissão de leigos, com o estilo musical variando de música gospel negra, violino clássico e uma barulhenta banda de rock - ou talvez os três no mesmo culto. As leituras bíblicas geralmen­te eram feitas em linguagem contemporânea, com orações pelos desabrigados e as escolas de Chicago entremeadas com textos elabora­dos do Livro de Oração Comunitária. Era comum vermos moradores de rua nos cultos, e devido ao conforto que encontravam dentro do tem­plo, aproveitavam para se esticar nos bancos e tirar um cochilo. Duvido que a comunidade de Buechner, na área rural de Vermont, oferecesse qualquer coisa semelhante a esta nossa cena urbana.

Certamente, o comitê de adoração se superou na honra a Buech­ner. Novas faixas pendiam do teto. Uma mulher gorda e vestida informalmente nos conduziu em animadas leituras, orações e cânticos. Durante a música do ofertório, uma jovem esguia vestida de chiffon apresentou uma dança sacra. Depois de ver tudo isso a partir da ca­deira do púlpito, do mesmo modo que um turista assistiria a um ritual num templo hindu, Buechner se levantou e pregou um eloqüente ser­mão. Mais tarde, Buechner tinha dois comentários a fazer. Sobre a mulher que liderou a adoração, ele disse: "Como alguém pode se deixar engordar daquele jeito?" Sobre a dança, suas palavras foram: "Sei que aquilo deveria incrementar minha adoração. Porém, passei a maior parte do tempo pensando se ela usava alguma roupa por baixo da­quilo". Daquele momento em diante, passei a gostar ainda mais da figura, o único a se sentir livre para dizer o que todo o mundo estava pensando.

Não demorei muito a descobrir que Buechner tinha opiniões fir­mes sobre quase tudo - política, filmes, outros escritores, sua própria profissão como pastor e escritor -, e as proclamava sem qualquer im­pedimento. "Estou cheio dessa linguagem religiosa", disse ele, certa vez, a um repórter. "Agora mesmo estou cansado desses sermões." Pelo fato de ele continuar pregando, apesar de sua indisposição, procurava no­vos meios de levar sua mensagem. Buscou ajuda em Dostoievski e Henry James, assim como em Jacó e Paulo. Mais importante que tudo, ele se prendia a uma lição aprendida na criação de textos ficcionais: nada afasta mais rapidamente o público do que o menor vestígio de falsida­de e falta de realismo. Ele precisava falar ou escrever sobre a fé com total honestidade.

Criado num lar não cristão, Buechner foi batizado "mais por achar que aquilo era algo que se fazia naturalmente, como tomar vacinas ou ir à escola, do que por um sentido religioso". O batismo teve um efeito paradoxal, vacinando-o contra um cristianismo de símbolos e sem subs­tância, contra o aconchegante visual dos vitrais e estátuas, contra os adornos sem razão, contra a repetição de palavras antiquadas que há muito não faziam mais sentido. Quando finalmente alcançou sua fé pes­soal, precisou encontrar um novo vocabulário por meio do qual pudesse expressá-la.

Este estilo cheio de frescor tempera os textos de Buechner. Quando escreve sobre personagens bíblicos ou Teologia Abstrata, ele luta para evitar o bolor e o excesso de piedade. É preciso escolher uma imagembrilhante, uma mudança de palavras ou uma frase que fique no ar para que o leitor pare e preste atenção. Alguns exemplos:

Um cristão é alguém que está no caminho, embora não seja ne­cessário que tenha ido muito longe, e que tenha pelo menos uma vaga idéia de a quem ele deve agradecer.

• A luxúria é o clamor por sal vindo de alguém que está morrendo de sede.

• Deus não explica. Ele explode. Ele pergunta a Jó quem ele pensa que é. Diz que tentar explicar o tipo de coisas que Jó quer ver explicadas é como tentar ensinar Einstein a uma ostra.

• E quem poderia reconhecer o Rei daquele reino? Ele não tem formosura nem beleza. Suas roupas são aquelas que encon­tramos num brechó. Não faz a barba há semanas. Cheira a mortalidade. Temos romantizado tanto seu estado deplorável que a única coisa que conseguimos captar são ecos da maneira como ele escandalizou seu tempo, de como os discípulos de João Batista estavam horrorizados quando perguntaram: "É você aquele que deveria vir?"; ou na pergunta de Pilatos: "Você é o Rei dos judeus?", numa roupa larga, de boca aberta, ou no hu­mor negro da placa pregada sobre sua cabeça, escrita em três idiomas para que ninguém dissesse que não entendeu.

O romancista Buechner tem criado, em muitos aspectos, um novo gê­nero com seus textos de não-ficção. Com algumas exceções, os textos não ficcionais escritos por cristãos tendem a cair em algumas poucas categorias muito bem definidas. Literatura persuasiva, como sermões, exortações, estudos ou apologética racional, é um gênero muito bem explorado pelos estimados amigos de Buechner presentes na Coleção Wade na Wheaton. Outros escrevem biografias ou testemunhos pes­soais, sempre tocantes, mas com o inconveniente de um fim previsível: o pecador é salvo. O estilo único de Buechner combina as habilidades aprendidas como romancista com a disciplina cristã da reflexão interior. Um romance e uma vida de fé - a conclusão de Buechner é que os dois têm muito em comum. Tanto a fé quanto a ficção baseiam-se no concreto e no particular muito mais do que no abstrato e no cerebral; ambas lidam com aparentes contradições e envolvem um processo sustentado de reordenação desses particulares e contradições em algum tipo de padrão de significado. Encontrar a voz adequada leva algum tempo. Mesmo depois dessa ordenação, Buechner achou difícil escrevei sobre sua fé pessoal. Criado num lar não cristão, numa parte do país não afeita à religião, ele se sentia reticente e sem jeito, como se a fé pre­cisasse permanecer trancada numa sala como um daqueles segredos de família que ninguém menciona em público. A mudança aconteceu, con­venientemente, a partir de uma estranha coincidência.

Buechner estava passando por momentos difíceis, algo muito próxi­mo de um colapso nervoso. Ele acabara de se mudar para uma fazenda isolada em Vermont, deixando um ótimo cargo de diretor de escola par­ticular para ser um escritor de tempo integral. Não demorou muito e ele se viu num beco sem saída, olhando para paredes nuas todos os dias. A inspiração não vinha como ele havia imaginado. Tudo aquilo que escre­via o deixava tão deprimido que ele não conseguia continuar. Então, chegou uma carta de Harvard, convidando-o a participar da série de conferências Noble sobre Teologia. A sugestão do capelão era que Buechner falasse alguma coisa sobre "religião e as letras".

Sem dúvida, o sentido que o capelão quis dar à palavra "letras" era "literatura" ou "aprendizado". Enquanto lia a carta, porém, Buechner viu a palavra em seu sentido mais básico e literal: as letras do alfabeto, os blocos básicos de construção de qualquer língua. Quanto mais pen­sava naquilo, mais via que a fé consistia na utilização, por parte de Deus, dos eventos mais corriqueiros de nossas vidas como um tipo de alfabeto, os fragmentos de uma linguagem que, se fossem ouvidos de maneira adequada, poderiam servir de revelação do próprio Deus a nós. Seu olhar voltou-se para dentro. Daquela inspiração surgiu The Alphabet of Grace, uma adaptação das Conferências Noble nas quais Buechner tra­balha passo a passo os fragmentos de um dia: fazer a barba, trocar de roupa, olhar no espelho, tomar café, trocar as crianças, fugir das des­culpas para não escrever, almoçar com um amigo, assistir ao noticiário, ficar com sono, apagar as luzes de um dia.

Buechner havia, pelo menos, encontrado uma voz para sua não-ficção. Ele não precisava ser um teólogo como seus mestres do seminá­rio. Não precisava ser um pregador de sermões. Poderia simplesmente criar histórias a partir de sua própria vida, como ele já havia feito em suas obras de ficção. Começou a produzir suas próprias "letras" de fé,mais sutis e tranqüilas (The Alphabet of Grace, Telling the Truth, A Room Called Remembvr), bem como uma série de biografias. Às vezes ele expe­rimentava outras formas, como os sermões reunidos nos "livros teo­lógicos ABC" (Peculiar Treasures, Wishful Thinking, Whistling in the Dark). Todos eles trazem a voz pessoal, sua busca deliberada pela mensagem de Deus no substrato subterrâneo. Tal qual as ondas, ele volta repetidas vezes ao mesmo espaço de areia para procurar tesouros escondidos.

"A Literatura trabalha com o comum", disse James Joyce. "O incomum e o extraordinário pertencem ao jornalismo." A partir dessa definição, o trabalho de Buechner se encaixa na categoria Literatura. Annie Dillard escolheu a natureza como seu texto; Buechner escolheu sua própria vida. Para ele, escrever é uma forma de autodescobrimento, uma "lembrança consciente", como ele mesmo disse certa vez. Ele não escreve sobre o Iraque, a China ou a crise do pós-modernismo, preferin­do abordar uma leve lembrança de sua avó Naya, ou um velho moinho na estrada, ou os galhos de duas macieiras que se entrelaçavam no quin­tal de sua casa.

Sua abordagem remete à Idade Média, aos místicos que se senta­vam em suas salas o dia todo, fazendo uma análise introspectiva e explorando as profundezas da alma. Buechner ao menos caminha ao ar livre, conversa com pessoas, tem uma família para se preocupar e viaja ocasionalmente. A partir dessa matéria-prima, ele forja biogra­fias em processo. O leitor não tem idéia de até onde as palavras estão indo, e, às vezes, tem a impressão de que o próprio Buechner também não sabe. Ele assume o papel de um observador discreto que aparece no mundo - em alguns momentos, estupefato; em outros, desnorteado e sempre surpreso -, em vez de um contra-regra que manipula objetos para que se encaixem em seu ponto de vista.

É esse mesmo estilo de observador silencioso que Buechner afirma que dirige sua ficção. "Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus' é o conse­lho do salmista, e sempre achei que este é um bom conselho para a Lite­ratura também. Aquiete-se do mesmo modo que Tolstoi se aquieta, ou como Anthony Trollope se aquieta, de modo que seus personagens pos­sam falar por si e ganhem vida em sua própria maneira imortal. Se você é um escritor como eu, dá menos importância a tentar impor uma forma no caos do que ver qual é o formato que emerge dele, que está oculto dentro dele. Se personagens menores mostram sinais de se tor­narem personagens principais, você pode, pelo menos, dar uma chance a eles, pois no mundo da ficção você pode precisar de algumas páginas para descobrir quem realmente são os verdadeiros personagens. É como na vida real. Pode ser que você leve alguns anos para descobrir que aquele estranho com quem conversou por meia hora numa estação de trem fez muito mais ao apontar a direção correta do que seus amigos mais próximos ou seu terapeuta."

Em seu livro recente, The Longing for Home, Buechner apresenta um contraste entre as notícias do dia, apresentadas todas as noites na televisão - guerras, eleições, desastres naturais -, e as notícias do dia que surgem em nossos mundos privados. Algumas das coisas que acontecem ali são tão pequenas que mal percebemos, mas elas aju­dam a compor a história diária daquilo que somos. "Aquelas notícias são as notícias daquilo que estamos nos tornando ou do que não estamos nos tornando", diz, o que pode ser a notícia mais importante do dia.

Na mesma linha de pensamento, Buechner acredita que, se Deus fala a este mundo, ele o faz às nossas vidas pessoais diárias. Na busca por Deus, muitas pessoas tendem a procurar pelo miraculoso e o so­brenatural. Em vez disso, deveríamos prestar atenção no comum: des­pertar, dormir e, acima de tudo, sonhar; aquilo que lembramos e do que esquecemos, o que nos faz sorrir e chorar, o que nos alegra e o que nos deprime. Deus fala por intermédio dos eventos mais comuns do dia, e, através de seus textos, Buechner nos ensina como ouvi-los.

Buechner recomenda que façamos a revisão dessas notícias mais íntimas durante aquele intervalo noturno entre o apagar das luzes e o sono. É nesse momento que os acontecimentos do dia - uma carta não respondida, uma conversa telefônica, um tom de voz, um encontro casual, um nó na garganta - começam a fazer sentido, mostrando o que há embaixo da superfície.

Se me pedisse para dizer em poucas palavras a essência de tudo que estava tentando dizer, tanto como romancista quanto como pregador, seria algo assim: ouça sua vida. Veja-a como o insondável mistério que ela é. Nos aborrecimentos e na dor, assim como na alegria e na felicida­de. Toque, sinta, prove seu caminho para seu santo e oculto coração.porque, em última análise, todos os momentos são importantes, e a pró­pria vida é graça.

(Extraído de Now and Then)

A própria visão de Buechner levou-me a atravessar o país inteiro. Vivi muito feliz por 13 anos no centro de Chicago, um lugar vivo e despreza­do. Fui a concertos, cinemas e peças de teatro, podia escolher entre uma dúzia de restaurantes étnicos distantes poucos metros de minha casa. Escrevi em cafeterias e nos bancos do Parque Lincoln. Conhecia os vizi­nhos, os donos de lojas e até mesmo os mendigos. A vida era rica - tão rica, na verdade, que suprimiu qualquer voz interior. Na cacofonia dos alarmes de carros, das buzinas dos ônibus e dos fãs bêbados do Cubs, o time de beisebol, não consegui mais ouvir a minha vida no sentido que Buechner defende. Chicago deu-me muitos assuntos sobre os quais es­crever - só precisava caminhar um pouco para encontrar o mendigo que se auto-intitulava Tut-Uncommon (uma brincadeira com o nome do faraó Tutancamon) e ver a dona da loja que ficava no fim da rua, a qual, como descobri mais tarde, era a famosa Rosa de Tóquio3 -, mas as histórias eram sempre as de outras pessoas, nunca as minhas.

Mudei para o Colorado para, como Buechner sugeriu, explorar a vida comum que se oculta dentro de cada um de nós. Entre o tédio e a dor, reside o mistério e a graça que precisam ser garimpados. Quero des­cobrir minha própria voz, olhar para dentro, em vez de para fora, e para fazer isto preciso de um ambiente mais propício, um lugar de quie-tude e solidão.

Nos dias normais de hoje, vejo mais animais do que pessoas. Quan­do a criação literária empaca, dou uma caminhada, em vez de sofrer a sobrecarga visual da Clark Street. Ando sobre um macio carpete de ra­mos de pinheiros ou pela neve não pisada. Entendo a mudança que Buechner descreve depois que se mudou de Nova York para Vermont. Depois de oito anos, começo a aprender como ouvir.

Uma coisa é contar seus próprios segredos. Outra bem diferente é contar os de outra pessoa. Eu e Buechner discutimos várias vezes os riscos ocupacionais de escrever, especialmente as inevitáveis feridas que provocamos nas pessoas próximas a nós.

E por isso que apenas mais tade em sua carreira Buechner remexeu em certos segredos pessoais. Ele começou a escrever sobre a depressão de outros membros da família, depois sobre sua própria e da batalha de vida ou morte que uma filha travou contra a anorexia. Por consideração à sua mãe - que, por ciúme, guardava os segredos da família -, Buechner não escreveu diretamente sobre o suicídio de seu pai por décadas, ape­sar de vermos cenas de suicídio assombrando seus romances. Sua mãe reagiu com fúria diante de uma dessas cenas, e ficou sem falar com ele por vários dias. Finalmente, Buechner decidiu que tinha tanto direito de falar sobre a história de seu pai quanto sua mãe tinha de não contar a ninguém a história do marido. Assim, suas histórias começaram a con­tar a tragédia da família. Para surpresa de Fred, sua mãe simplesmente recusou-se a ler os relatos sobre os quais ele temera escrever por tanto tempo.

Janet Malcolm, escrevendo para a New Yorker, sugere que um escri­tor funciona primeiramente como uma mãe compreensiva e apoiadora. Convencemos uma pessoa a nos contar nossos mais profundos segredos, balançando a cabeça em aprovação, gentilmente pedindo por mais de­talhes. "Você pode confiar em mim", dizemos. "Conte-me tudo." Mas, quando passamos para a fase da escrita, invertemos os papéis e nos tor­namos o pai autoritário e objetivo. Fazemos julgamentos, selecionamos nosso material até que tenhamos um todo temático para ser apresenta­do. Este processo inevitavelmente distorce e, com freqüência, machuca. Senti um pouco desse expediente quando, de fato, decidi-me a escre­ver sobre Frederick Buechner. Somos amigos há mais de duas décadas, trocando cartas, ocasionalmente falando por telefone, visitando-nos quan­do nossos roteiros de viagem se cruzam. De repente, deixei a amizade de lado e comecei a avaliá-lo como um escritor, procurando em sua vida alguns temas e padrões. Eu o coisifiquei e, naturalmente, ele discordou de alguns de meus julgamentos. Nossa amizade sobreviveu intacta, mas a experiência serviu para que eu me lembrasse do enorme poder que os escritores empunham.

Por que nós, escritores, fazemos isto? "Não há limite para fazer livros", suspirou o Pregador no Livro de Eclesiastes (12:12), alguns milênios atrás. Somente este ano, milhares de novos livros surgirão só em língua inglesa. Mas nós continuamos, remexendo nas palavras, com o potencial de trazer tanto conforto quanto dano. Creio que fazemosisto por que não temos nada mais a oferecer senão um ponto de vista vivo, que nos diferencia de qualquer outra pessoa no planeta. Precisa­mos contar nossas histórias a alguém.

Pessoas à beira da morte - um passageiro de um avião da Japan Airlines, caindo do céu em 1985; um marinheiro russo de um submari­no que afundou em 2000; prisioneiros judeus nos campos de concentra­ção - escrevem como que por instinto, para registrar alguma coisa de suas vidas para a posteridade. Aqueles de nós que vivem disso cultivam este instinto todos os dias. Somos chamados a sermos mordomos de nosso ponto de vista singular e mordomos do estranho poder das pala­vras por intermédio das quais expressamos nossas idéias.

Todo escritor deve superar um tipo de timidez, tirando da mente o medo de estar sendo arrogante ao se lançar diante de você, leitor, e assumindo egoisticamente que nossas palavras são dignas do seu tem­po. Por que você deveria se importar com o que tenho a dizer? Que direito tenho eu de me impor a você? Ainda que em outro contexto, Simone Weil apresenta um tipo de resposta: "Não consigo conceber a necessidade que Deus tem de me amar, especialmente quando sinto tão claramente que até mesmo entre seres humanos a afeição pode ser um erro. Mas posso facilmente imaginar que ele ama esta perspectiva da Criação, a qual só pode ser vista a partir do ponto onde estou". Isto é tudo que qualquer escritor pode oferecer, especialmente um escritor da fé: uma perspectiva única da Criação, um ponto de vista visível somente do lugar onde ele está.

Tudo que escrevo é tingido pelas cores dos problemas da minha família, minha criação no sul fundamentalista, minha peregrinação -na verdade, todo escritor representado neste livro vê o mundo através de um conjunto de olhos único. Podemos escrever com paixão somente sobre aquilo que experimentamos, não sobre o que os outros experimen­tam. Creio que os leitores reagem não às coisas específicas de minha experiência, mas, em vez disto, àquilo que eles criam. As palavras pro­vocam no leitor um efeito diferente daquele que provocaram em mim enquanto as arranjava. Escrevo sobre fundamentalismo; os leitores res­pondem com histórias sobre criações estritamente católicas romanas ou da Igreja Ortodoxa. De alguma maneira, meu relato sobre a Igreja, a família e meus passos em direção à fé tocam um acorde conhecido: ele provoca alguma coisa.

Quando comparo meu passado com o de Frederick Buechner, en­contro poucas semelhanças na superfície. Ele vem de uma família de classe média alta, perdeu o pai por suicídio, passou o inverno nas Ber-mudas, freqüentou uma escola particular, alcançou sucesso imediato como romancista, mudou-se para o Estado rural da Nova Inglaterra. Mas tal é o poder de sua evocação que, quando descreve sua vida, poderia estar tranqüilamente descrevendo a minha.

Chegou um momento, porém, quando Buechner sentiu que precisa­va mudar de estilo literário. "Chega de introspecção", pensou. Chega de pessoas inclinadas ao pecado, como ele mesmo. Sem qualquer idéia do que iria escrever, pegou o Penguin Dictionary of Saints (Dicionário Penguin dos santos) na esperança de cruzar com algum santo histórico do passa­do, talvez uma pessoa verdadeiramente santa. O livro caiu em Godric, um santo inglês do século xi e uma figura desconhecida para ele. Confor­me foi lendo, ocorreu-lhe que Godric era Leo Bebb, um dos personagens ficcionais excêntricos e terrenos de Buechner, numa encarnação ante­rior: sim, um homem santo, um missionário, um asceta autoflagelador que mantinha duas cobras de estimação, um homem bruto que se tor­nou talvez o primeiro grande poeta lírico da Inglaterra. Mas também era um homem que levou sua própria irmã para a cama e que travou uma longa luta contra a lascívia.

Buechner emergiu de seu livro com uma nova definição de santo um "doador de vida" que faz que os outros tenham vida de uma ma­neira nova; um ser humano comum, por meio de cuja vida o poder e a glória de Deus são manifestados, mesmo que o santo esteja chafurdado até os joelhos na lama. É claro que esta definição aplica-se poten­cialmente a todos nós - precisamente a razão pela qual Buechner nos pede para olhar para o comum, ouvir nossas vidas e buscar a Deus nos lugares mais inesperados, pois há grandes chances de Deus ser encon­trado neles.

Buechner deparou-se com outro personagem semelhante, um santo irlandês do século vi, conhecido como Brendan, o navegador, e escreveu um livro sobre ele também. "Imaginei-o como um tipo selvagem de ho­mem, pois em muitos aspectos eu também sou selvagem, um tipo de ruivo desajeitado, inibido, língua solta, fazedor de milagres." Quando, mais tarde, resolveu escrever sobre um personagem bíblico (Son of Laughter - O filho do riso), optou por Jacó, o inveterado cúmplice que desafiouDeus para uma luta e ganhou um novo nome na manhã seguinte. Será que é por acaso que Deus identifica seu povo escolhido como sendo os filhos de Israel, "os filhos do lutador", a prole daquele que lutou tão ferozmente por toda uma noite?

Buechner descobriu que até mesmo os santos conhecidos por sua santidade não eram diferentes de suas próprias criações ficcionais, e não muito diferentes das pessoas de carne e osso que o cercavam, ou até dele mesmo. Os livros de biografias em andamento continuaram a fluir à medida que ele continuou analisando seu passado e seu presente, em busca de graça.

Se você me disser que compromisso cristão é uma coisa que aconteceu com você de uma vez por todas, como uma cirurgia plástica espiritual, vou dizer que você está se enganando e está tentando me enganar tam­bém. Você deveria levantar-se todos os dias e fazer a seguinte pergunta: "Posso acreditar nisso tudo outra vez?" Melhor ainda, não faça esta pergunta antes de ler o New York Times, até que tenha visto aquela notícia sobre o estado do mundo e sua corrupção, o qual deve estar o tempo todo ao lado de sua Bíblia. Então pergunte se você é capaz de crer no evangelho de Jesus Cristo novamente neste dia em especial. Se sua resposta for sempre "sim", então é bem provável que você não saiba o que é crer. Em pelo menos metade das vezes, sua resposta deveria ser "não", porque o "não" é tão ou mais importante quanto o "sim". O "não" é aquilo que prova que você é humano, caso você tenha alguma dúvida. Então, em certa manhã, quando acontecer de a resposta ser um verdadei­ro "sim", deverá ser cunhada a partir da confissão e das lágrimas e (...) de um grande sorriso.

(Extraído de The Return of Ansel Gibbs)

Trinta anos se passaram desde que a família Buechner se mudou para a casa na área rural de Vermont e Fred se dedicou à rotina diária de escrever. A propriedade é cuidada pela esposa de Fred, e ela a transformou num lugar aconchegante com coisas de fora: flores, uma enorme horta que alimenta os gamos e a família, cavalos, galinhas, um porco "que cresceu tanto que ficou do tamanho de uma geladeira", ca­bras e algum gado. A contribuição de Fred são algumas coleções de livros - "Nos quais, ao contrário das pessoas, sempre se pode confiar, pois contarão a mesma história da mesma maneira. Estão sempre à mão quando você precisa deles, e sempre podem ser passados adiante quan­do você não precisar mais deles". Ele transformou parte do celeiro num tipo de biblioteca para acomodar seus muitos volumes e, por vários anos, aquele celeiro serviu como refúgio do escritor, onde ele podia se retirar para criar seus próprios livros.

Finalmente, Buechner construiu um estúdio nos fundos da casa, uma sala brilhante e arejada de frente para um lago, com uma enorme cerca de pedra, um bosque, um vale e uma área preservada de três acres de carvalhos. "Chamo isto 'meu reino mágico'", diz ele, e não é para menos. Ali estão dispostos os mais preciosos livros de Buechner, muitos encadernados em couro, com detalhes dourados: a primeira edição dos Sermões de John Donne; O livro dos mártires, de John Foxe; uma cópia original do Christmas Carol de Dickens; e outros livros de Ben Johnson, Joseph Conrad, F. Scott Fitzgerald e Oscar Wilde. Só a estimada coleção de edições raras de O mágico de Oz, inclusive em outros idiomas, ocupa várias prateleiras. Estantes próximas às janelas sustentam objetos de satisfação e capricho: um caleidoscópio, ímãs idênticos que ficam suspensos no ar, os chinelos vermelhos de Dorothy, um modelo do Humpty-Dumpty, um gárgula.

Em sua sala, ele se assenta numa poltrona de espaldar alta, junto à lareira, com os pés apoiados num tipo de pufe, escrevendo num blo­co de notas não pautado com uma caneta hidrográfica. "Se você fizer um filme sobre a vida de um escritor, será extremamente chato", diz. "Sento-me nessa cadeira e faço marcações na página. É tudo o que você pode ver. Estou afundando dentro de mim mesmo, naturalmen­te, no lugar de onde vêm os sonhos e as intuições. É um lugar santo. Para um observador, porém, não estou fazendo muita coisa."

Do estúdio de Buechner não se consegue ver nenhuma outra resi­dência. Apoiando-se num púlpito invisível, ele se dirige a uma audiên­cia invisível. Do mesmo modo, os resultados do esforço de Buechner permanecem, na maioria, ocultos. Ele vende milhares de livros, mas ouve apenas uma pequena amostra de seus leitores. Alguns dizem que seus livros salvaram sua fé, ou que ele é o primeiro escritor cristão que parece autêntico. Eu estava presente na Faculdade Wheaton quando um aluno bastante agitado levantou-se num enorme teatro e, diantedo microfone, disse: "Sr. Buechner, gostaria de dizer que seus livros são mais importantes para mim do que a própria cruz de Cristo". Buechner ficou confuso e sem graça - como responder a um comentá­rio desses? O que o estudante provavelmente quis dizer é que os ro­mances de Buechner haviam apresentado a verdade de uma maneira tão penetrante como nunca ouvira antes, especialmente na Igreja. Certa vez, quando voltava a Vermont depois das férias de inverno, Buechner encontrou a seguinte mensagem em sua secretária eletrônica: "Você não me conhece, mas sou seu fã. Apenas gostaria de dizer-lhe que, nas últimas seis semanas, pensei em suicídio por duas vezes, mas por causa de seus livros, não o cometi". Em função do histórico familiar de Buechner, aquela mensagem o atingiu como uma flecha. Ao ouvir aquilo, ele disse: "Significou mais para mim do que ganhar o Prêmio Nobel".

Por causa de reações como estas, Buechner não subestima seu ofício de pastor, elevando a arte de sua ficção e desprezando sua não-ficção como sendo de menor valor. Escrever é o seu ministério: vicário, indireto, mediano, talvez, mas certamente um ministério. "Costumava me debruçar sobre essas respostas e dizer, como se estivesse conver­sando com a pessoa que me escreveu: 'Se você soubesse quem eu sou...' Agora estou mais propenso a dizer: 'Sim, sou um tolo, hipócrita, es­quisito, mas Deus, em sua misericórdia, escolheu-me para apresentá-lo a você'. Temos estes tesouros em vasos de barro (...) Tenho este ministério desorganizado, desestruturado, mas, assim espero, ele é legítimo."

Se deixarmos de lado essas poucas mensagens dos leitores, vemos que Buechner permanece bastante desconectado das pessoas a quem ele ministra. Ele não encontrou uma igreja satisfatória nas proximidades. "Percebi que a maioria dos pastores prega mais sobre as superficialida-des do que sobre sua profundidade", diz ele. "Raramente vou ouvi-los, e quando o faço, sinto-me culpado por minha reação negativa. Há tantas igrejas que me lembram famílias disfuncionais, cheias de solidão e dores enterradas, dominadas por uma figura de autoridade. Tirando uma ma­ravilhosa igreja episcopal que freqüentei perto de Wheaton, não encon­trei uma igreja que realmente ministrasse às minhas necessidades. Os grupos de apoio da Al-Anon [1] são os que chegam mais perto daquilo que eu gostaria que a Igreja fosse."

Portanto, Buechner luta sozinho a maioria das batalhas da fé. Ele não tem nenhuma comunidade de amigos cristãos nas proximidades. Escritores devocionais apreciados pelas pessoas- Kathleen Norris, Henri Nouwen, Thomas Merton -, em sua maioria, não lhe dizem muita coi­sa. Ele encontra alimento espiritual em poetas como John Donne, George Herbert e Gerard Manley Hopkins, mas na questão de fonte de inspira­ção artística, ele normalmente se volta para outros romancistas: Graham Greene, William Maxwell, Flannery O'Connor. Cada vez mais ele luta contra a melancolia.

"Completei 70 anos, e este foi o único que causou impressão", diz ele. "Os 40, os 50, os 60 - estes aniversários simplesmente passaram. Os 70 fizeram me sentir sombrio e triste, geriátrico. Meu grande ami­go, o poeta James Merrill, morreu. Nós nos conhecíamos havia 55 anos. Escrevemos nosso primeiro livro num verão no Maine. Mas eu ainda não quero começar a escrever sobre meu lado sombrio. Quero conti­nuar escrevendo sobre a parte de mim que ainda é jovem e cheia de alegria. Penso nas adoráveis peças de contos de fadas que Shakespeare escreveu no fim da vida: The Winter's Tale, The Tempest. Penso nos últi­mos quadros de Rembrandt, cheios de luzes douradas."

"Um projeto, um romance baseado em Maria Madalena, deprimiu-me tanto que o abandonei. Então, um dia aconteceu um milagre de graça. Estava lendo o livro apócrifo de Tobias, um conto hebreu sobre um cachorro, uma jornada e um peixe, repleto de magia. A alegria bro­tou novamente. Naquela noite, ou melhor, às 4h45, levantei-me da cama e comecei a recontar a história de Tobit e seu filho Tobias. Nada do que eu já havia escrito deu-me tanto prazer, e concluí o livro em um mês e dois dias. O livro se chama On the Road with the Archangel (Na estrada, com o arcanjo)."

"É comum um livro surgir desta forma, como um presente da graça. Tal como um poço artesiano, praticamente tudo que você tem a fazer é deixá-lo fluir por seu próprio poder. Pelo menos para você, o escritor, ele vem com tanta vida dentro de si que o deixa perplexo. Quando isto acon­tece, sinto como se o livro estivesse montado na palma de minha mão. Ele está lá, eu o estou segurando. É claro que você precisa trabalhar bastante para chegar à linguagem e à forma corretas, mas uma coisa que você não precisa fazer é lutar para trazê-lo à vida. O presente vem primeiro, depois o trabalho."As crônicas de Buechner sobre uma jornada espiritual tem consegui­do, como acontece com Annie Dillard, atrair leitores de mundos opostos, a elite do Leste e os cristãos conservadores. Sua obra divide-se igualmente entre ficção e não-ficção (cerca de 15 livros em cada área), e Buechner percebe que os dois gêneros praticamente se encaixam em seus públicos contrastantes: a ficção fala aos "desdenhadores aculturados" da religião, enquanto a não-ficção, mais aberta, encontra sua audiência principal entre os já compromissados com a fé.

Esta façanha tem um preço, e é, de fato, a ambigüidade central de sua carreira. "Sou muito religioso para o leitor secular e muito secular para o leitor religioso", lamenta Buechner. Os críticos seculares, per­cebendo que ele é um pastor presbiteriano, às vezes prejulgam seu tra­balho. Buechner admite que buscar a ordenação talvez tenha sido a decisão mais estúpida que ele poderia ter tomado para sua carreira de escritor. "O mundo está cheio de gente - muitas dessas pessoas, infe­lizmente, são críticos literários que, quando ouvem que um pastor es­creveu um romance, sentem que sabem, mesmo sem ler, que tipo de romance deve ser: essencialmente, um sermão com ilustrações na for­ma de personagens e diálogos; portanto, sua visão da vida deve ser única, simplista, inocente, tudo girando em torno do objetivo único de atingir uma espécie de alvo homilético. Sou contra isto e, no meu caso, isto simplesmente não acontece."

De outro lado, os leitores cristãos conservadores se perguntam por que a mensagem cristã nos romances de Buechner permanece tão sutil e por que ele insiste em retratar personagens tão humanos, completos, com vida sexual e uma perturbadora inclinação para o pecado. Buechner responde dizendo que escreve sobre pessoas com pés de bar­ro porque elas são o único tipo de pessoa que ele conhece, incluindo a si mesmo.

Como os pescadores e os fazendeiros, os escritores tendem a dis­correr sobre os aspectos decepcionantes de seu trabalho. Buechner não alcançou os níveis de venda de, digamos, um Scott Peck ou um Thomas Moore. Ele entra instantaneamente em depressão quando visita uma dessas megastores e não encontra uma cópia sequer de seus trinta e tantos livros. Ele estremece quando lê no New York Times o comentário de um crítico, descrevendo-o como "alguém que eu quase nunca leio porque pensava que ele era um propagandista". Também se aborrece por responder cartas de seminaristas que perguntam por que ele achou necessário incluir a cena do incesto em Godric, ou por que ele fez do herói-evangelista presente em seus romances de Bebb um exibicionista sexual. Além disso, Buechner não gosta do rótulo "ro­mancista cristão", com freqüência colocado sobre ele, insistindo que isto somente se aplicaria no caso de um físico escrever um romance: claro que a perspectiva do autor entraria no romance e seu conteúdo poderia girar em torno do campo da física, mas isto dificilmente trans­formaria a obra num "romance de física", da mesma forma que um romance escrito por uma mulher não pode ser chamado de "romance de mulher".

Porém, em mais aspectos do que ele queira admitir, Buechner tem sido bem-sucedido em trabalhar com os dois mundos. Mantinha uma amizade estreita com o poeta (recentemente morto) James Merrill e outros gigantes da Literatura, inclusive seu ex-aluno John Irving, que reconheceu sua dívida com Buechner no prefácio do livro A Prayer for Owen Meany. Ele faz preleções na Biblioteca Pública de Nova York. Seu romance Godric foi indicado para o Prêmio Pulitzer. Enquanto isso, Frederick Buechner e os cristãos conservadores ficaram mais ami­gos. Escolas cristãs adaptaram seus romances e os transformaram em peças de teatro, convidando-o a apresentar palestras em seus campi. Pastores citam suas obras no púlpito, e escritores iniciantes estudam o estilo de sua prosa. Tenho o pressentimento de que Buechner tornou-se o escritor cristão vivo mais citado e de maior influência. A apreciação por sua obra continua a crescer. Quem consegue ter críticas positivas publicadas na Christianity Today, na The Christian Century e no New York Times Book Review/

Para aqueles de nós que militam na mesma seara e que, do mesmo modo, ganhamos a vida misturando palavras no papel, Buechner ofere­ce um modelo vivo de como escrever pode ser uma expressão de fé. Te­nho várias prateleiras cheias de livros escritos por cristãos. Sinto em dizer que a maioria deles teria pouco alcance fora do meio em que as pessoas já estejam comprometidas com a fé que eles expõem. As pessoas de fé se deparam com Deus em todo lugar: na natureza, na Bíblia, nos atos diários da divina providência. Deus parece bastante evidente. Mas a mente secular não vê tal evidência, e se pergunta se até mesmo é pos­sível encontrar Deus na loucura do mundo competitivo. A não ser querealmente compreendamos este ponto de vista e falemos em termos que uma pessoa sem fé possa entender, nossas palavras terão a singularidade e a inutilidade de uma língua estrangeira desconhecida.

Aprendi com Buechner que é mais vantajoso dizer pouco do que dizer muito. Como ele mesmo disse em The Eyes of the Heart, "tenho visto com os olhos do meu coração a grande esperança à qual ele nos tem chamado, mas, devido à timidez e à falta de confiança, raramente falo dela. Em meus livros, apresento uma tendência de falar nela, na maior parte do tempo, indiretamente, de maneira hesitante, ambígua, por te­mer não ser ouvido e prejudicar a credibilidade dos leitores para quem tal esperança parece simplesmente uma ilusão. Por temer o exagero, minha tendência, especialmente nos livros de não-ficção, é falar pela metade, pois esta me parece ser uma forma mais estratégica de alcançar as pessoas que eu gostaria, aquelas que não dão à religião algum período de seu dia".

A literatura cristã, com freqüência, exala o odor da racionalização. O autor começa com uma inabalável conclusão e depois prossegue traçando o caminho que for necessário para apoiar sua conclusão. Mui­to daquilo que leio sobre depressão, dúvida, suicídio, sofrimento e ho­mossexualidade parece ter sido escrito por pessoas que começam com uma conclusão cristã e que nunca passaram pelos angustiantes pas­sos, tão familiares a uma pessoa que luta contra a depressão, a dúvida, o suicídio, o sofrimento e a homossexualidade. Nenhuma resolução poderia ser tão simples para uma pessoa que verdadeiramente sobre­viveu a essa jornada.

Quando comecei a escrever abertamente sobre minha fé, concluí que só tinha uma coisa a oferecer: sinceridade. Já tinha ouvido sufi­ciente propaganda vinda da Igreja. Preferi ater-me à posição de um peregrino, não de um propagandista, descrevendo a vida com Deus da maneira como ela realmente acontece, não como deveria acontecer. Ninguém concorda. Um editor, certa vez, pediu-me para mudar o tí­tulo de um livro de Decepcionado com Deus para algo mais agradável, como Superando o desapontamento com Deus. Pensei sobre o assunto e decidi manter o título porque as pessoas desapontadas eram o meu público-alvo.

Quase perdi a esperança de escrever qualquer coisa sobre a fé até que descobri Buechner. Parecia-me, naquela época, que os cristãos estavam lendo basicamente pela experiência de concordar com tudo - "sim, é verdade" -, ao passo que a grande Literatura faz-nos parar e pensar: "Nunca havia pensado nisto antes". Para Buechner, a fé era um ato de descoberta, não um pacote de ortodoxia mandado do alto. Ele me fez parar e prestar atenção, primeiramente às palavras; depois, aos pensa­mentos por trás delas. Ele não usa a vida como uma ilustração de suas idéias; suas idéias, ao contrário, é que ilustram o que ele já havia re­tratado sobre a vida. Como disse William James em The Varieties of Religious Experience, "a verdade é que, na esfera metafísica e religiosa, as razões articuladas são-nos convincentes somente quando nossos sentimentos de realidade não articulados já foram impressos em favor da mesma conclusão".

Falar aos sentimentos de realidade não articulados do leitor é o grande desafio do escritor. Nós, escritores, vivemos vidas estranhas. Sentamo-nos em salas pequenas com poucos atrativos sensoriais, contemplando as palavras diante de nós naquele momento. Com efeito, criamos nas palavras o semblante do tempo e da materialidade, ao mesmo tempo que nos desconectamos de ambos. Escrever é a mais vicária das ações. Escrever sobre esqui mesmo sem estar esquiando; sobre comer quando não como; sobre o amor quando não estou amando; e sobre adorar, quando não estou adorando.

O primeiro livro de Buechner que li, Telling the Truth, deu-me espe­rança pelo fato de que, mesmo na vicariedade do ato de escrever, a verdade pode ser dita. O entediante processo de arranjar e rearranjar as palavras em uma página - o alfabeto da graça - pode, como um catalisador em uma reação química, criar para o leitor uma realidade espantosamente nova. Através da pena de Buechner, a antiga história de Oséias e Gômer torna-se primeiramente um saboroso conto de acei­tação e adultério, e depois, uma inesquecível parábola sobre a graça de Deus. O caráter grotesco e irredutível de Leo Bebb torna-se um lembrete de que Deus pode agir por meio de traidores e pervertidos, e, em certo sentido, só trabalha através de traidores e pervertidos. O olhar introspectivo de Buechner na vida tão entediante de um escritor revela que o aborrecimento se encaixa como uma máscara sobre o in-sondável mistério. Ao olhar sua vida, dou atenção à minha - o ato vicário cumprido mais uma vez.

FREDERICK BUECHNER PARA INICIANTES

Com 30 livros para escolher, alguém que não está acostumado com Buechner pode precisar de um guia. Ainda gosto de Telling the Truth como uma introdução concisa a seu pensamento e a seu estilo. Peculiar Treasures oferece outro bom exemplo de sua prosa. Listening to Your Life reúne excertos de várias de suas obras no formato de meditações diárias. Buechner apresenta sua vida mais pessoalmente na série de biografias: The Sacred Journey, Now and Then, Telling Secrets, The Eyes of the Heart. No campo da ficção, ele é mais conhecido pelos romances baseados no per­sonagem Leo Bebb, convenientemente reunidos em um único volume, The Book of Bebb. Não deixe de ver Godric e Brendan, os quais apresentam a habilidade estilística de Buechner em seu esplendor, ou seu mais re­cente romance, The Storm, que possui ecos da obra de Shakespeare The Tempest.

Phillip Yancey - Alma Sobrevivente

[1] Referência à Moral Majority, grupo conservador evangélico norte-americano com forte influência na política.

Angela Natel On terça-feira, 30 de março de 2010 At 07:29

CONVITE

Lançamento do filme
"Quebrando o Silêncio",
de Sandra Terena.


O filme é feito por indígenas que falam sobre o infanticídio. Data: 31 de março - quarta-feira, às 19h30 Local: Memorial dos Povos Indígenas Brasília Eixo Monumental Praça do Buriti, em frente ao Memorial JK.
Informações: (61) 8116-1595, com Rubens



Amigos das crianças indígenas,

Não percam a oportunidade de assistir o documentário no Memorial, ou de convidar algum amigo em Brasília. As famílias da ATINI estarão presentes! Sandra Terena, da Aldeia Brasil, também! Manifeste seu apoio e carinho com as famílias e crianças sobreviventes.

Edson e Márcia Suzuki

Márcia Suzuki
Presidente do Conselho

ATINI – VOZ PELA VIDA é uma organização social, sem fins lucrativos, formada por índios e não-índios, que atua na defesa dos direitos das crianças indígenas em situação de risco e na busca de um modelo indigenista mais humano.

SCRN 714/715 Bloco F Loja 18
70 761-660 Brasília - DF

Telefones: (61) 8116 1595
www.atini.org
marciasuzuki@atini.org
Angela Natel On segunda-feira, 29 de março de 2010 At 06:05

O Esplendor das Coisas Simples

A imagem que eu tinha de Annie Dillard mudou para sempre depois de nosso primeiro en­contro, em 1977.

Conhecendo-a apenas por inter­médio de suas obras, esperava uma poetisa excêntrica e neurótica como Emily Dickinson, ou uma mística sombria como Simone Weil. Combinamos de nos encon­trar em seu escritório, que eu ima­ginava ser uma cabana com um único cômodo, enfiada no meio de um bosque de pinheiros.

O escritório revelou-se um lu­minoso conjunto de um prédio de poucos andares, com decoração moderna nas paredes, sendo uma delas pintada de laranja e a outra, de azul. A própria Dillard, com, no máximo, 30 anos de idade, usava calça jeans e uma blusa bordada. Ela era engraçada, e usava muitas gírias ao falar. Fu­mava um cigarro atrás do outro. Amava pingue-pongue, rafting [1] e dança. Gostava de uma boa pia­da. Nem dickinsoniana nem professoral, ela era o tipo de pes­soa que você incluiria em sua lista de convidados para animar uma festa.

Dillard também tinha suas expectativas. "Que bom que é você", disse ela quando entrei em seu escritório. "Não sabia o que esperar de uma revista chamada Christíanity Today. Quando vi um senhor careca de 60 anos de idade caminhando pelo campus, pensei: 'Puxa, onde é que eu me meti'?" Naquela época, eu tinha a metade da idade do homem careca e minha vasta cabeleira lembrava a juba de um leão; mas Dillard concordou sim, com a longa entrevista.

Eu havia acabado de estudar John Donne, lançara Deus sabe que sofremos e começava a escrever com o Dr. Brand. Tinha um bloco de notas cheio de perguntas a fazer a ela: sobre o problema da dor, a natureza, os argumentos teológicos do design inteligente[2], a vida de escritora. Conversamos muito além do tempo que havíamos combina­do, e, no fim, ela soltou um longo suspiro, dizendo: "Que gostoso falar sobre idéias, especialmente com alguém que atua no mesmo campo. A maioria dos repórteres quer saber sobre minha conta bancária e mi­nha vida sexual". É claro que isto abriu uma linha de questionamentos completamente nova.

No cargo de repórter de uma revista, naquele tempo, eu via a ques­tão de escrever tanto como uma carreira quanto como um hobby, algo que você faz quando tem tempo, entre os prazos apertados. Dillard considerava isto um chamado santo, como pode ser visto nesta passa­gem de seu livro Holy the Firm:

Perguntei às pessoas da minha classe quantas delas queriam dar suas vidas para serem escritoras. Eu estava tremendo, não sei se pela falta de um café, de cigarro ou de medo diante das faces que me cercavam (...) Todas as mãos se levantaram em resposta à minha pergunta. Então, tentei explicar-lhes o que significava aquela escolha: "Você não pode ser outra coisa. Você precisa se devotar a isto" (...) Eles não tinham a menor idéia do que eu estava falando (...) "Faço isto à noite, depois de esquiar, ou no caminho do banco para casa, depois que as crianças vão dormir" (...) Eles acharam que eu estava devaneando outra vez.

Mesmo tendo apenas um encontro, Dillard e eu trocávamos correspon­dência ocasionalmente, e eu seguia seu trabalho de perto. Ou melhor, fazia um acompanhamento frenético. Ela é um farol para os escritores que ainda se preocupam com as palavras, frases, parágrafos e idéias, um guia para escritores de fé. Depois daquela conversa, nunca mais vi a composição literária como um hobby. Ela me ensinou a ver a arte e, na verdade, o mundo, com outros olhos.

A autobiografia de Dillard, intitulada An American Childhood, esboça .. alguns detalhes de sua vida. Ela foi criada num lar de classe média-alta de Pittsburgh, Pensilvânia, no qual seus pais amorosos lhe pro­porcionaram uma vida confortável, freqüentando escolas particulares para moças e o clube de campo. Eles trocavam idéias à mesa do jantar, levavam-na a uma igreja presbiteriana de grã-finos e permitiam que sua curiosidade intelectual corresse solta. Annie teve uma adolescên­cia turbulenta no início da década de 1960. Foi expulsa da escola por fumar e foi parar no hospital depois de um acidente durante um racha de automóveis. Mostrava uma inclinação pela natureza, sim, mas tam­bém pelo beisebol e pelas guerras francesas e indígenas. "Ela se preocupa apenas com o que lhe interessa", reclamou um de seus professores do segundo grau. Quando seus pais a enviaram para a Faculdade Hollins, na Virgínia, ela se casou com o professor de Escrita Criativa, ainda no primeiro ano.

Até hoje, Dillard é capaz de recitar o primeiro poema que escreveu, um produto daquela tórrida adolescência, na qual ela se encantou pelo discurso do poeta simbolista francês Arthur Rimbaud:

Certa vez, se bem me lembro, confinada

No inferno a minha carne foi largada,

Em cela de prisão úmida e fria

Onde nenhuma chama ou luz ardia.

A mão caiu, o corpo foi ao chão

Imóvel na sujeira e solidão.

Não havia qualquer indicação neste poema, ou na vida de Dillard, que dissesse que ela ganharia um Prêmio Pulitzer antes dos 30 anos e que se tornaria uma das maiores escritoras dos tempos modernos. Mas ela real­mente credita à sua adolescência o despertar de sua espiritualidade e o aguçamento de seu apetite pelos temas abstratos que permeariam seus trabalhos futuros. Sua autobiografia começa com esta citação do salmo 26: "Eu amo, Senhor, a habitação de tua casa e o lugar onde tua glória assiste".

A igreja proporcionava, basicamente, um cenário social no qual famílias bem-vestidas "acumulavam dignidade de serem vistas" todos os domingos. Nos verões, porém, Annie corria com sua irmã para um acampamento religioso nas montanhas. "Se nossos pais soubessem quão cheio de regras aquele acampamento era, eles nos arrancariam de lá", lembra-se ela. "Memorizávamos capítulos inteiros da Bíblia, cantáva­mos hinos alegres o tempo todo, tínhamos estudos à noite, momentos de oração extemporâneos e íamos duas vezes aos cultos de domingo vestidas com bermudas brancas. A teologia cheia de fé que existia ali estava a apenas meio passo de nossas tendas: dava para sentir o cheiro da serragem."

Ao compararmos nossa formação, percebi quão diferente é entrar numa subcultura por um verão e o sentimento de estar preso a uma tenda, com o ar sempre cheirando a serragem. Meus verões num acam­pamento cheio de regras serviram para me causar mais repulsa àquele tipo de doutrinamento. De outro lado, Dillard sentiu-se atraída pelas idéias religiosas, o que a fez considerar as outras idéias como de menor importância. A memorização de longas passagens bíblicas numa versão com texto clássico fez com que ela escrevesse poemas que deliberada-mente imitavam seu ritmo. De volta para casa, na serena igreja de Pittsburgh, ela ocasionalmente sentia, "apesar de mim mesma, um tê­nue e fino sopro espiritual passando por entre os bancos".

Annie, na verdade, tinha uma pequena revolta contra Deus, disse-me ela mais tarde. Depois de quatro verões consecutivos no acampa­mento, ela se cansou da hipocrisia das pessoas que iam à igreja para exibir suas roupas. Desejosa de tomar uma decisão mais profunda, re­solveu confrontar os pastores. O pastor principal ("Ele era a cara de James Mason no filme Nasce uma estrela, e sua idéia de sermão era a de uma resenha de um livro") a amedrontava, por isso ela foi ao gabinete do pastor auxiliar e despejou seu discurso sobre hipocrisia.

Como homem sábio, numa tacada só ele conseguiu incutir nela o que em mim demorou muitos anos: ele separou a Igreja de Deus, fazen­do isto de uma maneira que dignificou aquela crítica adolescente, em vez de diminuí-la. "Ele era um homem maduro e calmo, vestindo um terno completo. Usava bigode e óculos. Eu era uma pequena criança do segundo grau que pensava ser a única pessoa no mundo com reclama­ções contra a Igreja. Ele me ouviu e depois disse: 'Você está certa, meu amor, existe muita hipocrisia." Annie sentiu seus argumentos se dissol­verem. Então, o pastor continuou, entregando a ela uma série de livros de C. S. Lewis, sugerindo que eles seriam úteis para a elaboração de um trabalho na escola. "Acho que é um pouco cedo para você deixar a igre­ja", comentou ele, enquanto apertava sua mão em despedida. "Acho que você voltará em breve."

Para consternação de Annie, ele estava certo. Depois de escavar quatro volumes de C. S. Lewis, ela caiu novamente nos braços do cris­tianismo. Sua rebelião durou apenas um mês.

Hoje em dia, existem 12 livros assinados por Annie Dillard, em estilos como poesia, ensaios, uma autobiografia, relatos jornalísticos de sua visita à China, ficção histórica e críticas literárias. Algumas for­mas foram mais bem-sucedidas do que outras, mas todas possuem sua marca: um olhar penetrante, frases maravilhosas, intensidade mística e o senso de que escrever é um chamado.

Independentemente do que ela venha a conseguir, sem dúvida vive­rá para sempre com o rótulo de "nature writer".[3] Pilgrim at Tinker Creek atingiu o público leitor em 1974 com o impacto de um meteoro: um novo gênero, forjado em algum lugar do espaço exterior, lançando frag­mentos de si mesmo por toda a atmosfera. Em uma rápida seqüência de premiações, recebeu o título de Livro do Ano, um Prêmio Pulitzer, eleito o melhor livro estrangeiro na França e prosseguiu, transforman­do-se num inesperado best seller (quase 500 mil cópias vendidas). Dillard se tornara a nova dama da literatura. Os críticos comparavam seu tra­balho aos de Virgínia Woolf, Gerard Manley Hopkins, William Blake e Henry David Thoreau. Jovem, magra, com ralos cabelos loiros, olhos azuis e uma predileção por chapéus de feltro, ela se encaixa visualmente no papel.

Pilgrim começa com o sentido da visão. Em outra obra, Dillard relembra a história de Noah Very, um eremita septuagenário que vive num chalé nos Apalaches. "Certa vez, quando meus filhos eram jovens", disse-lhe Noah,

... e nós morávamos todos onde moramos agora, eu olhei pela janela e vi a criançada brincando junto ao rio. Havia ali na margem um banco de areia.

As crianças eram todas muito novas, muito pequenas, e brincavam com baldes, derramando água, amontoando areia uma sobre os pés da ou­tra... Eu disse a mim mesmo: "Noah, lembre-se bem desta visão, as crianças tão pequenas e brincando à beira do rio nesta exata manhã. Lembre-se disso". E eu me lembro como se tudo tivesse acontecido hoje de manhã. Deve ter sido no verão. Há mais de vinte anos de permeio dos quais não lembro nada.

(Extraído de Teaching a Stone to Talk)

A escritora Dillard adota o ato de lembrar como um tipo de missão sagrada. "Annie, lembre-se desta cena", pode alguém imaginá-la dizen­do a si mesma, repetidas vezes. Você vai lembrar dela e escrevê-la para ou­tros, como se ela tivesse acontecido esta manhã. Ela, de fato, se lembra com tal nível de detalhe que nos ensina a ver. Os leitores voltam às suas obras porque ela descreve aquilo que ninguém mais notou com praticamente a mesma acuidade: a queda-livre de um pássaro a partir de um prédio de quatro andares; o mergulho de um albatroz a partir do ninho no penhasco; a textura da sombra que se lança durante um eclipse; uma luminosa "árvore com luzes dentro". Dillard nos transmite calma, faz-nos olhar mais de perto e respirar mais fundo, enquanto caminhamos pelo mundo natural. Tais experiências, diz ela, podem ser "menos relacio­nadas a ver do que a ser, pois aquilo que se vê pela primeira vez nos atinge com impacto poderoso e empolgante".

Emily Dickinson escreveu, certa vez, a um amigo, dizendo que "olhai os lírios do campo" era o único mandamento que ela nunca havia que­brado. Precisei ler Annie Dillard para aprender como cumprir esse man­damento. Li Pilgrim at Tinker Creek pela primeira vez quando morava num trailer de alumínio na periferia abandonada de Chicago. Recém-casado e saldando as dívidas da escola, estava começando a encami­nhar minha carreira de jornalista. Sentia falta do viço do Sul: altos pinheiros, pés de madressilva, arbustos de diferentes tipos nos bos­ques. Em Illinois, eu não fazia questão de sair, pois o que havia lá fora para ver? Milharais? Marcas de pneu na neve suja? Enquanto lia aqueles relatos da natureza, mais empolgantes que um romance de aventura, percebi que tudo o que ela descrevia estava ao lado de um córrego lamacento, num lugar qualquer da Virgínia. "Tudo é uma questão de manter meus olhos abertos", disse ela. "A beleza e a graça existem, quer as percebamos ou não. O mínimo que podemos fazer é tentar estar ali (...) de modo que a natureza não tenha de apresentar seu espetáculo para uma platéia vazia."

Depois de ler o livro, propus-me a uma caminhada de meia hora todos os dias pelo Parque Prairie, por uma estreita trilha cascalhada que seguia um antigo leito da estrada de ferro através da campina e do charco próximo de casa. Nos primeiros dias, não via nada de especial. Nos seguintes, a paisagem árida pela qual sempre passei com pressa começou a ganhar vida. Nos dias frios, o mato era coberto com uma fina camada de gelo que refletia o sol como diamante, e a neve transformava árvores comuns em obras de arte abstrata. Na primavera, milhares de pequenas aranhas corriam apressadas pelo tapete de vegetação prensa­da pelo inverno. No verão, o charco se enchia de vida com o som dos pássaros e insetos, e comecei a descobrir os limites dos territórios pa­trulhados pelos melros de asas vermelhas. No outono, grandes árvores plantadas junto a poços fétidos transformavam-se em verdadeiras laba­redas de fogo, uma "árvore com luzes dentro". Interessei-me pela foto­grafia para registrar tudo aquilo que eu passava a enxergar.

Annie Dillard vai até a natureza não apenas para observar, mas também para aprender, para extrair significado de um texto que obsti­nadamente resiste a todas as tentativas. Como guia cuidadosa, ela me levou pela mão a uma trilha familiar que eu já percorrera com outros, como Paul Brand e G. K. Chesterton, e até mesmo com John Dorme (que chamava a natureza "um João Batista submisso a Cristo"). Do mesmo modo, Dillard reconhece o mundo como obra do Criador, e então considera as conseqüências. "Que piada este Criador está nos contan­do?", pergunta ela. A mamãe-polvo que coloca um milhão de ovos para produzir um único sobrevivente; baleias assassinas que se lançam sobre bandos de leões marinhos; a fêmea do louva-deus consumindo o macho que, sem cabeça, continua a copular com ela - que lições podemos tirar de obras como essas?

O problema, como sempre, é que a natureza nos dá sinais mistura­dos. Tal qual uma criança desobediente, o mundo natural tanto nos revela quanto nos esconde Deus; a natureza "geme", para usar um ter­mo paulino. Dillard não tem o otimismo de um Chesterton, que vê o sorriso de Deus até mesmo nas trevas, ou de um Donne, que anseia por um novo lar no porvir. Ela diz: "Eu me alterno entre pensar no planeta como um lar - a casinha com lareira e jardim - ou como uma terrível terra de exílio, na qual somos todos peregrinos". Deus deve preferir trabalhar com uma das mãos atada às costas, conclui ela.

Enquanto escrevia Pilgrim, Dillard perdeu um cunhado, que mor­reu de leucemia. Os testes positivos foram revelados um dia antes de seu casamento, e ele demorou mais três anos para morrer. Diante des­ta situação, Dillard diz: "Não podia escrever este pequeno livro sobre a natureza, nem uma nova versão da teoria do design inteligente. Ti­nha de escrevê-lo para pessoas que estavam morrendo e chorando - o que quer dizer todo mundo. As imagens de minha irmã e seu marido estavam ali, na mesma sala onde eu escrevia o livro. Como poderia falar de Deus à minha irmã, se ela não acreditava nele?"

Por isso, as cenas alegres de Pilgrim são entremeadas e, em alguns momentos, sufocadas por cenas de violência. Ela olha para um pequeno sapo verde flutuando na superfície da água até que, de repente, ele se transfigura diante dela, com seu crânio afundando em seu corpo "como uma tenda que é derrubada, com seu corpo encolhendo diante de meus olhos como uma bola de futebol que murcha". O vilão que ela vê é um enorme besouro que perfurou, envenenou e sugou o interior do sapo. Conforme ela percorre a trilha desgastada de Tinker Creek, pensamen­tos de seu cunhado se esvaindo em função da leucemia estão sempre próximos.

Depois de Pilgrim at Tinker Creek veio Holy the Firm. Dillard deu início ao projeto quando vivia numa ilha em Puget Sound, próximo de Seattle, trabalhando num quarto mobiliado com "uma enorme janela, um gato, uma aranha e uma pessoa". As pressões que se seguiram depois do enor­me sucesso de Pilgrim estavam todas guardadas naquele cômodo solitá­rio. "Eu estava horrivelmente constrangida", lembra-se ela. "Trabalhei 16 meses em tempo integral, oito horas por dia. Todas as vezes que ficava com medo de me aproximar daquela pilha de papéis, eu costuma­va ler as últimas páginas daquilo que havia escrito e nem eu conseguia entender o que estava ali. Lia umas 800 vezes, até entender aquilo sufi­cientemente para poder extrair algumas palavras mais. No fim desse tempo, tinha 43 páginas. Estava ficando como Beckett: cada vez menos palavras, cada vez mais silêncio."

Holy the Firm registra a rotina diária de Dillard - ensinar, refletir, caminhar até a loja para comprar o vinho da Ceia - entremeada com especulação metafósica. Ela havia optado por escrever sobre aquilo que acontecesse em sua vida nos três dias seguintes. Qual seria a marca par­ticular de santidade que cada dia trazia? Qual é o relacionamento entre tempo e eternidade, entre Deus e os eventos do dia-a-dia? No segundo dia, porém, um avião caiu, e Annie Dillard viu-se obrigada a trilhar o mesmo caminho por onde havia seguido em Pilgrim. "Quando o avião caiu, pensei: Oh, não, Deus está me fazendo escrever sobre esta droga de problema da dor outra vez! Achava que era muito jovem, que não sabia a resposta e não queria fazer aquilo. Porém, mais uma vez, tinha de fazê-lo."

Em uma cabana emprestada, sem eletricidade, aquecida pela ma­deira que cortara naquela manhã, ela escreveu sobre dor, a encarnação de Cristo, a natureza sacramental da existência, os supremos mistérios do universo. Como podemos, como ousamos amar um Deus que permite que uma criança morra grotescamente num acidente aéreo? Dillard es­creveu em Pilgrim: "No Corão, Alá pergunta: 'O céu, a terra e tudo o que há neles acham que eu os criei por brincadeira?' É uma boa pergunta".

Quando conversei pessoalmente com Dillard sobre esses assuntos, discutimos a noção de C. S. Lewis de que não devemos ir à natureza para construir teologia, pois ela nos frustrará a todo instante. Devemos, sim, ir a ela quando já tivermos nossa teologia, para que a natureza possa preencher as palavras - admiração, glória, beleza, terror - com significado. "Gosto disto", disse ela. "Mas, como você sabe, sou uma crítica literária treinada, e trato o caos completo da natureza como se ela fosse o Livro de Deus. Para muitos de meus leitores, este é o único Livro de Deus que eles lerão. Devo começar ali."

Minha primeira atração pelos textos de Dillard deu-se porque, nos tempos modernos, a natureza e o sobrenatural têm sido separados, e a autora busca, de alguma forma, costurá-los novamente. De maneira geral, a Igreja tem abandonado a natureza nas mãos dos físicos, geólogos e biólogos. Autores que falam sobre fé andam na ponta dos pés ao redor da Criação de Deus, desprezando-a como se fosse simples maté­ria, indigna da atenção dispensada à mente e ao espírito. Ao fazer isto, perdemos um dos textos principais de Deus. "Entre na matéria", disse Teillard de Chardin.[4] "Por meio de todas as coisas criadas, sem exce­ção, o divino nos vitupera, nos alcança e nos molda. Imaginamo-lo como distante e inacessível, ao passo que, na verdade, vivemos imersos em suas camadas mais ardentes."

Dillard reabre o texto como um manuscrito do espírito. Ela escreve sobre a natureza como sendo uma obra de Deus, enquanto admite que a natureza nos dá sugestões confusas. "Encaminho minha canoa para longe da borda do mistério, onde as palavras e a razão falham", diz ela. Sua visão traz à mente, mais uma vez, a própria abordagem de Deus no Livro de Jó. A um homem sofredor, carregado de perguntas existenciais urgentes, Deus responde com um atordoante discurso sobre o mundo natural. "Considere o avestruz", disse ele a Jó, "as cabras monteses dan­do à luz, o boi selvagem, os cavalos, os sublimes falcões, o hipopótamo e o crocodilo". Olhe para o texto; o que ele lhe diz? Assim como o sentido contido nele, requer fé: você precisa ter olhos para ver e ouvidos para ouvir. Nem mesmo Deus reduziu a mensagem da Criação. Ele simples­mente apontou para ela como um item de seu currículo.

Annie Dillard começa com as más notícias sobre o mundo porque naquele dia, diz ela, quando você for dar as boas notícias, elas terão um impacto mais convincente. O leitor precisa confiar que o es­critor sabe até onde o leitor pode se irritar, mas, ainda assim, acreditar no que está escrito. Seu mais recente livro, For the Time Being (Para o tempo presente), chuta o balde mais uma vez. Ele relata quantos suicídios acontecem por dia e qual porcentagem da população é mentalmente retardada. Descreve defeitos de nascimento em minúcias clínicas e de­talha técnicas de assassinato praticadas por tiranos por toda a História. Nota que existem nove galáxias para cada pessoa viva na terra. Dá qua­se a mesma atenção aos segredos do pó, às ondas do mar e à vida do paleontólogo e teólogo católico Teillard de Chardin.

Viajando por um território desconhecido, localizado entre o ceticis­mo e a crença, Dillard volta constantemente à linguagem comum da natureza. Aponta de volta para a prática hassídica [5] de um observador que "reverencia" a Criação ao reconhecer nela as "fagulhas divinas". Como uma artista, ela imagina um mundo que contenha muito mais do que se pode ver, um mundo sacramentai. Enquanto teólogos deba­tem os milagres e o sobrenatural, ela se rende ao esplendor das coisas comuns.

"Não tenho problemas com milagres", diz Dillard. "Estou bem lon­ge do agnosticismo, nem lembro mais onde foi parar uma série de coisas que costumavam ser um problema para mim. Mas esta não é a questão com a qual luto. Para mim, a verdadeira pergunta é: como podemos nos lembrar de Deus? Gosto daquela parte da Bíblia que traz os nomes dos reis como sendo bons ou maus. De repente, aparece um como o rei Josias, que manda limpar o Templo e, sem querer, descobre a Lei. Isto acontece depois de muitas gerações de governantes e do tempo em que os israelitas seguiam a Deus durante o Êxodo. De alguma maneira, eles haviam se esquecido da coisa toda, peça por peça. Uma nação inteira simplesmen­te esqueceu-se de Deus. A oração que diz 'no decorrer deste dia, não me esquecerei de ti; não te esqueças tu de mim' é, às vezes, vista como uma espécie de piada cristã sem importância. Não creio que ela seja assim tão pouco importante. Acho que ela é muito profunda." Como membro da academia pós-moderna, ela percebe que, com a visão mundial que temos hoje, anos-luz à frente da dos hasidim, uma civilização inteira corre o risco de se esquecer de Deus.

Parte do apelo de Dillard reside em sua capacidade de enriquecer a fé de cristãos devotados, enquanto se mantém crível para os cultos que desprezam a religião. Nos Estados Unidos, os cristãos tendem a criar subculturas, lendo seus próprios livros, ouvindo sua própria música e educando seus filhos em suas próprias escolas. Pouca fertilização mútua ocorre entre a subcultura cristã e a cultura maior e secular. Por meio da combinação de uma dúvida teimosa com uma igualmente teimosa insistência na fé, Dillard serve como uma ponte entre dois mundos: o ambiente literário e os cristãos conservadores.

Ler alguns livros religiosos às vezes me lembra uma viagem através de um longo túnel sob uma montanha. Dentro do túnel, os faróis do carro provêem uma iluminação importantíssima. Sem eles, eu poderia bater nas paredes do túnel. Mas próximo à saída do túnel, um conjunto de luzes brilhantes parece engolfar as luzes dos meus faróis e os torna completamente desnecessários, de modo que, quando saio do túnel, uma placa dizendo "verifique seus faróis" me avisa que é hora de desligá-los. Em comparação com a luz do dia, eles são tão fracos que perco a noção de sua existência. Os livros cristãos geralmente são escritos a partir da perspectiva da luz do dia, exterior ao túnel. Cercado de luz, o autor se esquece da profunda escuridão do interior do túnel por onde muitos leitores caminham. Annie Dillard se lembra, e direciona seus faróis de maneira correta.Ela escreve tendo em mente um agnóstico intelectual, esperando levá-lo a considerar "que os cristãos não são apenas pessoas estúpidas". Ela entende que uma de suas tarefas é "tentar mediar um pouco cris­tãos e humanistas - especialmente cristãos evangélicos e meus colegas da academia e os humanistas que acham que um cristão é um louco com um papel e uma arma na mão". De maneira quase singular, ela trata os evangélicos, até os fundamentalistas, com respeito e bondade. Enquanto lecionava na Faculdade Hollins, em Virgínia, no começo de sua carreira, ela passou bastante tempo lendo para os cegos da Faculdade Bíblica Shenandoah, onde aprendeu o lado mais compassivo do fundamentalismo. Atualmente ela é voluntária em um programa de ali­mentação de pessoas carentes.

"Sei o suficiente sobre Deus para querer adorá-lo a todo instante", escreveu Dillard em Holy the Firm. Ela nunca deixa de identificar-se aber­tamente como sendo cristã, apesar de confessar que as experiências com manifestações divinas sejam mais raras hoje em dia. Há poucos anos, ela tomou o passo público de se converter ao catolicismo romano. Como ela explicou ao New York Times, "o que gosto nos católicos é o jeito de­sarrumado deles. Você vai a uma igreja episcopal, e as pessoas são muito parecidas. Vai a uma igreja católica, e há pessoas de todas as cores e idades, bebês chorando. É uma vitrina de gente. E você diz: 'Olha eu aqui. Sou uma das pessoas que amam a Deus'".

Assim como a natureza tanto revela quanto esconde Deus, assim é a Igreja, e Dillard escreve cada vez mais diretamente sobre sua comu­nidade de fé. Ela comentou, numa reunião de artistas cristãos: "Sinto que fui colocada aqui na Terra para descrever os cultos das igrejas, e há alguma coisa intrinsecamente hilariante sobre eles. É comum eu quase morrer sufocada dentro de uma igreja, segurando o riso. Escrevi sobre isto em Uma expedição ao pólo. O que há de tão engraçado nisto? É a distância entre o que estamos fazendo e o que estamos procurando fazer. O relacionamento entre a incongruência de quem somos e quem estamos tentando mover em nossas orações. Parece um quadro da dan­ça do urso".

O ensaio a que ela se refere contém o seguinte lamento:

Tenho freqüentado a missa católica por quase um ano. Antes disso, a igreja mais à mão era a congregacional (...) Semana após semana, fui tocada pelo

estado lastimável da sacristia com piso de linóleo que nenhuma flor era ca­paz de saudar ou amenizar, pelo terrível canto que eu tanto amava, pelas entediantes leituras bíblicas, pela diluição vazia e demorada da liturgia, pela terrível falta de conteúdo do sermão e pela névoa da lúgubre insensatez que a tudo permeava, que existia ao lado e, provavelmente, causava a mara­vilha do fato de que nós vínhamos; nós voltávamos; aparecíamos semana após semana, passando por ali.

(Extraído de Teaching a Stone to Talk)

Em Puget Sound, freqüentava uma pequena igreja na qual ela normal­mente era a única pessoa com menos de 60 anos, sentindo-se como numa viagem arqueológica pelo sul da Rússia Soviética. A Igreja católica mos­trou-se mais inovadora. Em certa ocasião, os paroquianos participaram da missa ao som de músicas do filme A noviça rebelde ao piano. Dillard suspira, dizendo: 'Acho que preferiria submeter-me à famosa noite es­cura da alma a encontrar a noviça rebelde na igreja". Ela completa: "Dois mil anos se passaram, e ainda não resolvemos isto. Semana após semana, testemunhamos o mesmo milagre: Deus é tão poderoso que pode reprimir seu sorriso".

Alguns cristãos realmente não sabem o que fazer com Annie Dillard. . Escrevendo livros de arte, e não de Teologia, ela usa linguagem indireta e dissimulação. "Se eu quisesse fazer uma afirmação teológica ou uma declaração daquilo que penso, teria contratado um skywriter" [6] diz ela. "Em vez disto, tento tirar de mim mesma arte - não que seja tão boa, mas porque, por sua própria natureza, ela não reduz tudo a um sistema fechado. Ela não é tão sufocante. As pessoas podem me perguntar o que acho sobre isto, e eu direi: 'Não sei; aqui estão 271 páginas, e você vai ter de ler todas elas'."

Soren Kierkegaard descrevia-se como um espião, um homem ímpio que fica de olho em vários personagens suspeitos, inclusive ele mesmo. A polícia, dizia ele, faz um bom uso de pessoas astutas que podem desco­brir qualquer coisa, seguir uma pista e revelar segredos. Em certo senti­do, todo escritor trabalha na espionagem, tomando notas, observando particularidades que todo mundo despreza, escarafunchando o mundo em busca de pistas. Para um escritor de assuntos de fé, trabalhar numa cultura secular complica muito esta tarefa. Escrever livros que apa­recem em livrarias cristãs para serem lidos apenas por membros de igrejas exige pouca astúcia; escrever livros de fé para leitores que pos­suem apenas vestígios de órgãos sensoriais, isto sim, requer um tipo particular de perspicácia.

Annie Dillard nunca nega sua identidade, mas também não con­ta a história inteira. Ela conhece seu público e a si mesma. Lembrei-me da analogia que Kierkegaard fez de um espião não muito tempo atrás, quando encontrei um artigo que Dillard escreveu para o The Yale Review, nos idos de 1985. "Cantando com os fundamentalistas" recorda o tempo quando ela lecionou na universidade em Bellingham, Washington. Bem cedo, certa manhã, ela ouviu um canto e olhou por sua janela, vendo um grupo de alunos reunidos em volta de uma fonte.

Sei quem são esses alunos: são os fundamentalistas. Este campus tem uma porção deles. De manhã, eles cantam na praça, e esta é sua única atividade perceptível. O que eles estão cantando? Seja o que for, quero me juntar a eles, pois adoro cantar. Não importa o assunto, pois quero estar ao lado deles, pois sou atraída pelo próprio absurdo de vê-los não se importando com o que as pessoas pensam. Meus colegas e alunos daqui, além de amigos de todo lugar, não gostam dos cristãos fundamentalistas e até os temem. E possível que você nunca se encontre com algum deles, mas certamente já ouviu falar sobre o que eles fazem. Guardam dinhei­ro, votam em bloco e elegem aqueles direitistas malucos. Fazem censura a livros, carregam armas. São contra o flúor na água potável e a Teoria da Evolução nas escolas. É bem possível que eles linchassem pessoas, se pudessem ficar impunes diante deste ato. Não estou certa de que meus amigos ajam corretamente. Deixo minha caneta de lado e uno-me aos meus colegas na praça.

No resto do artigo, Dillard relata o que aprendeu cantando com os fundamentalistas às 8h45 durante todas as manhãs da primavera. Ela estuda as revistas que esses alunos lêem - Christianity Today, Campus Life, Eternity - e descreve aqueles que conhece. São alunos brilhantes, longe de serem ignorantes. Lêem a Bíblia, assim como livros sobre teo­rias da Literatura. Alguns apóiam os democratas modernos; outros, os republicanos modelados. No meio do artigo, Dillard reproduz a letra das músicas que eles cantam, entre elas:

Dai louvores ao Rei

Cantando aleluia

Ele é o Rei dos reis

E

Ele é a minha paz,

Aquele que derrubou todos os muros (...)

Lance sobre ele seus cuidados,

Pois ele cuida de você-ê-ê-ê

E

Seja glorificado, Senhor

Em minha vida, em minha vida hoje

E

Fartar-me-ei da abundância de tua casa

Descansarei ao lado dos ribeiros da justiça

Tu és o meu Rei

Entrai por suas portas com ações de graças

e nos seus átrios, com hinos de louvor

Ele é o Rei do reis

Tu és o Senhor

Dillard revela por que gosta de cantar com os fundamentalistas por toda a primavera: "Eles vêm praticamente pela mesma razão que eu: cada um tem uma relação particular com o Senhor, e, por causa disto, é capaz de suportar um monte de coisas".

Mesmo para um espião, é uma enorme proeza trabalhar a letra de oito diferentes canções de louvor num jornal intelectual publicado pela Univer­sidade Yale. "Quase desmaiei quando eles viram o trabalho", disse-me Dillard, mais tarde. "Na verdade, a cada dia estou me revelando um pouco mais."A partir das cartas que recebo e dos comentários que ouço em festas e lançamentos de livros, chego à conclusão de que as pessoas têm uma visão romântica da vida de um escritor. Essas pessoas nunca esti­veram ao lado de um escritor que fica parado 15 minutos diante de um dicionário de sinônimos em busca de uma única palavra. Devido ao pró­prio trabalho, os escritores levam uma vida solitária. Trabalhamos sozi­nhos, fugindo de qualquer distração, e criamos nossa própria realidade particular, explorando-a e domesticando-a até que chega o momento quando o editor começa a instigar outras pessoas a trabalhar conosco -momento em que, naturalmente, estamos felizes, construindo outra realidade falsa. Na maior parte das vezes, o mundo que criamos é muito mais interessante do que aquela triste realidade na qual vivemos.

Às vezes, tenho a impressão de que minha vida de escritor se sobres­sai à minha vida real. Fico pensando: Se eu não escrevesse, será que eu chega­ria mesmo a existir? Como posso saber o que penso ou sinto sem abrir meu computador e começar a escrever sobre aquilo? Lembro-me de um dia em que trabalhava em uma pequena história numa manhã bem cedo. Por três horas, esforcei-me para desenvolver personagens tridimensionais, tirando todos os clichês de seus diálogos. Iniciante na ficção, estava ficando com uma terrível dor de cabeça por causa do esforço. Natural­mente, usava isto como desculpa para parar de escrever, atravessar a rua e tomar um café. Imagine minha surpresa ao descobrir que todas as pessoas da cafeteria eram personagens bidimensionais, que falavam usando clichês! Nenhuma daquelas pessoas parecia-me tão interes­sante quanto as pessoas que povoavam minha história. Corri de volta para a segurança de minha falsa realidade que me esperava (e so­mente a mim) no meu escritório no porão.

Annie Dillard conhece esta síndrome muito bem. Ela prefere traba­lhar em escritórios com paredes de concreto sem janelas - ambientes inertes a tal ponto que, como diz ela, mudar a cor da caneta torna-se uma experiência empolgante.

Ninguém deveria se surpreender ao saber que a vida de um escritor - como é — é incolor a ponto da privação sensorial. Muitos escritores fazem pouco mais do que apenas sentar-se em pequenas salas, lembrando-se do mundo real. Isto explica por que tantos livros descrevem a infância do autor. Para mui­tos escritores, a infância pode muito bem ter sido a ocasião de suas únicas experiências inéditas. Os escritores lêem biografias literárias e se cercam de outros escritores, deliberadamente forçando-se a aceitar a noção burlesca de que a opção racional de ocupar-se neste planeta até que o curso de sua vida chegue à totalidade é sentar-se numa sala pequena durante todo este tempo, na companhia de pedaços de papel.

(Extraído de The Writing Life)

Dillard entende que aqueles de nós que escrevem sobre a vida ficam praticamente sem energia para viver a vida real. A verdade é que a maio­ria de nós não está bem equipada para viver, e genuinamente prefere sentar-se em salas pequenas na companhia de pedaços de papel. Porém, nos primeiros anos de sua vida, ela repentinamente emergiu de sua sala para se ver diante de gravadores que começavam a funcionar tão logo ela abria sua boca, além de leitores do mundo inteiro pedindo seus con­selhos. Para Dillard, ganhar o Prêmio Pulitzer mudou tudo da noite para o dia. "Eu estava na casa dos 20 anos e ganhei um Pulitzer. Isso não estava nos planos; eu não estava buscando algo assim, foi um acidente, uma dessas coisas que caem na sua cabeça. Fiquei terrivelmente sem graça, e me escondia o quanto possível." Enquanto ela procurava ser uma peregrina, o mundo continuava tentando transformá-la numa santa.

Toda aquela atenção era terrivelmente confusa para ela, no início. Recebia ofertas para dar seu aval a livros e produtos, escrever roteiros para Hollywood, criar balés e canções. Convites para falar e dar aulas entupiam sua caixa de correio. Durante algum tempo, ela conseguiu fu­gir, atravessando o país, quando se mudou da Virgínia para Puget Sound. Fez um voto que honra até hoje: fazer apenas duas palestras por ano. "Será que Cristo teria ido à televisão?", perguntou Dillard, certa vez. Preteriu uma aparição no programa Today, mas concedeu uma entrevis­ta aos jornalistas da imprensa escrita.

Entrevistas a angustiam, especialmente aquelas que tratam de sua vida pessoal. Quando um repórter do New York Times passou um fim de semana inteiro com Dillard em Connecticut, Annie ficou acordada meta­de da noite, chorando incontrolavelmente, perturbada com as perguntas que o entrevistador fizera sobre sua fé. Ainda assim, ela cooperou, como uma espécie de peregrina se submetendo a um martírio emocional.

É certo que os anos sob os holofotes cobraram um preço pessoal. Ela já se casou três vezes. Sua voz revela as várias décadas de fumante.Sua figura demonstra uma estranha fragilidade, sendo que sua fina so­brancelha, os cabelos ralos e sua pele muito clara apenas corroboram essa imagem. Dillard tem deixado transparecer suas lutas pessoais: com a fama, com as terríveis exigências da vida de escritora, com suas dúvi­das e sua fé. Diante da incansável máquina de fazer celebridades dos Estados Unidos, um escritor sério tem poucas opções: pode se render, como Truman Capote, Norman Mailer e Gore Vidal, ou simplesmente desaparecer, como J. D. Salinger e Thomas Pynchon. Dillard optou por algo no meio do caminho. A palavra "peregrina", extraída do título de sua obra principal, nos dá uma pista de como ela se vê.

Meu último encontro com Dillard ocorreu numa conferência em Kansas, onde ela recebeu do Milton Center um prêmio de dez mil dó­lares pela qualidade na literatura cristã. Ela contou piadas, fez uma engenhosa brincadeira com a platéia e cativou sua atenção como se fosse uma humorista. Seus fãs, a maioria escritores iniciantes, beberam de todas as suas palavras. Hoje, na faixa dos 50 anos, com um corpo de obras bastante maduro em seu currículo, Dillard se tornou parte do grupo literário que um dia deu-lhe as boas-vindas como uma novata deslumbrante. Em alguns aspectos, ela cumpriu o prometido; em outros, como dizem os críticos, não. O que fazer para repetir o sucesso de um livro que alcança sucesso mundial?

Milhares de leitores escrevem para Dillard. Além do mais, Pilgrim at Tinker Crcek surgiu numa época em que a espiritualidade não tinha espaço no campo literário e, neste deserto, Pilgrim destacava-se como um oásis para a alma. Ele fez para alguns leitores o que a literatura fantástica faz para outros: apresentou um mundo futuro de maneira convincente. Ainda que involuntariamente, Annie Dillard se tornou uma santa moderna, um ícone.

Uma universitária escreveu, perguntando: "O que é transcendência e como posso ter mais disto em meus textos?" Um sacerdote enviou a ela um envelope que, colocado contra a luz, revelava a silhueta de uma cruz. Quando abriu o envelope, "em vez de uma cruz, um Cristo agoni­zante caiu na palma de minha mão. Pulei para trás. Ele deve ter caído dessa cruz no correio". Freiras enviaram medalhas e pedaços do tecido do véu de Verônica.[7] Uma mulher, sentada ao lado do leito de morte de seu neto, pedia que Dillard respondesse: os Estados Unidos agiram certo ou errado quando lançaram a bomba atômica sobre Hiroshima?

Um famoso artista perguntou: "Não quero atrapalhá-la, mas você poderia me dizer se Deus está olhando para sua Criação, decidindo quem vive e quem morre, ou já foi embora?" O filho do artista havia morrido enquanto velejava num pequeno barco.

Há alguma surpresa em vê-la se mudando para um lugar a quase cinco mil quilômetros de distância? Ela se mudou para o Estado de Washington sem conhecer ninguém ali, e custou a acostumar-se. "As mulheres de lá tinham uma cultura com a qual não me acostumei. Usavam correntes, comiam coisas enlatadas e davam o peito a seus filhos. Eu achava que era uma espécie de hippie, até que saí. Lá fora, transformei-me, de repente, numa especialista em Literatura."

Ela sentiu muito mais do que uma ponta de culpa sobre o tipo de texto que produzia, o que, admitia ela, é "espantosamente isolado de questões políticas, sociais e econômicas". Quando uma pessoa escreve sobre fé religiosa, em especial, as complicações aparecem, pois escrever exige uma autoconsciência que destrói a sublime rendição de si mesmo que todo peregrino busca. Todo escritor que aborda a espiritualidade pode se identificar com a preocupação de Thomas Merton de que seus livros expressassem a vida espiritual de um modo tão confiante e firme quando, na verdade, ele era assolado por inseguranças, dúvidas e até mesmo terrores. Há lugar para um peregrino - simplesmente isto, um peregrino, não um especialista ou um santo?

Em Holy the Firm, Dillard até mesmo insere uma retratação: "Não vivo bem. Apenas aponto para a visão". Certa vez, ela me explicou que "pessoas santas me pedem para falar em seus mosteiros e respondo que não, pedindo que elas mantenham sua visão. Em O mágico de Oz, existe uma enorme máquina, e, por trás da cortina, um homem baixinho gira uma manivela e aperta botões. Quando o cachorro puxa a cortina e expõe o pequeno homem, a máquina diz: 'Não preste atenção no ho­mem por trás da cortina! Olhe para o show de luzes!' Por isso, peço aos monges que mantenham sua visão de poder, santidade e pureza. Todos nós temos vislumbres dessa visão, mas a verdade é que ninguém jamais a viveu".

Há cerca de 20 anos, disse que oraria por ela uma vez por semana porque imaginava o tipo de pressão que ela enfrentaria. "Ninguém jamais disse que oraria por mim", disse-me ela, recentemente. "Por conseguinte, senti-me obrigada a ser digna de suas orações por mim, para continuar sendo uma escritora cristã, fazendo isto da melhor maneira que eu pudesse."

Quando um escritor alcançava sucesso inesperado e escrevia para Dillard pedindo conselhos, sua resposta era: "Tenho uma mensagem urgente para você: todo mundo se sente como se fosse uma fraude (...) Separe você de seu trabalho. Um livro que você escreve não é você, assim como uma cadeira que você constrói ou uma sopa que prepara também não é você. É apenas uma coisa que você fez em determinado momento. Se quiser fazer outra coisa, ela será apenas mais um fato, mais uma oferta da viúva, outra pequena dádiva que Deus vê como o melhor que nós, humanos, podemos fazer - e pela qual somos anteci­padamente perdoados".

A própria obra de Dillard contém seu conselho. Na alquimia das palavras escritas, as lutas de uma peregrina fiel têm se transformado numa fonte de conforto para outras pessoas, e suas dúvidas fortalecem a fé de outros. Como escritor, também consciente de meus próprios fra­cassos na vida, essa misteriosa alquimia oferece-me esperança. "O que é um poeta?", perguntou Kierkegaard. "Um poeta é um ser infeliz cujo coração está partido por sofrimentos secretos, mas cujos lábios foram tão estranhamente formados que, quando um suspiro ou um lamento escapa deles, soam como uma bela música."

ANNIE DILLARD PARA INICIANTES

Pilgrim at Tinker Creek, um dos livros mais recentes de Annie Dillard, ainda oferece a melhor apresentação de seu estilo e pensamento. Como escritora, ela está disposta a experimentar praticamente tudo. The Writing Life e Living by Fiction oferecem um rico material para aqueles que estão interessados na confecção de textos. An American Childhood satisfaz os leitores interessados na vida da própria Annie Dillard. Ela também publicou um longo romance intitulado The Living, que rece­beu críticas diferenciadas, além de vários volumes de poesia. The Annie Dillard Reader reúne excertos de várias obras - uma amostragem esco­lhida pela própria autora, na qual leitores dedicados poderão beber em suas fontes originais.

Phillip Yancey - Alma Sobrevivente

[1] Canoagem em rios turbulentos.

[2] Corrente segundo a qual toda ordem e beleza do universo tem origem numa Inteligência Criadora.

[3] Modalidade literária na qual o escritor especializa-se na observação e descrição da natureza e da vida natural.

[4] Pierre Teillard de Chardin (1881-1955), padre, pensador e paleontólogo francês.

[5] Relativa aos hasidim, seita judaica ortodoxa que segue a lei mosaica literalmente.

[6] Aviador acrobático que forma letras ou figuras no céu ao soltar fumaça durante o vôo.

[7] Segundo a tradição católica, Verônica enxugou o rosto de Jesus durante a caminhada pela Via Dolorosa, e o rosto do Senhor ficou estampado no lenço.

Liberdade de Expressão


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